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Clássicos: “Black Sabbath” – “Black Sabbath” (1970) debut

A primeira audição do debut do quarteto britânico, que surgiu das ruas sujas e violentas de Birmingham me causou um impacto absurdo. Não foi o primeiro disco da banda que ouvi e estava começando a descobrir as origens do Heavy Metal, consumindo com voracidade tudo o que era considerado como base para o gênero.

   

Esta resenha será minuciosa, como um álbum com essa importância merece. Espero que apreciem a viagem!

Reprodução – Mapeldurham – Imagem presente na capa do debut do “Black Sabbath”

Black Sabbath


O início do debut se dá da forma mais soturna possível. Durante uma chuva torrencial, temos um som distinto rivalizando com os sons das trovoadas. Um sino é ouvido ao longe por alguns momentos e, subitamente, presenciamos o nascimento da vertente maldita do rock: o Metal.

Imagino o impacto desse início para um ouvinte e apreciador de rock/blues, no início da década de 1970. Independente de todo o experimentalismo que o rock passou desde sua gênese, deve ter sido algo bastante especial pois, até então, nada na música tinha apresentado um atmosfera tão densa, pesada e macabra.

Voltando para a música, o riff inicial de Tony Iommi é relativamente simples, de andamento cadenciado e que, em uma de suas transições, contava com uma sequência de tappings que certamente provocavam arrepios na espinha dos incautos. Junto a este riff, também somos apresentados a outro elemento marcante nesta música e, posteriormente, no álbum e na fase inicial da carreira da banda: o baixo ultra-encorpado de Mr. Geezer Butler. Com linhas que acompanham o riff inicial, trazendo ainda mais peso, temos a entrada da bateria de Bill Ward, com um andamento que transita entre algo mais reto no início para momentos mais alternados e variados em cada transição do riff.

Logo na sequência, a música toda tem uma virada em seu andamento, com a guitarra fazendo um dedilhado lento e soturno, enquanto a bateria e o baixo trazem uma atmosfera misteriosa. Então, finalmente temos a entrada dos vocais de Ozzy Osbourne. Uma voz que traz certa agonia em seu tom, praticamente sem efeitos, apenas um leve reverb. Ele descreve a visão de uma figura lúgrubre, trajada de preto, que aponta seu dedo para ele.

A capa sinistra do debut do Black Sabbath

Nesse momento, é impossível não associar à figura sinistra que está na capa do disco, que aparece à frente de um macabro cenário, o moinho d’água de Mapeldurham, que fica situado às margens do Rio Tâmisa, em Oxfordshire, na Inglaterra.

A música vai avançando, e temos uma alternância entre a parte instrumental inicial e a parte sombria cantada por Ozzy que continua a descrever o quanto a presença maligna é ameaçadora, culminando em um grito clamando pela misericórdia divina.


Neste ponto, temos um novo rumo. Um riff mais acelerado é iniciado, com o baixo galopante ao lado e a bateria acompanhando. Ozzy decreta que “este é o fim, meu amigo”, para em seguida descrever outras desgraças, finalizando com mais um grito de agonia. A música mantém o ritmo até o final, tendo um solo rápido, seguido de um encerramento pesado e seco.

Essa música pode ser considerada um clássico em toda a extensão da palavra e foi executada em todas as apresentações da banda, independente da fase.

Black Sabbath / Reprodução / Acervo – line-up clássico (debut)

The Wizard

Seguindo o álbum somos surpreendidos por uma gaita, que na época me lembrou muito um trem chegando, com seu apito estridente. Logo, essa composição é iniciada com todo o seu peso. A parte instrumental se apresenta de forma pesada e groovada.

   


Os vocais de Ozzy anunciam a visão de uma figura vestida de cinza, que aparece caminhando em uma manhã de nevoeiro. Um mago que caminha em silêncio, mas demonstrando todo seu poder enquanto avança. Na época que ouvi essa música, ainda não tinha começado a ler os livros da saga de Tolkien, principalmente “O Hobbit”. Ao ler a descrição que o Professor fez sobre Gandalf no livro, logo tracei os paralelos e pensei: É isso!!! THE WIZARD!


A música se desenvolve com uma mescla de classic/hard Rock e Jazz, seguindo a descrição do personagem e mantendo a estrutura até o seu fim. Temos um novo solo de gaita em determinado momento, que é interrompido pelo retorno do vocal.


A banda toda é destaque nessa faixa que, apesar da sua estrutura relativamente simples, entrega bastante peso e uma proposta diferente da faixa anterior. Proposta essa que ditará inclusive a próxima faixa.

“Behind the Wall of Sleep”

A terceira música do álbum começa de forma tranquila, com um riff simples e uma linha de baixo bem presente, que é interrompido por um solo de guitarra e os demais instrumentos trazendo um compasso diferente, e que retorna em seguida ao formato inicial. A música toda tem um clima mais leve, mas sem deixar a pegada de hard rock de lado.

Apesar do clima leve, a temática se baseia no conto “Além da muralha de sono”, de HP Lovecraft, que fala sobre uma entidade de outro mundo que se comunica com um presidiário moribundo, em um hospital psquiátrico. Basicamente, a mensagem explicava como os sonhos nos transportam para experiências em outros planos e universos, que são desconhecidos enquanto estamos despertos. Puro suco de sci-fi cósmico!

Temos mais uma composição simples e de qualidade, um pouco menos carregada no peso, mas mantendo a pegada da composição anterior.

Black Sabbath – line-up clássico debut – Acervo – Reprodução

“N.I.B.”

Seguimos com mais um clássico. Antes de me enveredar pela música, quero destacar o título dá música. Apesar da pontuação do título trazer um caráter mais intrigante, já que logo se assume se tratar de uma sigla, Geezer Butler fez questão de esclarecer em várias entrevistas e em trechos de biografias da banda: N.I.B, que em tradução livre significa “ponta”, é referência direta à barba que Bill Ward usava na época, que se assemelhava à barba de um bode e que terminava pontuda, e que a banda dizia que lembrava a ponta de uma caneta tinteiro.

Como essa pontuação gerou todo um mistério, posteriormente assumiu-se que N.I.B significaria Nativity In Black, que até poderia fazer sentido por conta da temática da letra. Porém, a banda desmintiu.

Um Romance com Satã


Por falar na temática da música, temos aqui um romance pra lá de obscuro, já que a letra fala sobre Satã se apaixonando por uma mulher que, durante o desenvolvimento da narrativa, acaba sendo seduzida e trazida para os braços do Senhor das Trevas.

A música se inicia com um solo altamente inspirado de Geezer Butler, que traz seu baixo encorpado e distorcido, em uma melodia de muito bom gosto. Esse solo dá lugar a um riff pesado, com ainda mais distorção e que na sequência tem a entrada de toda a banda, incluindo o vocal de Ozzy. O clima dessa música é mais denso e toda a banda vai seguindo o riff iniciado por Geezer. Temos alguns solos muito bons de Tony Iommi nessa faixa. Particularmente, gosto muito do timbre das guitarras dele nos solos. É um som clássico, o qual a banda jamais abandonou em toda a sua carreira e que é fácilmente reconhecível. Mais um clássico atemporal deste disco, que o público sempre recebeu muito bem, quando executado ao vivo.

“Evil Woman”

   

Temos o primeiro cover do disco. O título original desta faixa era Evil Woman (Don’t Play Your Games With Me) e a banda norte americana Crow a lançou em 1969. Poucos tempo depois, a música explodiria ao se tornar o primeiro single do debut do Black Sabbath.

Mantiveram a pegada Blues Rock da versão original, mas com a “cara” do Sabbath. Temos uma música mais acelerada, com peso, mas com um clima menos denso que as composições anteriores.

A letra trata basicamente de um homem descrevendo uma mulher de índole no mínimo duvidosa, que tenta vários truques para enganar a pessoa, inclusive tentando fazer com que ele assuma uma criança que, na visão dele, não é seu filho.

É uma música mais direta, com poucas alternâncias no seu andamento, exceto nos momentos de solos, qua temos uma mudança nos riffs principais da música.

“Sleeping Village”

Uma das minhas músicas prediletas, junto com a música que vem na sequência.

Começa com uma introdução melancólica e assustadora. Temos um vocal suave de Ozzy nesta faixa, com uma letra muito breve sobre um amanhecer vermelho em uma vila adormecida. Loco após os vocais, a música tem várias mudanças de andamento, horas mais focadas no classic rock, mas com momentos de blues e até jazz.

Outra característica marcante desta faixa são dois solos sobrepostos, que são seguidos por uma linha de baixo que quase provoca um transe, por conta da sua repetição, enquanto a bateria faz o acompanhamento.

A faixa termina de forma repentina e emenda na excelente Warning.

“Warning”

Um dos pontos altos do álbum. Esta música é um outro cover gravado pelo Sabbath. A composição original foi de Aynsley Dunbar em seu projeto Retaliation.

Temos uma introdução de baixo carregada de sentimento e que acaba gerando um tom bastante sombrio pra canção. Na sequência, a linha de baixo muda para algo mais trabalhado enquanto Iommi faz um breve solo. Os vocais de Ozzy começam novamente de forma suave, soando quase como um lamento, enquanto o baixo retorna para a linha inicial.

Black Sabbath / Reprodução / Acervo – line-up clássico (debut)

A letra fala de um homem que, apesar de ter diversos avisos sobre uma mulher, acaba ingnorando esses sinais por sentir algo muito forte pela pessoa.

   

A música se desenvolve no mesmo clima melancólico, sem grandes mudanças, mesmo nas partes dos solos.

Subitamente, temos um trecho relativamente longo de improviso de toda a banda, com baixo e bateria trazendo uma linha constante enquanto Iommi sola. Após esse trecho, há um momento mais calcado no blues, com outro solo longo de Iommi.

Temos mais um trecho de improviso de Tony Iommi que novamente se interrompe por uma transição que serve como ponte para retomarmos o tema inicial da música. Temos mais um verso, seguido pelo refrão e o fim da música.

Uma faixa de quase 11 minutos onde a banda deixa em evidência todas as suas influências e trazendo traços de um experimentalismo que, em lançamentos posteriores da banda, ficaria ainda mais evidente.

“Wicked World”

A última composição do álbum começa com uma levada bem calcada no jazz, com guitarra e baixo em sintonia, ao passo que a bateria promove algumas anternâncias de andamento.

Logo a música toma um novo rumo, com um andamento mais cadenciado e com o vocal de Ozzy entregando algumas distorções e várias notas altas em algumas partes. Um excelente trabalho do Madman nesta faixa.

Temos um novo rumo para a música, com uma sequência de solos do Iommi e uma posterior retomada do andamento cadenciado.

Posteriormente, retornamos ao início mais em sintonia com o jazz, que segue até o fim da música.

Black Sabbath – 1969 / antes da gravação do debut – Reprodução – Acervo

Conclusão

Todos na banda tem destaque: Tony Iommi, o riff master, já demonstrando que ele seria o precursor de muita coisa que estava por vir. Geezer Butler, que inicialmente era um guitarrista e que dizia que seu trabalho no baixo seria apenas “seguir a guitarra de Iommi”, mas que nos entrega diversas linhas geniais, com seu som encorpado e profundo. Bill Ward, que entrega uma parte ritmica extremamente variadada, trazendo diversas camadas para todas as composições. Por último, mas não menos importante, Ozzy Osbourne, que pode não ser o primor de técnica nos vocais, mas que entrega muito sentimento e se funde perfeitamente com a massa sonora que o acompanha.

   

Esta obra é considerada um pilar não só para o que seria conhecido como Heavy Metal posteriormente, mas também um dos pontos de partida para o Doom Metal, com seu andamento lento, baixo e guitarra extremamente pesados e com um tom soturno.

O debut do Black Sabbath traz um amálgama de classic e hard rock, blues e jazz. Esta combinação gera uma atmosfera densa, que fica ainda mais obscura com a temática de algumas letras.

Nota 10!

Integrantes:

  • Tony Iommi (guitarra)
  • Ozzy Osbourne (vocal)
  • Bill Ward (bateria)
  • Geezer Butler (baixo)

Faixas:

  • 1.Black Sabbath
  • 2.The Wizard
  • 3.Behind the Wall of Sleep
  • 4.N.I.B
  • 5.Evil Woman
  • 6.Sleeping Village
  • 7.Warning
  • 8.Wicked World

Redigido por: Daniel Dante

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