Quase três anos se passaram desde o lançamento de “Fearsick”, segunda cartada oficial do Inhuman Condition, liberado em julho de 2022.
Com muita alegria (e pouquíssima surpresa) posso mais uma vez constatar que a banda segue firme e devota em sua proposta sonora mais do que nunca, permanecendo fiel em sua empreitada de trazer o mais puro Death Metal old school, em uma roupagem mais moderna e cristalina, por assim dizer.
E para aqueles que ainda não conheçam, o Inhuman Condition é o projeto idealizado pelo baterista e vocalista Jeramie Kling (The Absence, Venon Inc, Overkill), o guitarrista Taylor Nordberg (The Absence, Deicide) e o lendário e veterano baixista Terry Butler (Ex-Six Feet Under, Ex-Massacre, Obituary).

O projeto veio logo após um breve período onde Jaramie Kling e Taylor foram afiliados à banda de Death Metal, Massacre, que não ironicamente, se tornou a principal fonte de inspiração do projeto, desde a criação do logotipo da banda, até a sonoridade característica, algo que vamos nos aprofundar logo mais. Por falar em logo, vamos falar de arte feita por gente.
A narrativa do mascote
Mais um vez, temos a arte que estampa o álbum assinada pelo artista Dan Goldsworthy, ampliando ainda mais a misteriosa narrativa em torno do aparente mascote da banda, batizado de Rat God.
Aquela “sugestiva sensação de continuidade” entre as capas se tornou oficialmente uma narrativa própria apresentada pela criatividade de Goldsworthy, introduzindo os próprios membros da banda nesse universo, sendo brutalmente torturados pelo mascote em sua masmorra.

Sobre a concepção da arte de capa, o baterista/vocalista Jeramie Kling comentou o seguinte:
“No início da composição deste álbum, fui dominado por uma sensação inescapável de confinamento.Esse confinamento não foi imposto pelo processo criativo ou pelas expectativas de lançamentos anteriores, mas sim pela própria estrutura da nossa existência compartilhada neste planeta.
Inicialmente, eu tinha concebido eu mesmo, Taylor e Terry sendo pegos nessas várias armadilhas na capa como uma representação flagrante de ser mantido em cativeiro pelo mundo em que habitamos. Além disso, testemunhar nossas mortes consolida o sentimento muito real e agourento emitido pelo termo Death Metal”
Origens
É curioso pensar que o Inhuman Condition nasceu como uma forma de resposta bem irreverente para a saída de Taylor Nordberg e Jeramie Kling do Massacre por conta de algumas diferenças irreconciliáveis com o vocalista e membro fundador Kam Lee.
E como os caras já tinham um bom material escrito originalmente para o vindouro novo álbum da banda capitaneada por Kam Lee, decidiram investir nessa empreitada que a princípio tinha como objetivo ser um Massacre 2.0, despretensioso e cheio de marra, trazendo a bordo nada menos que o baixista Terry Butler, um dos membros da formação original e um dos veteranos mais emblemáticos dentro do surgimento do Death Metal da Flórida… Importante mencionar que como um bônus, é mais um membro com desavenças complicadas com o vocalista Kam Lee.

O que eles claramente não previam era que esse projeto funcionaria tão bem, que se tornaria uma maneira sólida de manter o Death old school no radar. É preciso dizer queo trio também tem conseguido atrair a atenção de um público mais jovem para este mundo da música extrema. E fica evidente que aquilo que tinha intenção de ser algo mais despojado e despretensioso, começa a ganhar força. O Inhuman Condition vem se tornando forte na cena, inclusive, com grande parte disso se devendo a paixão e compromisso dos caras com a proposta.
Abrindo os portões do sanatório Mind Trap
Gravado, mixado e masterizado na Smoke & Mirrors Productions, propriedade do Sr. Kling, “Mind Trap” foi lançado oficialmente no último dia 27 de julho, dessa forma marcando o fechamento oficial de uma trinca de ases de respeito contendo muita insanidade sonora.

Como de costume, a banda disponibilizou uma série de singles para criar o cenário que veríamos a seguir e, inclusive, são novamente as musicas que abrem o tracklist. Desse modo, creio que a melhor forma de iniciar é avaliar as três trincas do disco de forma separada.
A primeira trinca impõe respeito
“Severely Lifeless”, “Face For Later” e “Godship” nos transportam com mestria para o calabouço de torturas infestado de ratos sanguinários. Desse modo, os dois primeiros singles lançados, mostram mais uma vez o ponto mais forte e o diferencial da abordagem da banda, que seria produção e mixagem altamente clara e coesa, contrastando com a rispidez e agressividade absurda do instrumental, resultando num caos demoníaco com uma regência digna de Mozart.
Como se não bastasse, serem os responsáveis pelo instrumental devastador, Kling e Nordberg também assumem a bronca da mixagem e masterização de suas obras, mantendo o controle criativo intacto.
Continuidade é a palavra
Em “GodShip” temos um som brutal guiado pelo riff, assim como um manifesto de ódio e danação proferido pelos vocais do Sr. Kling. Essa faixa dialoga de forma interessante com a música “Recycled Hate”, do álbum anterior da banda, criando aquela ideia de continuação direta entre as narrativas, mesmo com focos temáticos distintos.
“Gerações do convertimento
Encolhido diante do peso dos olhos
Tudo o que o homem precisou para desmoronar
Foi a decepção de Deus” -GodShip
“Contagiosa forma de sofrimento
Repita o círculo vicioso
Gerações de degenerados
Mentes infectadas se infiltram em mim” -Recycled Hate
A segunda trinca, e não ironicamente, a mais intrincada do álbum, se inicia com “The Betterment Plan”, último dos três singles lançados pouco antes da estreia, e inesperadamente marcando um ponto de virada interessante na audição, com quebras de andamento mais frequentes e riffs sincopados diabólicos cheios de groove.
Não podemos esquecer que, para além de seu dotes vocais, o Sr. Kling inclusive é o responsável pelas baquetas e batuques nos registros de estúdio. E o homem sempre está em grande forma e cheio de criatividades percussiva, trazendo alguns andamentos tribais certamente muito familiares, uma característica presente desde o álbum de estreia.
No entanto, em suas apresentações ao vivo, o Inhuman Condition conta com a mão de obra do Sr. Colton Zeitler na bateria, deixando Jaramie Kling brilhar no front, como podemos ver no clipe oficial, gravado no The Orpheum, em Tampa, na Florida.
Referências bem vindas
Em “Mind – Tool – Weapon”, bem como em “Chaos Engine” temos uma dobradinha que apresenta um lado da sonoridade dos caras que agrada demais este que vos escreve. Essa sequencia carrega com mais veemência aquela sensação de saber da onde vem a inspiração dos membros no momento de criação, como se estivéssemos ouvindo resquícios do Master, dentro de uma levada que remete ao Benediction, e uma atmosfera que por vezes evoca o Grave, tudo isso conduzido pelo timbre de guitarra cavernoso do Sr. Nordberg, numa avalanche de riffs assassinos que não da trégua em momento nenhum.
A terceira e ultima trinca traz “Recollections Of The Future”, “Obscurer” e “Science of Discontent”. E aqui temos aquela leve quebra do esquema padrão na formula da banda, conforme as duas primeiras mantém o ritmo mais galopado e agressivo, adicionando um pouco mais de cadência e peso. Dessa forma, deixam a faixa mais dissonante para o encerramento, mas não se engane, a banda não busca invenções ou novidades aqui, eles apenas adicionam algumas quebras de padrão com bases mais alternadas entre agressividade e andamentos mais lentos.
Existe um ponto um tanto incongruente que sempre citei desde o álbum de estreia da banda em relação a performance e presença do baixo do Sr. Terry Butler na mixagem final. A incongruência, seria pelo fato de Terry ter um timbre muito intimador em seus graves, uma sonoridade que apesar de não se destacar por técnica ou virtuosidade, se destaca pela proeminência do peso e presença constante, mas não também costuma chamar muita atenção para si. Mas de fato, é sentido a ausência de um baixo mais presente e pulsante no decorrer do álbum, apesar de não afetar o resultado final.

Fechando um trinca de respeito
Antes mesmo de que sequer concluir a audição de “Mind Trap”, já me sentia muito grato e animado pela banda ter concluído este ciclo, pois me preocupava um pouco que em meio a tantos projetos e bandas lendárias que os três membros estavam (e ainda estão) ativamente envolvidos, o Inhuman Condition acabasse ficando no limbo. Mas felizmente pude comprovar que estava errado.

Este projeto tem evoluído e inegavelmente alcançado destaque na cena underground a cada novo registro lançado, conseguiram ir de um Massacre 2.0, para um banda que carrega a essência do Death Metal, com todos os maneirismos e alguns dos estereótipos mais manjados das bandas veteranas, de forma sólida e divertida.
Nota: 8,6
Integrantes :
- Terry Butler (Baixo)
- Taylor Nordberg (Guitarras)
- Jeramie Kling (Vocais, Bateria)
Faixas:
1. Severely Lifeless
2. Face for Later
3. GodShip
4. The Betterment Plan
5. Mind- Tool- Weapon
6. Chaos Engine
7. Recollections of the Future
8. Obscurer
9. Science of Discontent