O Crematory é uma banda pertencente ao seleto grupo de bandas que iniciaram a sua trajetória dentro da “desgraceira sonora” e depois mudaram o seu direcionamento. O som continua pesado, mas a linha principal passou para o lado da usina abandonada e dos seres sobrenaturais acompanhados por corvos sábios. Traduzindo, o Crematory é uma banda alemã de Industrial/Gothic Metal.
Quando isso ocorre, fica notória a divisão do público que era cativado por sua sonoridade antiga. Ou seja, ao menos metade dos adeptos passariam ou passaram a se distanciar da banda por esse motivo. Certamente, isso se deve ao choque causado por uma mudança brusca de som. Entretanto, se formos colocar uma lupa nisso tudo, veremos que o Crematory já tinha laços com o Gothic em seu início, assim sendo uma banda de Gothic/Death Metal. O que mudou foi a saída do Metal da morte para o Metal “maquinário”, só para ilustrar.
Essa mudança foi boa para o Crematory?
A longevidade da banda pode responder essa questão, pois a banda se manteve firme em seus ideais musicais, sendo inspirados pelo anoitecer divino e sombrio. Todavia, se formos observar questões de sucesso e relevância, creio que tenha se mantido como uma banda de médio porte no cenário europeu. Se o tema fosse alcance e sucesso, poderia trazer números mais conclusivos a respeito. Mas, vamos ao que interessa que é falar sobre o novo trabalho dos alemães: “Destination”. Porém, antes disso gostaria de acrescentar informações para melhor posicionar sobre o que a banda vem nos entregando até então.
O Industrial Metal é subgênero pouco divulgado, pois acaba tendo mais ligações com a cena Dark (em resumo aos subgêneros envolvendo o lado gótico e também as alas do EBM e afiliados) do que com o Heavy Metal como um todo. Contudo, exceto quando mencionamos o Fear Factory, um dos precursores do estilo. Mas o Crematory tem os seus méritos por desenvolver uma sonoridade própria e sem soar como mera cópia de alguma outra banda do estilo. Os teclados e samples de Katrin Jüllich e os vocais guturais de Felix Stass tornam o Crematory fácil de ser reconhecido, principalmente por quem cultua essa vertente.

A sonoridade relevante do Crematory
Nos primeiros anos, ou melhor dizendo, nos primeiros álbuns, o Crematory desenvolveu um tipo de sonoridade muito envolvente. Porém, não o suficiente talvez para se desvencilhar de seus respectivos concorrentes. Quando a onda do Industrial invadiu os arredores da Europa nos anos 90, bandas como o Kreator resolveram experimentar tais ares diferenciados, causando um choque e uma reação de repulsa com relação aos fãs mais tradicionais da banda. Outras bandas também mergulharam nessas novas águas com o intuito de buscar um lugar ao som. Mas sem tanto êxito. Enquanto isso, a cena Grunge passava a tomar conta do cenário musical dos EUA. Fato que acabou por impedir uma abrangência e alcance maiores do Metal industrial.
Mesmo assim, o Crematory seguiu em frente e trouxe às prateleiras das principais lojas do ramo ótimos trabalhos. Seu último álbum mais relevante foi o álbum “Antiserum”, de 2014. Álbum robusto que mesclava passagens mais pesadas e intensas com momentos mais melódicos e com boas doses de melancolia. Em resumo, um verdadeiro baile de gala dentro da Camarilla. Ou até mesmo do Sabá. Você escolhe, afinal. Role o D10 e faça o teste.
Após o álbum citado, nenhum outro soou tão relevante e com destaques como esse. Não os considero ruins, mas fica aquela sensação de faltar um tempero a mais, um peso a mais, um riff ou melodia que chame mais a atenção. São bons álbuns e apenas isso. E, já adiantando, falaremos de mais um bom álbum. De fato, eu acreditei que poderia ser uma virada de chave até por conta do comentário feito pelo baterista Markus Jüllich. Ele fez o seguinte comentário:
“Com ‘Destination’, o novo padrão da era moderna do Melodic Gothic Metal está determinado! O álbum anterior ‘Inglorious Darkness’ foi o começo de Felix cantando todas as músicas sozinho novamente e agora conseguimos um pouso de precisão perfeito com ‘Destination’!”

O “novo padrão” é somente uma continuação com melhorias pontuais
“Destination” jamais se mostrou como algo promissor a ponto de trazer novos padrões e um novo rumo para o estilo a qual o Crematory caminha. Desde o primeiro single lançado, a faixa-título e de abertura do novo álbum, que já era perceptível a continuidade do que vinha sendo feito nos trabalhos anteriores. Isso se torna uma condenação? Jamais! O novo trabalho apresenta qualidade e um ponto em específico. Assim, já revelando um deles, os vocais de Felix Stass estão isolados, dando mais peso aos versos de todas as canções do álbum.
Portanto, o álbum possui um formato já conhecido e com a caricatura estampada em destaque. Entretanto, “Destination” pode sim se tornar um atrativo para prospectivos fãs e pode também alimentar o desejo dos fãs de longa data a ouvir novas e boas músicas dos germânicos.
Os instrumentos e os timbres estão coesos e a banda possui o entrosamento necessário para tal. Em suma, são competentes mais do que o suficiente para tal. Talvez a bateria necessitasse de um lance a mais de peso, mas nada que fará o ouvinte se incomodar. Isso é mais questão de detalhes do que qualquer outra coisa.
“Destination” e seus tripulantes
O 17º full length da banda foi lançado em 2 de maio via Roar / Rock of Angels e sucede o também bom álbum, “Inglorious Darkness”. Rolf Munkes é o nome responsável pela gravação e mixagem do álbum, enquanto Markus Jüllich cuidou da produção e pré-produção. Robin Schmitt fez a masterização e Noah Bouchard assina a capa, com Ingo Spörl realizando a artwork da bagaça. Além disso, o Crematory lançou quatro singles com quatro videoclipes cada. E, por incrível que pareça, são as quatro primeiras faixas de “Destination”.
Dentre os singles, está o cover do Type O Negative para a faixa “My Girlfriend’s Girlfriend”, sendo a quarta pela ordem do tracklist. A faixa-título, “The Future Is a Lonely Place” e “Welt aus Glas” são os outros três singles e estão posicionadas como a primeira trinca do disco. Agora, vamos entender sobre o que aconteceu de melhor e de não tão bom nesse novo full length dos germânicos.

Entre vibrações e lamúrias da maquinária soturna
Em “Destination”, podemos notar um princípio mais direto através da faixa de abertura a qual carrega o nome do disco. Você se empolga com os riffs do guitarrista Rolf Munkes e toda a estrutura de pano de fundo a qual une sons semelhantes a uma sirene e depois a sensação de lágrimas de sangue escorrendo e pintando o solo de vermelho. É nela que você deve confiar para se direcionar dentro da obra, pois o fator condutor acaba sendo essa levada de média velocidade. O refrão traz aquela angústia cativante e costumeira da banda alemã, além dos trechos pausados em que a sonoridade ganha mais passagens diferenciadas no lugar de possíveis solos.
Embora seja uma canção de confiança e que você pode dar a mão para passear com ela pelas ruas frias e chuvosas, não possui tantos elementos a ponto de permanecer na mente com facilidade.
O segundo single, “The Future Is a Lonely Place” traz aquele jogo de vozes característico do Crematory, dando um “descanso” para a guitarra em momentos propícios, com força total no refrão. O teclado e samples de Katrin Jüllich somam a tudo isso, dando aquele ar novamente angustiante e introspectivo, mas que explode e expande nos momentos de crescimento da música. Todavia, o terreno não parece tão mexido por aqui e você ainda sente que falta algo mais para te convencer de que o Crematory veio para jogar sério.
Você queria algo mais convincente? “Welt aus Glas” traz o balanço certo para os cainitas desfilarem seus dons, fraquezas e virtudes na planilha da nova campanha. Eu, particularmente, gosto mais quando Felix Stass canta em sua língua pátria. A canção normalmente ganha mais poder de fogo e o Industrial Metal cresce a todo vapor, como podemos observar por aqui.
“Um mar de cacos de desejos que roçam minhas mãos,
Mas algumas cicatrizes doem.
A melodia da saudade busca a última esperança.
A amargura sufoca a respiração”
O baile na Camarilla prossegue
Continuando sobre o single mais agressivo dentre as quatro músicas apresentadas, “Welt aus Glas” possui todas as características de outras músicas cantadas em alemão, mas também apresenta seu próprio charme e funciona muito bem para abrir passagem para o bom cover do Type O Negative, “My Girlfriend’s Girlfriend”. Ainda sobre a faixa anterior, destaco também as partes cantadas de forma abafada, dando aquele ar de protesto. A junção dos sons com emulações de piano e as batidas de usina abandonada de filmes dos anos 80 e 90 formam uma camada bastante sólida e densa perante a quem ouve. Isso facilita a absorção da música e o entendimento de todo o seu formato.
Markus Jullich utiliza seu kit somado ao programming de forma eficiente e com muita sabedoria, assim tornando-se o destaque da canção. O final ocorre uma correria musical que te chama para a valsa e relembra os velhos tempos do Crematory podrão.
Agora sim, estamos de volta ao cover. Principalmente para destacar a participação especial de Michelle Darkness (vocal e guitarra do End of Green). A intenção de homenagear Peter Steele com exatidão funciona muito bem.
O notívago continua a caminhar
Saímos da área com videoclipes e adentramos na “meiuca” do álbum. É agora que a coisa tende a ficar meio sonolenta. “After Isolation” é uma canção completamente inofensiva e sem o mesmo poder de fogo das canções anteriores. Entretanto, possui algo que outras não têm: um solo. Esse solo acaba virando uma passagem lúgubre e funciona como emenda para a volta do refrão. É ruim esse sangue musical coagulado? Não, mas falta um pouco mais de leucócitos por aqui.
Depois temos “My Own Private God” e sua intro a lá Castlevania. Vamos acabar com tudo isso, Alucard? O chamado parece ser atendido e a tríade guitarra, baixo e bateria optam por colocarem o plano à tona. Seu formato engloba as três primeiras faixas do disco, tendo um riff base para os versos puxado para o Heavy Metal, enquanto o teclado com distorção de órgão energiza a canção juntamente com a bateria. A melhor parte ocorre da metade para o fim quando a mesma se torna um pouco maligna e vocais limpos, porém empoeirados, entram em cena. Seria perfeita se ganhasse velocidade em determinados momentos, mas está de bom tamanho assim.
“Days Without Sun” quase que monta uma rave logo de cara, mas acaba se construindo e se formando uma música. Outra a vez a velocidade se faz ausente, o que torna o álbum meio lento e sem tanto poder de ataque. O refrão é potente e você tem no gutural de Felix Stass a precisão necessária. Porém, a canção ganha um formato diferente em que as partes de programming e sample tomam conta das bases e os vocais empoeirados tomam a frente.

No fundo do silêncio a sombra se dissipa…
“Deep in the Silence” é aquela canção que poderia fazer parte da trilha de um Underworld ou figurar em uma série do Corvo. As palhetadas sequenciais e serrilhadas de modo mais contido, ditam o ritmo da canção, somado aos toques de teclado com sonoridade de piano ao simular lágrimas molhando o solo. A canção ainda traz em seu refrão grande dose de lamúria e seu término é breve e sem segredos. Contudo, o baixo de Oliver Revilo torna a estrutura mais presente.
Faltava um pouco mais de ímpeto e ele veio. “Banished Forever” traz riffs pesados com uma levada interessante, ligando a uma crescente durante o refrão. A bateria, por sua vez, cumpre o seu papel e mantém o alicerce no prumo. Desse meio de disco, é a que melhor se posiciona à frente dos holofotes. Portanto, o headbanging está garantido e os pratos de condução e ataque são utilizados com vontade. Além disso, aqui há um belo solo de guitarra! E os pedais duplos são comuns, mas destacá-los aqui é bom, pois se apresentam nos trechos ideais para a trama.
“Banido para sempre
De um amor outrora tão forte
Banido para sempre
De um lugar que chamei de lar”
“Ashes of Despair” é uma faixa um tanto cansada. Não começa tão bem, pois carrega o mesmo formato das canções mais vagarosas e leves do disco. Além disso, ela acaba sendo mais leve do que as outras por conta da linha principal de bateria. Essa realmente não é boa de ouvir enquanto se prova um sangue azul, lembrando um Ventrue. Somente no final ela ganha mais peso.
A última passagem para ir embora e nunca mais voltar…
Quase me sai um Van Halen desses teclados! “Toxic Touch” é tão feliz assim? Os vocais surrados dizem que não. A levada um tanto Post Punk também não. E o Industrial Gothic menos ainda! Acaba sendo uma faixa legal e com diferenciais específicos. São três tipos de vocais na música e o refrão funciona como uma força motriz total. Graças ao refrão com poder concentrado é que a canção se eleva.
O final é digno de mistério, lamúria e baile de gala! Você ainda tem “Das letzte Ticket”? Se tiver, me vende? Essa sim é uma música digna da obra do Crematory! Tudo funciona muito bem, cada qual no seu devido lugar. Versos com levadas insinuantes a dançar, pontes levadiças e que vão de encontro a um refrão cativante. Essa é uma das poucas músicas a bater de frente com “Not for the Innocent” do álbum anterior, “Inglorious Darkness”.
“A última viagem para a liberdade
Portas se abrem
Portas se fecham
Trilhos de aço
Em direção ao infinito
A última passagem
Está pronta há muito tempo”
O Crematory poderia ter ousado mais?
É bem verdade que o disco não possui pontos negativos e execráveis, porém acaba contendo fórmulas das quais a banda já utiliza em vários dos seus álbuns. Faixas cantadas em alemão são mais agressivas e voltadas para o Industrial, enquanto faixas em inglês tendem a mergulhar no mar gótico da trama. Isso é ruim? Jamais! O que acho é que a banda tem potencial para muito mais e está faltando aquela canção que alavanca o álbum e que faz o fã não esquecer em tão pouco tempo.
Quem sabe, “Destination” não traga essa sensação com o passar do tempo? Pode acontecer, mas o grande problema é a competição entre os próprios álbuns pós “Antiserum”. No mais, que possam vir ao Brasil para mostrar as músicas novas ao vivo e tocar as velharias clássicas também! A vela com chamas negras em favor disso já está acesa!
Danke, Crematory!
“Todos aqueles anos desperdiçados em mentiras e enganos
Todas aquelas esperanças frustradas
A estrada da razão não lhe trouxe felicidade
Arrume suas coisas e nunca mais volte”
nota: 8,0
Integrantes:
- Markus Jüllich (bateria, programação)
- Felix Stass (vocal)
- Katrin Jüllich (teclado, samples)
- Rolf Munkes (guitarra solo)
- Oliver Revilo (baixo)
Faixas:
1. Destination
2. The Future Is a Lonely Place
3. Welt aus Glas
4. My Girlfriend’s Girlfriend (Type O Negative cover)
5. After Isolation
6. My Own Private God
7. Days Without Sun
8. Deep in the Silence
9. Banished Forever
10. Ashes of Despair
11. Toxic Touch
12. Das letzte Ticket