Resenha: Bewitched – “Diabolical Death Mass” (2026)

Havia uma banda muito boa e que tinha pausado as atividades anos atrás. Seu nome era Bewitched, banda sueca que fazia parte do panteão de hordas demoníacas e tidas como camaleões do Metal. Ou seja, bandas que percorriam mais de dois subgêneros do Metal através de seus respectivos trabalhos. Tida como uma banda de Black/Thrash/Heavy Metal, com altas doses de Speed e Speed/Black Metal, o Bewitched passou a figurar entre as principais bandas entre o seleto grupo de apreciadores do subgênero híbrido mais sólido do Metal. O Black/Thrash Metal, embora quase sempre descartado por quem o utiliza, está em uma fase bastante efervescente, trazendo novos talentos e aumentando a força de outros artistas mais conhecidos no circuito underground.

Pois bem, os suecos nunca chegaram a anunciar um fim oficial de suas atividades, mas passaram por um longo hiato de silêncio fonográfico entre 2006 e 2024. E agora estão com um novo trabalho na praça e prontos para infernizar o planeta com a sua sonoridade apocalíptica e devastadora.

Então, no dia 24 de abril via Osmose Productions, o mundo ficou mais sombrio, obscuro e nefasto, com o renascimento desta grande força do submundo.

A banda sueca surgiu em 1995 e acaba de lançar o seu sexto álbum de estúdio. O nome da nova esfinge sonora atende por “Diabolical Death Mass”. Nome bastante propício para quem sempre nadou nas águas subterrâneas da garganta do diabo – referência ao ponto turístico de mesmo nome.

Bewitched / Divulgação

Mais informações recentes sobre o Bewitched

Antes dessa grata novidade, tive a honra de conferir e realizar a cobertura da apresentação dos representantes de Umeå, Västerbotten, no Março Maldito Festival, 1ª edição realizada no dia 21 de março de 2025. Ainda está bem fresco na memória esse show e você poderá conferir a resenha que fiz ao clicar AQUI.

O show teve o Sodom como atração principal, além de seus conterrâneos do Desaster, os também suecos do Sacramentum, e os representantes locais do The Black Spade.

Provavelmente, muita gente acabou conhecendo o Bewitched nesse festival e torço para que seja um ponto bastante positivo a ponto retornarem à capital paulistana novamente para tocar músicas de seu novo trabalho.

“Diabolical Death Mass” sucede o ótimo “Spiritual Warfare”, lançado em 2006, e traz à tona uma banda revigorada e pronta para provocar um caos sonoro ainda maior. Liderada pelo vocalista/guitarrista Vargher, a banda teve arte da capa assinada por Morkh. Os componentes são os mesmos desde 2007, ano em que Robert “Zoid” Sundelin assumiu as baquetas e se tornou o dono do alicerce incendiário da banda.

O disco possui onze faixas e sua duração não chega a 35 minutos. Perfeito para uma destruição em massa rápida e sem massagem.

Dissecando a missa da morte diabólica

Dizem que, para um disco ser de Metal real, tem que assustar as pessoas comuns, tem que ter choro de criança, desespero de mulheres, homens fugindo sem rumo, caos por todos os lados, sangue, espada, machado, fogo, desgraça, ritual, bruxaria, satanás, e por aí vai. No entanto, o Bewitched oferece um bocado de tudo isso e muito mais. Mas não é algo jogado de qualquer maneira só para parecer malvado. Quem conhece o som dessa banda, sabe muito bem o que quero dizer. Agora, para os marinheiros de primeira navegação, devo alertar que sua sonoridade é combativa aos modernismos baratos e aliada aos ritos maléficos e tradicionais.

Conforme bem destacado, você será jogado em vários cenários numa mesma música, podendo ser mergulhado de cabeça no Black Metal, no Black/Thrash Metal, Speed Metal (o inverso também), Heavy Metal, e até Speed/Black Metal. Portanto, toda a arte mais experimental é e sempre será voltada para estes caminhos. Todos eles culminando em perfeita harmonia dissonante. Assim, formando um arco-íris de tons negros, indicando o poder das trevas. Vamos então, abrir o sexto portão do inferno e conferir o que de melhor há nessa nossa aventura macabra e revigorante. Afinal, o ódio necessita de boas músicas!

Primeira trinca indo do rito de sacrifício ao atravessar do rio Estige

Eu falei sobre ter criança chorando, certo? “Sanguinis Altare (intro)” é a abertura perfeita para esse tipo de sonoridade. O ritual se faz presente, você ouve o choro de um bebê e… Um som de lâmina ultra afiada provoca um senhor silêncio momentâneo.

A faixa-título chega sem pedir licença e já despeja riffs do mais alto e cortante calibre. É perceptível o balanço causado pelo Speed Metal tradicional, para depois mergulhar em algo mais denso, com o apoio de pedais duplos furiosos. Aqui temos um Black/Speed qualificado, mas não para por aí. A ótima tortura mergulha em melodias que ligam ao Heavy Metal e antecedem solos sensacionais, para depois retomar as mesmas melodias e por fim, ligar ao setor mais denso novamente, para então, entregar nas mãos sujas de sangue do riff principal. A missa da morte diabólica começou e você mal se deu conta!

A velocidade e o ímpeto direto das chamas

“Into the Fire” incita um Black/Thrash Metal, mas com a produção de gente grande e que deseja que sua música não tenha ventilador virado para o amplificador. Os solos possuem o carimbo do Rock veloz, misturado ao modelo mais tradicional do Metal, depois retornando ao trecho habitual e catastrófico aos tímpanos sensíveis e adestrados por vozes de regentes engravatados inúteis. Nesse momento, sua alma estará envolta por chamas negras infernais.

Após o queimar da alma após o sacrifício em nome do verdadeiro rei, temos o som do mar que separa o mundo dos vivos do reino dos mortos. Hades detém o controle desse lugar e não será um qualquer que conseguirá atravessar, exceto se estiver sintonizado no som do Bewitched. “Crossing the Styx” chega com um virar de bateria, que reflete o mar agitado e energizado pelo poder deste reino. Palhetadas rápidas exigem uma bateria tão veloz quando, e isso remete a uma valsa que representa o atravessar do rio Esfige. O convencimento de que a desgraceira sonora é real, é medida pelo trecho mais cadenciado e que se encaixa como um ritual, sendo intercalado pelos solos, e retornando em seguida. A pancadaria continua e será difícil sobrar alguma criatura em pé. Mas você é forte e se sairá bem desse grande mar agitado.

O que há de melhor no inferno!

A concentração máxima de poder do rei do submundo está em “Black Spells & Unclean Spirits” e “(Fear the) Revenge of the Ripper”. Prepare o seu pescoço para a guilhotinada definitiva!

O ritual oculto transcende as labaredas infames e nefastas de “Black Spells & Unclean Spirits”. Os riffs faiscantes provocam um calor de quebrar os medidores de temperatura ambiente. Já é tarde demais para fugir das forças ocultas e envoltas pelo poder das trevas. Através de um refrão cheio de encanto profano, o som se expande e rouba a sua alma em um piscar de olhos. Creio que aqui seja a assinatura definitiva de que a horda demoníaca sueca está de volta. Os versos afiados consomem a sua carcaça pedaço após pedaço sem se preocupar o quanto irá doer ao arrancar cada parte.

A pausa estratégica provoca uma mudança de andamento que intensifica a mistura da fórmula entre o Black/Thrash e uma sonoridade extrema que permeia o receituário do Celtic Frost. Os diferenciais breves se tornam emendas que prendem os elos das correntes e mantém o controle de posse dos feitiços abissais e calamitosos.

O ceifador sinistro

A apreensão diante de um ser mais poderoso e dominante, sem qualquer sentimento de bondade para com suas vítimas, vai de encontro aos versos e som de “(Fear the) Revenge of the Ripper”. Pelas entranhas da mente insana de Jack, o Estripador, você tem a nítida impressão de estar sendo perseguido e ao mesmo tempo passando pelos locais e momentos em que suas vítimas eram açoitadas. Esse rolo compressor em forma de música é alimentado por etapas e degraus que formam as camadas sonoras e controladoras do destino de cada presa indefesa.

A vingança e a liberdade do ceifeiro se tornam cada vez mais evidentes com passar dos versos incendiadores de mentes desesperadas e horrorizadas pela presença e pela aura do assassino. Os melhores riffs, dos quais representam muito bem o verdadeiro e intimidador Black/Thrash Metal, passam pelas estrofes catastróficas e provocadoras de abalos sísmicos em sequência. Além disso, a faixa traz solos destroçadores de almas penadas e que não aceitam clemência.

Escravo da sujeira e rispidez antiga, porém atual

“By Satan Enslaved” invoca um cenário de muita fúria e vibração maligna. Os primeiros centímetros da métrica sonora já ensaia aquele Black/Speed Metal misturado com Black/Thrash, deixando sua alma presa e sendo escravizada por tais junções excepcionais. O refrão é carregado por um tom épico e a música é enriquecida pelo enxofre da cadência superior proposital. Algo mais voltado ao Thrash e com o tilintar tradicional dos pratos é visto e serve como tapete estendido aos solos – estes afiados como navalha.

“Vicious and Wild” encomenda um kit regado de Speed oitentista, sendo bem abastecido por ganchos e emendas que provocam valsas insanas e primordiais. Embora figure por mais tempo no Speed, o repertório também recebe o apoio de linhas do subgênero híbrido mais sólido do Metal. Os solos encarnam uma roupagem mais tradicional e tornam a música mais incessante e visceral.

“The Witch Spell” prepara um caldeirão repleto de notas rápidas, viradas precisas de bateria e um ímpeto magistral, apoiado e evocando um clã em pleno encantamento. As hordas de criaturas submundanas estão sendo criadas diante de seus olhos e ouvidos. O ritmo sombrio ganha mais poder junto aos solos estridentes, além de um refrão que pega embalo na viagem e torna a magia da bruxa ainda mais destruidora.

A verdadeira força do mal

“Those of the Devil Born” convocou você para o embate! Faça o favor de se preparar para uma verdadeira chuva de enxofre sonoro! Os primeiros riffs ganham corpo e ardência nas asas angelicais é percebida mesmo de muito longe. Os solos lamuriantes acompanham bases entristecidas, velozes e dissonantes, como devem ser. A bateria martela e acelera o passo sem dar chance ao inimigo sequer respirar, exceto em determinado trecho repleto de maldade sonora – pausa falsa para continuar o desmembramento corporal e musical. O nascimento da criatura maligna está concretizado.

O último rito do disco atende por “Enforcer of Evil”, joia maléfica que recebe a luz noturna para terminar a nova obra de forma épica. Bateria cavalar, guitarras sujas e cortantes, e um baixo condutor de alta eletricidade, fazem desta uma das músicas mais variantes do álbum. Aqui temos aqueles tons menores sendo utilizados com maior destaque, propiciando um deleite ao saudosista da década famosa. O cataclisma sonoro é abastecido por toda a maldade sonora e sede de sangue que o Bewitched reuniu ao longo do tempo para despejar tudo nesse container musical.

Apoteose épica e maligna

A pausa característica ajuda a emendar outros ritmos e mais temperos agressivos, sem perder o feeling da bela jornada até aqui. Dessa forma, culminando em solos melódicos e impiedosos, que se sobressaem em meio a toda estrutura feroz. Sendo assim, propicia uma junção espetacular para a ponte final. E não poderia faltar a risada maléfica no final, virada com a pegada de fim de show, e toda a microfonia colocada de propósito. Afinal, mesmo sendo um álbum de estúdio, a banda quer que você se sinta presente em um show, ou pelo menos próximo de um. Por fim, o cataclisma sonoro prevalece, dando um final triunfante e ascendendo um horizonte muito rico e repleto de ótimas expectativas para os suecos endiabrados.

“Timbre sujo, bateria incessante e crua, som cortante ao melhor estilo ‘serra elétrica enferrujada’, vocais ásperos e maléficos, clima de bar ‘copo sujo’, com balcão grudento e cheio de marcas, cheiro de cerveja velha, bituca de cigarro, chão preto e muita história contida em cada canto do estabelecimento, é o que você encontrará por aqui. Se você não desfruta desse tipo de bebida sonora, fuja o quanto antes. Afinal, esse bar não está aberto para você! Some daqui, mêo!”

Nota: 9,0

Integrantes:

  • Vargher (guitarra, vocal)
  • Wrathyr (baixo)
  • Hellfire (guitarra)
  • Robert “Zoid” Sundelin (bateria)

Faixas:

  1. Sanguinis Altare (intro)
  2. Diabolical Death Mass          
  3. Into the Fire
  4. Crossing the Styx       
  5. Black Spells & Unclean Spirits
  6. (Fear the) Revenge of the Ripper
  7. By Satan Enslaved
  8. Vicious and Wild        
  9. The Witch Spell
  10. Those of the Devil Born
  11. Enforcer of Evil
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