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Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

É notório que o sexto álbum de estúdio do Black Sabbath, não ironicamente batizado de “Sabotage”, seja muito mais conhecido atualmente entre os fãs. Isso se deve, antes de mais nada, ao contexto de batalhas judiciais e processos movidos contra a banda por sua antiga administração. Como resultado, na época, o estresse foi tão frequente que acabou por se infiltrar no processo de criação do próprio disco.

   
Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

Todo esse conflito judicial, que perdurou por todo período de gravação do álbum, por vezes até interrompendo a gravação do mesmo, acabou se tornando um famigerado capítulo na história da formação clássica do Black Sabbath.

Contudo, nada disso foi capaz de abalar a criatividade e o poder que emanava do quarteto nesse período, visto que no fim das contas, o resultado foi um dos desempenhos mais significativos e inspirados por parte dos garotos de Birmingham.

A Espetacular Era de Ouro  

Em um período de três anos (1970-1973) o Black Sabbath lançou uma das sequências de álbuns mais influentes e indispensáveis da história da música pesada, cinco registros bem distintos e pioneiros entre si.

Reprodução – Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

O debut homônimo (“Black Sabbath“) tem suas raízes no Blues e no Jazz. Ao mesmo tempo, ele proclama o inicio de uma nova e mais impactante sonoridade dentro da musica mundial.

“Paranoid”, por sua vez, em toda sua majestade, foi responsável por alocar oficialmente a banda num patamar acima do bem e do mal.

“Master of Reality”, sem dúvidas, é a culminação do que a banda pretendia alcançar desde que iniciou. É um disco disruptivo para os padrões de sua época… Em outras palavras, nefasto, macabro e secular.

Logo depois, “Vol 4”, simplesmente, prenunciava os primeiros passos de evolução da sonoridade do Sabbath,aliando composições épicas grandiosas, com criações mais diretas e melodias cativantes. Ainda assim, permaneceu fiel a sua própria proposta nefasta.

E por ultimo, mas jamais menos importante,“Sabbath Bloody Sabbath”, que podemos chamar do auge criativo da banda, responsável definitivo por segmentar toda a sonoridade em antes e depois dele, um verdadeira amálgama de tudo que foi demonstrado desde sua estreia, com um refinamento e esmero mágico.

Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

Sabotage

Tendo feito cinco discos de enorme sucesso de crítica, além de extensas turnês pelos EUA e Europa, uma lendária apresentação para 200mil/400mil pessoas no California Jam em 1974 e morando em casas bonitas, mesmo assim, financeiramente, eles estavam na merda.

Black Sabbath no California Jam’74 – Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

Enquanto a banda trabalhava no seu sexto álbum, eles estavam no meio de uma batalha legal que perdurou por um ano, para se livrar de seu empresário, Patrick Meehan. Esse individuo, que podemos chamar negativamente de personagem central desta trama, visto que toda a raiva e rancor que a banda catalisou na composição do registro, foi originada pelas constantes picaretagens do Sr.Meehan.

   

Na palavras de Geezer Butler:

“Nós nunca tivemos mais do que mil no banco, sempre que precisávamos de dinheiro, tínhamos que pedir ao gerente para nos enviar alguma coisa.”

“foi provavelmente o disco mais difícil de fazer, o mais desolador. Porque estávamos no estúdio e os advogados não paravam de chegar. Estávamos deixando o empresário na época, ele nos processava e nós processávamos ele. Ele queria nos impedir de gravar, além de congelar nossa grana.”

Black Sabbath / Reprodução / Acervo – Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

“Nós chegávamos no estúdio para compor uma música e havia uns três advogados esperando para nos entregar uma intimação e outras coisas do tipo. Levamos dez meses para fazer o disco, por causa de tantas interrupções.”

De acordo com Tony Iommi:

“Estávamos sendo sabotados o tempo todo e sendo socados por todos os lados”

Como se toda essa tensão não fosse o suficiente, associe todo esse cenário com a quantidade de drogas e bebidas que se faziam presentes na rotina da banda de forma mandatória.

The mirror which flatters not

Agora imagine que até mesmo o conceito da célebre e enfadonha arte que estampa a capa do disco,na qual pretendia ilustrar uma ideia de sabotagem, foi vitima da própria sabotagem sofrida pela banda.  

Reza a lenda, que o conceito de reflexo invertido foi trazido pelo técnico de bateria de Bill Ward, na qual era artista gráfico na época. A ideia concebida era de que os membros da banda aparecessem todos de preto na capa do álbum. Porem nada disso foi devidamente repassado de forma correta entre o designers do ensaio e a banda.

Eis que a banda aparece para o que acredita ser uma sessão de fotos teste descompromissada, na qual nenhum deles havia combinado entre si, o que usariam no dia. 

Desde aquele fatídico dia, a banda sobreviveu a uma série de comentários e piadas sobre as roupas que usaram, que continuam até hoje.

Sem dúvidas, o mais memorável foi Bill Ward aparecendo usando a meia-calça vermelha da esposa na capa, com uma cueca emprestada pelo próprio Ozzy.

Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

Quando viram o resultado final, já era tarde para mudar, gerando um das arte mais controversas da historia do Rock/Metal, para dizer o minimo.

Não Comece (Tarde Demais)

Gravado entre fevereiro e março de 1975 no Morgan Studios em Willesden , Londres, coproduzido pelo guitarrista Tony Iommi e o produtor Mike Butcher, “Sabotage” pode ser descrito, a princípio, como uma descida vertiginosa à loucura. Não apenas por todo contexto burocrático e judicial já supracitado acima, mas de forma introspectiva entre os próprios membros.

   

É nítido que existia um ideia de continuidade subliminar a partir de seu predecessor, “Sabbath Bloody Sabbath”, visto toda a abordagem experimental e psicodélica, com requintes progressivos, dentro de sua própria sonoridade cavernosa.

Black Sabbath / Reprodução / Acervo – Clássicos: Black Sabbath – “Sabotage” (1975)

Mas a banda conseguiria ir ainda mais além com “Sabotage”. Antes de mais nada, é necessário reafirmar que cada álbum da fase inicial do Sabbath é distinto e genuíno entre eles. Evidentemente, o ouvinte nota as nuances e características compartilhadas, mas seus diferenciais se sobressaem de modo fascinante.

Feeling Paranoid Inside…

Em essência, podemos afirmar que de forma geral,o Sabbath pôs aqui toda o seu espírito, magoas,frustrações,esperanças vazias, ataques interpessoais e idiossincrasias de forma equilibrada e dualística, evidenciadas nas inebriantes composições líricas e arranjos harmônicos.

Como esse aspecto será recorrente no decorrer do escrutínio, devemos definir um breve prefácio.

Toda a parte metafórica, psicodélica e quase proverbial, podemos creditar ao Sr.Geezer, um traço característico já cimentado no DNA da banda.

Já as composições com traços que beiram ao psicanalítico e talvez até Lovercraftiano, atribuímos ao Sr.Osbourne, em uma de suas raríssimas contribuições, o que agregou de maneira considerável.

Take Me To Heaven…

Em “Hole in The Sky”, faixa que dá inicio a nobre delação publica e rancorosa,é um imponente exemplar de que mesmo em sua simplicidade, Tony Iommi era capaz de ditar padrões e tendências com seus riffs, que nem mesmo possuíam nome certo ainda.

Para além de suas contribuições na composição, Ozzy tem aqui um dos seus melhores desempenhos e alcances vocais de toda sua carreira, talvez o seu ápice.

 “I’m getting closer to the end of the line

I’m living easy where the sun doesn’t shine

Com o termino abrupto de “Hole in The Sky”, “Don´t Start(Too Late)”, característico tema instrumental em violão clássico, cortesia do Sr.Iommi, se inicia como um prelúdio para uma mudança de paradigmas.

The Symptom of The Universe is Written in Your Eyes…

Sem dúvida, essa é a mais conhecida e mais influente criação presente no registro. “Symptom Of The Universe” atinge níveis de agressão nunca antes vistos(ou escutados) na banda até aquele momento. Tanto que a faixa permanece até hoje como um dos pilares do que viria a se tornar Thrash Metal, servindo de referência para diversas bandas seminais do subgênero.

Tony Iommi / Reprodução / Acervo

Com seus seis minutos de duração, o dois últimos minutos são totalmente dedicados a um assentamento acústico florido e colorido, criando um contraste,que soa estranho até para o mais antigos fãs da banda. Embora isso não seja nenhuma novidade, considerando a sonoridade dos registros anteriores.

   

A partir daqui, o desconforto e a estranheza presente durante toda a audição.

My Body Echoed to The Dreams of My Soul…

 Se “Symptom Of The Universe” desponta como a mais conhecida e importante do álbum, ”Megalomania”, sem dúvida, é a melhor e maior composição deste clássico.

A atmosfera épica, criada em torno da perspectiva de uma mente atormentada e vagante, se une a um estado de vazio sombrio único. Todo esse momento de elucubração e questionamento é passado com maestria pela voz inspirada de Ozzy.

Todo o instrumental arranjado é simplesmente perfeito, das linhas de baixo ameaçadoras, até os leads de guitarra com uma pegada progressiva e bluesy distinta,  

As sensações e vibrações que essa faixa cria no ouvinte, pode ser comparada com a macabra “Black Sabbath”, “Planet Caravan” e “Spiral Architect”

“How could it poison me?

The dream of my soul

How did my fantasies take complete control”

A medida que a progressão da faixa vai aumentando em intensidade, temos umas mudança total segmento. Entramos, desse modo, num característico “Hard Rock sabbatico”, com intenção de descarregar todo a tensão interna e o peso acumulado. Aqui conseguimos diferenciar as abordagens líricas com mais facilidade.

  “Chega de mentiras, eu fiquei sábio

   Eu desprezo o jeito que eu te adorava

   Agora eu estou livre,você não consegue ver

   E agora eu não serei guiado por você”  

Won’t you Help Me Mr. Jesus ?

Em “Thrill of It All”, temos uma alta e clara mensagem de contestação e um certo nível de escárnio. Claramente isso foi alimentado pelo nível tensão que a banda passava durante as gravações. Pois, inclusive, em certos momentos, a faixa soa como um antítese ou talvez uma auto resposta à controversa “After Forever”, faixa presente no clássico “Master of Reality”(1971), talvez se utilizando de um tom mais assertivo de analogias aqui.

“When you see this world we live in

Do you still believe in Man?”

“So come along, you know you matter to me

Remember freedom is not hard to find”

Em determinado momento no decorrer do registro, é impossível não imaginar como seria se o produtor Rodger Bain ainda estivesse envolvido na produção dos álbuns mais experimentais e criativos da banda.

Black Sabbath / Acervo

Como Rodger teve influência direta na sonoridade e produção dos primeiros três álbuns clássicos da banda, uma faixa como “Supertzar” talvez tivesse um impacto diferente ou, provavelmente, fosse melhor alocada na construção do tracklist do disco.

   

Considerando que toda a ideia partiu exclusivamente de Tony Iommi, incluindo trazer o English Chamber Choir, famoso coral erudito britânico, toda grandiosidade épica e a junção de riffs icônicos de Tony, não alocam esse instrumental de forma proveitosa, talvez na conclusão do disco.

Tell Me People, Am I Going Insane?

Talvez a composição que cause mais estranheza é “Am I Going Insane (Radio)”. Ainda que a letra soe como um desabafo terapêutico, muito semelhante á própria “Paranoid”, o instrumental não poderia ser mais irreconhecível, até para os padrões psicodélicos da banda. Mas ainda sim, ela serve de acréscimo para o tema central que permeia todo o álbum, visto que as musicas tem muito pouco em comum entre elas.

Are you Satan, Are you Man?

Ironicamente, ao chegar no final do álbum, “The Writ” serve para nos trazer de volta a realidade circunstancial que o grupo se via naquele conturbado momento.

Tematicamente, “The Writ” e “Megalomania” se conectam intrinsecamente. Ou seja, toda aquela raiva e frustração estão novamente presentes aqui com muito mais intensidade. Além disso, ela traz alguns dos momentos mais pesados do álbum, com Tony e Geezer derrubando tudo com uma sequência de riffs mastodônticos.

Tony Iommi & Ozzy Osbourne / Reprodução / Acervo

Fica evidenciado na conclusão do enredo, que a banda havia enxergado verdades obscuras e já não eram mais os mesmos após isso, seja de forma matafísica ou concreta e tangível.

Em um importante trecho do livro “Black Sabbath Doom Let Loose” (“Black Sabbath – Destruição Desencadeada” em versão nacional), Tony Iommi revela com mais clareza essa mudança de perspectiva, a respeito da indústria na qual estavam inseridos:

“Acho que nós mudamos basicamente por causa do sistema, das pessoas à nossa volta, das coisas em que estávamos envolvidos. Começamos a passar por coisas que não entendíamos, o aspecto legal das coisas, todas essas batalhas com o empresário, coisas com as quais não queríamos nos envolver.”

 “Mas nós já estávamos envolvidos. E eu acho que isso foi um final brusco para o que estávamos fazendo. Porque nós éramos músicos, ou supostamente músicos, e de repente precisamos nos transformar em homens de negócios, o que nunca fomos. E tentávamos imaginar ‘caramba, o que vamos fazer agora? Aqui estamos nós, fazendo a reuniões com advogados e aparecendo na corte, depondo, sendo processados pela esquerda, pela direita e pelo centro.”

“Era uma parte de nossas vidas que nunca tínhamos visto, e eu acho que ela realmente interferiu em nossa músicas.   Nós estávamos vendo o outro lado da vida, que nunca tínhamos visto, então não foi uma boa época.Passamos mais tempo pensando em como sair desse problema do que naquilo que supostamente deveríamos estar fazendo.”

Podemos concluir que, esses tempos difíceis resultaram e uma das obras mais poderosas e ressonantes da história do Black Sabbath. Mesmo com sua excentricidades inerentes e talvez pouco compreendidas pelo seu próprio publico, o grupo conseguiu entregar mais um capitulo imprescindível na historia do Heavy Metal.

Todavia, a banda ainda passaria por um serie de provações e mudanças radicais, poucos anos mais tarde, naquela mesma década, Mas talvez, nada que superasse a angustia dessa Sabotagem.

Nota: 9,0

INTEGRANTES:

  • Ozzy Osbourne (vocal)
  • Tony Iommi (guitarra,violão)
  • Geezer Butler (baixo)
  • Bill Ward (bateria)

FAIXAS:

  • 01. Hole In The Sky
  • 02. Don’t Start (Too Late)
  • 03. Symptom Of The Universe
  • 04. Megalomania
  • 05. Thrill Of It All
  • 06. Supertzar
  • 07. Am I Going Insane (Radio)
  • 08. The Writ

Redigido por: Vaz

   
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