Motörhead: a peça que fecha a santíssima trindade do Heavy Metal

O Motörhead surgiu em um momento decisivo de autoafirmação do Heavy Metal. Se o Black Sabbath pode ser considerado o marco zero, ao menos quando falamos de álbuns inteiramente voltados para uma sonoridade mais pesada, e o Judas Priest foi a banda que realmente abraçou o termo Heavy Metal, contribuiu com diversos elementos musicais e ainda ajudou a criar a estética definitiva do gênero, o Motörhead certamente fecha esta santíssima trindade do início do estilo.

É claro que Lemmy Kilmister jamais comprou essa definição com facilidade. Para ele, por mais alto, sujo, rápido e agressivo que fosse, aquilo era apenas Rock N’ Roll. No entanto, por mais que a visão do próprio criador mereça respeito, negar o lugar do Motörhead dentro do Heavy Metal é fechar os olhos para o impacto real da banda. O trio não apenas se encaixa no escopo do gênero, como também influenciou diretamente o surgimento do Speed Metal, do Thrash Metal e de boa parte do Metal extremo que apareceria pouco depois.

E quando falamos que o Motörhead é a peça que fecha essa trindade, não estamos falando apenas de peso ou velocidade. A banda carregou durante toda a carreira alguns dos preceitos mais básicos do Heavy Metal. Lemmy, como mente criativa por trás do grupo, foi um crítico feroz da classe política, um sujeito naturalmente anti-sistema, um opositor constante das instituições religiosas e um defensor convicto das liberdades individuais. Não havia pose calculada, discurso moldado para agradar ou rebeldia de boutique. Lemmy cantava o que vivia, vivia o que cantava e não pedia licença para existir.

A santíssima trindade do Heavy Metal

Com Black Sabbath, Judas Priest e Motörhead, temos praticamente todas as principais características que moldaram o Heavy Metal como linguagem. O som pesado, sombrio e ameaçador; a estética chocante, feita para afrontar o bom gosto da moral conservadora; e a rebeldia necessária para bater de frente contra os dogmas preestabelecidos da sociedade. O Motörhead talvez não tenha inventado sozinho nenhum desses elementos, mas juntou tudo em uma forma tão direta, honesta e barulhenta que acabou criando uma escola própria.

Ainda assim, entre os grandes nomes da história do Heavy Metal, o Motörhead segue como um dos mais subestimados. A banda nunca dependeu do virtuosismo como cartão de visitas, nunca buscou refinamento para conquistar críticos e jamais tentou se adaptar ao mercado. Enquanto outros grupos lapidavam discos para alcançar arenas, Lemmy parecia mais interessado em fazer a próxima música soar como uma briga de bar, uma fuga pela estrada ou uma ressaca moral depois de uma noite sem freio.

Talvez por isso o Motörhead tenha sido tão amado por quem entendeu sua proposta e tão maltratado por quem esperava outro tipo de música. Em determinado momento, o grupo chegou a carregar o rótulo provocativo de “a melhor pior banda do mundo”, uma daquelas definições que dizem mais sobre a incapacidade dos críticos de compreenderem uma obra do que sobre a obra em si. Nesta matéria, vamos falar da banda mais subestimada entre as gigantes do Heavy Metal. Vamos entender por que o Motörhead nunca precisou vender como os maiores fenômenos do gênero para se tornar indispensável. E, principalmente, vamos revisitar os principais pontos da carreira de uma banda que jamais pediu desculpas por ser exatamente o que era.

Você é nosso convidado para conhecer a história do Motörhead.

Motorhead — Lemmy Kilmister, Eddie Clarke e Phil Taylor — Photo: Fin Costello/Redferns/Getty Images

Lemmy deixa o Hawkwind e começa uma nova história

Para entender o nascimento do Motörhead, é preciso voltar a 1975, quando Lemmy Kilmister deixou o Hawkwind de forma nada amistosa. Naquele momento, ele já havia sentido o gosto do sucesso com “Silver Machine”, mas também carregava dentro de si uma inquietação que não cabia mais no formato psicodélico e espacial de sua antiga banda. A demissão após o episódio na fronteira do Canadá serviu como ruptura definitiva. Lemmy voltou para a Inglaterra sem banda, mas com uma certeza: se ninguém lhe daria espaço, ele criaria o próprio território.

A primeira ideia era chamar o novo grupo de Bastard, o que já dizia muito sobre o estado de espírito do baixista. No entanto, o nome logo mudou para Motörhead, inspirado na última música que Lemmy havia escrito para o Hawkwind. Era uma escolha perfeita. Não soava elegante, não parecia comercial e não tentava vender uma fantasia sofisticada. Parecia sujo, rápido, urbano, direto e perigoso. Exatamente como a banda se tornaria.

A primeira formação trouxe Larry Wallis, ex-Pink Fairies, na guitarra, e Lucas Fox na bateria. Pouco depois, Phil “Philthy Animal” Taylor assumiu as baquetas, e a entrada de Fast Eddie Clarke completou a formação clássica. Com Lemmy, Eddie e Philthy, o Motörhead virou uma espécie de bomba caseira: simples, instável e pronta para explodir na mão de qualquer um que tentasse domesticar aquilo.

A banda quase acabou antes de começar

O começo, porém, não teve nada de glorioso. A United Artists segurou as gravações que deveriam formar o primeiro álbum da banda, posteriormente lançadas como On Parole, e ainda bloqueou o single “Leaving Here”. Para piorar, os leitores da NME chegaram a eleger o Motörhead como “a melhor pior banda do mundo”. Muita gente teria parado ali. Lemmy, por incrível que pareça, quase parou mesmo.

A banda chegou a marcar um show de despedida no Marquee, em Londres, e pediu para Ted Carroll, dono da Chiswick Records, gravar a apresentação. Mas a história do Motörhead sempre teve essa mistura de azar, teimosia e acaso. O equipamento de gravação não chegou ao Marquee, e Ted Carroll, para compensar, ofereceu dois dias de estúdio ao grupo. Dali nasceu o álbum Motörhead, lançado em 1977.

O disco não transformou a banda em fenômeno imediato, mas deu a ela algo mais importante naquele momento: existência oficial. “Motörhead”, “White Line Fever” e “Keep Us On The Road” mostravam um grupo ainda em formação, mas já carregavam a essência que acompanharia Lemmy até o fim. Depois de ser ignorado, bloqueado e tratado como aberração pela indústria, o Motörhead finalmente tinha um registro nas ruas.

Imagem ilustrativa — Lemmy segurando o primeiro álbum do Motorhead

Rock N’ Roll sujo demais para os críticos, pesado demais para ser ignorado

A partir daí, o trio começou a construir sua reputação da única forma que realmente fazia sentido: na estrada. Não havia campanha de marketing capaz de explicar aquela banda melhor do que um show. O Motörhead soava como se o Rock N’ Roll tivesse sido jogado dentro de um motor superaquecido, abastecido com anfetamina e colocado para correr sem freio. Os punks entendiam a urgência. Os metalheads entendiam o peso. Os bikers entendiam a sujeira. E os críticos, como quase sempre, demoraram um pouco mais para entender qualquer coisa.

O mais curioso é que o Motörhead nunca pareceu preocupado em convencer ninguém. Lemmy não moldava o discurso para agradar gravadoras, jornalistas ou plateias específicas. Ele dizia que tocava Rock N’ Roll, mesmo quando sua banda empurrava o Heavy Metal para terrenos mais rápidos, mais violentos e mais extremos. Essa contradição ajudou a tornar o grupo ainda mais fascinante. O Motörhead não precisava reivindicar um lugar dentro do Heavy Metal. A própria história trataria de colocá-lo ali.

Também havia algo de profundamente verdadeiro naquela formação. Lemmy, Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor pareciam três personagens improváveis unidos pela mesma urgência. Nenhum deles tinha o perfil do músico virtuoso preocupado em soar impecável. O que existia era química, volume e uma sensação permanente de risco. Quando o trio subia ao palco, dava a impressão de que tudo poderia desmoronar a qualquer momento. E era exatamente isso que tornava a banda tão poderosa.

Antes da consagração, a estrada moldou o Motörhead

Antes de chegar ao grande salto criativo de Overkill, o Motörhead precisou sobreviver ao próprio começo. A banda tocava em clubes, enfrentava estruturas precárias, lidava com pouco dinheiro e ainda carregava a desconfiança de uma indústria que não sabia como vender aquele som. Para as gravadoras, o grupo era barulhento demais. Já para parte da crítica, era tosco demais. Para quem estava na plateia, porém, era impossível ignorar aquela pancada.

As músicas amadureciam ao vivo, noite após noite. Esse detalhe faria diferença logo adiante. Ao contrário do primeiro álbum, gravado às pressas e em condições limitadas, o material que desembocaria em Overkill teve tempo de ganhar corpo na estrada. O Motörhead não chegou ao estúdio tentando descobrir quem era. A banda já sabia. Faltava apenas registrar aquilo com a força necessária.

Foi nesse contexto que Lemmy, Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor entraram em 1979. O Motörhead já não era apenas uma promessa barulhenta, mas ainda precisava de um disco capaz de transformar reputação em afirmação. Overkill seria exatamente esse álbum. E, sem que ninguém planejasse, sua faixa-título começaria com uma das levadas de bateria mais importantes da história da música pesada.

Overkill abriu caminho para o Speed e o Thrash Metal

Em 1979, o Motörhead deixou de ser apenas uma promessa barulhenta e passou a ser uma força real dentro da música pesada britânica. Overkill não foi apenas o segundo álbum da banda. Foi o momento em que Lemmy Kilmister, Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor encontraram a fórmula definitiva. A partir dali, o Motörhead deixou de parecer uma colisão entre Rock N’ Roll, Punk e Heavy Metal para se transformar em uma identidade própria. Era um som cru, violento e extremamente rápido para a época, mas, acima de tudo, natural. Nada ali parecia calculado.

Existe uma curiosidade fascinante sobre o nascimento da faixa-título. Diferentemente do que se poderia imaginar, “Overkill” não nasceu após horas de planejamento ou composição meticulosa. Foi praticamente um acidente feliz. Durante as gravações, Lemmy e Fast Eddie Clarke entraram no estúdio para um ensaio corriqueiro e encontraram Philthy Animal Taylor sozinho, martelando o kit de bateria enquanto tentava acertar a coordenação de uma levada que ainda parecia apenas um exercício. Quando o baterista estava prestes a parar, os dois perceberam que havia algo especial acontecendo e imediatamente pediram para ele continuar. Foi a partir daquele improviso que “Overkill” começou a ganhar forma.

Essa história explica muito sobre o próprio Motörhead. Nenhum dos três estava tentando reinventar o Heavy Metal, muito menos criar um novo subgênero. Eles simplesmente seguiram o instinto. A bateria de Philthy parecia empurrar a música para frente como um motor desgovernado, enquanto Lemmy encaixava seu baixo distorcido por cima daquela parede sonora e Fast Eddie completava o quebra-cabeça com riffs simples, porém extremamente eficientes. O que nasceu como uma improvisação acabou se transformando em um dos momentos mais importantes da história da música pesada.

O DNA do Speed Metal e do Thrash Metal

Philthy “Animal” Taylor — Photo: Rex Shutterstock

Hoje é fácil ouvir aquela introdução e enxergar o DNA do Speed Metal e do Thrash Metal, mas em 1979 aquilo era praticamente um idioma novo. Não por acaso, músicos que mais tarde ajudariam a construir esses estilos reconheceram a importância da música. Dave Lombardo, do Slayer, destacou o impacto daquela combinação entre bateria e baixo, enquanto Scott Ian, do Anthrax, afirmou que não há como superestimar a influência do Motörhead. Já Lars Ulrich, do Metallica, foi ainda mais longe ao dizer que Overkill é o álbum definitivo da banda e que a introdução da faixa-título mudou completamente sua percepção sobre o que uma bateria poderia fazer dentro do Heavy Metal.

Mas reduzir Overkill apenas à sua faixa de abertura seria cometer uma injustiça. O disco inteiro representa um salto gigantesco em relação ao debut de 1977. “Stay Clean” tornou-se um clássico absoluto e permaneceu no repertório da banda por praticamente toda a carreira. “No Class” virou um verdadeiro hino de irreverência, enquanto “Damage Case” sintetizava perfeitamente o estilo de vida cantado por Lemmy. Faixas como “Capricorn” e “Metropolis” ainda mantinham discretos ecos da passagem do baixista pelo Hawkwind, ao mesmo tempo em que “Limb From Limb” mostrava uma banda cada vez mais segura de sua identidade.

Outro detalhe importante é que boa parte dessas músicas já vinha sendo executada ao vivo antes das gravações. Isso permitiu que elas amadurecessem naturalmente na estrada, recebendo pequenos ajustes a cada apresentação. Essa experiência acabou fazendo enorme diferença no resultado final. O Motörhead finalmente teve tempo suficiente para desenvolver suas ideias em estúdio, algo que simplesmente não aconteceu durante a gravação do primeiro álbum, registrado às pressas em apenas três dias.

Apesar das críticas, o Motörhead era comercialmente viável

Lemmy Kilmister no Reading Rock Festival em 1979 — Photo: Staff/Mirrorpix/Getty Images

O sucesso de Overkill representou a primeira grande vitória comercial do trio. O álbum alcançou a 24ª posição nas paradas britânicas e colocou definitivamente o Motörhead no radar do público especializado. Mais importante do que qualquer número, porém, foi a percepção de que aquela banda deixava de ser apenas uma curiosidade underground para se tornar uma das forças criativas mais relevantes da música pesada britânica.

Anos depois, Lemmy resumiu muito bem a importância daquele trabalho. Para ele, Overkill foi o disco que finalmente provou que o Motörhead era uma banda de verdade. Talvez ele próprio nunca tenha percebido completamente o tamanho da revolução que havia ajudado a iniciar. Mas o tempo tratou de fazer esse reconhecimento. Sem Overkill, é difícil imaginar o nascimento do Thrash Metal exatamente como o conhecemos hoje.

Bomber: o Motörhead cresce sem ficar domesticado

Depois de Overkill, o Motörhead não perdeu tempo. Ainda em 1979, Lemmy Kilmister, Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor voltaram com Bomber, um disco que confirmou a ascensão da banda e mostrou que aquele trio não era um acidente. Em poucos meses, o Motörhead havia passado de promessa desacreditada a uma das forças mais perigosas da música pesada britânica.

Bomber não teve o mesmo impacto revolucionário de Overkill, mas consolidou a identidade do grupo. “Dead Men Tell No Tales” abriu o álbum com a ferocidade habitual, “Stone Dead Forever” trouxe um dos grandes momentos da fase clássica, “All The Aces” reforçou a ligação de Lemmy com jogos, risco e azar, enquanto a faixa-título “Bomber” deu ao disco um dos refrões mais marcantes daquela fase.

A capa e a turnê também ajudaram a aumentar a mitologia da banda. O Motörhead passou a usar uma estrutura de luz em formato de bombardeiro, algo gigantesco para uma banda que ainda carregava alma de clube sujo. Essa contradição sempre fez parte da graça. O trio crescia, chamava atenção, aparecia nas paradas e ganhava estrutura, mas continuava soando como se tivesse acabado de arrombar a porta dos fundos de um pub.

O sucesso de Bomber também colocou o Motörhead em um lugar curioso. A banda não era exatamente uma novata da NWOBHM, afinal Lemmy já vinha de outra geração. Porém, ao contrário de muitos veteranos, ele não olhava aquela cena com arrogância. O Motörhead entendeu que havia algo verdadeiro acontecendo ali. Bandas mais jovens queriam volume, velocidade, atitude e palco. Lemmy sabia reconhecer esse tipo de fome.

Motörhead, Saxon e a estrada como escola

Lemmy e o vocalista Biff Byford do Saxon no backstage

É nesse ponto que entra a relação do Motörhead com o Saxon. O grupo liderado por Biff Byford fez sua primeira grande turnê justamente ao lado do Motörhead, em 1979. Aquilo foi muito mais do que uma simples abertura de shows. Para o Saxon, significou entrar em contato direto com a realidade da estrada, do ônibus, dos hotéis, da correria diária e da vida sem pausa que moldava uma banda de verdade.

Biff Byford recordaria anos depois que aquela turnê foi um verdadeiro choque de realidade. Os integrantes do Saxon eram, nas palavras dele, garotos ingênuos de Yorkshire, enquanto o Motörhead já parecia viver em outro planeta. Havia excesso, festas, mulheres, substâncias, confusão e uma intensidade que assustava e fascinava ao mesmo tempo. Mesmo assim, a lembrança principal de Biff não foi de distância ou rivalidade. Pelo contrário: ele afirmou que o Motörhead ajudou muito o Saxon no início da carreira e que as duas bandas seguiram amigas para sempre.

Esse detalhe é importante porque ajuda a desmontar uma visão rasa sobre Lemmy. Ele podia ser grosseiro, direto, exagerado e completamente avesso a qualquer verniz social, mas também tinha um senso real de lealdade. Quando gostava de alguém, ajudava. Quando via verdade em uma banda, apoiava. O Motörhead não apadrinhou o Saxon com discurso bonito ou cerimônia oficial. Apadrinhou na prática, dividindo estrada, palco e experiência.

Esse espírito também explica por que o Motörhead transitava tão bem entre públicos diferentes. A banda podia tocar para punks, metalheads, bikers, fãs de Hard Rock e degenerados em geral sem parecer deslocada. Lemmy não precisava escolher uma tribo porque, em certa medida, ele pertencia a todas e a nenhuma. O Motörhead era um ponto de encontro para quem não queria pedir licença.

Ace Of Spades: o hino que virou maldição e bênção

Em 1980, o Motörhead lançou Ace Of Spades, o disco que levaria a banda ao seu maior patamar de reconhecimento popular. A essa altura, o trio já havia provado seu valor com Overkill e Bomber, mas ainda faltava aquele momento definitivo, a música capaz de atravessar décadas, furar bolhas e se tornar sinônimo do próprio nome da banda.

Curiosamente, Lemmy nunca tratou a faixa como uma grande obra-prima. Para ele, era uma boa música, com uma letra construída em cima de clichês de jogos de azar, cartas, blefes e derrota. Mas talvez esteja justamente aí a força da composição. “Ace Of Spades” parece apenas Lemmy descrevendo um modo de vida: nascer para perder, viver para ganhar, apostar tudo, rir da própria condenação e seguir em frente.

O produtor Vic Maile teve papel decisivo na construção da versão final. Foi ele quem ajudou a lapidar o riff central e a famosa quebra rítmica. Mesmo assim, nada ficou polido demais. Ace Of Spades soava mais claro do que os discos anteriores, mas ainda mantinha a sujeira, o volume e a insolência que definiam o Motörhead.

O álbum também está longe de depender apenas da faixa-título. “Love Me Like A Reptile” trouxe o lado mais debochado e venenoso, “Shoot You In The Back” mergulhou em um clima de faroeste sujo, “Live To Win” parecia uma declaração de sobrevivência, “The Chase Is Better Than The Catch” virou uma das grandes canções da fase clássica, e “The Hammer” fechava o disco com a pancada necessária.

O sucesso de “Ace Of Spades” também criou um paradoxo. A música se tornou tão grande que, para muita gente, acabou resumindo injustamente uma banda muito maior do que seu próprio hino. Lemmy sabia disso.

Girlschool, Headgirl e a camaradagem real do Rock N’ Roll

Lemmy Kilmister e Kelly Johnson (Girlschool) em 1980

Antes do grande estouro ao vivo de 1981, o Motörhead ainda protagonizou um daqueles capítulos que mostram como Lemmy funcionava fora da música. A parceria com o Girlschool, sob o nome Headgirl, rendeu o EP St. Valentine’s Day Massacre, lançado em 1981. A colaboração trouxe uma versão de “Please Don’t Touch”, de Johnny Kidd & The Pirates, além de releituras cruzadas entre as duas bandas.

Mais do que uma curiosidade de discografia, esse episódio mostra a ligação do Motörhead com a cena ao redor. Girlschool era uma das bandas mais importantes da NWOBHM, e Lemmy sempre demonstrou respeito genuíno por mulheres que tocavam Rock N’ Roll de verdade. Ele podia ser o último sujeito que alguém chamaria de politicamente correto, mas reconhecia talento sem paternalismo. Para ele, se a banda era boa, era boa. O resto era conversa fiada.

Motorhead & Girlschool

O EP também reforçou a imagem do Motörhead como uma banda que vivia o Rock N’ Roll em comunidade. Sendo assim, havia amizade, brincadeira, caos, respeito e uma dose permanente de insanidade. As histórias de bastidores entre Motörhead e Girlschool renderiam episódios absurdos, como a famosa pegadinha em que Lemmy colocou parte da cabeça de um porco dentro do case de guitarra de Kim McAuliffe. Era cruel? Talvez. Era típico de Lemmy? Completamente.

Esse tipo de história ajuda a explicar por que tantas pessoas do meio musical falavam dele com carinho. Lemmy podia parecer um personagem saído de uma distopia alcoólica, mas as amizades que construiu eram reais. Ele não se aproximava de artistas por conveniência promocional. Criava laços com quem compartilhava a mesma visão de mundo: tocar alto, viver sem pedir desculpas e não deixar a indústria engolir a alma.

No Sleep ’Til Hammersmith: o topo das paradas sem concessão

Em 1981, o Motörhead lançou No Sleep ’Til Hammersmith, seu primeiro álbum ao vivo. E é absolutamente simbólico que o único número 1 da banda no Reino Unido tenha sido justamente um registro de palco. O Motörhead nunca foi uma banda feita para ser entendida em escritório de gravadora. Era no show que tudo fazia sentido. O volume, a sujeira, a velocidade, o humor ácido, o caos e a comunhão com o público apareciam ali em estado puro.

O repertório reunia boa parte do que o trio havia construído até então. “Ace Of Spades”, “Stay Clean”, “Metropolis”, “No Class”, “Bomber”, “Overkill” e “Motörhead” apareciam como uma sequência de socos. Não havia pausa para sofisticação vazia. O disco capturava uma banda no auge de sua formação clássica, tocando como se cada show pudesse ser o último.

Há também uma curiosidade interessante no título. Apesar da referência ao Hammersmith Odeon, o álbum não foi exatamente gravado ali. Grande parte do material veio de apresentações em Leeds e Newcastle. O nome, no entanto, funcionava melhor como declaração de guerra. No Sleep ’Til Hammersmith não precisava ser geograficamente literal. Ele traduzia a vida de uma banda que parecia existir em movimento permanente.

O sucesso colocou o Motörhead no topo, mas também trouxe um problema. Como superar aquilo? A banda havia alcançado sua maior vitória comercial sem fazer nenhuma concessão. Não havia balada calculada, refrão domesticado, visual reformulado ou tentativa de parecer menos ameaçadora. O público simplesmente aceitou o Motörhead como ele era, mas este seria o começo de uma nova pressão. A formação clássica havia chegado ao ponto mais alto. Só que bandas como o Motörhead raramente permanecem estáveis por muito tempo. Havia excesso, cansaço, conflitos internos, pressão de gravadora e expectativas cada vez maiores.

Iron Fist: quando o sucesso começou a cobrar a conta

Em 1982, chegou Iron Fist, último álbum de estúdio da formação clássica com Lemmy Kilmister, Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor. O disco não é o desastre que muita gente pintou ao longo dos anos, mas claramente não tinha a mesma força de Overkill, Bomber ou Ace Of Spades. A banda ainda soava perigosa, porém já não parecia tão afiada. Faltava tempo, faltava respiro e talvez faltasse alguém de fora para organizar aquele caos.

Mesmo assim, Iron Fist tem seus momentos. A faixa-título virou presença constante nos shows, “Speedfreak” carregava aquela sujeira veloz típica do Motörhead, “Heart Of Stone” mantinha o peso direto, e “(Don’t Need) Religion” colocava Lemmy novamente contra uma de suas instituições favoritas para atacar: a religião organizada. A crítica ao dogma, à hipocrisia e à submissão espiritual sempre fez parte de sua escrita.

O problema é que Iron Fist saiu debaixo de uma sombra gigantesca. Depois de Ace Of Spades e No Sleep ’Til Hammersmith, qualquer disco pareceria menor. Além disso, a produção ficou nas mãos de Fast Eddie Clarke, e o próprio Lemmy admitiria depois que aquilo foi um erro. Não porque Eddie não fosse parte essencial da banda, mas porque o Motörhead precisava de alguém capaz de segurar a onda, dizer “não” quando fosse necessário e impedir que a pressa engolisse as músicas.

A turnê, por outro lado, mostrou que o Motörhead continuava pensando grande. A banda levou para a estrada um palco com uma estrutura enorme, incluindo um punho metálico e efeitos de cena que pareciam saídos de uma versão bêbada e barulhenta de Spinal Tap antes mesmo de Spinal Tap existir no imaginário popular. O trio queria espetáculo, impacto e exagero. Só que, enquanto a máquina crescia por fora, as rachaduras internas começavam a aparecer.

Stand By Your Man e a saída de Fast Eddie Clarke

Lemmy & Wendy O. Williams, vocalista do Plasmatics

A ruptura definitiva veio de uma forma quase absurda. Em 1982, Lemmy gravou com Wendy O. Williams, vocalista do Plasmatics, uma versão de “Stand By Your Man”, clássico country eternizado por Tammy Wynette. No papel, a ideia tinha a cara de Lemmy: provocar, misturar mundos improváveis, rir das expectativas e fazer exatamente aquilo que ninguém esperava que ele fizesse.

Para Fast Eddie Clarke, porém, aquilo passou do limite. O guitarrista não gostou da colaboração, não gostou do rumo da sessão e já vinha carregando incômodos com a forma como as decisões da banda aconteciam. O episódio acabou funcionando como estopim para uma crise que provavelmente já existia antes. Em pouco tempo, Eddie deixou o Motörhead no meio da turnê.

Foi uma perda gigantesca. Fast Eddie Clarke não era apenas “o guitarrista” da formação clássica. Ele era uma parte fundamental da identidade sonora do Motörhead. Seu estilo tinha Blues, Rock N’ Roll, sujeira, ataque e uma economia de notas que combinava perfeitamente com a voz e o baixo de Lemmy. Sem ele, a banda não perdia apenas um músico. Perdia um pedaço da química que havia transformado três homens em uma das formações mais importantes da história do Heavy Metal.

Mas Lemmy não era o tipo de sujeito que parava para lamentar por muito tempo. O Motörhead tinha shows marcados, uma estrada pela frente e nenhuma vocação para pedir licença ao destino. Se a formação clássica havia acabado, a banda simplesmente teria que seguir. A próxima escolha seria ousada, estranha e, durante algum tempo, profundamente incompreendida.

Brian Robertson: o guitarrista errado na banda certa, ou o contrário?

Brian Robertson, Lemmy Kilmister e Philthy “Animal” Taylor — Reprodução

Para ocupar o lugar de Fast Eddie Clarke, o Motörhead trouxe Brian “Robbo” Robertson, ex-Thin Lizzy. No papel, a escolha fazia sentido. Robbo vinha de uma das grandes bandas do Hard Rock dos anos 70, tinha personalidade, técnica, pegada, histórico de estrada e uma reputação de sujeito difícil o bastante para não parecer deslocado ao lado de Lemmy e Philthy Animal Taylor.

Na prática, porém, a mistura não seria simples. Brian Robertson era um guitarrista certamente mais melódico, mais refinado e mais interessado em nuances do que Fast Eddie Clarke. Isso não era um defeito. Pelo contrário, musicalmente ele ofereceu algo novo ao Motörhead. O problema é que a banda tinha uma identidade muito rígida aos olhos dos fãs. O público queria couro, volume, clássicos no repertório e aquela sensação de caminhão desgovernado. Robbo chegou usando roupas que pareciam desafiar justamente essa imagem e ainda se recusou, em determinados momentos, a tocar músicas fundamentais do catálogo.

Para muitos fãs, aquilo soou como heresia. Imagine o sujeito comprar ingresso para ver Motörhead e descobrir que o novo guitarrista não queria tocar “Ace Of Spades”, “Overkill” ou “Bomber”. Não importava o quanto ele tocasse bem. Havia um pacto entre banda e público, e Robbo parecia pouco interessado em respeitar esse pacto. Lemmy, que sempre defendeu a liberdade individual, também entendia a obrigação de entregar ao público aquilo que o público reconhecia como Motörhead.

Ainda assim, seria injusto reduzir essa fase apenas ao choque visual e comportamental. Brian Robertson trouxe ideias importantes. Ele abriu espaço para melodias diferentes, fraseados mais elaborados e uma abordagem menos previsível.

Another Perfect Day: rejeitado na época, respeitado depois

Em 1983, o Motörhead lançou Another Perfect Day, único álbum de estúdio com Brian Robertson na guitarra. Durante muito tempo, esse disco foi tratado como um corpo estranho dentro da discografia. Hoje, porém, muita gente enxerga o álbum de outra forma. Ele continua diferente, mas talvez seja justamente seu maior valor.

Back At The Funny Farm” abre o disco com energia suficiente para lembrar que ainda estamos falando do Motörhead. “Shine” traz uma pegada mais melódica e mostra claramente a presença de Robbo na construção do som. “Dancing On Your Grave” tem um dos refrões mais fortes daquela fase e “Die You Bastard!” encerra tudo com a brutalidade que o público esperava.

O disco parecia mais limpo, mais trabalhado e mais musicalmente sofisticado do que os fãs estavam acostumados a receber do Motörhead. Para alguns, isso significava evolução. Para outros, traição. Sendo assim, a verdade talvez esteja no meio do caminho. Another Perfect Day não é o Motörhead em sua forma mais clássica, mas é uma das provas de que Lemmy nunca teve tanto medo de mudança quanto alguns fãs imaginavam.

O problema é que a química pessoal da formação não sustentou a experiência. Robbo não se encaixou plenamente na cultura da banda, a turnê enfrentou dificuldades, o público reagiu mal a certas escolhas de repertório e a relação interna começou a se desgastar. No fim de 1983, a passagem do guitarrista chegou ao fim. Ele deixou um álbum polêmico e uma pergunta que ainda hoje rende conversa entre fãs: Another Perfect Day foi um erro ou uma joia incompreendida?

Para nós, a resposta parece clara: não foi erro. Foi uma tentativa corajosa que aconteceu na hora errada, com a pessoa errada para a dinâmica da banda, mas com músicas fortes o bastante para sobreviver ao preconceito inicial.

No Remorse: Lemmy reconstrói o Motörhead

Flyer de lançamento da coletânea No Remorse

Depois da saída de Brian Robertson, Lemmy precisava reconstruir o Motörhead. Em vez de procurar um substituto, ele tomou uma decisão que mudaria o formato da banda: trouxe dois guitarristas. Phil Campbell e Michael “Würzel” Burston entraram juntos, formando uma linha de frente mais encorpada e agressiva. Pouco depois, Pete Gill, ex-Saxon, assumiu a bateria no lugar de Philthy Animal Taylor.

Essa nova formação marcou o começo de outra era. Phil Campbell se tornaria uma das figuras mais importantes da história do Motörhead, enquanto Würzel adicionaria a energia caótica que combinava bem com a proposta da banda. Pete Gill, por sua vez, trazia experiência, o que ajudava a manter o grupo conectado à cena que o Motörhead havia ajudado a fortalecer anos antes.

Em 1984, chegou No Remorse, uma coletânea que poderia soar apenas como produto de gravadora, mas acabou virando algo maior. O material revisava os anos de Bronze Records, mas apresentava músicas novas com a nova formação. Entre elas, “Killed By Death” se destacou inegavelmente e virou um dos grandes hinos de Lemmy. A frase parecia resumir não apenas uma música, mas uma filosofia inteira: se a morte vai vencer no fim, ao menos que encontre alguém de pé, rindo e fazendo barulho.

Snaggletooth”, “Steal Your Face” e “Locomotive” sobretudo mostravam que o novo Motörhead não pretendia viver de passado. Assim, a aparição no programa The Young Ones, em 1984, ajudou a apresentar essa fase para um público mais jovem. O Motörhead tocou “Ace Of Spades” em uma das cenas mais lembradas da televisão britânica, misturando comédia alternativa, juventude barulhenta e aquele velho monstro chamado Rock N’ Roll. O Motörhead havia perdido a formação clássica, enfrentado rejeição, mudanças internas, bem como decisões questionáveis.

Orgasmatron: Lemmy prova que o Motörhead sobreviveria sem a formação clássica

Depois de No Remorse, o Motörhead precisava de mais do que uma boa coletânea. A banda precisava provar que ainda podia lançar um álbum de inéditas forte, relevante e totalmente alinhado à sua identidade. Dessa forma, foi nesse cenário que Orgasmatron chegou, em 1986, abrindo a fase do Motörhead como quarteto. Para Lemmy Kilmister, aquele disco carregava uma missão silenciosa: mostrar que o Motörhead não era apenas a soma nostálgica de três figuras clássicas. A banda podia mudar de pele, mas continuaria sendo Motörhead.

A produção de Bill Laswell sempre dividiu opiniões. Para alguns fãs, o som ficou abafado demais, especialmente na bateria. Para outros, aquela massa sonora mais densa e encardida surpreendentemente combinou com o peso das composições. Seja como for, Orgasmatron tem uma aura própria. Não soa como a fase clássica, não tenta copiar Ace Of Spades, mas também não repete a experiência melódica de Another Perfect Day. É um disco mais sombrio, mais pesado e mais carregado de rancor.

Deaf Forever” abriu o álbum como uma marcha de guerra, “Nothing Up My Sleeve” retomou a velocidade sem firula, “Built For Speed” reafirmou a velha filosofia da estrada, “Doctor Rock” trouxe aquele humor sujo típico de Lemmy, e a faixa-título se tornou um dos momentos líricos mais poderosos de toda a carreira da banda.

Ataque frontal contra estruturas de poder

Formação do álbum Orgasmatron, com Würzel, Lemmy, Pete Gill e Phil Cambell — Photo: Fin Costello/Redferns

Orgasmatron merece destaque especial porque mostra Lemmy em um nível muito acima da caricatura do sujeito que só cantava sobre sexo, estrada, apostas e bebida. A letra é sobretudo um ataque frontal contra estruturas de poder. Religião, política e guerra aparecem como mecanismos de controle, prazer substituto, violência organizada e submissão coletiva. É o tipo de música que explica por que o Motörhead nunca foi apenas uma banda barulhenta. Havia pensamento ali. Também havia ódio bem direcionado. Havia leitura de mundo.

O mais interessante é que, enquanto o Motörhead voltava com Orgasmatron, o Thrash Metal explodia ao redor. Em 1986, discos como Master Of Puppets, do Metallica, Reign In Blood, do Slayer, e Peace Sells… But Who’s Buying?, do Megadeth, ajudavam a definir uma nova era da música pesada. De certa forma, o Motörhead voltava para uma cena que ele próprio havia ajudado a criar. Só que agora os filhos corriam mais rápido, batiam mais forte e formavam rodas de violência que até Lemmy estranhava em alguns shows.

Essa é uma das ironias mais bonitas da história da banda. O Motörhead influenciou o Thrash Metal, mas nunca tentou se transformar em uma banda de Thrash Metal. Lemmy não corria atrás da cena. A cena é que, muitas vezes, corria atrás dele.

Rock ‘N’ Roll: entre a teimosia, o caos e a volta de Philthy

Em 1987, o Motörhead lançou Rock ‘N’ Roll, um título que parecia recado direto para qualquer um que ainda tentasse enquadrar a banda dentro de uma caixinha definitiva. Lemmy podia aceitar a devoção dos fãs de Heavy Metal, podia tocar em festivais de Metal e podia influenciar praticamente todas as vertentes mais rápidas e extremas do gênero. Ainda assim, quando alguém perguntava o que ele fazia, a resposta continuava sendo a mesma: Rock N’ Roll.

O disco marcou a volta de Philthy Animal Taylor à bateria, substituindo Pete Gill. A reunião não trouxe de volta a formação clássica, mas recuperou uma peça importante da história da banda. Ao lado de Phil Campbell e Würzel, Philthy ajudou a manter o Motörhead em movimento durante uma fase em que o mercado já não parecia saber exatamente o que fazer com o grupo.

Rock ‘N’ Roll”, “Eat The Rich”, “Dogs”, “Traitor” e “Boogeyman” sustentam bem essa etapa. Não se trata de um disco tão marcante quanto Overkill, Ace Of Spades ou Orgasmatron, mas ele carrega uma sinceridade que sempre salvou os momentos menos celebrados da banda.

A faixa “Eat The Rich” também se conectou ao filme de mesmo nome, lançado naquele período, e reforçou a relação de Lemmy com o humor ácido, a provocação social e a cultura britânica mais anárquica. Como ator, ele nunca precisou representar muito. Bastava aparecer em cena para que o personagem já viesse pronto: o sujeito perigoso demais para ser inventado por roteiristas comportados.

Mesmo assim, a segunda metade dos anos 80 foi difícil. O Motörhead continuava respeitado, continuava na estrada e continuava influenciando bandas que vendiam muito mais discos, mas não recebia do mercado o retorno proporcional ao tamanho de sua importância.

1916: quando Lemmy mostrou que também sabia sangrar

Em 1991, 1916 trouxe uma nova virada. O disco apresentou um Motörhead mais variado, mais maduro e, em alguns momentos, surpreendentemente emocional. A banda ainda sabia acelerar e atacar, mas havia ali um senso de composição mais amplo. Lemmy parecia menos preocupado em provar que podia ser brutal e mais interessado em mostrar que brutalidade não era a única arma disponível.

The One To Sing The Blues” abriu o álbum em alta rotação, com Philthy Animal Taylor mostrando que ainda podia empurrar o som com violência. “I’m So Bad (Baby I Don’t Care)” trouxe o sarcasmo clássico de Lemmy, “No Voices In The Sky” colocou novamente sua crítica contra religião e autoridade, “Going To Brazil” virou uma celebração de estrada com gosto especial para o público brasileiro, e “R.A.M.O.N.E.S.” prestou homenagem direta a uma das bandas que melhor entendia a mesma lógica do Motörhead: canções curtas, diretas, barulhentas e sem qualquer paciência para enfeite inútil.

Um compositor muito melhor do que pensavam

Lemmy — Photo: Neil Zlozower

Mas é a faixa-título que transforma 1916 em um disco especial. Com “1916”, Lemmy saiu completamente do lugar esperado. Em vez de cantar como o sobrevivente invencível de sempre, ele assumiu a perspectiva de um jovem soldado destruído pela guerra. A música não precisa de velocidade para pesar. Ela pesa pela imagem, pela narrativa e pela tristeza. É um dos momentos mais fortes de sua carreira como letrista.

Esse tipo de canção é importante porque desmonta a visão preguiçosa de que Lemmy era apenas um ícone de excessos. Ele era, sim, tudo isso: o bar, a máquina caça-níqueis, o cigarro, o copo, a jaqueta, a estrada e a voz rouca. Mas também era um escritor muito mais atento do que muitos críticos perceberam. Quando queria, conseguia ser direto sem ser raso, sentimental sem ser piegas e político sem virar panfleto.

A indicação de 1916 ao Grammy de Melhor Performance de Metal, em 1992, teve um gosto curioso. O Motörhead nunca precisou da validação da indústria, e Lemmy certamente não era o sujeito mais indicado para sorrir diante de uma plateia engravatada. Ainda assim, aquela indicação reconhecia, mesmo que tarde e de forma limitada, que a banda seguia relevante. O problema é que reconhecimento simbólico não paga contas, não resolve contrato ruim e não transforma automaticamente respeito em dinheiro.

Ozzy Osbourne, No More Tears e o dinheiro que o Motörhead nunca deu

Lemmy Kilmister e Ozzy Osbourne — Photo: Stephen Payne

No começo dos anos 90, aconteceu um dos episódios mais curiosos da vida de Lemmy fora do Motörhead. Sua amizade com Ozzy Osbourne renderia não apenas histórias de bastidor, mas também uma colaboração decisiva em No More Tears, um dos álbuns mais importantes da carreira solo de Ozzy.

Lemmy ajudou a escrever músicas como “Mama, I’m Coming Home”, “I Don’t Want To Change The World”, “Desire” e “Hellraiser”. Para muita gente, pode parecer estranho imaginar o líder do Motörhead envolvido em uma balada tão emocional quanto “Mama, I’m Coming Home”, mas isso apenas reforça o que 1916 já deixava claro: Lemmy sabia escrever de dentro da cabeça dos outros. Ele entendia personagens, emoções, frases diretas e imagens fortes.

O próprio Lemmy contaria depois que estava quebrado quando se mudou para os Estados Unidos e recebeu de Sharon Osbourne o convite para escrever para Ozzy. A quantia paga pelas composições foi maior do que qualquer dinheiro que ele havia visto com o Motörhead, mesmo quando a banda chegou ao número 1 com No Sleep ’Til Hammersmith. A ironia é brutal: um dos homens mais influentes da música pesada ganhou mais dinheiro escrevendo para outro artista do que sustentando por anos a banda que ajudou a moldar o Heavy Metal moderno.

Sinceridade e respeito a própria obra

Segundo Lemmy: “Eu me diverti escrevendo músicas para Ozzy porque quando vim para a América eu estava quebrado, não tinha nada no banco”

Esse episódio diz muito sobre o lugar do Motörhead na história. A banda influenciou gigantes, inspirou músicos milionários, abriu caminhos para cenas inteiras e virou referência de autenticidade. Mesmo assim, nunca colheu financeiramente algo proporcional ao tamanho de sua obra.

Lemmy não era ingênuo. Ele sabia que havia sido explorado, subestimado e mal pago. Mas também sabia que tinha criado algo que dinheiro nenhum conseguiria fabricar. A amizade com Ozzy Osbourne também mostra outro lado de Lemmy. Ele podia ser ácido, debochado e impiedoso em suas opiniões, mas mantinha relações sinceras com figuras que respeitava.

Não era networking. Era camaradagem de sobreviventes. Dois homens que passaram por excessos, tragédias, palcos gigantes, quartos de hotel e momentos em que provavelmente nem eles mesmos acreditavam que chegariam vivos ao dia seguinte.

March ör Die: transição, convidados famosos e a chegada de Mikkey Dee

Em 1992, o Motörhead lançou March ör Die, um disco de transição em praticamente todos os sentidos. A banda vivia mudanças internas, troca de empresário, tensão com formação e um período turbulento nos Estados Unidos. Parte do álbum foi gravada em Hollywood durante os distúrbios de Los Angeles, o que por si só já daria um capítulo à parte para qualquer biografia.

O disco também marcou o fim definitivo da passagem de Philthy Animal Taylor pelo Motörhead. Três bateristas participaram das gravações: Philthy, Tommy Aldridge e Mikkey Dee. March ör Die trouxe convidados de peso. Ozzy Osbourne apareceu em “I Ain’t No Nice Guy”, uma faixa que também contou com Slash, do Guns N’ Roses. No papel, a combinação parecia perfeita para aproximar o Motörhead de um público maior em plena era de grandes clipes, rádio pesada e mercado americano. Na prática, o disco acabou sendo recebido de forma irregular.

I Ain’t No Nice Guy” mostra um Lemmy mais confessional, quase encarando sua própria reputação com uma mistura de humor e cansaço. “Hellraiser” funciona melhor como ponte entre os mundos de Ozzy e Motörhead, enquanto “Bad Religion”, “Stand” e a faixa-título mantêm a banda dentro de seu território natural. Ainda assim, March ör Die soa menos como chegada e mais como passagem.

A chegada de Mikkey Dee mudaria tudo. Lemmy já conhecia o baterista da época em que o King Diamond havia excursionado com o Motörhead, e já tinha tentado trazê-lo antes. Quando finalmente deu certo, a química apareceu rápido. Ele entrou para garantir que o Motörhead tivesse futuro. A partir dali, a banda encontraria sua formação mais estável com Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee.

Bastards: Lemmy encontra novo fôlego com Mikkey Dee

Depois de March ör Die, o Motörhead precisava reencontrar brutalidade, foco e identidade. O disco anterior tinha bons momentos, convidados famosos e músicas importantes, mas também carregava a sensação de uma banda atravessando uma transição complicada. A entrada definitiva de Mikkey Dee mudou esse cenário. Pela primeira vez em anos, Lemmy Kilmister parecia ter ao seu lado um baterista capaz de empurrar o Motörhead para frente sem tentar imitar o passado.

Em 1993, chegou Bastards, primeiro álbum de estúdio gravado integralmente com Mikkey Dee na bateria. A formação ainda tinha Phil Campbell e Würzel nas guitarras, mantendo o grupo como quarteto, mas havia uma diferença clara em relação aos anos anteriores. O som parecia mais seco, mais direto e mais agressivo. Bastards não tentava conquistar rádio, não buscava modernizar o Motörhead para a década do Grunge e não parecia interessado em pedir desculpas por soar como Motörhead.

Faixas como “On Your Feet Or On Your Knees”, “Burner”, “Death Or Glory” e “Born To Raise Hell” mostravam uma banda novamente afiada. “Burner”, em especial, parecia uma resposta violenta para qualquer um que achasse que Lemmy havia perdido força. A música corre como se o trio/quarteto estivesse tentando provar que ainda poderia competir em intensidade com bandas muito mais jovens, inclusive aquelas que haviam aprendido a ser rápidas ouvindo o próprio Motörhead.

Condenados por não se render ao sistema

Phil Campbell, Mikkey Dee, Lemmy e Würzel — Reprodução

Mas o grande ponto fora da curva de Bastards talvez seja “Don’t Let Daddy Kiss Me”. A música aborda abuso infantil de maneira desconfortável, direta e sem qualquer verniz. É uma das letras mais pesadas de Lemmy, não pelo volume, mas pelo tema. Mais uma vez, ele mostrava que não era apenas o personagem da bebida, do cigarro, do jogo e da estrada. Por trás da caricatura construída ao redor de sua imagem, existia um letrista capaz de encarar temas horríveis sem transformar dor em espetáculo barato.

Born To Raise Hell” também ganharia vida própria pouco depois, especialmente por sua ligação com o filme Airheads. A versão com Ice-T e Whitfield Crane, do Ugly Kid Joe, ajudou a colocar Lemmy em contato com uma geração que talvez não estivesse chegando ao Motörhead pelos discos clássicos. Era uma aparição perfeita para ele: uma comédia sobre uma banda desesperada tentando ser ouvida em um mundo ridículo. De certa forma, Lemmy passou a vida inteira entendendo esse tipo de absurdo.

O problema é que Bastards não recebeu o empurrão que merecia. O álbum é frequentemente citado por fãs como um dos grandes trabalhos subestimados da discografia, mas saiu em uma fase em que o Motörhead já não tinha a máquina certa por trás. A banda seguia respeitada, seguia na estrada e seguia influenciando gente enorme, mas ainda parecia condenada a operar abaixo do tamanho real de sua importância.

Sacrifice: o último disco com Würzel

Em 1995, o Motörhead lançou Sacrifice, segundo e último álbum de estúdio da formação com Lemmy Kilmister, Phil Campbell, Würzel e Mikkey Dee. Se Bastards havia recuperado energia, Sacrifice trouxe um som ainda mais pesado, mais metálico e mais fechado. Não era exatamente uma tentativa de virar uma banda moderna, mas havia ali uma densidade diferente, talvez influenciada pelo peso que dominava parte da música pesada naquele período.

A faixa-título “Sacrifice” se tornou o grande momento do disco. Rápida, agressiva e marcada por uma bateria absurda de Mikkey Dee, ela logo entrou para a lista de pancadas obrigatórias daquela fase. “Sex & Death”, “Over Your Shoulder”, “War For War” e “Order/Fade To Black” também reforçavam o caráter mais bruto do álbum. O Motörhead não estava tentando soar amigável. Na verdade, nunca tentou.

Durante as sessões, porém, ficou claro que Würzel já não estava no mesmo estado de espírito. Sua saída após a gravação encerrou de vez a fase do Motörhead como quarteto. A partir dali, Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee decidiram seguir como trio. A escolha fazia sentido. O Motörhead havia nascido como trio, atingido seu auge clássico como trio e, agora, encontrava uma nova configuração capaz de durar muito mais do que qualquer outra formação da banda.

Essa decisão também foi simbólica. Em vez de substituir Würzel e manter uma parede de duas guitarras por obrigação, Lemmy preferiu reduzir a formação ao essencial. Era como se o Motörhead olhasse para a própria história e dissesse: “não precisamos de mais nada além do necessário para fazer barulho”. O novo trio não seria uma recriação da fase com Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor. Seria outra coisa. Mais precisa, mais estável e mais resistente.

Metallica, The Lemmys e o reconhecimento dos filhos

James Hetfield do Metallica & Lemmy em 1996 — Reprodução

Ainda em 1995, aconteceu uma das homenagens mais simbólicas já feitas a Lemmy. Durante a comemoração de seu aniversário de 50 anos no Whisky A Go Go, em Los Angeles, os integrantes do Metallica subiram ao palco vestidos como ele, usando perucas, costeletas e o visual clássico do líder do Motörhead. Naquela noite, eles tocaram sob o nome The Lemmys.

O repertório foi composto por covers do Motörhead, incluindo “Overkill”, “Damage Case”, “Stone Dead Forever”, “Too Late Too Late”, “The Chase Is Better Than The Catch” e “We Are The Road Crew”. Para qualquer banda, receber uma homenagem do Metallica naquele período já seria enorme. Mas, no caso de Lemmy, havia algo mais profundo. Não era um gesto protocolar. Era uma reverência dos filhos para um dos pais espirituais do Thrash Metal.

Lemmy & Metallica ao vivo em Nashville, 2009

O Metallica nunca escondeu sua dívida com o Motörhead. Lars Ulrich sempre falou sobre o impacto de ouvir Overkill, enquanto James Hetfield, Kirk Hammett e Jason Newsted carregavam na própria formação musical essa mistura de Heavy Metal, Punk e velocidade que Lemmy ajudou a tornar possível. Ao se vestirem como ele, os integrantes do Metallica não estavam apenas brincando com uma imagem icônica. Eles estavam reconhecendo isso publicamente.

O mais interessante é que esse tipo de homenagem também expõe a contradição central da carreira do Motörhead. A banda nunca vendeu como Metallica, nunca teve a mesma presença nas rádios, nunca ocupou o mesmo espaço dentro da indústria e nunca virou um império comercial. Mesmo assim, sem Motörhead, uma parte importante do caminho até Metallica simplesmente não existiria. Essa é a diferença entre sucesso e influência. O sucesso aparece em números. A influência aparece quando os gigantes apontam para você e dizem: “aprendemos aqui”.

Overnight Sensation: a formação definitiva toma forma

Em 1996, o Motörhead lançou Overnight Sensation, primeiro álbum com Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee como trio. O título carregava o humor típico da banda. Depois de mais de vinte anos de estrada, chamar um disco de “sensação da noite para o dia” era quase uma piada interna. O Motörhead jamais foi sensação instantânea de coisa nenhuma. Foi construído no volume, na persistência, no desgaste e na teimosia.

Musicalmente, o disco mostrou que a nova formação funcionava. Phil Campbell, agora como único guitarrista, precisou ocupar mais espaço, e isso acabou fortalecendo sua identidade dentro da banda. Mikkey Dee trouxe precisão e potência, enquanto Lemmy continuou sendo o centro gravitacional de tudo. A formação soava enxuta, direta e muito mais estável do que a banda vinha parecendo em alguns momentos dos anos anteriores.

Civil War” abriu o disco com energia, “Crazy Like A Fox” trouxe uma pegada mais sacana e tradicional, “I Don’t Believe A Word” mostrou um lado mais sombrio e arrastado, “Eat The Gun” recuperou a urgência, enquanto a faixa-título “Overnight Sensation” parecia rir da própria indústria. O disco não reinventou o Motörhead, mas deixou claro que a banda havia encontrado um novo eixo.

A partir dali, Phil Campbell e Mikkey Dee deixaram de ser apenas músicos da fase tardia e passaram a formar, ao lado de Lemmy, a encarnação definitiva dos últimos vinte anos do grupo. Essa é uma parte da história que às vezes recebe menos carinho do que deveria. Muita gente olha para o Motörhead e enxerga apenas a formação clássica, mas a longevidade da banda dependeu profundamente dessa tríade final.

Snake Bite Love e a sobrevivência sem se render a moda

Em 1998, veio Snake Bite Love, um disco frequentemente esquecido quando se fala da discografia do Motörhead. Ele não ocupa o mesmo lugar de Overkill, Ace Of Spades, Orgasmatron ou Bastards, mas ajuda a entender a postura da banda no fim dos anos 90. Enquanto o mercado mudava de direção a cada dois anos, Lemmy continuava fazendo o que sempre fez. Sem pedir licença, sem parecer desesperado por atualização e sem tentar soar como qualquer tendência do momento.

Love For Sale”, “Dogs Of War”, “Assassin”, “Snake Bite Love” e “Take The Blame” mostram um Motörhead funcional, firme e coerente. Talvez não seja um disco brilhante, mas é um disco honesto. E honestidade, no caso do Motörhead, sempre valeu mais do que cálculo.

A banda já havia atravessado o Punk, a NWOBHM, o Thrash Metal, o Glam Metal, o Grunge e o começo da era alternativa sem deixar que nenhuma dessas ondas ditasse suas regras. Esse talvez seja um dos pontos mais admiráveis da carreira de Lemmy. Ele não ignorava o mundo ao redor, mas também não se ajoelhava para ele. O Motörhead podia soar mais inspirado em alguns discos e menos em outros, mas nunca soava falso.

Everything Louder Than Everyone Else: o Motörhead ao vivo no fim dos anos 90

Em 1999, o Motörhead lançou Everything Louder Than Everyone Else, gravado em Hamburgo, na Alemanha, durante a turnê de Snake Bite Love. O título, como quase sempre, parecia uma declaração de princípios. A banda não prometia ser a mais virtuosa, a mais moderna ou a mais vendável. Prometia ser mais alta do que todo mundo.

O disco ao vivo é importante porque registra a formação Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee já plenamente estabelecida. O repertório atravessa diferentes fases da carreira, colocando clássicos como “Ace Of Spades”, “Overkill”, “Bomber” e “No Class” ao lado de músicas mais recentes. Isso ajudava a mostrar que o Motörhead não era uma banda vivendo apenas de nostalgia. Havia passado, mas também havia presente.

Ao vivo, Mikkey Dee provava todas as noites por que foi uma escolha tão importante. Seu estilo era mais técnico e mais preciso do que o de Philthy Animal Taylor, mas sem perder violência. Phil Campbell, por sua vez, já parecia completamente confortável como único guitarrista, preenchendo o espaço sem tentar transformar o Motörhead em algo que ele não era. No centro, Lemmy seguia como sempre: baixo apontado para cima, microfone alto demais, voz rasgada e a postura de quem parecia desafiar o próprio tempo.

We Are Motörhead: a virada do milênio sem ajoelhar

Em 2000, o Motörhead entrou no novo milênio com We Are Motörhead. O título era simples e definitivo. Não havia conceito mirabolante, tentativa de reposicionamento ou discurso sobre modernidade. Era apenas uma afirmação: nós somos o Motörhead. Depois de tudo o que a banda havia atravessado, isso bastava.

O disco trouxe “See Me Burning”, “Slow Dance”, “Stay Out Of Jail”, “Out To Lunch”, “Wake The Dead” e a faixa-título “We Are Motörhead”. Também incluiu uma versão para “God Save The Queen”, do Sex Pistols, escolha absolutamente coerente com a história de Lemmy. Afinal, o Motörhead sempre teve uma relação natural com o Punk. Não como pose, mas como espírito. A banda compartilhava com o Punk Rock a urgência, o deboche, a recusa em pedir aprovação e o desprezo por polimento excessivo.

A versão de “God Save The Queen” funcionava como um lembrete de que o Motörhead jamais pertenceu a uma única família. Era pesado demais para alguns roqueiros, sujo demais para certos metalheads, velho demais para a indústria jovem e jovem demais em espírito para virar relíquia. Esse deslocamento constante talvez explique por que a banda nunca foi completamente domesticada. O Motörhead existia em um território próprio.

Ao chegar aos anos 2000, Lemmy já não precisava provar absolutamente nada. Mesmo assim, continuava provando. A cada turnê, a cada disco e a cada noite em cima do palco, ele reforçava uma ideia simples: o Motörhead não era uma fase, uma moda ou uma peça de museu. Era uma máquina de estrada. E enquanto a máquina ainda estivesse funcionando, ela seguiria fazendo exatamente o barulho que queria fazer.

Hammered: Lemmy, WWE e o Motörhead como cultura pop

Depois de entrar no novo milênio com We Are Motörhead, a banda voltou em 2002 com Hammered, um disco que não costuma aparecer entre os mais lembrados da discografia, mas ajuda a entender o alcance que Lemmy Kilmister havia conquistado fora do público tradicional do Heavy Metal. A essa altura, o Motörhead já era mais do que uma banda. Era uma linguagem. Quando alguém queria transmitir sujeira, força, estrada, rebeldia e autenticidade sem precisar explicar muito, bastava aproximar a imagem de Lemmy.

Um dos exemplos mais interessantes dessa fase veio da relação com a WWE. Motörhead gravou “The Game”, tema de entrada de Triple H, uma das figuras mais importantes da luta livre americana naquele período. O Motörhead sempre teve algo de arena, de confronto e de ritual físico. Portanto, a conexão com a WWE fazia mais sentido do que poderia parecer à primeira vista.

Motorhead & Triple H, from WWE

Hammered também trouxe músicas como “Walk A Crooked Mile”, “Brave New World”, “Mine All Mine”, “Shut Your Mouth” e “Dr. Love”. Não era um disco revolucionário, mas seguia dentro daquela lógica dos anos finais do Motörhead: um trabalho honesto, direto, sem grandes concessões e com a formação Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee cada vez mais entrosada.

O detalhe mais curioso é que, enquanto parte da crítica ainda tratava o Motörhead como se a banda repetisse sempre a mesma fórmula, o mundo ao redor parecia cada vez mais disposto a usar sua estética, sua energia e seu símbolo de autenticidade. Lemmy aparecia em filmes, programas, documentários, eventos, homenagens e colaborações. Ele virou uma espécie de atalho cultural para dizer: “isto aqui é Rock N’ Roll de verdade”.

Inferno: uma das grandes pancadas da fase final

Em 2004, o Motörhead lançou Inferno, disco que muitos fãs consideram um dos pontos mais altos da fase moderna da banda. A entrada do produtor Cameron Webb fez diferença. O som ficou mais pesado, mais definido e mais agressivo, sem apagar a sujeira natural do grupo. Era como se alguém finalmente conseguisse colocar em estúdio a força daquela formação sem tentar civilizá-la.

O álbum já abre com “Terminal Show”, faixa que conta com participação de Steve Vai. O guitarrista também aparece em “Down On Me”, adicionando um brilho técnico que não descaracteriza o Motörhead. Esse é um detalhe importante: Steve Vai poderia soar deslocado em uma banda tão direta, mas sua participação funciona porque não tenta transformar a música em exibição de virtuosismo. Ele entra como convidado dentro de uma máquina que já estava em movimento.

Além de “Terminal Show”, o disco trouxe pancadas como “Killers”, “In The Name Of Tragedy”, “Suicide”, “Life’s A Bitch” e “In The Black”. Mikkey Dee aparece especialmente monstruoso nesse período, tocando com precisão, força e velocidade, enquanto Phil Campbell já dominava completamente o papel de único guitarrista. Lemmy, por sua vez, parecia cada vez mais confortável na pele do sobrevivente que não precisava se adaptar ao mundo.

O grande desvio de Inferno veio no encerramento, com “Whorehouse Blues”. A faixa colocou os três músicos em clima acústico, com Lemmy também na harmônica. Em vez de soar como uma tentativa forçada de “mostrar versatilidade”, a música funcionou porque sempre existiu Blues dentro do Motörhead. Inferno provou que o Motörhead ainda podia soar necessário no século 21. Não era uma banda vivendo de passado, nem uma relíquia tentando se manter relevante por nostalgia.

Whiplash, Metallica e o Grammy mais irônico da carreira

A cara de Phil Campbell resume a história

Em 2005, aconteceu uma das maiores ironias da história do Motörhead. A banda venceu o Grammy de Melhor Performance de Metal por sua versão de “Whiplash”, do Metallica. Depois de décadas influenciando o Thrash Metal, depois de ouvir músicos do Metallica reverenciarem Lemmy publicamente e depois de ver sua própria linguagem ser absorvida por bandas que venderam muito mais discos, o Motörhead ganhou seu principal prêmio da indústria justamente tocando uma música de um de seus filhos mais famosos.

A versão de “Whiplash” fazia todo sentido. O próprio Mikkey Dee explicou que Motörhead amava Metallica, que Metallica amava Motörhead, e que aquela música tinha elementos que combinavam perfeitamente com a banda: caixa, riffs e velocidade. Ainda assim, ele também tratou a vitória como uma ironia, porque o prêmio teria significado mais se viesse por uma composição própria.

Essa observação é fundamental. O Grammy reconheceu o Motörhead, mas fez isso de maneira torta, quase atrasada e sem compreender completamente o peso histórico da banda. Não premiou “Overkill”, não premiou “Ace Of Spades”, não premiou “Orgasmatron”, não premiou “1916” e não premiou Inferno. Premiou uma releitura do Metallica, justamente uma banda que sempre deixou claro o quanto devia a Lemmy.

Mesmo assim, o momento teve sua beleza. Era como se a história desse uma volta estranha, imperfeita e muito típica do Motörhead. A indústria podia até errar o caminho, mas finalmente precisou reconhecer aquela banda. E, no fim, talvez fosse melhor assim. Nada na trajetória do Motörhead aconteceu da maneira “correta”. Por que o Grammy aconteceria?

Kiss Of Death e Motörizer: consistência em vez de reinvenção

Depois de Inferno e do Grammy, o Motörhead seguiu trabalhando como sempre. Em 2006, lançou Kiss Of Death, e em 2008 veio Motörizer. Esses discos mostram uma característica importante da fase final: a banda não buscava reinvenção, mas consistência. Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee haviam encontrado um método. Entravam em estúdio, escreviam músicas diretas, gravavam com energia e voltavam para a estrada.

Kiss Of Death trouxe faixas como “Sucker”, “One Night Stand”, “Devil I Know”, “Christine” e “Kingdom Of The Worm”. Já Motörizer veio com “Runaround Man”, “Teach You How To Sing The Blues”, “Rock Out”, “Buried Alive” e “The Thousand Names Of God”. Nenhum desses discos precisava carregar a responsabilidade de redefinir a história da banda. Eles funcionavam como registros de uma formação sólida, profissional e ainda faminta.

Essa é uma fase que alguns fãs tratam com menos atenção do que deveria. Talvez porque o Motörhead tenha se tornado tão confiável que a própria regularidade passou a ser confundida com ausência de novidade. Mas existe algo admirável em uma banda que envelhece sem trair sua identidade. Lemmy não acordou nos anos 2000 tentando soar como bandas modernas. Também não se colocou em uma vitrine nostálgica, fingindo que os últimos vinte anos não existiam. Ele apenas continuou.

Nesse período, a imagem de Lemmy ficou ainda maior. Ele virou documentário ambulante antes mesmo do documentário oficial. O bar, o cigarro, a máquina de caça-níqueis, o copo, o chapéu, as botas, o baixo, o microfone alto demais e as frases de efeito formavam uma iconografia própria. O risco, nesse tipo de situação, é a caricatura engolir o artista. Mas Lemmy escapava disso porque a caricatura não era invenção de marketing. Era apenas uma versão condensada de quem ele realmente parecia ser.

Lemmy: o homem por trás do mito

Em 2010, o documentário Lemmy ajudou a ampliar ainda mais a imagem do vocalista. O filme apresentou sua vida, sua rotina, suas amizades, sua casa, sua relação com fãs e músicos, além da devoção que artistas de diferentes gerações tinham por ele. Para quem já conhecia o Motörhead, não havia grande surpresa: Lemmy era exatamente aquele sujeito. Para quem só conhecia a lenda, o documentário ajudou a mostrar que havia um ser humano por trás do monumento.

Um dos pontos mais interessantes dessa fase é justamente a quantidade de amizades legítimas construídas por Lemmy. Ele não parecia circular pelo mundo do Rock como alguém em busca de prestígio social. Tinha laços reais com figuras como Ozzy Osbourne, integrantes do Metallica, músicos do Ramones, membros do Girlschool, nomes do Punk, do Hard Rock, do Heavy Metal e até artistas que vinham de mundos aparentemente distantes.

Documentário completo, acione as legendas em português

O Rainbow Bar & Grill, em Los Angeles, virou uma espécie de extensão pública de sua casa. Quando não estava em turnê, Lemmy era presença constante no local, jogando, bebendo, conversando com fãs e mantendo viva uma tradição de Rock N’ Roll que já parecia fora do tempo. Depois de sua morte, o próprio Rainbow se tornou um dos locais centrais das homenagens ao músico, reforçando o quanto aquele espaço fazia parte de sua mitologia pessoal.

É importante dizer, porém, que a vida desenfreada de Lemmy nunca deve ser romantizada de maneira infantil. Ela foi parte inseparável de sua história, mas também cobrou preço. O mais fascinante não é fingir que excessos não têm consequência. O fascinante é perceber como ele transformou a própria existência em obra sem permitir que gravadoras, críticos, empresários ou modas culturais moldassem sua personalidade.

The Wörld Is Yours: o velho mundo ainda era dele

Também em 2010, o Motörhead lançou The Wörld Is Yours, disco que chegou em meio a uma fase de grande celebração pública em torno de Lemmy. A banda já era tratada como instituição, o documentário reforçava sua importância, e uma nova geração parecia descobrir aquilo que fãs antigos já sabiam há décadas: o Motörhead não era apenas uma banda clássica. Era uma das colunas de sustentação da música pesada moderna.

O álbum trouxe faixas como “Born To Lose”, “I Know How To Die”, “Get Back In Line”, “Devils In My Head”, “Rock ‘N’ Roll Music” e “Bye Bye Bitch Bye Bye”. Logo de cara, os títulos pareciam conversar diretamente com a própria biografia de Lemmy. A essa altura, ele não precisava inventar personagem nenhum. Bastava abrir a boca e transformar experiência acumulada em refrão.

Get Back In Line” merece atenção porque mostra Lemmy ainda incomodado com estruturas de poder, exploração e injustiça. Mesmo transformado em figura reverenciada, ele não virou um velho roqueiro satisfeito em posar para foto e repetir glórias passadas. A raiva continuava ali. Talvez menos explosiva do que na juventude, mas mais amarga, mais consciente e mais carregada de cansaço.

The Wörld Is Yours encerra bem esta etapa porque mostra o Motörhead em plena atividade, respeitado, homenageado e ainda funcional. A tragédia é que, a partir dali, o corpo de Lemmy começaria a impor limites que sua vontade jamais aceitou completamente. O espírito seguia intacto. A máquina, porém, começava a dar sinais de desgaste.

Aftershock: o Motörhead ainda tinha força, mas o corpo de Lemmy começava a cobrar

Depois de The Wörld Is Yours, o Motörhead chegou a Aftershock, lançado em 2013, em um momento delicado. Musicalmente, a banda ainda demonstrava força. Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee conheciam profundamente o próprio funcionamento. Não havia mais crise de identidade, disputa por direção artística ou necessidade de provar qualquer coisa. O trio sabia exatamente o que era o Motörhead.

O disco trouxe faixas fortes como “Heartbreaker”, “Coup De Grace”, “End Of Time”, “Do You Believe”, “Going To Mexico” e “Death Machine”. Também havia espaço para o lado mais Blues da banda em “Lost Woman Blues” e “Dust And Glass”, lembrando que, por trás do volume absurdo e da fama de brutalidade, o Motörhead sempre teve raízes muito claras no Rock N’ Roll mais primitivo.

O problema é que, naquele período, a máquina humana por trás do mito começava a falhar. Lemmy sempre construiu uma imagem de invencibilidade quase absurda. O sujeito parecia feito de álcool, nicotina, anfetamina, baixo distorcido e pura teimosia. Só que ninguém vence o próprio corpo para sempre. Em 2013, problemas de saúde começaram a interferir com mais força na rotina da banda, incluindo cancelamentos e apresentações interrompidas.

Esse ponto precisa ser tratado com cuidado. A vida de excessos de Lemmy faz parte da história, mas reduzir seus últimos anos a uma caricatura seria injusto. O que se via ali não era apenas “o roqueiro que pagou a conta”. Era também um homem que havia passado décadas na estrada, transformando a própria existência em trabalho, identidade e missão. Para Lemmy, parar não parecia uma opção natural. O palco não era apenas emprego. Era território, casa e sentido de vida.

Wacken, cancelamentos e a negação do próprio limite

Lemmy já aparentava estar doente, mas mesmo assim seguiu em frente — Photo: Hasan & Partners/PA

Um dos episódios mais simbólicos dessa fase aconteceu no Wacken Open Air, em 2013. O Motörhead precisou encerrar sua apresentação antes do previsto por causa das condições de saúde de Lemmy. Para os fãs, foi um choque. Durante décadas, ele representou justamente o oposto da fragilidade. Ver aquele homem obrigado a deixar o palco mostrava que até os mitos têm ossos, órgãos, pressão arterial e limites.

Naquele mesmo período, a banda cancelou datas europeias, e Lemmy precisou lidar com problemas médicos mais sérios. Mesmo assim, a postura pública seguia a mesma: ele voltaria, chutaria traseiros e faria barulho novamente. Essa era a linguagem dele. Não havia espaço para dramatização excessiva, nem para discurso de despedida. Enquanto pudesse subir ao palco, subiria.

Essa teimosia pode ser vista de duas formas. Por um lado, existe algo admirável em alguém que se recusa a abandonar aquilo que ama. Por outro, também existe uma tristeza profunda em perceber que Lemmy talvez não soubesse viver fora do Motörhead. Para muitos artistas, a banda é uma parte da vida. Para ele, parecia ser a própria vida. Tirar a estrada, o amplificador e o microfone daquele homem seria como desligar o motor central de sua existência.

Ainda assim, o Motörhead seguiu. E isso diz muito sobre a relação entre Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee. A formação final não era apenas funcional. Era uma irmandade de estrada. Phil e Mikkey sabiam quando empurrar, quando sustentar e quando proteger. O público, por sua vez, via cada show com uma mistura cada vez maior de celebração e preocupação.

Bad Magic: o último rugido em estúdio

Em 2015, o Motörhead lançou Bad Magic, seu último álbum de estúdio com material inédito. Ouvir o disco sabendo o que aconteceria poucos meses depois muda completamente a experiência. Na época, ele soava como mais um trabalho forte da fase final. Depois, passou a carregar o peso de despedida involuntária.

O álbum começa com “Victory Or Die”, título que por si só já parecia uma declaração de princípios. “Thunder & Lightning” e “Teach Them How To Bleed” traziam a pancada tradicional, “Electricity” recuperava uma energia mais próxima do Punk, “When The Sky Comes Looking For You” virou a faixa do disco que chegou aos palcos, enquanto “The Devil” contou com participação de Brian May, do Queen.

Também havia uma versão de “Sympathy For The Devil”, dos Rolling Stones, escolha que fazia absoluto sentido dentro da história de Lemmy. Ele sempre teve um pé no deboche, na provocação e na iconografia do mal entendido como afronta moral. Não se tratava de teatro satânico, mas de uma recusa em aceitar a cartilha comportada do mundo.

Mas a música mais pesada de Bad Magic, em termos emocionais, é “Till The End”. Ali, Lemmy soa como alguém olhando para trás sem pedir perdão e sem tentar se absolver. A letra parece um balanço de vida: erros, escolhas, cicatrizes, orgulho e consequência. Bad Magic não foi um disco de despedida planejado, e talvez justamente por isso funcione tão bem como último capítulo. O Motörhead não tentou construir uma conclusão solene, cheia de autopiedade ou grandeza artificial. Apenas lançou mais um disco do Motörhead. Alto, direto, imperfeito, honesto e teimoso. Do jeito que deveria ser.

A última turnê e o show final em Berlim

Lemmy ao vivo pela última vez…

A turnê de Bad Magic e dos 40 anos do Motörhead teve um peso especial, mesmo antes de todos entenderem que seria a última. Os problemas de saúde de Lemmy ficaram cada vez mais visíveis. Em alguns shows, a voz parecia mais fraca, o corpo respondia com dificuldade e a velha imagem do homem indestrutível dava lugar a algo mais humano, mais doloroso e mais real.

Ainda assim, ele continuou. Em 11 de dezembro de 2015, o Motörhead subiu ao palco da Max-Schmeling-Halle, em Berlim, para aquilo que se tornaria a última apresentação da história da banda. O repertório daquela noite reuniu clássicos e faixas de diferentes fases: “Bomber”, “Stay Clean”, “Metropolis”, “When The Sky Comes Looking For You”, “Over The Top”, “The Chase Is Better Than The Catch”, “Lost Woman Blues”, “Rock It”, “Orgasmatron”, “Doctor Rock”, “Just ‘Cos You Got The Power”, “No Class”, “Ace Of Spades”, “Whorehouse Blues” e “Overkill”.

É impossível olhar para essa lista sem sentir o peso simbólico. O último show terminou com “Overkill”, justamente a música cuja bateria ajudou a abrir caminho para o Speed Metal, o Thrash Metal e boa parte da música extrema que viria depois. Sem planejamento dramático, sem roteiro de filme, o Motörhead encerrou sua história ao vivo voltando a uma de suas maiores declarações de guerra.

Poucos dias depois, tudo acabaria. Mas, naquele palco em Berlim, mesmo debilitado, Lemmy ainda era Lemmy. O microfone continuava alto demais, o baixo continuava pendurado como uma arma, e o espírito do Motörhead seguia intacto. A carne já dava sinais de falha. A lenda, não.

A morte de Lemmy e o fim inevitável do Motörhead

Lemmy Kilmister morreu em 28 de dezembro de 2015, poucos dias depois de completar 70 anos. Segundo o comunicado oficial divulgado pela banda, ele havia descoberto um câncer extremamente agressivo apenas dois dias antes. A notícia caiu como um golpe em toda a comunidade do Rock e do Heavy Metal. Não porque alguém achasse que ele fosse realmente imortal, mas porque Lemmy parecia uma daquelas figuras que o imaginário popular se recusa a colocar no passado.

A reação foi imediata. Músicos de diferentes gerações, estilos e cenas prestaram homenagens. Integrantes do Metallica, Ozzy Osbourne, Dave Grohl, nomes do Punk, do Hard Rock, do Thrash Metal, do Death Metal e do Rock em geral reconheceram aquilo que os fãs já sabiam: uma das figuras mais importantes da música pesada havia partido. Não era apenas o vocalista e baixista do Motörhead. Era um símbolo.

Logo ficou claro que não haveria Motörhead sem Lemmy. Phil Campbell e Mikkey Dee poderiam seguir tocando, gravando e honrando a história da banda em outros projetos, mas o nome Motörhead pertencia àquele homem. Não por vaidade, mas por natureza. Desde 1975, formações mudaram, guitarristas entraram e saíram, bateristas deixaram marcas diferentes, fases foram contestadas e discos foram redescobertos. Mas Lemmy esteve no centro de tudo. Sem ele, o motor desligava.

Essa decisão foi correta. Algumas bandas conseguem sobreviver à morte de integrantes fundamentais. Outras não devem tentar. O Motörhead era uma extensão direta da personalidade de Lemmy: sua voz, suas letras, sua postura, seu humor, suas contradições, sua teimosia, sua crítica ao poder, seu desprezo por instituições religiosas, sua defesa das liberdades individuais e seu compromisso absoluto com o Rock N’ Roll. Substituir isso seria transformar uma entidade viva em franquia.

O legado: subestimado, indispensável e impossível de domesticar

Lemmy no clube Milk em Belfast — Photo: Alamy

A morte de Lemmy encerrou o Motörhead, mas não diminuiu sua presença. Pelo contrário. Com o passar dos anos, ficou ainda mais evidente que a banda sempre foi maior do que seus números comerciais. O Motörhead nunca vendeu como os gigantes mais populares do Heavy Metal, nunca ocupou o mesmo espaço de rádio que algumas bandas que influenciou e nunca recebeu da indústria o tratamento proporcional ao tamanho de sua importância. Mesmo assim, sua impressão digital está em toda parte.

Sem Motörhead, o Speed Metal teria outra cara. O Thrash Metal teria outro ponto de partida. O Metal extremo talvez demorasse mais para entender que velocidade, sujeira e peso podiam andar juntos sem pedir autorização ao virtuosismo. Bandas como Metallica, Slayer, Anthrax, Venom, Sodom, Destruction, Sepultura e incontáveis grupos de cenas mais extremas carregam, direta ou indiretamente, algo que passou por Lemmy, Fast Eddie Clarke, Philthy Animal Taylor e pela explosão de discos como Overkill, Bomber e Ace Of Spades.

Mas reduzir o legado do Motörhead à influência musical também seria pouco. A banda ensinou uma ética. Não se deixar moldar pelas vontades das gravadoras. Não suavizar o discurso para agradar críticos. É claro que não fingir sofisticação para ser aceito. Não pedir desculpas por ser alto, sujo, direto e incômodo. Lemmy podia estar errado em muitas coisas, podia ser contraditório como qualquer ser humano, mas nunca pareceu falso. E, no Rock N’ Roll, isso vale mais do que perfeição.

Lemmy nunca se ajoelhou!

Será lembrado pela eternidade!

Talvez por isso o Motörhead siga sendo a banda mais subestimada entre as gigantes do Heavy Metal. Todos reconhecem sua importância, mas nem sempre colocam o grupo no mesmo altar reservado a outros nomes. É um erro. Porque a história do Heavy Metal não se sustenta apenas em quem vendeu mais, tocou melhor ou produziu discos mais refinados. Ela também depende de quem empurrou os limites, afrontou o bom gosto, viveu a própria arte sem concessão e mostrou para as gerações seguintes que o barulho podia ser uma forma legítima de liberdade.

No fim, Lemmy tinha razão e estava errado ao mesmo tempo. O Motörhead era, sim, Rock N’ Roll. Mas foi também Heavy Metal, Punk, Speed Metal, Thrash Metal antes do Thrash Metal, estrada, vício, crítica social, deboche, lealdade, excesso, ruído e verdade. Era tudo isso porque nunca aceitou ser apenas uma coisa.

E talvez seja exatamente por isso que a banda fecha tão bem a santíssima trindade inicial do Heavy Metal. O Black Sabbath deu ao mundo o peso e a escuridão. O Judas Priest moldou a linguagem, a estética e a identidade metálica. O Motörhead trouxe a velocidade, a sujeira, a rebeldia sem filtro e a recusa absoluta em obedecer. Três pilares diferentes. Três formas de entender o mesmo espírito.

O Motörhead nasceu para perder, viveu para vencer e morreu sem se ajoelhar.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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