Não é de hoje que os italianos do Lacuna Coil causam certa apreensão e expectativa quanto ao lançamento de um novo álbum. E quando Cristina Scabbia e seus cainitas resolvem nos contar uma nova história, isso ocorre de fato. Entretanto, quem diria que eu estaria resenhando um álbum da banda de Scabbia e seus carniçais sombrios, hein!
Confesso que nunca fui enfeitiçado por nenhuma obra do Lacuna Coil e eu os via como uma banda que ficava muito aquém do que eu buscava dentro do chamado Symphonic Metal e também do Gothic Metal. Só para ilustrar e avisar os navegantes sem bússola, os dois subgêneros são sim distintos e cada qual com suas respectivas características e padrões musicais.
Enquanto estamos vivos, podemos nos surpreender com discos de bandas que não fazem parte da lista das “prediletas”. E, certamente, isso acabou ocorrendo ao conferir o novo álbum “Sleepless Empire”. O novo full length foi lançado no dia 14 de fevereiro via Century Media Records.
Tal título possui forte ligação com os tempos atuais e a própria Cristina deu o seu parecer sobre esta escolha:
“Escolhemos esse título porque representava os tempos que vivemos hoje. Estamos sempre acordados, constantemente tentando ser produtivos, super conectados com o resto do mundo, mas, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão desconectados e ansiosos… Eu faço parte daquela geração que viu… quão rápido a tecnologia se desenvolveu e quão grandes foram as mudanças”

Lacuna Coil e os sintomas do não dormir
“Sleepless Empire” é o décimo álbum de estúdio dos góticos italianos. O álbum foi gravado no SPVN Studio, em Como, Itália, e sucede o álbum “Black Anima” (2019). Entre os dois discos, a banda lançou o “Comalies XX” (2022) em comemoração aos 20 anos de um dos seus discos de sucesso, “Comalies”, de 2002. Assim sendo, uma regravação do disco original de 2002.
“Sleepless Empire” foi produzido por Marco Coti Zelati, enquanto Stefano Santi ficou a cargo da mixagem e Marco D’Agostino fez a masterização do novo trabalho. Roberto Toderico foi o responsável pelo trabalho artístico, mais conhecido como artwork mesmo. A nova joia de brilho escuro teve um trabalho de marketing bastante convincente, pois você pode tirar conclusões através da quantidade de singles e videoclipes lançados.
Os singles lançados e que receberam videos oficiais foram:
- “Oxygen”
- “Gravity”
- “In the Mean Time”
- “I Wish You Were Dead”
- “Never Dawn”*
*O último single da lista ganhou um lyric video. Contudo, também vale mencionar a qualidade das produções de cada video, mostrando o empenho da banda em entregar um material de qualidade ao invés de simplesmente lançar por lançar, como muitas bandas costumam fazer.

O novo disco do Lacuna Coil é temático e não conceitual
Quem entende as diferenças entre tema e conceito acaba ficando de saco cheio ao lidar com essa situação repetitiva, mas como estamos em um mundo cheio de mentes desligadas e sem nenhum uso, é sempre bom mencionar quando ocorre esse tipo de coisa. O tema sobre a perda do sono e a ansiedade é algo bastante corriqueiro e constante em nossa sociedade. Tanto que as próprias bandas estão mergulhando nesses mares profundos e cheios de problemas para enviarem seus pareceres e até mesmo servir de autoajuda para quem sofre com esses sintomas.
O ano de 2024 foi bastante proveitoso em questão de ótimos lançamentos dos mais variados subgêneros do Metal. Todavia, não se sabia ao certo se 2025 teria potencial para manter esse mesmo pique dos últimos anos. Afinal, uma estagnação, mesmo que breve, sempre ocorre dentro do certame musical. Contudo, não é o que vemos por aqui e coube ao Lacuna Coil se sobressair através do seu novo trabalho.
Lacuna Coil e um tema bastante atual
Ao longo do percurso sonoro e também em verso e prosa, vemos um ambiente bastante inóspito a tratar do sufocamento e da falta de ar quando não se vê mais nenhuma luz no fim do túnel, mas também diante disso a superação. Os entraves cotidianos e as fraquezas da mente ainda sã. O peso intenso ao lidar com os sintomas da depressão, da angústia, da solidão e da desesperança. Tudo isso sendo primordial para noites em claro e uma vida cada vez mais combalida e moída pelo sacrifício diário.
O caminhar solitário buscando o significado de viver e a luta para se manter firme mesmo sob uma presença maligna, seja presencial ou colada na mente. A luta continua e você poderá ver a luz do sol novamente, caso não desista e persevere. A paralisia do sono é tratada por aqui também como o sonhar em claro e fixar-se em um mundo de batalha pessoal e introspectiva, sendo real ou intangível.

Relacionando o que de melhor acontece em “Sleepless Empire”
O início do novo artefato musical atende por “The Siege” e logo faz o cerco para te prender em sua sonoridade. Após a intro que simula alguma maquinaria abrindo passagem para a visualização do céu, temos Andrea Ferro vociferando, para logo em seguida entrar a alma da festa soturna, Cristina Scabbia.
O ritmo incandescente se mistura por entre os laços de sua própria discografia, mas com um ímpeto dificilmente visto. Ao menos por mim. As palhetadas contínuas acompanham a veracidade da bateria, com seus pedais duplos inescrupulosos e capazes de elevar a canção. Destaque também para o dueto dos dois cantores junto ao refrão desta, que é uma canção mais curta.
O próximo destaque é um dos singles mais importantes do disco. “Oxygen” traz um lance mais Industrial para a trama, com toda aquela quebra na bateria e característica do estilo. Andrea e Cristina se mostram bastante hábeis em suas formas de cantar, cada qual ocupando muito bem o seu espaço. Os vocais mais agudos e demonstrando toda a sensação vivida no videoclipe colocam Scabbia no degrau ainda mais alto da canção. Porém, toda a banda se mostra muito eficiente ao unir o Gothic Metal tradicional com o Symphonic e o Industrial nos momentos mais agressivos da canção. Marco Coti Zelati cuida de todas as partes em cordas, enquanto Richard Meiz apresenta o monstro através de seu kit e de forma impecável.
Cristina Scabbia comentou sobre a faixa e sua experiência filmando o vídeo:
“‘Oxygen’ é uma exploração poderosa de luta emocional e conflito interno. A letra transmite uma sensação de afogamento em um ambiente tóxico, tanto literalmente (no vídeo) quanto metaforicamente, onde tentativas de salvação, representadas por ‘oxigênio’ são de alguma forma inúteis. Esta música encapsula o sentimento de lutar para se libertar do que nos prende, quando a jornada é cheia de dificuldades. É um hino cru de vulnerabilidade, resiliência e coragem para enfrentar o que parece intransponível. Ter que ficar na água por tantas horas durante a filmagem do vídeo foi catártico para mim, a percepção de que a sensação agradável de flutuar poderia em um instante se tornar perigosa e mortal se eu não tomasse cuidado era muito adequada ao tema da música.”
A trinca de destaques só poderia ser concluída pela terceira faixa, “Scarecrow”. Acredita que ela é ainda mais poderosa que a anterior nos momentos mais insanos? Os dois vocalistas colocam tudo abaixo, mas o principal destaque fica por conta do contrabaixo nervoso nessa canção.
Outras plumagens sombrias de tirar o sono dos corvos
“Gravity” vem na sequência e se apresenta como uma canção mais tradicional do estilo, com bases pesadas e que poderia servir de trilha sonora para os filmes de cainitas entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000. O pano de fundo te coloca no espaço em contraste com o peso da gravidade e a pouca luz próxima. O início dos versos possui trechos em latim e em seguida, os vocais guturais de Andrea Ferro ganham tons mais desesperadores e te fazendo crer no poderio da canção.
Quando Cristina Scabbia inicia suas partes a noite ganha ainda mais brilho e, mesmo que a canção não apresente tantas nuances, esta possui a sua força motriz no alicerce e em seu próprio formato para perseverar e conquistar seu lugar ao sol.
“Sinta a adrenalina em minhas veias
Enquanto flutuo em desespero
Com uma pedra ao redor do meu coração
Eu mantenho minha mente no lugar
Através de avenidas escuras
De depressão e ódio
Me puxe para baixo”
Eu queria que você estivesse morto (a) para apreciar essa canção e bailar conforme o seu ritmo mortal. “I Wish You Were Dead” se apresenta em ritmo de baile de gala da Camarilla. Creio que se fosse no Sabá, seria um ritmo mais alucinante, digamos assim. Mas aqui você consegue apreciar o compasso tradicional do Gothic Rock, com elementos do próprio Lacuna Coil. Tudo isso somado ao charme inserido na voz de Scabbia.
Apresentando o convidado especial para o banquete
Outro momento forte do disco fica por conta de “Hosting the Shadow”, a qual conta com a participação do vocalista Randy Blythe (Lamb of God). A canção inicia entre o modo computadorizado e viajante, unindo essa cortina com a voz de Scabbia sobreposta e contornando tal estrutura. Em seguida, a mesma ganha força e apresenta o seu arsenal de peso, melancolia com ritmo denso e agitado. Andrea Ferro forma a trinca de vozes nessa canção e tudo é apresentado no seu devido lugar, conforme a canção pede.
Em resumo, flertar com a escuridão para poder seguir em frente trouxe um poder para essa faixa que a coloca à frente de muitas outras ótimas músicas desse disco. Um dos melhores voos do corvo sombrio e cintilante, sem sombra de dúvida.
“Eu flerto com a escuridão
Estou sufocando
A turbulência interior
Para endireitar meus demôniosPorque eu não tenho medo da ausência de luz
No fundo do Poço, eu encontro alívio
E nem importa se estou vivo ou morto
Sozinho, eu estou hospedando a sombra”
Em nome da alucinação e da insônia
Ao caminhar para o final do vale da escuridão, percebe-se uma administração de resultado ganho, “In Nomine Patris” é uma faixa muito boa, mas que não apresenta mais aquele fator de surpresa. Muito disso é por conta de sua própria elaboração e colocação. Destaque para os trechos em latim, em que Scabbia mostra como uma italiana recita de forma magnífica cada verso e soneto, além dos ótimos e breves solos de guitarra. Cortesia do dono de todas as cordas, Zelati.
Eis que estamos diante da faixa que carrega o nome do disco. “Sleepless Empire” apresenta uma conduta mais carregada e soma isso aos versos guiados por bases palhetadas, hora com intervalos e hora de maneira sequencial. A partir da metade da canção, temos Scabbia utilizando seus tons mais “finos”. Assim, o espaço é aberto para uma crescente em voz em som e os minutos finais se tornam o ápice da mesma.
Não conseguir dormir é terrível, mas estar acompanhado dos seus pesadelos acordado é ainda mais insano e preocupante. “Sleep Paralysis” surge com o seu campo estratégico formado por elementos que te jogam nesse certame de olhos arregalados e assustados. A cadência é o grande trunfo em meio ao tapete sonoro estendido para o exercício auditivo e mental. Os elementos de Industrial estão mais aflorados no momento de mais peso e quebra sonora da canção, enquanto os solos ditam o rumo da história com muita qualidade em empenho junto ao que é tratado. Isso sem contar a tratativa gótica em todo o entorno da canção, com tilintares tradicionais ao término da faixa.
Últimos passos da valsa obscura
“In the Mean Time” carrega o tempero de término de expediente, já trazendo aquela vontade de mergulhar nesse mar gelado e denso desde o início novamente. Os duetos funcionam muito bem e o alicerce é bem fixado para que tudo funcione de modo a abrilhantar a noite de gala. Embora não apresente mais novidades, consegue manter a obra no prumo certo. Só para ilustrar, vale também o destaque para a vocalista convidada Ash Costello (The Haxans, New Years Day), somando e muito para a música.
Queria um término digno de nota? “Never Dawn” veio para ampliar esse número e trazer novos ares ao Lacuna Coil. Impressionante como a banda italiana conseguiu o feito que muitas bandas mais tradicionais do estilo meio que perderam! Meiz literalmente faz acordar todo o bairro com seu kit ultra poderoso em favor dos representantes de Como.
A faixa inicia com a Cristina dizendo:
“Run”
Entrando no inferno e se sentindo em casa
Porém, o modo como é dito é bem voltado para a junção de subgêneros da banda e faz total ligação ao que vem logo a seguir. Antes disso, temos um espécie de rito antigo e que liga ao que foi dito a princípio.
Acenda o fogo em seu coração mesmo sendo quase impossível. Levante-se e supere o invisível diante desta canção. Você deve confiar em mim mesmo e lutar com suas próprias mãos. Sempre existindo através da dor, cavando outra cova, pois ela traz o significado da vida. E mesmo que pareça uma bagunça de tão grotesco e desumano ao olhar em volta, acenda o fogo em seu coração…
“Eu estou de pé sem ninguém ao meu lado
Ansiando por minha vingança
Exausto, não consigo dormir
Sonhando com o sangue que derramei”
Ou seja, essa é a sensação trazida em sonoridade e prosa para que seja feita vossa musicalidade. As bases são precisas a ponto de mostrar que o sol escurecido nunca amanhecerá. Pode chorar sem que ninguém saiba, cambalear até quase cair, rastejar, mas nunca se ajoelhar. A dor não te torna sensível e nesse inferno você se sentirá em casa. Por fim, vale salientar que o encerramento do álbum garante o equilíbrio do mesmo. Entretanto, o fator surpresa acaba pendendo em favor da primeira metade e colocando ela como a parte mais qualificada do álbum. Ademais, devo reconsiderar o que eu pensava a respeito da banda. Vale uma nova conferida na discografia do Lacuna Coil para ver se tenho alguma opinião diferente.
Contudo, “Sleepless Empire” é sim o primeiro álbum de estúdio dos italianos a qual eu realmente gostei e que possui muitos momentos formidáveis. Será que a sequência será dessa mesma magnitude e empenho ou poderá ser algo ainda mais elevado? Ficaremos no aguardo!
“E mesmo que o céu agora esteja aberto
É escuro como o inferno e tão difícil de encontrar
Vou continuar trilhando meu caminho, seguindo o horizonte na minha cabeça
E eu sinto que estou chegando mais perto do começo ou do fim
Eu vou construir meu império”
nota: 8,5
Integrantes:
- Marco Coti Zelati (guitarra, baixo, teclado)
- Andrea Ferro (vocal)
- Cristina Scabbia (vocal)
- Richard Meiz (bateria)
Artistas convidados:
- Randy Blythe (vocal, Lamb of God)
- Ash Costello (vocal, The Haxans, New Years Day)
Faixas:
1. The Siege
2. Oxygen
3. Scarecrow
4. Gravity
5. I Wish You Were Dead
6. Hosting the Shadow
7. In Nomine Patris
8. Sleepless Empire
9. Sleep Paralysis
10. In the Mean Time
11. Never Dawn