Diretamente de Quebec, no Canadá, o Cryptopsy representa a ala agressiva e sanguinária do Metal dessa terra tão ávida por este nobre subgênero musical. E enquanto várias bandas de renome e outras emergentes andaram aprontando das suas (no sentindo de lançar ótimos álbuns recentemente), a banda canadense de Brutal/Technical Death Metal não podia ficar de fora.
“An Insatiable Violence” foi lançado no exato dia 20 de junho via Season of Mist. Portanto, trata-se do nono álbum da canadian deathmetaller band e sucede o excelente “As Gomorrah Burns”. Portanto, poder ser dito claramente que o Cryptopsy vive grande fase atualmente.

O Cryptopsy é liderado pelo baterista Flo Mounier, tido como um dos principais músicos do gênero por conta de sua versatilidade, criatividade, técnica e agressividade diante de seu kit. Complementam o time Christian Donaldson (guitarra), Matt McGachy (vocal) e Olivier Pinard (baixo). O próprio guitarrista Christian Donaldson é o nome por trás da produção, engenharia, mixagem e masterização do novo álbum. Já a artwork é uma obra póstuma de Martin Lacroix (R.I.P. 2024). Trabalho muito bem feito, por sinal.
Cryptopsy e a relação com o Juno – Grammy canadense
E como grande e importante lembrete, o Cryptopsy conseguiu a façanha de ganhar um Grammy canadense 30 anos depois de sua carreira. Em resumo, a banda canadense ganhou um JUNO Award em 2024, que é uma premiação equivalente ao Grammy no Canadá, para o seu álbum “As Gomorrah Burns” na categoria de Melhor Álbum de Metal/Hard Music.
Indubitavelmente, você percebe através da arte da capa a obscuridade que é proveniente do disco. É tão notória a comunicação que você acabar por pressentir isso sem ao menor ter colocado a bolacha pra rodar e fazer barulho. Os traços sombrios que circundam a ilustração tendem a te prender e te passar a mensagem antes mesmo de ser ouvida. Magistral isso, não?! Bem, é claro que é preciso ouvir o disco completo para melhor entender essa mensagem até para concluir a comunicação e encontrar detalhes dentro da mesma. E cá estamos novamente para navegar por estes mares sangrentos e sombrios desse subgênero excepcional. O novo álbum foi gravado, projetado, mixado e masterizado no estúdio de Christian Donaldson.
De acordo com Bandcamp oficial da banda:
“Uma pessoa passa o dia todo construindo uma máquina, só para ser torturada a noite toda. Como se isso não fosse perverso o suficiente, ela gosta. Na verdade, gosta tanto de ser torturada que, ao amanhecer, acorda rejuvenescida, ansiosa para ajustar a máquina até que ela funcione perfeitamente em sua mente. Essa é a visão noturna que inspirou o nono álbum completo do Cryptopsy, ‘Nightmare’.”
Cryptopsy se apresenta como um veterano de guerra
Sim! Se você gostou do “As Gomorrah Burns”, de 2023, com toda a certeza irá se encantar com “An Insatiable Violence”. O novo trabalho é uma evolução da história recente da banda e mostra um Cryptopsy cada vez mais consolidado e reconhecido pelos seus serviços prestados ao exército da morte. Como o álbum possui oito canções de ninar gárgulas, iremos dividir a bolacha entre os tradicionais lados A e B.
Partindo incessantemente para o lado A da monstruosidade robusta sonora, temos “The Nimis Adoration”, “Until There’s Nothing Left“, “Dead Eyes Replete” e “Fools Last Acclaim”.
Lado A de mukbang
A abertura serve para testar e afiar os tímpanos daqueles que já compactuam há bastante tempo com a sonoridade dos caras. Além disso, ela desafia os limites da insanidade humana a troco de nada, pois trata de um assunto bastante atual. Já ouviu falar em mukbang? De acordo com uma pesquisa sobre o assunto tratado em letra, esse termo vem do coreano “meokbang” (먹방), que significa “transmissão de comida”. Isso se popularizou na Coréia do Sul e acabou se espalhando pelo mundo através das redes. Trata-se vulgarmente de ingerir altas quantidades de comida em frente a uma câmera, enquanto se interage com o público. Bizarro isso, não?!
Quanto à sonoridade em si, temos um início avassalador a começar pelos primeiros dedilhados insanos. Uma chuva de sangue baseada em blast beats com intervalos e guitarras amplamente distorcidas invadem o cenário, alimentando todas as criaturas do submundo. Os intervalos são colocados de maneira inteligente e oferecem elementos de Nile e Cannibal Corpse. Há melodias e trechos mórbidos inseridos com a devida precisão, trazendo um charme cadavérico a mais para a canção. E que de fato, abre o caminho sombrio com ampla margem de vantagem.
Only agression
A sequência nos traz outro assunto do mundo atual: o dito only fans. Sim, aquilo que você paga para obter o que era comprado nas bancas de jornal escondido dos pais. Lembra? Não se faça de besta! Você sempre quis ter uma daquelas revistas, quando não tenha comprado nenhuma à época! A faixa reforça o momento em que a isca é jogada para alguém ser içado e se debater em volta dela como um belo peixe sofrível e abandonado pelo seu cardume.
É possível associar às apostas on line, o tal do jogo do “tigrinho”, dentre outras coisas na internet que induzem o consumo compulsório. O trecho final desta música é muito interessante. Observe:
“Eu folheio imagens de pele nua
De você em poses estranhas
Eu me maravilho com a facilidade
com que eu fiz você se abrir”
Quanto ao som que a mesma carrega consigo, o lance é ainda mais efervescente, com um início tradicional oferecido pelas linhas mais extremas da banda, se assemelhando ao Suffocation. Assim, sofrendo variações rítmicas muito interessantes. Destaque para as marcações e elevações de baixo, sendo bastante evidentes nos trechos de maior morbidez sonora. Os solos distorcidos são um charme à parte.
Cuidado com os holofotes!
Agora, avançamos o terceiro degrau e estamos diante do aviso: “Cuidado com os holofotes!”. Aqui é retratada a figura vazia de alguém que, por motivos de investimento barato foi promovida à atração principal, mas sequer consegue lidar com isso. Seu sorriso pálido é mostrado em frente às câmeras, mas nos bastidores vive cambaleando sem rumo e sem esperança. O único brilho no olhar é o da lente refletida na íris. O restante é completamente vazio, gélido e devastado. Essa pressão que a fama exige torna a ruptura depressiva ainda maior e mais densa.
O som é mais direto em seus primeiros passos violentos, mas que descamba para aquelas viradas bruscas tradicionais do estilo mais brutal do Metal. A melhor parte é quando o ritmo simula uma frota de caminhões turbinados e você sente o ronco dos motores em seu aparelho de som. A partir de então, fica perceptível e prazeroso quando os tempos são modificados em meio a uma cadência proposital. A canção alterna o ritmo entre maléfico e insano. Ou seja, mais um deleite para a dona da foice sorrir completamente feliz.
Mentes vazias e com prazo de validade
Em tempos de ironias se tornando planos reais e mentiras contadas muitas vezes sendo bíblias sagradas, temos obsessões dos mais e exagerados tipos. Desafios completamente imbecis e que são causadores de muitas mortes mundo afora. São aqueles desafios que vão muito além de um partoba, carinhosamente batizado pelos Irmãos Piologo. São desafio que desafiam a lei da razão e da existência. Você não pode saltar de determinada altura, mas se o desafio te promovesse de tal forma a te colocar em um novo mundo de magia e protagonismo seu? As mentes estão cada vez mais fracas e aceitam qualquer desafio que o projete para um campo falso de sucesso.
Sobre a sonoridade, temos uma bateria marcada por aceleração, quebras e mudanças bruscas sem perder o controle de tração. As guitarras de Christian e o baixo de Olivier trazem riffs cortantes, velozes e, por hora, distorcidos de maneira bochornal. Os trechos entre refrão e pós-refrão são o ápice da canção.
Explendor de técnica e brutalidade
Agora, enraivecidos de euforia musical, partimos para o lado B da coisa profana. Aqui temos as presenças de “The Art of Emptiness”, “Our Great Deception”, “Embrace the Nihility” e “Malicious Needs”.
Lado B de vazio
A primeira das últimas quatro músicas conta com a participação do vocalista Mike DiSalvo (Akurion, Coma Cluster Void, Conflux, Warhorse). E após uma breve intro de bateria, a faixa começa com riffs chamativos e com pausas para avançar mais uma vez. Esta, por sua vez, mergulha em mares ainda mais obscuros e apresenta dedilhados e acordes dissonantes, quase flertando com o Black Metal.
Os riffs seguidos de uma bateria massacrante, tornam a canção ainda mais poderosa e proveitosa para os amantes do estilo. Os solos funcionam condizentemente com a estratégia inserida e permitem o explorar da arte extrema. Diria que é uma das músicas mais quebradas do disco, no melhor dos sentidos, obviamente.
O tema reflete uma sociedade nociva e com pessoas em busca de reconhecimento e valorização, não importando o custo para alcançar isso. Uma top model em busca entrar naquela roupa produzida por uma empresa maléfica e sem escrúpulos, alguém postando vídeos e entendendo que deve ficar de tal forma para o agrado de sua “audiência”. Você se mutila em troca de sucesso repentino e constante. A sua vida entra em jogo todos os dias e você não dá a mínima, contanto que obtenha os devidos resultados. E se não houver?… Pode não haver mais volta à sanidade mental e à própria vida…
“A carne continuou caindo
O que a maioria achou atraente
Um abismal Manifestação
Da nossa decadente e infectada
Sociedade subjetiva outrora imaculada”
Grata surpresa em meio a uma grande decepção
Logo depois, vemos o brilhar da escuridão com um início diferente. Uma intro meio que de fundo faz as últimas preces antes do cometa se chocar contra o solo. A banda ensaia uma jam melancólica e logo vira o que adoramos. As comportas se abre e, consequentemente os mares se revoltam diante de tamanha agressividade sonora. Outro diferencial ocorre após esse levante do Metal extremo, assim incluindo uma cadência específica e eficaz. Isso fortalece o ímpeto seguinte e nos oferece algo numa linha entre Malevolent Creation e Aborted.
Quanto os solos surgem, vemos que estamos diante do Death Metal canadense e todas as suas nuances. Aqui temos frenagens maravilhosas e com gosto de tamarindo, que escorre pelas veias pulsantes das criaturas do já citado submundo. O lado técnico da banda invade o cenário e providencia vários licks de guitarra com muitos harmônicos. Confesso não ser das minhas prediletas, mas é outra música qualificada do Cryptopsy.
As redes sociais nos tornaram tão dependentes, uns mais e outros menos, mas poucos sequer foram fisgados por ela. Isso vai de encontro à falta de cérebro do ser humano dentro da atualidade. Escolhas são feitas com expectativas lá no topo e acabam por causar uma grande decepção. Contudo, as escolhas ficam realmente a cargo de quem conduz o seu perfil dentro dessa gaiola virtual chamada internet. Seja um produto para aquisição, fotos específicas, apostas, ou até mesmo conquistas. Esse trecho ressalta bem essa questão.
“Cara a cara é sempre uma tarefa
A realidade não condiz com as imagens adoradas
Um breve abraço e trocas estranhas
Em espaços estranhos e desconhecidos”
Escolhas são feitas e decepções podem vir na sequência. É como uma raspadinha. Você paga por ela, raspa e… Mais uma vez não ganhou. E se ganhar algo, tentará jogar de novo para ver se ganhar um valor maior.
O nada é a única existência
Aqui tenho que revelar. Esse dedilhado é o melhor início do álbum. Uma faixa que deixou a sua marca desde a primeira audição. Obviamente que, as outras músicas são muito boas. Porém, aqui é aonde se encontra a maior quantidade de ouro negro em forma de música extrema. A canção mais vil do disco surge como um vulto da masmorra e contamina que está perdido na floresta das audições musicais. Afinal, o Cryptopsy ainda está empurrando os limites da extremidade.
Esse início lembra bem o Hate e trechos dos riffs insanos, juntamente com a bateria mais acelerada, coloca à tona o Deicide. Em contrapartida, temos uma banda com inteligência própria e o seu DNA. Isso ocorre de imediato, principalmente nos trechos mais quebrados e também mais extremos da faixa, incluindo os solos. Além disso, vale dizer que é uma música a qual se comunica com qualquer outra do álbum.
Aqui temos como tema central o desperdício chamado vida. Ou seja, quando nada possui significado e viver se torna algo insignificante a ponto da pessoa enxergar a vida como o final de um ciclo ao invés do começo. Se tudo é finito, nada tem um propósito ou razão para existir. É assim que o niilismo trata o existir de forma bem vulgar e abrupta. E a canção reforça sobre o tema nos momentos mais incisivos, provocando o ouvinte a ver realmente se a vida vale à pena (utilize como fator teatral para não cair em tentação) e se amanhã terá algum significado diferente de hoje e de ontem.
Como movimento final, “Malicious Needs” desliza lentamente antes de ascender como um morcego em uma nuvem enegrecida de fumaça. Curvem-se à nova vileza da realeza do metal extremo.
Apoteose maliciosa
Enfim, chegamos ao começo. Sim, isso mesmo! Você terá a sensação de estar no começo ao terminar o álbum e começar a ouví-lo novamente. Perceba o tilintar da bateria do Flo nos primeiros milésimos de segundo de audição de “Malicious Needs”. É o puro frescor de chuva ácida nos ouvidos. A jornada prossegue e você recebe os tiros de metranca percussiva e as submetralhadoras encordoadas.
O tecido sonoro é revestido pelo cimento banhado em sangue e morte, com tempero de enxofre e pitadas de calamidade mundana. O rosnado das guitarras é complementado pelo balanço mórbido em meio a um comboio de energia infinita. Hora Brutal Death, hora Technical Death, e hora simplesmente: Death Metal. Receituário altamente recomendado a quem aprecia uma bela valsa sonora. Minha segunda favorita, pois se engana que ela fica somente nesse fraseado específico.
Em uma segunda parte, ela mergulha nos vales do Doom e o destaque aqui vai para os vocais variados de Matt McGachy, ricos em sofrimento, para finalizar a obra e adquirindo nossa grande felicitação (parafraseando a tradução da faixa “Our Great Deception”).
A linha temática é voltada satisfazer a dor e destaca o ato de se amarrar e se cortar em troca de excitação e prazer não é nada novo, mas isso passou ser um pacote nos moldes parecidos ao de vender imagens e vídeos íntimos. O que muda é o fator crueldade, pois o jogo pode se tornar bem sangrento de acordo com quem participa e, também por conta da audiência. A letra toda aborda bem esse aspecto, mas destaco essa parte:
“Minha dor construiu este santuário
As feridas da noite passada começaram a cicatrizar
A vontade de cutucá-las é realO lubrificante foi trocado
Afio as lâminas para garantir a eficiência
Novamente”
Considerações cryptopsyanas finais
O álbum em si é um trabalho muito bem equilibrado e coeso. Qualquer faixa dita como a preferida estará correta e o mais interessante é a sensação de querer ouvir de novo. “An Insatiable Violence” traz essa grata sensação e te prende como um verdadeiro ouvinte do estilo. A valsa sangrenta se faz presente do inicío ao fim. Portanto, a ideia aqui é ouvir e curtir bastante o novo trabalho do Cryptopsy.
Todavia, vale ressaltar sobre os temas propostos pela banda. O Cryptopsy mostrou mais uma vez que pode abordar sem medo sobre qualquer assunto. E assunto receberá o molho ardente do Metal da morte para melhor combinar com os elementos musicais inseridos. Flo, Christian, Matt e Olivier estão de parabéns por abordarem temas bastante atuais e que muitos fazem vista grossa para tal. E embora seja Death Metal…
Death Metal é vida!
“Eu regurgito
E apago lentamente
A multidão explode com xingamentos e gritos
Eu volto à vida e vomito outra carga
Silenciosamente tento não explodir”
nota: 9,0
Integrantes:
- Flo Mounier (bateria)
- Christian Donaldson (guitarra)
- Matt McGachy (vocal)
- Olivier Pinard (baixo)
Faixas:
1. The Nimis Adoration
2. Until There’s Nothing Left
3. Dead Eyes Replete
4. Fools Last Acclaim
5. The Art of Emptiness
6. Our Great Deception
7. Embrace the Nihility
8. Malicious Needs
Baita album de fato ,curto bastante essa variação de vocal gritado com guturais ocasionais da dinamismo bem bacana para musicas ele ser album mais curto e coeso nao deixa esse estilo ficar cansativo oque e otimo ,mas espero que proximo seja pouco mais inovador esse daqui apesar de excelente achei ele ficou com impressão de continuação do anterior do que album de fato novo ate a duração e bem proxima.