Black Sabbath: a história completa da banda que criou o Heavy Metal

Como quatro operários de Birmingham mudaram a história da música
Poucas bandas podem reivindicar a criação de um gênero musical inteiro. Menos ainda conseguem manter relevância durante décadas, atravessando mudanças de formação, transformações do mercado fonográfico e diferentes gerações de fãs. O Black Sabbath faz parte desse grupo extremamente seleto.
Quando Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward começaram a tocar juntos no final dos anos 1960, ninguém imaginava que aqueles jovens oriundos da cidade industrial de Birmingham, na Inglaterra, criariam as bases do que mais tarde seria conhecido como Heavy Metal. Na época, o mercado era dominado por bandas de Blues Rock, grupos psicodélicos e pelos gigantes da chamada Invasão Britânica. Não existia espaço para uma banda tão sombria, pesada e pessimista quanto o Black Sabbath.
Entretanto, justamente aquilo que parecia um obstáculo acabou se tornando sua maior força. Enquanto outras bandas cantavam sobre amor, liberdade e experiências psicodélicas, o Sabbath abordava medo, guerra, ocultismo, desigualdade social, vícios e os aspectos mais sombrios da condição humana. O resultado foi uma sonoridade inédita que influenciaria praticamente todos os subgêneros do Metal nas décadas seguintes.
Ao longo de mais de cinco décadas de atividade, o grupo viveu diferentes fases criativas. Houve momentos de enorme sucesso comercial, períodos de crise, trocas constantes de integrantes e até ocasiões em que parecia impossível imaginar um futuro para a banda. Ainda assim, o nome Black Sabbath sobreviveu a todas essas turbulências e consolidou-se como uma das instituições mais importantes da história do Rock.
Esta é a trajetória completa da banda que transformou para sempre a música pesada.

O nascimento do Black Sabbath
Antes de existir o Black Sabbath, existiam quatro jovens tentando escapar da rotina de fábricas e trabalhos pesados da cidade de Birmingham. A região era um dos principais polos industriais da Inglaterra e sua paisagem era marcada por fumaça, máquinas e bairros operários. Esse ambiente cinzento teria enorme influência sobre a identidade da banda.
O primeiro núcleo do grupo surgiu após o fim do Mythology, banda inicial de Tony Iommi e Bill Ward. Os dois procuravam músicos para um novo projeto e se uniram a Geezer Butler, figura já conhecida da cena musical de Birmingham. Faltava apenas encontrar um vocalista. Foi então que o grupo se deparou com um curioso anúncio em uma loja de instrumentos da cidade: “Ozzy Zig Needs Gig – Has Own PA”. O anúncio havia sido colocado pelo próprio Ozzy Osbourne, que buscava uma oportunidade para seguir carreira na música.
Inicialmente o grupo adotou o nome Polka Tulk Blues Band, inspirado em uma marca de talco utilizada pela mãe de Ozzy. Em seguida a banda passou a se chamar simplesmente Earth, apostando em uma proposta baseada principalmente em Blues Rock.
A mudança definitiva aconteceu quando Geezer Butler percebeu algo curioso. Um cinema próximo aos ensaios costumava ficar lotado sempre que exibia filmes assustadores. A observação levou o baixista a fazer uma pergunta simples: por que as pessoas pagam para sentir medo?
A partir dessa ideia nasceu a canção “Black Sabbath”, inspirada no filme homônimo estrelado por Boris Karloff. A música apresentava uma atmosfera ameaçadora, construída em torno de um riff sombrio criado por Tony Iommi. O impacto foi tão grande que a banda decidiu abandonar o nome Earth e adotar definitivamente o título Black Sabbath.
Sem saber, aqueles quatro músicos haviam dado o primeiro passo rumo à criação de um novo gênero musical.

O sucesso improvável que mudou tudo
Em fevereiro de 1970, o Black Sabbath lançou seu álbum de estreia, “Black Sabbath”. Gravado em apenas algumas sessões e com orçamento extremamente limitado, o disco recebeu críticas duras de parte da imprensa especializada. Muitos jornalistas simplesmente não entenderam o que a banda estava fazendo.
O público teve uma reação completamente diferente.
Apesar da resistência inicial dos críticos, o álbum vendeu muito acima das expectativas e alcançou posições importantes nas paradas britânicas. De repente, uma banda que falava sobre escuridão, guerra e temas considerados desconfortáveis estava conquistando milhares de fãs.

A verdadeira explosão viria poucos meses depois.
Em setembro de 1970, o grupo lançou “Paranoid”, álbum que transformaria o Black Sabbath em um fenômeno mundial. Canções como “War Pigs”, “Paranoid” e “Iron Man” tornaram-se clássicos instantâneos e ajudaram a definir os pilares do Heavy Metal. O disco alcançou o topo das paradas britânicas e abriu as portas para uma carreira internacional.
Mais do que um sucesso comercial, “Paranoid” representou um ponto de ruptura na história do Rock. A partir daquele momento, inúmeras bandas passaram a explorar sonoridades mais pesadas e agressivas. O Heavy Metal deixava de ser apenas uma ideia embrionária para se tornar uma força real dentro da música popular.
O mais impressionante é que tudo isso aconteceu em menos de um ano. Entre fevereiro e setembro de 1970, o Black Sabbath saiu da condição de banda promissora para se tornar um dos nomes mais importantes do planeta.
A sequência de clássicos
Após o sucesso de “Paranoid”, muitos acreditavam que seria impossível manter o mesmo nível criativo. O Black Sabbath respondeu da melhor maneira possível.
Em 1971, lançou “Master Of Reality”, álbum que aprofundou ainda mais o peso das guitarras de Tony Iommi e ajudou a estabelecer as bases do que décadas mais tarde seria conhecido como Doom Metal e Stoner Rock. Faixas como “Children Of The Grave” e “Sweet Leaf” mostravam uma banda cada vez mais confiante em sua própria identidade.
No ano seguinte veio “Vol. 4”. Embora o disco mantivesse a sonoridade pesada característica do grupo, ele também apresentou experimentações e arranjos mais sofisticados. Ao mesmo tempo, começavam a surgir relatos cada vez mais frequentes sobre o consumo excessivo de drogas durante as gravações.

A situação se intensificou em 1973 com “Sabbath Bloody Sabbath”. Considerado por muitos fãs e críticos como uma das maiores obras da carreira da banda, o álbum demonstrava uma impressionante evolução musical. Porém, nos bastidores, o estilo de vida dos integrantes tornava-se cada vez mais destrutivo.
O ciclo continuou em 1975 com “Sabotage”, outro trabalho extremamente ambicioso e frequentemente apontado como o último grande clássico da primeira fase da banda. Musicalmente, o Black Sabbath ainda parecia imbatível. Pessoalmente, entretanto, os problemas começavam a se acumular.
O preço do sucesso
Embora o Black Sabbath ainda produzisse música de alto nível, os problemas internos tornavam-se cada vez mais difíceis de ignorar. O consumo de drogas havia atingido proporções alarmantes e começou a afetar diretamente o processo criativo. Em entrevistas posteriores, os próprios integrantes admitiriam que a cocaína passou a dominar completamente a rotina do grupo.
O primeiro reflexo dessa situação apareceu em 1976 com o lançamento de “Technical Ecstasy”. Pela primeira vez, a banda se afastava de maneira significativa da fórmula que a havia transformado em referência mundial. O álbum apresentava experimentações que dividiram os fãs. Embora possua momentos interessantes e canções que ganharam admiradores ao longo dos anos, o trabalho ficou distante do impacto causado pelos discos anteriores.
A recepção morna aumentou a pressão sobre o grupo e o Black Sabbath enfrentava dificuldades para reencontrar o foco criativo. A situação se agravou ainda mais durante a produção do álbum seguinte.
Lançado em 1978, “Never Say Die!” nasceu em meio ao caos. Ozzy Osbourne chegou a abandonar temporariamente a banda durante as composições. Embora tenha voltado antes do início das gravações, os problemas de relacionamento já eram evidentes.

A demissão de Ozzy
O resultado foi um disco que recebeu críticas mistas e ficou muito abaixo das expectativas comerciais da banda. Algumas músicas encontraram espaço no repertório dos fãs mais dedicados, mas o consenso era de que o Black Sabbath havia perdido o rumo.
Internamente, a convivência entre os músicos tornava-se cada vez mais difícil. As sessões de ensaio eram irregulares, os excessos continuavam fora de controle e a motivação parecia desaparecer pouco a pouco. Em 1979, após anos de desgaste acumulado, a situação chegou ao limite.
A decisão foi dolorosa, mas inevitável: Ozzy Osbourne foi desligado da banda.

Para muitos observadores da época, aquela notícia representava praticamente a sentença de morte do Black Sabbath. Afinal, como seria possível substituir a voz que ajudara a definir toda a identidade do grupo durante quase uma década?
A chegada de Ronnie James Dio
Logo após a saída de Ozzy, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward começaram a procurar um novo vocalista. O desafio parecia impossível. Além de possuir talento suficiente para assumir uma posição tão importante, o escolhido precisaria convencer uma legião de fãs que enxergava Ozzy como parte inseparável da identidade do Black Sabbath.
O destino começou a mudar graças a um encontro aparentemente casual.
Pouco tempo antes, Ronnie James Dio havia encerrado sua trajetória no Rainbow, banda liderada por Ritchie Blackmore. Durante um encontro em Los Angeles, Dio e Tony Iommi conversaram sobre música, trocaram ideias e perceberam que compartilhavam uma visão artística bastante semelhante. O guitarrista ficou impressionado não apenas com a voz poderosa do cantor, mas também com sua capacidade como compositor.
Os testes praticamente nem foram necessários.
Desde os primeiros ensaios ficou claro que algo especial estava acontecendo. Em vez de tentar reproduzir a sonoridade da fase Ozzy, a banda decidiu seguir em frente e construir uma nova identidade. A combinação entre os riffs de Tony Iommi e os vocais épicos de Dio abriu possibilidades completamente diferentes para o Black Sabbath.
O resultado dessa parceria seria um dos maiores retornos da história do Heavy Metal.

A segunda revolução: a chegada de Ronnie James Dio
Quando Ozzy Osbourne foi desligado do Black Sabbath em 1979, boa parte da imprensa especializada acreditava que a banda estava condenada. Afinal, não se tratava apenas da saída de um vocalista. Ozzy era um dos rostos mais reconhecíveis do grupo e sua voz havia se tornado parte inseparável da identidade construída ao longo da década de 1970.
Os próprios integrantes tinham consciência do desafio que enfrentavam. Encontrar alguém capaz de substituir Ozzy parecia uma tarefa impossível. Entretanto, o destino começou a mudar quando Tony Iommi conheceu um vocalista que acabara de deixar o Rainbow após desentendimentos com Ritchie Blackmore. Seu nome era Ronnie James Dio.
Desde os primeiros ensaios ficou evidente que Dio não seria apenas um substituto. Sua abordagem era completamente diferente da de Ozzy. Enquanto o antigo vocalista possuía uma interpretação mais espontânea e quase hipnótica, Dio trazia potência, técnica e uma impressionante capacidade narrativa. Além disso, era um letrista talentoso, apaixonado por temas épicos, fantasia e simbolismos que ampliariam consideravelmente os horizontes criativos da banda.
A química foi imediata. Pela primeira vez em muitos anos, os integrantes pareciam novamente motivados. O clima de renovação refletiu-se diretamente no processo de composição e logo surgiram músicas que demonstravam uma energia que muitos julgavam perdida.
Heaven And Hell: o álbum que reinventou o Black Sabbath
Lançado em 1980, “Heaven And Hell” não foi apenas um grande retorno. Foi uma declaração de sobrevivência.

Desde os primeiros segundos de “Neon Knights”, o ouvinte percebia que estava diante de um Black Sabbath diferente. A agressividade das guitarras permanecia intacta, mas agora vinha acompanhada de melodias mais sofisticadas, refrãos grandiosos e uma dinâmica muito mais próxima daquilo que se tornaria o Heavy Metal clássico da década de 1980.
Ao longo do álbum, canções como “Children Of The Sea”, “Lonely Is The Word”, “Die Young” e a monumental faixa-título mostravam uma banda rejuvenescida. A parceria entre Tony Iommi e Ronnie James Dio revelou-se extremamente produtiva, permitindo que o Sabbath explorasse territórios que jamais haviam sido visitados durante a era Ozzy.
O sucesso foi imediato. O álbum recebeu críticas positivas, vendeu muito bem e devolveu ao grupo uma relevância que muitos acreditavam perdida. Mais importante ainda: o Black Sabbath voltava a ser uma força criativa dentro do Heavy Metal.
Influenciando o Heavy Metal pela segunda vez
Se o Black Sabbath ajudou a criar o Heavy Metal em 1970, dez anos depois a banda voltaria a influenciar profundamente o gênero.
Quando “Heaven And Hell” chegou às lojas, diversas bandas da recém-nascida New Wave Of British Heavy Metal estavam lançando seus primeiros trabalhos ou ainda tentando conquistar espaço. Grupos como Iron Maiden, Saxon, Angel Witch, Diamond Head e muitos outros encontravam-se justamente no momento em que o Metal começava a ganhar uma nova geração de protagonistas.

Nesse contexto, o novo Black Sabbath apresentou uma fórmula que teria enorme impacto sobre o futuro do estilo. As composições tornaram-se mais épicas, os vocais mais técnicos, os refrãos mais grandiosos e as guitarras ainda mais agressivas. Elementos presentes em músicas como “Neon Knights”, “Children Of The Sea”, “Die Young” e “Heaven And Hell” ajudaram a estabelecer muitas das características que passariam a definir o chamado Heavy Metal tradicional.
De certa forma, a história havia se repetido. Primeiro, o Black Sabbath ajudou a criar o gênero. Depois, auxiliou a moldar aquilo que milhões de fãs passariam a reconhecer como a forma clássica do Heavy Metal dos anos 1980.
Mob Rules mantém o nível
Após o enorme sucesso de “Heaven And Hell”, a banda retornou aos estúdios determinada a provar que o resultado não havia sido um acaso.
A resposta veio em 1981 com “Mob Rules”. Embora normalmente seja ofuscado pelo seu antecessor, o álbum manteve o altíssimo padrão da formação e trouxe algumas das composições mais pesadas já gravadas pelo grupo até então.
Faixas como “The Sign Of The Southern Cross”, “Falling Off The Edge Of The World”, “Turn Up The Night” e a própria “Mob Rules” consolidaram a identidade da era Dio. A sonoridade tornava-se mais sombria, mais agressiva e, ao mesmo tempo, mais refinada.
A turnê mundial confirmou que o público havia aceitado plenamente a nova formação. O Black Sabbath não apenas sobrevivera à saída de Ozzy. Em muitos aspectos, estava vivendo um de seus momentos mais criativos.
Live Evil e o fim da primeira era Dio
Depois de dois álbuns extremamente bem-sucedidos e de turnês que ajudaram a consolidar a nova identidade do Black Sabbath, parecia natural que a banda registrasse aquele momento em um álbum ao vivo.
Lançado em 1982, “Live Evil” capturava a força da formação composta por Tony Iommi, Geezer Butler, Ronnie James Dio e Vinny Appice. O repertório combinava clássicos da era Ozzy com as novas músicas que haviam transformado o Sabbath em uma das bandas mais relevantes do Heavy Metal naquele início de década.

No papel, tudo parecia perfeito.
Nos bastidores, entretanto, uma crise silenciosa estava prestes a explodir.
Durante a fase de mixagem do álbum, começaram a surgir desconfianças envolvendo o trabalho realizado em estúdio. Uma versão dos acontecimentos afirma que membros da equipe técnica teriam alertado Tony Iommi e Geezer Butler de que Dio e Vinny Appice estariam alterando secretamente os volumes da mixagem para destacar voz e bateria. Outra versão, defendida durante anos por Dio, sustenta que tudo não passou de um enorme mal-entendido alimentado por terceiros.
Independentemente de quem estivesse certo, o estrago foi feito.
As relações internas deterioraram-se rapidamente. A confiança desapareceu e o ambiente tornou-se insustentável. Em pouco tempo, Ronnie James Dio e Vinny Appice decidiram deixar o Black Sabbath.
Foi um desfecho surpreendente. A formação responsável por “Heaven And Hell” e “Mob Rules” havia produzido alguns dos melhores trabalhos da história da banda, mas acabou sucumbindo a conflitos internos que poderiam talvez ter sido resolvidos com diálogo.
A saída de Dio deixou um enorme vazio. Mais uma vez, Tony Iommi precisava encontrar um novo vocalista para manter a banda viva.
O que aconteceu em seguida foi algo que ninguém poderia prever.

Uma noite de bebedeira que mudou a história
Em 1983, o Black Sabbath encontrava-se novamente sem vocalista. Diversos nomes foram considerados e algumas alternativas chegaram a ser discutidas internamente. Nenhuma delas, porém, parecia realmente empolgar Tony Iommi.
Foi então que ocorreu um encontro improvável.
Durante uma conversa regada a muitas doses de álcool, Tony Iommi encontrou Ian Gillan, lendário vocalista do Deep Purple. Os dois músicos já se conheciam há anos e possuíam enorme admiração mútua. Em meio às brincadeiras e à descontração da noite, surgiu a ideia de Gillan assumir os vocais do Black Sabbath.
A princípio, ninguém levou o assunto muito a sério.

Quando a ressaca passou, porém, a proposta continuava de pé.
Gillan aceitou o convite e, de repente, duas das maiores instituições do Hard Rock e do Heavy Metal estavam unidas em uma mesma banda. A notícia surpreendeu fãs do mundo inteiro. Afinal, poucos imaginavam que a voz de clássicos como “Smoke On The Water”, “Highway Star” e “Child In Time” passaria a integrar o universo sombrio do Black Sabbath.
O resultado dessa parceria chegaria às lojas poucos meses depois e daria origem a um dos álbuns mais controversos de toda a discografia do grupo.
Born Again: estranho, exagerado e inesquecível
Lançado em 1983, “Born Again” continua sendo um dos trabalhos mais peculiares da história do Black Sabbath.
Musicalmente, o álbum apresentava uma combinação curiosa entre o peso característico dos riffs de Tony Iommi e a personalidade marcante de Ian Gillan. Em vários momentos, o disco parecia um encontro entre o Black Sabbath e o Deep Purple. Em outros, assumia uma identidade própria, difícil de comparar com qualquer outra fase da banda.
Canções como “Trashed”, “Disturbing The Priest”, “Zero The Hero” e “Hot Line” demonstravam uma formação que claramente não tinha medo de experimentar.
Entretanto, o álbum também ficou marcado por um problema que seria discutido durante décadas: sua produção.
Mesmo entre fãs que apreciam as composições, existe um consenso de que a mixagem não faz justiça ao material gravado. O som excessivamente abafado tornou-se alvo constante de críticas e acabou prejudicando a recepção inicial do disco.
Apesar disso, “Born Again” conquistou um status cult ao longo dos anos. Muitos músicos passaram a apontá-lo como uma obra injustamente subestimada, enquanto novas gerações de fãs começaram a enxergar qualidades que nem sempre foram reconhecidas na época de seu lançamento.
A turnê também entrou para a história por seus exageros. O palco contava com uma gigantesca réplica de Stonehenge que se tornou tão grande e pesada que gerou problemas logísticos em diversas apresentações. Décadas depois, a situação seria eternizada de forma satírica no clássico filme “This Is Spinal Tap”, que brincava justamente com os excessos do universo do Rock e do Heavy Metal.

Apesar dos momentos memoráveis, a parceria entre Gillan e Black Sabbath duraria pouco. Quando o Deep Purple anunciou sua reunião da formação clássica em 1984, o vocalista decidiu retornar à sua antiga banda.
Mais uma vez, o Black Sabbath via-se obrigado a recomeçar.
Seventh Star: o disco que não deveria ser um álbum do Black Sabbath
Após a saída de Ian Gillan, Tony Iommi encontrava-se diante de uma situação complicada. Mais uma vez o Black Sabbath estava sem vocalista e sem uma direção clara para o futuro. Depois de anos enfrentando mudanças constantes de formação, o guitarrista começou a considerar uma possibilidade que parecia cada vez mais atraente: gravar seu primeiro álbum solo.
A ideia original era simples. Iommi reuniria músicos convidados e lançaria o trabalho utilizando apenas seu próprio nome. Sem a pressão de corresponder às expectativas associadas ao Black Sabbath, ele poderia explorar outras influências musicais e seguir caminhos diferentes daqueles que haviam caracterizado a banda ao longo da década anterior.
Para assumir os vocais, o escolhido foi Glenn Hughes, ex-integrante do Deep Purple e do Trapeze, dono de uma das vozes mais respeitadas do Rock britânico.

O material começou a tomar forma rapidamente. Desde o início, porém, ficava evidente que aquelas composições possuíam uma identidade diferente da tradicional sonoridade do Sabbath. Havia mais elementos de Hard Rock, Blues Rock e até mesmo AOR em determinadas passagens.
Foi então que a gravadora interveio.
Preocupados com o potencial comercial do projeto, os executivos decidiram que o disco deveria ser lançado utilizando a marca Black Sabbath. Contra a vontade inicial de Iommi, o álbum chegou às lojas em 1986 com o nome “Black Sabbath Featuring Tony Iommi”.
Na prática, porém, “Seventh Star” nunca foi concebido como um disco do Black Sabbath.
Um álbum incompreendido
Durante muitos anos, “Seventh Star” foi tratado por parte dos fãs como um estranho corpo estranho dentro da discografia da banda. Afinal, quem procurava o peso sombrio de “Master Of Reality” ou a grandiosidade épica de “Heaven And Hell” encontrava algo bastante diferente.

Entretanto, quando analisado dentro de seu contexto original, o álbum revela inúmeras qualidades.
Canções como “In For The Kill”, “No Stranger To Love”, “Danger Zone”, “Heart Like A Wheel” e a faixa-título demonstram um Tony Iommi disposto a explorar novas possibilidades criativas sem abandonar completamente seus característicos riffs pesados.
A presença de Glenn Hughes também merece destaque. Sua interpretação trouxe uma abordagem mais melódica e sofisticada, contribuindo para tornar o disco único dentro da carreira do guitarrista.
Com o passar dos anos, muitos fãs passaram a reavaliar o álbum e reconhecer seus méritos. Hoje, “Seventh Star” costuma ser visto como uma obra injustamente subestimada, prejudicada principalmente pelas expectativas criadas em torno do nome Black Sabbath.
Problemas na estrada
Se o processo de gravação foi relativamente tranquilo, o mesmo não pode ser dito da turnê.
Pouco antes do início dos shows, Glenn Hughes enfrentava sérios problemas pessoais relacionados ao consumo de álcool e drogas. Além disso, uma agressão sofrida em uma briga comprometeu sua capacidade vocal justamente quando a banda precisava cumprir uma extensa agenda de apresentações.

A situação rapidamente tornou-se insustentável.
Após poucos concertos, Hughes deixou a turnê e o grupo precisou buscar uma solução emergencial para evitar o cancelamento das datas restantes.
Foi nesse momento que surgiu Ray Gillen, um jovem vocalista que rapidamente impressionou Tony Iommi pela potência de sua voz e pela facilidade com que assumiu um repertório extremamente desafiador. Contratado inicialmente apenas para completar os compromissos restantes da turnê, Gillen acabou conquistando espaço dentro da banda e passou a participar ativamente dos planos para o futuro.
Quando o Black Sabbath iniciou os trabalhos para seu próximo álbum, era Ray Gillen quem ocupava a posição de vocalista. O cantor participou intensamente do desenvolvimento do material e chegou a gravar praticamente todas as linhas vocais daquele que seria o sucessor de “Seventh Star”.
Entretanto, problemas contratuais, questões de gestão e divergências internas acabaram resultando em sua saída antes da conclusão do projeto. De repente, Tony Iommi encontrava-se novamente diante da necessidade de encontrar um novo vocalista para finalizar um álbum que já estava praticamente pronto.

Foi então que surgiu o nome que marcaria a próxima grande fase da história da banda.
A chegada de Tony Martin
Inicialmente, Tony Martin foi contratado para uma missão bastante específica: regravar os vocais do álbum que havia sido registrado por Ray Gillen e precisava ser concluído rapidamente para atender aos compromissos da gravadora.
A expectativa era que sua participação fosse temporária.
Entretanto, desde os primeiros ensaios, Martin chamou atenção pela impressionante capacidade vocal. Sua extensão, versatilidade e facilidade para interpretar diferentes estilos faziam dele um dos vocalistas tecnicamente mais completos que já haviam passado pelo grupo.

Além disso, Martin possuía uma característica rara: conseguia cantar com enorme competência músicas de praticamente todas as fases do Black Sabbath. Faixas originalmente interpretadas por Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio, Ian Gillan ou Glenn Hughes funcionavam muito bem em sua voz.
Tony Iommi rapidamente percebeu que havia encontrado alguém capaz de oferecer estabilidade para uma banda que passara boa parte da década anterior convivendo com constantes mudanças de formação.
O resultado dessa parceria começou a aparecer em 1987 com o lançamento de “The Eternal Idol”. Embora o álbum tenha nascido em meio a inúmeras dificuldades, ele marcou oficialmente o início da era Tony Martin e representou o primeiro passo de uma fase que, apesar de frequentemente ignorada pela mídia especializada, produziria alguns dos trabalhos mais consistentes e sofisticados de toda a carreira do Black Sabbath.
O que ninguém imaginava naquele momento era que Tony Martin acabaria se tornando o segundo vocalista mais longevo da história da banda, permanecendo ligado ao Black Sabbath por boa parte dos anos seguintes e ajudando a manter viva uma instituição que mais uma vez precisava se reinventar para sobreviver.
A era Tony Martin: qualidade longe dos holofotes
Quando “The Eternal Idol” chegou às lojas em 1987, o cenário do Heavy Metal era completamente diferente daquele que havia consagrado o Black Sabbath nas décadas anteriores.
Bandas como Iron Maiden, Judas Priest, Helloween, Queensrÿche, Fates Warning, Metallica, Megadeth, Slayer e dezenas de outros nomes dominavam a atenção do público especializado. Ao mesmo tempo, o Hard Rock comercial vivia seu auge nas rádios e na MTV. Pela primeira vez em muitos anos, o Black Sabbath parecia atuar fora do centro das atenções.
Entretanto, quem se limitasse a observar apenas a popularidade da banda estaria ignorando algo importante.
Musicalmente, o grupo atravessava um excelente momento.
“The Eternal Idol” apresentou um Black Sabbath mais melódico, épico e refinado. Embora não tenha alcançado o impacto comercial dos clássicos dos anos 1970, o álbum trouxe composições fortes como “The Shining”, “Ancient Warrior” e “Glory Ride”, demonstrando que Tony Iommi continuava plenamente capaz de produzir material de alto nível.
Mais importante ainda: o disco revelou definitivamente o talento de Tony Martin.
Sua voz possuía potência, alcance e versatilidade suficientes para enfrentar praticamente qualquer desafio. Enquanto muitos vocalistas são identificados por uma única característica marcante, Martin conseguia alternar entre momentos agressivos, passagens melódicas e interpretações épicas com enorme naturalidade.
Essa versatilidade seria fundamental para os anos seguintes.
Headless Cross: um clássico moderno do Black Sabbath
Se “The Eternal Idol” serviu como apresentação da nova formação, “Headless Cross” foi o álbum que consolidou a era Tony Martin.
Lançado em 1989, o disco trouxe mudanças importantes. A principal delas foi a chegada do lendário baterista Cozy Powell, cuja presença acrescentou ainda mais peso e personalidade ao grupo.
O resultado foi um dos trabalhos mais consistentes de toda a discografia do Black Sabbath.

Canções como “Headless Cross”, “When Death Calls”, “Devil & Daughter”, “Nightwing” e “Kill In The Spirit World” combinavam peso, melodia e atmosfera de maneira brilhante. As influências sombrias da fase clássica permaneciam presentes, mas agora eram acompanhadas por arranjos mais grandiosos e por uma produção claramente alinhada ao Heavy Metal do final dos anos 1980.
Muitos fãs consideram “Headless Cross” o melhor álbum lançado pelo Black Sabbath após “Mob Rules”. Outros vão ainda mais longe e o colocam entre os melhores trabalhos de toda a carreira da banda.
Independentemente da posição adotada, é difícil negar que o disco representa um dos grandes momentos criativos da trajetória de Tony Iommi.
TYR e a face épica do Black Sabbath
A parceria entre Tony Iommi, Tony Martin e Cozy Powell continuou em 1990 com o lançamento de “TYR”.
Embora tenha recebido menos atenção que seu antecessor, o álbum aprofundou diversos elementos que já haviam aparecido em “Headless Cross”. As letras passaram a explorar com maior intensidade temas relacionados à mitologia nórdica, guerras antigas e narrativas épicas.
Musicalmente, o Black Sabbath aproximou-se ainda mais do Heavy Metal tradicional que dominava parte da Europa naquele período.
Faixas como “Anno Mundi”, “The Law Maker”, “Jerusalem”, “Valhalla” e “The Sabbath Stones” demonstravam uma banda extremamente inspirada. Os riffs de Tony Iommi continuavam afiados, enquanto Tony Martin entregava algumas das melhores performances vocais de sua carreira.

Curiosamente, muitos dos elementos presentes em “TYR” seriam posteriormente explorados por bandas de Power Metal e Metal Melódico que ganhariam destaque durante os anos 1990 e 2000.
Mais uma vez, porém, a qualidade artística não foi acompanhada por grande repercussão comercial.
O mundo da música estava mudando rapidamente e transformações ainda maiores estavam prestes a acontecer.
O retorno inesperado de Ronnie James Dio
No início da década de 1990, poucos imaginavam que o Black Sabbath passaria por mais uma mudança radical de formação.
Após três álbuns de estúdio ao lado de Tony Martin, tudo indicava que a banda finalmente havia encontrado estabilidade. Entretanto, acontecimentos nos bastidores mudariam completamente os planos de Tony Iommi.
A oportunidade de reunir novamente a formação responsável por “Heaven And Hell” e “Mob Rules” começou a ganhar força. Conversas entre antigos integrantes avançaram rapidamente e, em pouco tempo, o retorno de Ronnie James Dio e Vinny Appice tornou-se realidade.
Para Tony Martin, a notícia representava o encerramento temporário de sua trajetória no grupo.
Para os fãs, significava a volta de uma das formações mais celebradas da história do Heavy Metal.

E o mais surpreendente é que a reunião não seria apenas um exercício de nostalgia.
Ela daria origem a um dos álbuns mais pesados, agressivos e inspirados já gravados pelo Black Sabbath.
Dehumanizer: o retorno de Dio e um novo clássico do Heavy Metal
Quando a reunião entre Tony Iommi, Geezer Butler, Ronnie James Dio e Vinny Appice foi anunciada, muitos fãs imaginaram que o Black Sabbath apostaria na fórmula consagrada de “Heaven And Hell” e “Mob Rules”. Afinal, aquelas duas obras haviam transformado a formação em uma das mais celebradas da história da banda.
O que ninguém esperava era que o grupo retornasse ainda mais pesado.
Lançado em 1992, “Dehumanizer” apresentou uma sonoridade muito mais agressiva, moderna e sombria do que qualquer trabalho anterior da era Dio. Enquanto parte dos veteranos do Hard Rock e do Heavy Metal enfrentava dificuldades para se adaptar aos novos tempos, o Black Sabbath parecia determinado a mostrar que ainda tinha algo relevante a dizer.

A década de 1990 havia começado sob o impacto do Grunge, enquanto estilos mais extremos do Metal ganhavam cada vez mais espaço. Em vez de tentar acompanhar tendências passageiras, o Sabbath encontrou uma solução muito mais inteligente: reforçou suas próprias características.
O resultado foi um álbum denso, pesado e frequentemente opressivo.
Canções como “Computer God”, “TV Crimes”, “Time Machine”, “Master Of Insanity”, “I” e a faixa-título demonstravam uma banda extremamente inspirada. Os riffs de Tony Iommi voltavam a assumir uma postura ameaçadora, Geezer Butler apresentava algumas de suas letras mais afiadas e Dio entregava uma das performances mais intensas de toda a sua carreira.
Muitos fãs consideram “Dehumanizer” o melhor álbum do Black Sabbath desde “Mob Rules”. Outros o classificam como um dos grandes clássicos do Heavy Metal dos anos 1990.
Independentemente da posição adotada, existe um consenso razoavelmente amplo: a reunião produziu exatamente o que os admiradores da banda esperavam e talvez até mais.
Uma reunião que durou menos do que deveria
Apesar do sucesso artístico de “Dehumanizer”, os problemas internos voltaram a aparecer.
A turnê promovia um álbum extremamente bem recebido pelos fãs, mas a convivência entre os integrantes nem sempre era simples. Além disso, nos bastidores da indústria musical, começavam a surgir rumores cada vez mais insistentes sobre uma possível reunião da formação original do Black Sabbath.
Esses comentários circulavam entre empresários, promotores e jornalistas especializados, criando um ambiente de incerteza sobre os rumos futuros da banda.
O estopim da crise aconteceu no final de 1992.
Naquele período, Ozzy Osbourne anunciava sua turnê de despedida dos palcos — algo que, como a história mostraria, estava longe de ser definitivo. Como parte das comemorações, surgiu a proposta para que o Black Sabbath participasse dos shows finais realizados na Califórnia.

Para Tony Iommi e Geezer Butler, a ideia parecia uma oportunidade interessante. Para Dio, entretanto, a situação era completamente diferente.
O vocalista acreditava que não fazia sentido o Black Sabbath atuar como banda de abertura de Ozzy Osbourne. Na sua visão, o grupo possuía uma história grande demais para assumir aquele papel. Além disso, havia a sensação de que toda a atenção acabaria sendo direcionada para a possível reunião da formação clássica.
As divergências tornaram-se irreconciliáveis.
Pouco antes das apresentações, Ronnie James Dio decidiu deixar novamente o Black Sabbath. Vinny Appice acompanhou o vocalista na saída, encerrando pela segunda vez uma das formações mais importantes da história da banda.
A situação gerou um problema imediato.
Um show importante estava marcado e precisava acontecer.
Foi então que Tony Iommi recorreu a um velho conhecido para salvar mais uma vez o futuro do grupo.
Rob Halford salvou o Black Sabbath
A saída de Ronnie James Dio deixou o Black Sabbath em uma situação delicada. Um importante compromisso já estava agendado e não havia tempo suficiente para encontrar um substituto permanente.
A solução veio através de um dos maiores nomes do Heavy Metal. Rob Halford, vocalista do Judas Priest, aceitou assumir os vocais do Black Sabbath em caráter emergencial para uma única apresentação realizada em novembro de 1992.
Apesar do curtíssimo tempo de preparação, Halford conduziu a banda através de um repertório repleto de clássicos e ajudou a evitar o cancelamento do evento. Sua participação durou apenas uma noite, mas entrou para a história como um dos encontros mais improváveis já vistos no Heavy Metal.
Ozzy, Sabbath e Tony Martin
Ao final da apresentação aconteceu algo ainda mais significativo. Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward voltaram a dividir o palco pela primeira vez desde 1978. A reunião foi breve, mas suficiente para reacender especulações que acompanhariam a banda pelos anos seguintes.
Pela primeira vez em mais de uma década, a possibilidade de um retorno definitivo da formação clássica parecia uma questão de tempo.
Tony Martin, que havia deixado o grupo para viabilizar a reunião de “Dehumanizer”, retornou rapidamente à formação. Sua familiaridade com o repertório e sua versatilidade vocal permitiram uma transição relativamente tranquila em meio ao caos dos bastidores.
Mais uma vez, Martin demonstrava uma característica que poucos cantores possuíam: a capacidade de adaptar-se às constantes mudanças da banda sem comprometer a qualidade das apresentações.
Entretanto, o cenário encontrado em seu retorno era muito diferente daquele do início dos anos 1990.
Os rumores sobre uma futura reunião com Ozzy tornavam-se cada vez mais frequentes.
A sensação era de que o relógio estava correndo para a era Tony Martin.
Cross Purposes: a última grande obra da era Martin
Após os acontecimentos turbulentos que encerraram a segunda passagem de Ronnie James Dio pela banda, Tony Martin retornou aos vocais e encontrou um cenário bastante diferente daquele que havia deixado pouco tempo antes.
A principal novidade era a volta de Geezer Butler.
Pela primeira vez desde o início dos anos 1980, Tony Iommi, Geezer Butler e Tony Martin trabalhavam juntos em um álbum de estúdio. A reunião trouxe novo fôlego ao processo criativo e ajudou a produzir um dos trabalhos mais sólidos da década.
Lançado em 1994, “Cross Purposes” apresentou uma sonoridade que equilibrava elementos das diferentes fases do Black Sabbath. O peso característico dos riffs de Tony Iommi permanecia intacto, enquanto as letras de Geezer Butler voltavam a ocupar papel central nas composições.

Canções como “I Witness”, “Cross Of Thorns”, “Virtual Death”, “Dying For Love” e “Immaculate Deception” demonstravam uma banda madura, segura e artisticamente relevante.
Embora o álbum tenha chegado ao mercado em um momento complicado para o Heavy Metal tradicional — justamente quando o Grunge e o Rock Alternativo dominavam a indústria fonográfica — sua qualidade foi reconhecida por muitos fãs.
Com o passar dos anos, “Cross Purposes” passou a ser visto como um dos melhores discos da era Tony Martin e, para muitos admiradores, representa o último grande clássico de estúdio do Black Sabbath antes da reunião definitiva da formação original.
Cross Purposes Live
A turnê que acompanhou o álbum também foi registrada oficialmente.
Lançado em 1995, “Cross Purposes Live” oferece um interessante retrato daquela formação. Além de apresentar músicas recentes, o repertório incluía clássicos das eras Ozzy Osbourne e Ronnie James Dio, permitindo que Tony Martin demonstrasse mais uma vez sua impressionante versatilidade vocal.
Poucos cantores na história do Black Sabbath conseguiram transitar com tanta naturalidade entre repertórios tão distintos.
Assistir ou ouvir os registros daquela turnê ajuda a compreender porque tantos fãs defendem a fase Martin até hoje. Mesmo sem o mesmo reconhecimento comercial de outras formações, a qualidade musical permanecia elevada e a banda continuava entregando apresentações de alto nível.
Entretanto, novas mudanças já começavam a surgir nos bastidores.
Geezer Butler voltou a deixar o grupo e o Black Sabbath iniciou mais uma reformulação.
Forbidden: o capítulo mais controverso da história da banda
Em 1995, o Black Sabbath lançou “Forbidden”.
Desde seu lançamento, o álbum tornou-se um dos trabalhos mais divisivos e criticados de toda a discografia da banda. Para muitos fãs, trata-se do ponto mais baixo da carreira do grupo. Para outros, o disco possui qualidades que acabaram sendo obscurecidas por circunstâncias desfavoráveis.
Um dos aspectos que mais chamou atenção foi a participação de Ernie C, guitarrista do Body Count, na produção do álbum. A escolha buscava aproximar a banda de sonoridades mais modernas em um período no qual o Heavy Metal tradicional enfrentava dificuldades comerciais.
Na prática, o experimento não funcionou como esperado.

Problemas de produção, prazos apertados e um ambiente criativo pouco inspirador contribuíram para que o álbum fosse recebido com enorme frieza por parte da crítica e dos fãs.
Ainda assim, músicas como “The Illusion Of Power”, “Get A Grip”, “Can’t Get Close Enough” e “Kiss Of Death” demonstram que nem tudo estava perdido. Mesmo em um trabalho amplamente criticado, o talento de Tony Iommi continuava aparecendo em diversos momentos.
Anos depois, o próprio guitarrista admitiria sua insatisfação com vários aspectos do álbum, reforçando a percepção de que o Black Sabbath atravessava um período de desgaste criativo e incertezas sobre o futuro.
Mais importante do que a recepção de “Forbidden”, porém, era aquilo que acontecia longe dos estúdios.
Os rumores sobre uma reunião da formação clássica tornavam-se cada vez mais frequentes.
Pela primeira vez desde o final dos anos 1970, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward pareciam dispostos a considerar seriamente a possibilidade de voltar a tocar juntos.
Sem que muitos percebessem, a era Tony Martin aproximava-se do fim.
E uma nova página da história do Black Sabbath estava prestes a ser escrita.

A reunião da formação clássica
Durante boa parte da década de 1990, a simples possibilidade de ver novamente Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward dividindo o mesmo palco parecia um sonho distante.
Entretanto, desde a breve reunião ocorrida em 1992 durante o encerramento da turnê de despedida de Ozzy, os rumores nunca desapareceram completamente. A receptividade dos fãs foi enorme e deixou evidente que ainda existia uma demanda gigantesca pelo retorno da formação responsável por criar o Heavy Metal.
Nos anos seguintes, as conversas entre os músicos tornaram-se cada vez mais frequentes.
Finalmente, em 1997, a aguardada reunião aconteceu.
Para milhões de fãs ao redor do mundo, tratava-se de um momento histórico. Afinal, quase vinte anos haviam se passado desde a saída de Ozzy e muitas pessoas acreditavam que aquele reencontro jamais aconteceria.
A turnê foi um enorme sucesso de público e confirmou aquilo que o mercado já suspeitava: o Black Sabbath continuava sendo uma das bandas mais importantes da história do Rock pesado.
Reunion
O impacto da reunião acabou registrado oficialmente em 1998 através do álbum ao vivo “Reunion”.
Gravado durante apresentações realizadas em Birmingham, cidade natal da banda, o trabalho capturou toda a emoção daquele reencontro. O repertório era formado quase exclusivamente por clássicos da década de 1970, celebrando o legado construído pela formação original.

Entretanto, o grande atrativo para os fãs não estava apenas nas gravações ao vivo.
Pela primeira vez em décadas, o Black Sabbath apresentava material inédito com Ozzy Osbourne nos vocais.
As músicas “Psycho Man” e “Selling My Soul” mostravam que ainda existia química entre os integrantes. Embora não fossem necessariamente composições destinadas a competir com os grandes clássicos da banda, serviam como prova de que uma colaboração criativa ainda era possível.
Mais importante do que a qualidade das canções em si, elas representavam algo que muitos julgavam impossível poucos anos antes: o Black Sabbath voltava a compor com sua formação original.
Um longo período de idas e vindas
Apesar do sucesso da reunião, os anos seguintes foram marcados por avanços e recuos constantes.
Em vários momentos parecia que um novo álbum de estúdio estava prestes a acontecer. Em outros, as diferenças entre os integrantes voltavam a dificultar qualquer progresso significativo.
Ao mesmo tempo, cada músico mantinha seus próprios projetos paralelos.
Ozzy seguia com sua carreira solo e dedicava boa parte de seu tempo ao Ozzfest, festival que se transformou em um dos principais eventos do Heavy Metal mundial. Tony Iommi continuava desenvolvendo projetos pessoais, enquanto Geezer Butler e Bill Ward também mantinham atividades independentes.
Ainda assim, a formação clássica permanecia reunindo multidões sempre que voltava aos palcos.
Durante esse período, outro acontecimento importante ajudou a manter viva a chama da era Dio.
Heaven & Hell
Em meados dos anos 2000, Tony Iommi, Ronnie James Dio, Geezer Butler e Vinny Appice voltaram a trabalhar juntos.
Como a marca Black Sabbath estava associada à formação clássica em atividade naquele momento, o grupo decidiu utilizar o nome Heaven & Hell, uma referência direta ao álbum lançado em 1980.
A iniciativa permitiu que a banda revisitasse o repertório da era Dio sem gerar conflitos com a reunião de Ozzy.

Mais importante ainda, o projeto mostrou que a química entre aqueles músicos permanecia intacta.
Em 2009, o grupo lançou “The Devil You Know”, trabalho extremamente bem recebido pelos fãs e frequentemente apontado como um dos melhores álbuns da reta final da carreira de Ronnie James Dio.
Infelizmente, a morte de Dio em 2010 encerrou definitivamente qualquer possibilidade de uma nova reunião daquela formação.
Enquanto isso, a atenção do mundo do Heavy Metal voltava-se novamente para a formação original.
Uma nova reunião estava sendo preparada.
E dessa vez ela resultaria em algo que os fãs aguardavam havia mais de três décadas.
O impossível acontece
Em novembro de 2011, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward anunciaram oficialmente que o Black Sabbath voltaria aos estúdios para gravar um novo álbum.
A notícia causou enorme repercussão.
Afinal, o último trabalho de inéditas da formação clássica havia sido “Never Say Die!”, lançado em 1978. Mais de trinta anos haviam se passado desde então.
Para comandar o projeto, a banda escolheu um produtor que era fã declarado do Sabbath desde a adolescência.
Seu nome era Rick Rubin.

A missão parecia simples no papel: reunir os criadores do Heavy Metal e ajudá-los a produzir um álbum digno de sua história.
Na prática, porém, o processo seria muito mais complexo do que qualquer um imaginava.
O impossível acontece
Em novembro de 2011, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward anunciaram oficialmente uma nova reunião do Black Sabbath.
A notícia provocou enorme repercussão em todo o mundo. Afinal, embora o Black Sabbath tivesse permanecido ativo ao longo das décadas seguintes através das formações lideradas por Ronnie James Dio, Ian Gillan, Glenn Hughes e Tony Martin, fazia mais de trinta anos que a formação original não gravava um álbum completo de inéditas.
O último trabalho de estúdio registrado pelos quatro integrantes havia sido “Never Say Die!”, lançado em 1978.
Para comandar o projeto, a banda escolheu Rick Rubin, produtor que construiu sua reputação trabalhando com artistas tão distintos quanto Johnny Cash, Red Hot Chili Peppers, Metallica e Slayer.
Fã declarado dos primeiros anos do Black Sabbath, Rubin acreditava que o grupo deveria resgatar a essência dos discos que ajudaram a criar o Heavy Metal. Seu objetivo era reconectar os músicos à atmosfera que havia produzido clássicos como “Black Sabbath”, “Paranoid” e “Master Of Reality”.
A missão parecia simples no papel.
Na prática, porém, o processo enfrentaria obstáculos importantes antes mesmo do início das gravações.
13: o retorno da formação original aos estúdios
As negociações envolvendo Bill Ward não chegaram a um acordo satisfatório para todas as partes. O baterista manifestou publicamente sua insatisfação com os termos oferecidos e acabou ficando fora do projeto.
A ausência de um dos fundadores da banda gerou enorme discussão entre os fãs. Afinal, pela segunda vez na história, uma reunião da formação clássica aconteceria sem a participação completa de seus quatro membros originais.
Para ocupar seu lugar nas gravações, o grupo recrutou Brad Wilk, conhecido por seu trabalho no Rage Against The Machine e no Audioslave.
Apesar da situação delicada, os trabalhos avançaram.
Durante as sessões, Rick Rubin incentivou os músicos a revisitarem elementos presentes nos primeiros álbuns da banda. A intenção não era simplesmente reproduzir o passado, mas recuperar parte da espontaneidade e da atmosfera que haviam transformado o Black Sabbath em uma referência absoluta do Heavy Metal.
O resultado chegou em 2013 com o lançamento de “13”.

Musicalmente, o álbum apresentava fortes conexões com a fase clássica dos anos 1970. Os riffs densos de Tony Iommi voltavam a ocupar posição central nas composições, enquanto as letras de Geezer Butler exploravam temas existenciais, religiosos e sociais que sempre fizeram parte da identidade do grupo.
Canções como “End Of The Beginning”, “God Is Dead?”, “Loner”, “Age Of Reason” e “Dear Father” mostravam uma banda consciente de seu legado, mas ainda capaz de produzir material relevante.
Mais importante do que qualquer comparação com os discos anteriores, “13” funcionava como a continuação de uma história interrompida em 1978. O álbum não pretendia substituir os capítulos escritos por Dio, Gillan, Hughes ou Tony Martin. Pelo contrário: representava o reencontro da formação que havia iniciado aquela trajetória mais de quatro décadas antes.
O sucesso de 13 e a última grande turnê
O lançamento de “13” demonstrou que ainda existia enorme interesse pelo Black Sabbath.
Além da recepção positiva dos fãs, o álbum alcançou resultados comerciais impressionantes, liderando paradas em diversos países e tornando-se um dos maiores sucessos da história recente da banda. Para um grupo que havia iniciado sua trajetória em 1968, aquele desempenho representava algo extraordinário.
A turnê que acompanhou o álbum confirmou essa força.

Durante anos, o Black Sabbath percorreu diferentes continentes apresentando um repertório centrado nos clássicos da formação original, mas sem ignorar completamente sua longa trajetória. Milhares de fãs compareceram para testemunhar aquele que provavelmente seria o último grande capítulo da banda nos palcos.
Ao mesmo tempo, a saúde dos integrantes começava a exigir cada vez mais atenção. Tony Iommi seguia enfrentando sua batalha contra o linfoma diagnosticado em 2012, enquanto Ozzy Osbourne já demonstrava limitações físicas que se tornariam mais evidentes nos anos seguintes.
A ideia de uma despedida definitiva parecia inevitável.
The End
Em 2016, o Black Sabbath anunciou oficialmente sua turnê de despedida.
O nome escolhido foi apropriado: “The End”.
A excursão foi apresentada como o encerramento definitivo da carreira da banda e rapidamente transformou-se em um dos eventos mais importantes do universo do Rock e do Heavy Metal naquele período. Para muitos fãs, tratava-se da última oportunidade de assistir aos criadores do gênero em ação.
Paralelamente à turnê, a banda lançou o EP “The End”, composto por gravações realizadas durante as sessões de “13”. Embora modesto quando comparado aos grandes clássicos da discografia, o lançamento acabou adquirindo importância histórica por representar o último material de estúdio associado à formação liderada por Ozzy.
O derradeiro show aconteceu em 4 de fevereiro de 2017.
E não poderia ter sido em outro lugar.
A apresentação foi realizada em Birmingham, cidade onde tudo havia começado quase cinquenta anos antes. O local que testemunhara o nascimento do Black Sabbath também serviria como palco para sua despedida.
Naquele momento, parecia que a história havia finalmente chegado ao fim.
Mas ainda havia um último capítulo a ser escrito.
Back To The Beginning
Após o encerramento da turnê, os integrantes seguiram caminhos diferentes.
Os problemas de saúde de Ozzy tornaram-se cada vez mais graves ao longo dos anos seguintes. Cirurgias, lesões e o avanço da doença de Parkinson reduziram drasticamente sua capacidade de realizar apresentações completas. Em diversos momentos, o próprio cantor admitiu suas dificuldades para permanecer nos palcos.
Por isso, quando foi anunciado o evento “Back To The Beginning”, poucos imaginavam o impacto emocional que aquela celebração teria.
Realizado em Birmingham, o encontro reuniu músicos, amigos e artistas profundamente influenciados pelo legado do Black Sabbath. Mais do que um festival ou uma homenagem, o evento funcionou como uma celebração da importância histórica da banda para o Heavy Metal.

O aspecto mais emocionante da ocasião foi a presença dos integrantes que ajudaram a construir essa trajetória ao longo de décadas.
Não havia pressão comercial, turnê mundial ou lançamento para promover.
Havia apenas a oportunidade de celebrar uma história que havia transformado a música pesada para sempre.
Para os fãs presentes, o significado daquele encontro tornou-se ainda maior posteriormente. O evento acabaria entrando para a história como a última apresentação pública de Ozzy Osbourne.
Sem que ninguém soubesse naquele momento, aquele seria o último capítulo de uma jornada iniciada nos bairros operários de Birmingham durante o final dos anos 1960.
O legado do Black Sabbath
É impossível contar a história do Heavy Metal sem contar a história do Black Sabbath.
Ao longo de sua trajetória, a banda não apenas criou as fundações do gênero, como também ajudou a redefini-lo em diferentes momentos. A formação original estabeleceu as bases do Metal moderno. A era Ronnie James Dio influenciou diretamente o desenvolvimento do Heavy Metal tradicional dos anos 1980. A fase Tony Martin manteve viva a chama criativa da banda durante um período em que muitos já a consideravam superada.
Poucos grupos exerceram influência tão ampla.
Bandas como Iron Maiden, Metallica, Slayer, Megadeth, Anthrax, Candlemass, Pantera, Soundgarden, Alice In Chains, Type O Negative, Ghost e milhares de outras carregam elementos que podem ser rastreados diretamente até os trabalhos do Black Sabbath.
O grupo sobreviveu a mudanças de formação, crises internas, transformações da indústria fonográfica e alterações profundas nos gostos do público. Em diversos momentos, parecia impossível que continuasse existindo.
Ainda assim, continuou.
Mais de meio século depois de sua formação, o Black Sabbath permanece como uma referência obrigatória para qualquer pessoa interessada em compreender a evolução da música pesada.
A banda nasceu em Birmingham.
Criou um gênero.
Influenciou gerações.
E deixou um legado que continuará ecoando muito depois do último acorde.
Ouça Black Sabbath sem moderação:
