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Álbuns Injustiçados: Motörhead – “Bastards” (1993)

Após problemas com a Epic e a WTG Records, o Motörhead decidiu assinar contrato com o selo alemão ZYX Records para o lançamento de “Bastards”. Pode parecer estranho, mas este é o principal motivo para que o álbum não tenha se transformado em um clássico.

   

Como assim? Tudo se resume a uma simples mudança de selo?

Sim. A ZYX Records lançou o álbum somente em território alemão, sendo assim, além de ter investido muito pouco na divulgação do mesmo, podemos afirmar que se tornou um verdadeiro pesadelo adquirir o disco em locais afastados da Europa.

Musicalmente, o disco soa como deveria soar, é uma espécie de “volta às raízes” e apresenta aquele Motörhead mais sujo e veloz, do jeito que os fãs mais antigos exigiam. O álbum acabou ficando cada vez mais esquecido conforme o tempo foi passando e, infelizmente, isso é bastante entendível, afinal, é difícil evidenciar um trabalho que não está na sua prateleira junto dos demais.

Mas por que diabos Lemmy quis tirar o Motörhead da Epic (uma gravadora major)?

Precisamos voltar um pouco no tempo para entender essa história, mas certamente este é um daqueles episódios lendários do mundo do Rock. No álbum “1916”, a gravadora tentou mudar a mixagem, assim como tentou deixá-la diferente do material original gravado. Ainda por cima, adicionaram percussões e efeitos sonoros às faixas. Tudo isso foi feito sem a autorização do Motörhead. Para nossa felicidade, Lemmy descobriu em tempo e o disco foi lançado do jeito que conhecemos.

Reprodução

Em “March Or Die”, no ano seguinte, aconteceu uma nova sabotagem e, assim sendo, pela segunda vez consecutiva, os funcionários da gravadora tentaram manipular o som da banda fazendo com que ele soasse mais comercial. Foi o bastante para Lemmy e seus comparsas, eles mandaram a Epic enfiar seus milhares de dólares em algum lugar provavelmente desconfortável e rescindiram o contrato.

A ideia era assinar com uma gravadora menor para ter liberdade total na criação e trazer a musicalidade característica da banda de volta. Enfim, se não fossem os problemas relacionados a conseguir comprar o material oficial e a péssima divulgação, “Bastards”, possivelmente, teria se transformado em um registro badalado e, até mesmo, clássico.

Mudanças no line-up

Nesta época, o Motörhead havia acabado de perder mais um integrante original, o baterista Phil “Animal” Taylor. Segundo relatos, Lemmy perdeu a paciência de vez com Phil quando ele fracassou em aprender as partes de bateria de “I Ain’t No Nice Guy”, sem dúvida, um dos destaques de “March Or Die” e que traz a participação do madman, Ozzy Osbourne.

Reprodução

Para o lugar de Phil, foi recrutado Mikkey Dee, que vinha da banda de King Diamond e foi bastante questionado quando assumiu o posto de baterista oficial do Motörhead.

Mikkey Dee contou em uma entrevista para a Loudersound, como ele foi tratado por parte dos fãs e como Lemmy o defendeu:

“Muitas pessoas não me conheciam e literalmente apontaram para mim e perguntaram para Lemmy: ‘como você pode trazer esse idiota para a banda?’. Eu era o cara completamente errado para eles. Simplesmente me odiavam. Mas Lemmy me defendeu. Ele disse: ‘saiam do meu camarim. Mikkey é inacreditável, esperem para ver!'”

Talvez, o disco que realmente pode ser considerado o cartão de visitas de Mikkey Dee seja o registro posterior, “Sacrifice”, lançado em 1995, mas em “Bastards”, podemos afirmar que foi uma estréia digna e não comprometedora. Em algumas composições como “Burner” e “Death Or Glory”, o baterista se destaca, mas o tipo de sonoridade do álbum, acaba não favorecendo para que o destaque seja tão latente.

Letras esmagadoras (como sempre!)

Com relação ao tracklist, falamos de um álbum realmente forte no sentido lírico. Diversas músicas trazem temas extremamente bem elaborados, alguns ácidos como de costume, além de outros contendo críticas seríssimas e pontuais sobre assuntos sensíveis.

   

É impressionante constatar a habilidade de Lemmy ao tecer versos articulados e notar como ele é explícito em alguns momentos estratégicos, para ser contido de uma forma absolutamente incômoda, quando o que se esperava era algo completamente oposto.

Seja para mais uma vez demonstrar todo o asco contra as instituições religiosas, como em “I Am The Sword”:

“Séculos se passam, poeira no vento
Eu permanecerei, de pecado em pecado
O metal eu sou, o ferro que você sente
A canção dos mortos, o coro de aço

Eu, eu sou a lâmina, eu quebro o juramento que você fez
Eu, eu sou a maça, eu sou o golpe no rosto
Eu, eu sou o machado, para cortar heróis como se fossem ratos
Eu, eu sou a espada, eu pratico a obra do Senhor”

Ou apenas sendo sarcástico e fazendo jogos de palavras como em “On Your Feet Or On Your Knees”:

“Eu estava lendo uma revista
Ela foi escrita para seres humanos
Não posso acreditar nas coisas que eu li
Lixo humano para cabeças humanas

Vocês, humanos, não sejam tão orgulhosos
Vocês, humanos, não falem muito alto
Vocês, humanos, só não são muito inteligentes
E isso é o suficiente para quebrar meu coração humano”

Buscando raízes na própria discografia

Já no quesito musical, temos uma espécie de compilado de tudo o que o Motörhead gravou até o momento. Ao mesmo tempo que temos composições viscerais, com andamentos acelerados e muita energia, o grupo resolveu não descartar por completo aquele tipo de faixa mais acessível que rendeu bons frutos no álbum anterior.

Reprodução/Facebook

Você poderá bater cabeça em “Burner”, mas também vai poder cantar com o punho levantado para o alto o refrão grudento de “Born To Raise Hell”:

“Born to raise hell, born to raise hell
We know how to do it and we do it real well
Born to raise hell, born to raise hell
Voodoo medicine, cast my spell
Born to raise hell, born to raise hell
Play that guitar just like ringin’ a bell”

A primeira metade da audição é a mais bombástica. Com canções mais diretas e festeiras. “On Your Feet Or On Your Knees”, “Burner”, “Death Or Glory”, “I Am The Sword” e “Born To Raise Hell” compõe um dos melhores começos de disco de toda a discografia. A balada “Don’t Let Daddy Kiss Me” aborda o abuso infantil e possui uma das letras mais fortes sobre o tema. Uma crítica absolutamente necessária.

Queda natural

Na segunda metade de “Bastards”, podemos afirmar que temos uma notória queda na temperatura da audição, mas ainda sim, se salvam momentos absolutamente dignos como em “Bad Woman”, “Lost In The Ozone” e a viciante “We Bring The Shake”.

Reprodução/X

Eram tempos em que os CD’s estavam se popularizando e grande parte das bandas de Heavy Metal sentiram-se encorajadas a gravar álbuns com mais faixas. Apesar do tempo total da audição ser de pouco mais de 47 minutos, é notório que algumas músicas parecem compor o tracklist apenas para fazer volume. Pode ser que se o Motörhead tivesse se mantido pragmático e lançado um disco com 8 ou 9 canções, nem mesmo todos os problemas relacionados com a gravadora teriam ofuscado o poder de fogo devastador de “Bastards”.

Com a popularização dos streamings e a renovação da base de fãs após o advento da internet, muitos registros pouco falados começaram a chamar a atenção. Este é o caso de obras como “Bastards”, “Overnight Sensations”, “Snake Bite Love” e outros. Esperamos que todos estes discos, mesmo que de forma tardia, recebam o reconhecimento merecido.

O Motörhead foi, desde sempre, uma banda que jamais se desviou de suas crenças e merece todas as homenagens possíveis. Ouça sem moderação!

   

Nota: 8,5

Integrantes:

Lemmy Kilmister (baixo e vocal)
Phil Campbell (guitarra)
Würzel (guitarra)
Mikkey Dee (bateria)

Faixas:

  1. On Your Feet or on Your Knees
  2. Burner
  3. Death or Glory
  4. I Am the Sword
  5. Born to Raise Hell
  6. Don’t Let Daddy Kiss Me
  7. Bad Woman
  8. Liar
  9. Lost in the Ozone
  10. I’m Your Man
  11. We Bring the Shake
  12. Devils

Redigido por Fabio Reis

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