Resenha: Leatherwitch – “First Spell” (2026)

Desde os trabalhos junto ao Crystal Viper, passando por um disco em homenagem às frontwomen do Heavy Metal, Marta Gabriel foi consolidando cada vez mais a sua ótima trajetória e conquistando fãs ao redor do mundo. Obviamente que, nem mesmo a sua ex-banda – banda que também encerrou as atividades – alcançou voos tão altos assim. Mas possui o devido reconhecimento por ter uma discografia coesa e formidável. No entanto, a vocalista e guitarrista não estava com o desejo de parar ou descansar. Logo tratou de organizar suas ideias para o lançamento de mais uma banda. Leatherwitch é o seu novo projeto e promete alimentar ainda mais os adeptos famintos por Heavy Metal tradicional e Speed Metal clássico.
Marta Gabriel é o tipo de artista que realmente ama o que faz, vivencia e desfruta de um estilo musical verdadeiro e ainda por cima, transforma e agrega ao Metal através dos seus trabalhos, seja antes com o Crystal Viper, seja com outros projetos. O Metal circula em suas veias e nada do que surge junto ao seu nome, é algo passageiro ou por puro aproveitamento de momento. Faz pelo motivo de gostar e de querer espalhar isso aos quatro cantos de seu país, a Polônia, e ao mundo.
Marta não se aproveita dos holofotes por ser mulher ou por gostar de determinado tipo de comida. Ela permite que seu coração palpite em favor do Heavy Metal e a sua maior devoção é através dos seus discos, sendo sempre fiel aos seus propósitos.
Particularmente, não conheço nenhum trabalho fora de mão da vocalista e multi-instrumentista polonesa. Uns são ótimos e outros são muito bons, sem qualquer ressalva que mostre algum desvio referente ao assunto, em se tratando de música, mais precisamente de Heavy Metal.

O primeiro feitiço da Leatherwitch
No outono de 2025, Marta Gabriel encerrou as atividades do Crystal Viper. Ao longo de sua carreira, a banda realizou turnês em mais de 20 países. Além disso, os músicos conquistaram os palcos de grandes festivais, como Wacken Open Air, Hellfest e Keep It True. Como resultado dessa trajetória, eles deixaram um legado de 9 álbuns de estúdio. Por fim, a gravadora Listenable Records lançou o álbum ao vivo de despedida da banda, intitulado “The Live Quest”, em junho de 2025. Contudo, seu último álbum de estúdio foi o excelente “The Silver Key”, de 2024.
Agora guiada por um novo horizonte, “First Spell” foi lançado no dia 29 de maio via Listenable Records. O debut foi produzido e masterizado por seu marido Bart Gabriel, enquanto a mixagem ficou por conta de Olof Wikstrand (Enforcer). A artwork leva a assinatura de Mario López. Marta toca todos os instrumentos no disco e tem a companhia do guitarrista Giuseppe Taormina (Ellende, ex-Crystal Viper) para a execução dos solos. Um dos videoclipes destaca o fato da dona dessa nova empreitada trabalhar sozinha. Trata-se do vídeo feito para o single “Beast Inside”, que foi o primeiro single divulgado. E além disso, tem também o single “Heroes and the Dice”, a qual possui seu videoclipe próprio. Ambos bem produzidos, editados e filmados, com todo o teor e clima específico.
Marta Gabriel comentou:
“O fim do Crystal Viper não significou o fim da minha jornada musical, pelo contrário, foi literalmente ‘Um Novo Começo’. Sou uma pessoa super criativa, componho músicas em diferentes estilos o tempo todo. Sou uma grande fã do Hard Rock e Heavy Metal clássico e tradicional, é isso que me inspira constantemente. (…) E sempre que um caminho termina, há um novo caminho, ou até mesmo alguns caminhos, a seguir.”
Sobre os temas do seu novo trabalho solo, Marta disse:
“’First Spell’”, como título do álbum, é um jogo de palavras: se eu sou essa bruxa do Heavy Metal vestindo couro, segurando uma guitarra Flying V, tocando alto e com orgulho, então por que não chamar o primeiro álbum de “First Spell”, já que é o primeiro lançamento oficial completo? Não há um conceito específico por trás das letras do novo álbum; elas são como contos sobre o que me inspira, sobre o que aconteceu ou está acontecendo na minha vida e sobre eventos que testemunhei ou dos quais participei.”
Uma trinca de ases de aço
“First Spell” apresenta três hinos que te teletransportam para os anos 80 e mergulha sua cabeça em um tonel repleto de Speed/Heavy Metal. O acesso é liberado através do single super colante e que te obriga a ouvir mais vezes que o normal. Jogue seus dados viciados e dê de cara com “Heros and the Dice”. Seu dedilhado principal é tão certeiro quanto tirar 20 em um D20. Você derrota a criatura com o seu principal poder e sem consumir sua energia. Torna o inimigo ao pós sem deixar rastros, restando uma sequência seca e concisa de bateria.
Em seguida, nem respire direito e já parta para encarar o seu demônio interno. A chama de “Beast Inside” acende e você observa o monstro veloz tomar forma mais rápido que o seu pensamento. O Heavy Metal transcende através do trepidar da bateria e dos solos reverberantes, que fazer os pelos refletirem a luz da lua cheia. Além do poder absoluto das garras do refrão marcante e totalmente visceral, como o ataque na forma de crinos.
“Bound by the Night” surge com uma intro mais trabalhada e logo entrega um riff classe A, com a assinatura do anoitecer. A festa está apenas começando e o público já está agitando. Dedilhados que remetem a ida a um show vão despejando uma quantidade ininterrupta de nostalgia. Isso se chama Heavy Metal. Os solos chegam, somando forças com as habilidades vocálicas e interpretativas de Marta Gabriel, além de sua caixa de ferramentas sonoras.
Cavalaria de ordem trocada
Se no início tivemos uma trinca de sons bastante convincente, ao se aproximar da parte central e muito importante do álbum, Marta tentou surpreender com outras variações dentro do que fora proposto para não soar monótono e até repetitivo demais. Muito longe disso, ela optou por mesclar ímpeto e velocidade com cadência e elegância.
Primeiramente, temos a presença de “Silver Stallion”, faixa em que os cavalos avançam e abrem terreno para os primeiros riffs deste capítulo da história. O baixo aparece bem e traz um tom mais clássico para a música, deixando a sonoridade mais pujante. Os vocais dobrados incendeiam a audição durante o refrão, o deixando com mais ímpeto, portanto. Em resumo, o contexto sonoro é a cavalaria em forma de palhetadas rápidas e precisas, que te farão ouvir cada vez mais o álbum e a própria faixa por vezes seguidas, inclusive. Para mim, essa poderia ser a segunda faixa do álbum, pois faria sentido o jogar dos dados na primeira rodada e depois a ação dos personagens em seus cavalos, seguindo adiante.
Essa poderia ficar por aqui mesmo ou até um pouco mais abaixo no tracklist. “Living the Fast Line” começa com um ótimo dedilhado, já ganhando terreno ao somar forças com os solos breves. A bateria segue o modelo simples e direto, sem pensar em trégua jamais. O refrão é cativante a ponto de deixar os versos ainda melhores, sem que haja qualquer tipo de apelação. Marta segue com tranquilidade em todas as áreas. Afinal, ela faz tudo por aqui, exceto os solos, conforme destacado lá no início deste pergaminho virtual. Próximo do final, há uma camada diferenciada e que possui um toque bem voltado ao Iron Maiden (NWOBHM era) e o Angel Witch.
A representação de um novo começo
“The New Beginning” marca o novo caminho a ser traçado pela vocalista e multi-instrumentista polonesa. Temos aqui uma cadência provocativa que resulta em uma balada nos moldes de Dio, Black Sabbath e Warlock. O baixo aparece em áreas propícias para complementar o vazio proposital deixado pelo andamento da música. Costuma ser um tanto perigoso por uma faixa desse tipo na região central da obra, mas até que funciona bem. Entretanto, a meu ver, ela possui a silhueta e a atmosfera de encerramento do disco. Destaque para os solos incrementados de Giuseppe e todo o empenho de Marta, se saindo muito bem nessa trama diferenciada.

Tríade final
A vitória do aço já está exposta e garantida desde o primeiro rolar dos dados, mas aqui é aqui acontece o carimbo definitivo: o selo de Metal real garantido pelo INMETRO do Metal. Brincadeiras à parte, temos literalmente duas toneladas de aço nessa sétima faixa do excelente álbum de estreia da grandiosa Marta Gabriel!
O aço venceu!
“Two Tons of Steel” surge a todo vapor e sem avisar ninguém de nada. Apenas vem e passa com a velocímetro quase estourando o vidro de proteção. A lataria vibra ao cortar o vento e pegar o vácuo para atingir velocidade ainda maior. As palhetadas soam como guilhotinas caindo em uma sequência altamente veloz, incluindo a bateria incessante e com o peso necessário para a incursão definitiva. Os riffs cavalares exalam aço em todas as formas, líquido, sólido, gasoso, bidimensional e tridimensional. Os solos distorcem o mapa do universo e as escalas de velocidade mudam em favor do Metal.
Com toda a certeza, é um dos melhores sons e que fazem a pessoa continuar ouvindo com total devoção e ávida por muito mais. Refrão ótimo e de fácil assimilação. Toda a concepção da música equilibra facilmente uma disputa de braços contra Ambush, Enforcer, Air Raid, Burning Witches e outras bandas emergentes excepcionais. Leatherwitch tem esse poder e você não pode duvidar de uma feiticeira experiente e apaixonada por Heavy Metal.
“In the Middle of the Night” apresenta aquele climão de rolê a noite, mesmo com um ritmo diferenciado, servido de banquete para os amantes da época de lançamentos como “Somewhere in Time” (Iron Maiden, 1986) e “Turbo” (Judas Priest, 1986), só para exemplificar. Os solos são ouro maciço e funcionam bem, de acordo com a trama. Sintetizadores e teclados podem e devem ser utilizados, principalmente se o manuseador souber o que está fazendo. O pré-refrão e o refrão possuem um ar meio Hard Rock, além de toda a pegada Heavy do som. E ainda há espaço para a arma secreta de Marta, um potente agudo ao término da faixa.
Cover apoteótico
Apoteose com um cover super importante. Marta resolveu homenagear o Helloween ao tocar o cover para “Walls of Jericho / Ride the Sky”, hino de abertura do clássico debut dos alemães, “Walls of Jericho” (1985). A intro para o cover é baseada na canção infantil tradicional “London Bridge Is Falling Down”. O final original é com a faixa anterior, mas vale destacar a faixa-bônus, já que aparece em outras plataformas oficiais.
Considerações envoltas por couro e aço
De fato, é notório o empenho e a competência de Marta Gabriel para a sequência da sua carreira no cenário do Heavy Metal. Por mais que o Crystal Viper tenha uma discografia equilibrada, qualificada e coesa, me parece que a mesma precisava respirar outros ares, mas sem deixar aquilo que mais admira de lado. Sua dedicação e sua devoção ao Metal vão de encontro ao fã apaixonado que resolve trabalhar com a sua paixão.
Marta poderia adentrar ao mundo do Melodic Death Metal moderno ou até outros subgêneros dos quais abomino (alguns resolveram estragar clássicos ao vivo ao mandarem covers descaracterizados e horripilantes), porém ela passou anos-luz longe dessa hipótese. Afinal, Marta respira Heavy Metal e a sua trajetória não poderia ter um fim agora. Que o honorável público possa conferir e apreciar esse mais novo trabalho dela, entendendo que ela é do tipo raro em que se pode confiar, quando o assunto é tocar Heavy Metal e Speed Metal, conforme encontramos em “First Spell”.
“Seria Marta Gabriel a atual rainha do Metal tradicional e do Rock veloz?”
Nota: 9,0
Integrantes:
Marta Gabriel (vocal, todos os instrumentos)
Artista convidado:
Giuseppe Taormina (guitarra solo)
Faixas:
- Heroes and the Dice
- Beast Inside
- Bound by the Night
- Silver Stallions
- Living in the Fast Lane
- The New Beginning
- Two Tons of Steel
- In the Middle of the Night
- Walls of Jericho / Ride the Sky (Helloween cover)*