Ozzy Osbourne: a vida do homem que ajudou a criar o Heavy Metal

No dia 22 de julho de 2025, o mundo se despediu de John Michael Osbourne, o homem que atravessou mais de cinco décadas atendendo pelo nome de Ozzy. Para milhões de pessoas, ele era o irreverente Príncipe das Trevas, uma figura cercada por histórias inacreditáveis, excessos, polêmicas e episódios que frequentemente pareciam superar qualquer roteiro de ficção. Antes de tudo isso, porém, ele foi uma das vozes responsáveis por transformar definitivamente a história da música pesada.

A morte de Ozzy Osbourne, aos 76 anos, aconteceu apenas 17 dias depois de sua última apresentação. Em 5 de julho de 2025, mesmo debilitado e sem conseguir permanecer em pé, o cantor subiu ao palco do Villa Park, em Birmingham, sentado em um trono negro, para se despedir do público e reencontrar Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. Pela última vez, a formação original do Black Sabbath esteve reunida diante da cidade onde tudo havia começado.

Um ano depois, recordar sua trajetória não significa apenas rever a vida de uma celebridade excêntrica. Significa voltar às origens do Heavy Metal, bem como compreender como um jovem pobre, inseguro e desacreditado de uma região industrial da Inglaterra terminou reconhecido como uma das maiores personalidades da cultura popular.

O garoto de Aston que não parecia destinado ao sucesso

Nascido em 3 de dezembro de 1948, John Michael Osbourne cresceu em Aston, um bairro operário de Birmingham. Filho de uma trabalhadora de fábrica e de um ferramenteiro, viveu em uma casa pequena ao lado de cinco irmãos. A infância foi marcada por dificuldades financeiras, problemas escolares e uma sensação constante de não pertencimento.

Disléxico e com pouca adaptação ao ambiente acadêmico, abandonou a escola ainda adolescente. Trabalhou em diferentes funções, incluindo empregos em fábrica e matadouro, mas também se envolveu em pequenos delitos. Após ser preso por roubo, passou algumas semanas na cadeia porque seu pai se recusou a pagar a fiança, acreditando que aquela experiência poderia servir como uma lição.

A música surgiu como uma possibilidade de fuga. Quando ouviu She Loves You, dos Beatles, Ozzy percebeu que talvez existisse um caminho diferente daquele que parecia reservado aos jovens da classe trabalhadora de Birmingham. Ele não possuía formação musical, não tocava instrumentos e jamais seria considerado um cantor convencional. Ainda assim, havia algo em sua voz que ninguém poderia ensinar.

O encontro que mudaria a música pesada

Ozzy Osbourne e Tony Iommi — Photo: Richard E. Aaron.

No final dos anos 1960, Ozzy Osbourne colocou em uma loja de instrumentos um anúncio simples: “Ozzy Zig precisa de uma banda. Possui amplificador”. A mensagem ajudou a aproximá-lo do guitarrista Tony Iommi, do baixista Geezer Butler e do baterista Bill Ward.

Inicialmente chamada Earth, a banda tocava Blues Rock e seguia uma direção semelhante à de vários grupos britânicos daquele período. A transformação começou quando os músicos perceberam que as pessoas pagavam para assistir a filmes de terror. Se o público gostava de sentir medo no cinema, por que uma banda não poderia provocar a mesma sensação por meio da música?

O nome Black Sabbath, retirado de um filme estrelado por Boris Karloff, tornou-se a tradução perfeita daquela proposta. Os riffs densos de Tony Iommi, as letras sombrias de Geezer Butler, a bateria dinâmica de Bill Ward e a voz aguda, angustiante e imediatamente reconhecível de Ozzy Osbourne criaram algo que não encontrava equivalente exato naquele momento.

Em 1970, o álbum Black Sabbath apresentou ao mundo uma atmosfera ameaçadora, aberta pelo som da chuva, dos sinos e pelo riff construído sobre o intervalo conhecido historicamente como diabolus in musica. Poucos meses depois, Paranoid ampliou aquela revolução com músicas como War Pigs, Iron Man e a faixa-título.

O Black Sabbath não criou sozinho toda a música pesada, mas ofereceu ao Heavy Metal uma identidade sonora, visual e temática. Enquanto outras bandas experimentavam distorções e volumes elevados, os quatro músicos de Birmingham transformaram a escuridão em linguagem.

Ozzy Osbourne em 1977 — Photo: ©Imago/TT

A voz humana dentro da máquina do Black Sabbath

A importância de Ozzy dentro do Black Sabbath jamais esteve ligada à técnica tradicional. Sua voz possuía limitações claras, mas funcionava perfeitamente sobre os riffs de Tony Iommi. Em vez de disputar espaço com a guitarra, o cantor frequentemente acompanhava suas linhas, criando melodias simples, hipnóticas e inesquecíveis.

Essa característica ajudou a tornar acessíveis composições extremamente pesadas. Ozzy parecia representar o elemento humano perdido no meio de uma gigantesca máquina industrial. Sua interpretação transmitia medo, confusão, loucura e vulnerabilidade, sentimentos que combinavam com músicas sobre guerra, alienação, drogas, destruição ambiental e colapso psicológico.

Discos como Master Of Reality, Vol. 4, Sabbath Bloody Sabbath e Sabotage expandiram as possibilidades da banda. O grupo ficou mais pesado, experimental e ambicioso, enquanto o sucesso permitiu que seus integrantes deixassem para trás a pobreza de Aston.

A prosperidade, contudo, chegou acompanhada por um consumo cada vez mais destrutivo de álcool e drogas. Durante a segunda metade dos anos 1970, as relações internas se deterioraram, os discos perderam parte da consistência e Ozzy já não conseguia funcionar adequadamente dentro do grupo. Em 1979, após as gravações de Never Say Die!, ele foi demitido do Black Sabbath.

Para o cantor, parecia o fim.

Sharon Arden e o recomeço que parecia impossível

Após ser afastado da banda que ajudara a construir, Ozzy Osbourne mergulhou ainda mais profundamente no álcool e nas drogas. Convencido de que sua carreira havia terminado, passou meses isolado em um quarto de hotel, consumindo tudo o que conseguia encontrar e esperando, segundo ele próprio relataria posteriormente, que o dinheiro acabasse.

Naquele momento, poucos enxergavam um futuro para o cantor. Além de ter perdido seu lugar no Black Sabbath, Ozzy carregava a fama de ser imprevisível, autodestrutivo e incapaz de manter qualquer projeto sob controle. Foi nesse cenário que Sharon Arden, filha do empresário Don Arden, assumiu um papel determinante em sua vida.

Sharon não apenas o retirou daquele período de completa desorientação. Ela acreditou que Ozzy ainda poderia construir uma carreira fora do Black Sabbath, tornou-se sua empresária e começou a organizar uma nova banda ao redor do vocalista. A tarefa não consistia simplesmente em recolocá-lo nos palcos, mas em encontrar uma identidade que não parecesse uma imitação de seu antigo grupo.

A relação profissional posteriormente se transformaria em casamento, mas, naquele primeiro momento, Sharon representou a possibilidade concreta de um recomeço. Sem sua determinação, é difícil imaginar se Ozzy Osbourne teria sobrevivido à própria queda ou encontrado forças para iniciar a fase mais bem-sucedida de sua carreira individual.

Ozzy and Sharon em 1984 — Photo: Ron Galella/ Gettyimages

Randy Rhoads: o guitarrista que devolveu a confiança a Ozzy

A reconstrução ganhou forma quando Ozzy Osbourne conheceu Randy Rhoads, jovem guitarrista que havia integrado o Quiet Riot. Embora tivesse apenas 23 anos quando começaram a trabalhar juntos, Randy já demonstrava uma abordagem singular, combinando a agressividade do Heavy Metal com conhecimentos de música clássica e um cuidado incomum na elaboração de seus solos e harmonias.

Sua chegada foi decisiva porque Ozzy não precisava apenas de um bom instrumentista. Precisava de alguém capaz de ajudá-lo a criar uma linguagem diferente daquela estabelecida ao lado de Tony Iommi. Competir diretamente com o som do Black Sabbath seria inútil. A nova banda precisava mostrar que o vocalista ainda possuía algo relevante a dizer sem depender dos riffs que haviam definido sua trajetória até então.

Ao lado do baixista e compositor Bob Daisley e do baterista Lee Kerslake, Randy Rhoads participou da criação de uma sonoridade mais veloz, melódica e tecnicamente elaborada. Seus riffs possuíam peso, mas também revelavam influência clássica, precisão e uma inventividade que imediatamente diferenciava aquele projeto da antiga banda de Ozzy.

Mais do que um colaborador, Randy ajudou o cantor a recuperar a confiança perdida após a demissão. Enquanto muitos consideravam Ozzy Osbourne uma figura acabada, o guitarrista enxergava nele uma voz única e ainda capaz de protagonizar grandes discos. A parceria entre os dois duraria pouco, mas seria suficiente para produzir algumas das músicas mais importantes da história do Heavy Metal.

Randy Rhoads — Photo: Jack Lue/ Atlasicons.com

A chegada de Blizzard Of Ozz

Lançado em 1980, Blizzard Of Ozz apresentou um artista completamente revitalizado. Em vez de tentar reproduzir o peso sombrio do Black Sabbath, o disco combinava a personalidade vocal de Ozzy Osbourne com a formação clássica e a precisão de Randy Rhoads, além da contribuição essencial de Bob Daisley e Lee Kerslake.

O resultado foi um álbum repleto de composições que se tornariam pilares da carreira do cantor. Crazy Train, construída sobre um dos riffs mais reconhecíveis do gênero, transformou-se em seu maior hino solo. Mr. Crowley ganhou destaque pela atmosfera sombria e pelos solos monumentais de Randy Rhoads, enquanto I Don’t Know, Suicide Solution e Revelation (Mother Earth) ajudaram a demonstrar a variedade e a força daquela nova formação.

A importância do disco vai muito além de seu sucesso comercial. Blizzard Of Ozz provou que Ozzy não dependia do passado para continuar relevante. Sua saída do Black Sabbath, que inicialmente parecia uma sentença de encerramento, acabou abrindo espaço para uma segunda carreira tão influente quanto a primeira.

Diary Of A Madman e o segundo clássico seguido

No ano seguinte, Diary Of A Madman confirmou que aquela reconstrução não havia sido um acontecimento isolado. Mais obscuro, ambicioso e musicalmente complexo, o álbum aprofundou a identidade apresentada em seu antecessor. Faixas como Over The Mountain, Flying High Again, Believer e a monumental música-título tornaram-se clássicos absolutos e permaneceram entre os momentos mais celebrados de toda a discografia de Ozzy Osbourne.

Os dois álbuns formam uma sequência extraordinária. Juntos, apresentam alguns dos maiores hinos do Heavy Metal, consolidaram Randy Rhoads como um dos guitarristas mais importantes de sua geração e transformaram Ozzy em uma estrela capaz de ocupar arenas sem precisar recorrer exclusivamente ao repertório do Black Sabbath.

Em apenas dois anos, o cantor passou de músico demitido e desacreditado a protagonista de uma das carreiras solo mais importantes da música pesada. Blizzard Of Ozz e Diary Of A Madman não representaram apenas um recomeço. Eles estabeleceram um novo padrão para o Heavy Metal dos anos 1980 e deram a Ozzy Osbourne alguns dos maiores clássicos de toda a sua trajetória.

Uma perda que jamais deixou de doer

A parceria com Randy Rhoads terminou tragicamente em 19 de março de 1982. Durante uma viagem da turnê, o guitarrista embarcou em um pequeno avião conduzido de maneira imprudente. A aeronave atingiu o ônibus da equipe e caiu sobre uma residência, matando Randy, o piloto Andrew Aycock e a maquiadora Rachel Youngblood.

A morte destruiu emocionalmente Ozzy. Além de perder um amigo, ele perdeu o músico que havia sido fundamental para reconstruir sua confiança depois da saída do Black Sabbath.

A difícil tarefa de seguir sem Randy Rhoads

A clássico momento em que Ozzy levanta Randy Rhoads — Photo: Paul Natkin/ Getty Images

A morte de Randy Rhoads deixou uma lacuna que não poderia ser preenchida simplesmente pela contratação de outro guitarrista. Além do impacto emocional sobre Ozzy Osbourne, havia uma questão artística: os dois primeiros discos solo haviam sido construídos ao redor de uma parceria muito específica, responsável por estabelecer uma identidade própria e afastar definitivamente o cantor da sombra do Black Sabbath.

Nos meses seguintes ao acidente, guitarristas como Bernie Tormé e Brad Gillis ajudaram Ozzy a cumprir compromissos já assumidos. Gillis, integrante do Night Ranger, também participou da gravação de Speak Of The Devil, álbum ao vivo composto por músicas do Black Sabbath. Era uma fase de sobrevivência, marcada pela necessidade de manter a carreira em movimento enquanto o cantor ainda tentava compreender a perda de seu principal parceiro musical.

Encontrar alguém que assumisse o posto de forma permanente exigia mais do que habilidade técnica. Qualquer guitarrista escolhido seria inevitavelmente comparado a Randy Rhoads, um músico que, em apenas dois álbuns, já havia conquistado uma posição quase mítica entre os fãs de Heavy Metal.

Jake E. Lee e uma nova identidade para os anos 1980

A resposta apareceu com Jake E. Lee, guitarrista de estilo explosivo, visual marcante e personalidade musical bastante diferente da apresentada por Randy Rhoads. Em vez de tentar reproduzir a formação clássica e as construções neoclássicas de seu antecessor, Jake trouxe riffs mais diretos, agressivos e conectados ao som que dominava o Metal norte-americano na época.

Seu primeiro trabalho com Ozzy Osbourne, Bark At The Moon, foi lançado em 1983. A faixa-título apresentou imediatamente aquela nova fase, impulsionada por um riff cortante que se tornaria um dos mais reconhecidos da carreira do cantor. Músicas como Centre Of Eternity e Waiting For Darkness também mostraram que Ozzy poderia continuar avançando sem tentar recriar seus clássicos.

O álbum ainda reforçou a transformação do cantor em uma grande atração da década. A imagem monstruosa utilizada na capa e no videoclipe de Bark At The Moon ampliava o personagem do Príncipe das Trevas, enquanto a produção e os arranjos aproximavam sua música de uma sonoridade mais moderna.

Três anos depois, The Ultimate Sin levou essa direção ainda mais longe. O disco apresentava uma produção típica da metade dos anos 1980, com maior presença de teclados, refrões grandiosos e uma estética alinhada ao Hard Rock daquele período. Shot In The Dark tornou-se um dos maiores sucessos comerciais de Ozzy, enquanto faixas como Killer Of Giants e a música-título mantiveram o peso e a personalidade.

Apesar do sucesso, a parceria terminou de maneira amarga. Jake E. Lee deixou a banda após a turnê de The Ultimate Sin, cercado por conflitos relacionados aos créditos de composição e à condução empresarial da carreira. Durante muito tempo, sua passagem foi tratada como uma etapa intermediária entre Randy Rhoads e Zakk Wylde, mas os dois discos gravados com o guitarrista possuem identidade própria.

Entre morcegos, controvérsias e histórias inacreditáveis

Ozzy Osbourne em 1989 — Photo: Paul Natkin/ WireImage

À medida que a carreira solo crescia, também se consolidava a figura pública do Príncipe das Trevas. Alguns episódios nasceram como ações promocionais; outros resultaram de dependência química, falta de controle ou decisões desastrosas.

Em 1981, durante uma reunião com executivos da gravadora, Ozzy mordeu a cabeça de uma pomba. No ano seguinte, durante um show em Des Moines, acreditou que um morcego lançado ao palco fosse de brinquedo e também o mordeu. Precisou receber tratamento contra raiva depois de descobrir que o animal era verdadeiro.

Surpreendentemente, o episódio do morcego tornou-se uma das histórias mais conhecidas do Rock, muitas vezes resumindo injustamente uma carreira muito maior. Também contribuiu para transformar Ozzy em alvo de grupos religiosos e conservadores, especialmente nos Estados Unidos, onde suas músicas foram acusadas de incentivar satanismo, violência, bem como o suicídio.

Por trás das manchetes, porém, existia um homem em permanente conflito com os próprios vícios. O comportamento imprevisível prejudicou relações profissionais, colocou sua família em risco e quase encerrou sua vida em diferentes ocasiões. A imagem divertida do louco do Rock frequentemente escondia consequências dolorosas.

Zakk Wylde: de jovem desconhecido a parceiro fundamental

Depois da saída de Jake E. Lee, Ozzy Osbourne voltou a procurar um guitarrista. Entre os candidatos apareceu Zakk Wylde, um jovem praticamente desconhecido de Nova Jersey, que enviou uma fita de demonstração e uma fotografia.

Com cabelos longos, forte presença de palco e uma maneira extremamente física de tocar, Zakk parecia ter sido criado para uma banda de arenas. Sua guitarra combinava a influência de músicos como Randy Rhoads e Tony Iommi com elementos de Southern Rock, palhetadas agressivas, harmônicos artificiais e solos facilmente reconhecíveis.

Sua estreia aconteceu em No Rest For The Wicked, lançado em 1988. O álbum apresentou uma sonoridade mais pesada e crua do que aquela encontrada em The Ultimate Sin. Faixas como Miracle Man e Crazy Babies mostraram uma banda renovada, agora preparada para enfrentar as transformações que se aproximavam.

A consolidação da parceria veio com No More Tears, de 1991. O disco reuniu algumas das composições mais importantes da fase solo de Ozzy, incluindo a monumental faixa-título, Mama, I’m Coming Home, Mr. Tinkertrain, Road To Nowhere e I Don’t Want To Change The World. O trabalho encontrou um equilíbrio entre peso, melodias acessíveis e uma produção capaz de dialogar com o grande público sem descaracterizar o cantor.

No More Tears também demonstrou que Zakk Wylde não era apenas um guitarrista contratado. Sua maneira de tocar havia se tornado parte essencial daquela identidade, ajudando Ozzy a atravessar o período em que o Grunge e o Rock alternativo modificavam profundamente o mercado musical.

A colaboração continuou em Ozzmosis, de 1995, e seria retomada em diferentes momentos das décadas seguintes. Mesmo quando não permaneceu como integrante fixo da banda, Zakk manteve uma relação pessoal e artística duradoura com Ozzy, retornando para turnês, apresentações especiais e gravações.

Ozzfest e a capacidade de compreender uma nova geração

Durante os anos 1990, quando muitos artistas surgidos nas décadas anteriores enfrentaram dificuldades para permanecer relevantes, Ozzy Osbourne encontrou outra maneira de renovar sua ligação com o público.

Depois que o festival Lollapalooza recusou sua participação, Sharon Osbourne ajudou a criar o Ozzfest. A primeira edição aconteceu em 1996 e o evento se transformou em uma das plataformas mais importantes para o Metal nos Estados Unidos.

Ao lado de nomes consagrados, o festival abriu espaço para bandas que representavam diferentes vertentes da música pesada. Slipknot, System Of A Down, Disturbed, Korn, Tool, Fear Factory, Lamb Of God e muitas outras passaram por seus palcos.

Mais do que uma extensão comercial da carreira de Ozzy, o Ozzfest aproximou gerações. O homem que ajudara a criar o gênero no início dos anos 1970 continuava participando de sua transformação décadas depois.

Da escuridão do Metal para a televisão mundial

Em 2002, Ozzy Osbourne passou por mais uma reinvenção inesperada. O reality show The Osbournes, exibido pela MTV, mostrou a rotina doméstica do cantor ao lado de Sharon, Kelly e Jack Osbourne.

O programa apresentou ao grande público uma figura muito diferente daquela construída pelos discos e pelas controvérsias. Dentro de casa, o aterrorizante Príncipe das Trevas aparecia confuso diante de controles remotos, cachorros, vizinhos e problemas familiares cotidianos.

A série transformou a família em um fenômeno da televisão e levou Ozzy a uma audiência que talvez jamais tivesse ouvido um disco do Black Sabbath. Ao mesmo tempo, gerou críticas de fãs que acreditavam que sua imagem estava sendo reduzida à de um personagem cômico.

Ainda assim, poucos artistas atravessaram tantas mudanças culturais sem desaparecer. Ozzy sobreviveu ao fim dos anos 1970, à ascensão do Glam Metal, à explosão do Grunge, ao Metal alternativo, à televisão de realidade e à era digital. Em cada período, encontrou alguma maneira de permanecer reconhecível.

Os reencontros com o Black Sabbath

Apesar das mágoas e dos conflitos, a história de Ozzy Osbourne nunca conseguiu se separar completamente do Black Sabbath. Ao longo dos anos, ele voltou a dividir o palco com seus antigos companheiros em ocasiões especiais.

A reunião ganhou força a partir de 1997 e resultou no álbum ao vivo Reunion, lançado no ano seguinte. Mais tarde, Ozzy, Tony Iommi e Geezer Butler, acompanhados pelo baterista Brad Wilk nas gravações, produziram 13, primeiro disco de estúdio da banda com seu vocalista original desde Never Say Die!.

Lançado em 2013, 13 levou o Black Sabbath novamente ao topo das paradas em diferentes países. A turnê de despedida The End terminou em fevereiro de 2017, naturalmente em Birmingham.

Naquele momento, parecia que o capítulo havia sido encerrado. Ainda faltava, entretanto, uma última reunião.

A luta contra o próprio corpo

Ozzy & Sharon Osbourne, juntos desde o início dos anos 1980 — Photo: Ruaridh Connellan/ Expectativa/ BBC

Os últimos anos da vida de Ozzy Osbourne foram marcados por sucessivos problemas de saúde. Uma queda em 2019 agravou antigas lesões na coluna e exigiu cirurgias complexas. Posteriormente, o cantor revelou que havia recebido o diagnóstico da doença de Parkinson.

As limitações físicas provocaram cancelamentos e adiaram repetidamente seus planos de voltar aos palcos. Para alguém que passara a vida em movimento diante das multidões, perder a capacidade de andar representou uma transformação brutal.

Mesmo assim, Ozzy continuou gravando. Ordinary Man, lançado em 2020, e Patient Number 9, de 2022, colocaram sua voz ao lado de artistas como Tony Iommi, Jeff Beck, Eric Clapton, Zakk Wylde, Mike McCready e Chad Smith.

As gravações mostravam um cantor consciente da proximidade da morte, mas ainda disposto a trabalhar. Não havia tentativa de esconder a idade ou fingir invulnerabilidade. Pela primeira vez, o homem que sobrevivera a tudo parecia encarar abertamente a própria finitude.

Back To The Beginning: a despedida onde tudo começou

O sorriso do triunfo, Ozzy conseguiu fazer seu último show — Photo: Ross Halfin

Em 5 de julho de 2025, o Villa Park, estádio do Aston Villa, recebeu o evento Back To The Beginning. A escolha do local tinha um significado especial: Ozzy, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward haviam crescido naquela região.

O festival reuniu bandas e músicos profundamente influenciados pelo trabalho do Black Sabbath, entre eles Metallica, Slayer, Guns N’ Roses, Pantera, Tool, Gojira e Alice In Chains. A renda foi destinada a instituições beneficentes ligadas ao tratamento do Parkinson, a crianças e a cuidados paliativos.

Sem condições de caminhar pelo palco, Ozzy cantou sentado em um trono. Primeiro, apresentou músicas de sua carreira solo. Depois, reencontrou a formação original do Black Sabbath para tocar War Pigs, N.I.B., Iron Man e Paranoid.

Não foi uma apresentação marcada pela perfeição técnica, tampouco precisava ser. O que estava em jogo era a possibilidade de completar um círculo. O garoto que saíra de Aston sem grandes perspectivas retornava à sua cidade como a figura central de uma celebração que reunia algumas das maiores bandas do mundo.

Dezessete dias depois, em 22 de julho de 2025, sua família anunciou sua morte. Ozzy estava cercado por seus familiares. Posteriormente, o atestado registrou parada cardíaca, infarto agudo do miocárdio, doença arterial coronariana e Parkinson com disfunção autonômica entre as causas.

O homem por trás do Príncipe das Trevas

The Prince Of Darkness — Photo: Fred Prouser

É fácil transformar Ozzy Osbourne em uma coleção de histórias absurdas. O morcego, a pomba, as drogas, os processos, as internações e as declarações desconcertantes fazem parte de sua biografia. Nenhum desses episódios, entretanto, explica sozinho por que sua morte provocou tamanha comoção.

Ozzy não foi amado por parecer invencível. Pelo contrário: o público acompanhou suas fraquezas durante décadas. Ele caiu em público, fracassou em público, enfrentou vícios em público e envelheceu diante de todos. Muitas vezes, pareceu constrangido, perdido ou incapaz de compreender o tamanho do próprio legado.

Talvez estivesse justamente aí uma parte de seu carisma. Por trás da iconografia demoníaca, existia um homem surpreendentemente vulnerável, bem-humorado e grato por ter recebido uma vida que jamais imaginou alcançar.

Sua voz abriu caminho para incontáveis cantores. O Black Sabbath alterou para sempre a maneira como guitarras, baixos e baterias poderiam soar. Sua carreira solo mostrou que uma demissão devastadora também poderia representar um recomeço. O Ozzfest ajudou novas gerações a encontrar público. Até mesmo suas contradições passaram a integrar a história do Rock.

Um ano após sua morte, Birmingham celebra pela primeira vez o Ozzy Day, certamente transformando o dia 22 de julho em uma homenagem ao filho mais famoso de sua classe trabalhadora. A cidade terá apresentações musicais, exibições, instalações artísticas e atividades relacionadas à trajetória do cantor.

Não poderia existir cenário mais adequado. Assim, antes dos discos de ouro, dos estádios, das polêmicas e do título de Príncipe das Trevas, existia apenas um garoto de Aston tentando escapar do destino que parecia escrito para ele.

Ozzy Osbourne conseguiu.

Ouça a música de Ozzy Osbourne sem moderação:

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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