Desde os primórdios da humanidade, não importa a crença que você tenha, um grande mal assola a vida humana. Apesar de não ser infeccioso, ele impregna e sufoca suas vítimas muitas vezes até o fim. Apesar das inúmeras tentativas de cura, esse malefício não vai embora e dificilmente deixa o corpo da pessoa doente. O seu miasma é reconhecido de longe e não abandona o ambiente por onde passa. Sua aura de destruição precede sua reputação e só de ouvir o nome, trememos perante tal mal. O Câncer é pesado, é incomodo, é nocivo e, em muitos casos, é fatal.
Cancer sem ser câncer
Uma banda inglesa de Death Metal resolveu adotar este nome e, musicalmente, seu poder de destruição também é notável. Formada ao anoitecer da década de 80, mas amanhecer dos anos 90, John Walker (guitarrista e vocalista) se uniu com dois excelentes músicos para se preparar para o lançamento daqueles que seriam os 2 discos que abririam com chave de ouro a década seguinte. Primeiramente, “To The Gory End” e “Death Shall Rise” (1990 e 1991) são algumas das obras de maior brutalidade dentro do Metal inglês. Ao lado de Benediction e Bolt Thrower, o Cancer mostrou que veio para ensinar como se fazer um bom Metal extremo.

Assim como a doença se prova medonha devido a realidade que vivemos, a banda se provou ser tão nefasta quanto seu nome. Apesar de ter menos fama que suas compatriotas (por motivos que logo explico), Cancer teve um início muito bem sucedidos. Sem muito invencionismo, sem firulas, apenas apresentando aquilo que era prometido, John e seus amigos surpreenderam com discos cheios de glória. Como exemplo, logo em seu primeiro lançamento, temos a participação de John Tardy (Obiturary) nos vocais. Já no segundo, contamos com a voz de Glenn Benton (Deicide) no clássico underground “Hung, Drawn and Quartered”. Parecia que uma verdadeira estrela do Death Metal estava surgindo em terras britânicas.
O início glorioso, a queda tenebrosa

Tudo seguiu como o esperado quando em 93 o 3° disco do grupo, “The Sins Of Mankind” chegou às lojas. Um disco bem coeso, o que era esperado de um nome forte como o Cancer. Porém após isso, a banda sofreu um blackout criativo e depois uma mudança de direção. Em 95 o triste “Black Faith” saiu. Considerado por todos como o início da derrocada do grupo, esse disco não representa nem um terço do que o Cancer foi. Isso piorou com a vinda, após 10 anos, em 2005, de “Spirit in Flames”. A tentativa trágica de voltar a ser relevante, fez com que a carreira dos ingleses fosse manchada e pisada. Uma verdadeira imundície sonora, cheia de modernismos chatos e sem identidade, apenas um grito de renovação silencioso que não funcionou.
A renovação
Cancer voltou a mostrar sua força 13 anos após o fiasco de 2005. Reformada a princípio para tocar os clássicos primeiros 3 discos, o grupo se sentiu impelido a lançar algo que resgatasse a glória de outrora. Com isso, em 2018 nasceu o retorno as raízes. “Shadow Gripped” é enérgico, denso e grotesco. Com músicas diretamente tiradas de filmes de terror slasher, ouvimos aqui que a sede por ‘metal da morte’ ainda é insaciável. A tríade “Garrotte”, “Ballcutter”, “Organ Snatcher” remonta a tríade inicial de discos da banda, apresentando perfeitamente o estilo que o grupo voltaria a consagrar. Isso fica ainda mais vivo em sua faixa homônima “Shadow Gripped”, fica evidente que ainda teremos muito Cancer para lidar.
Novos ares?

Após uma mudança de localidade dos membros da banda para a Espanha, parece que John Walker teve um novo estalo em sua mente. Um novo lançamento foi planejado, com um novo line-up. Agora contando com membros como Daniel Maganto no baixo, Gabriel Valcázar na bateria e Robert Navajas na outra guitarra. Com isso, em 2025 somos agraciados com a brutalidade de “Inverted World”. Muito mais Old School que seu antecessor, mais inspirado e até mesmo melhor produzido. O disco se destaca por ser aquele Death Metal onde se ouve bem os elementos trazidos pelos músicos. Uma obra de arte bem apresentada. Em uma palavra, o disco é maquiavélico. Aja visto pela primeira faixa apresentada, “Enter The Gates”. Guitarras bem claras, vocais potentes e uma cozinha bem encaixada dão a música uma sensação vilanesca. Literalmente colocando o ouvinte a se adentrar aos portões da loucura.
“Until They Died” é literalmente um ode a morte. “A única forma de escapar da morte, é brincando de morte em meio aos mortos…“. Com um andamento que flutua entre a velocidade e a cadência, a composição apresenta solos rápidos mesclados a uma apresentação mais teatral e simplista. Em “Inverted World”, John pontua em plenos pulmões as incongruências daqueles que dizem ser salvadores, que primeiro marcam seu povo para depois arrancarem seus corações. A composição segue a premissa clássica de um bom e velho som reto e pesado. Sem muitas variações, focando primariamente na narrativa maligna.
Brutalidade cancerígena
Em “39 Bodies” o foco é maior na narrativa de que os humanos são facilmente controlados. Principalmente abordando a temática sobre o su1c1d1o coletivo cometido pelos 39 membros da seita americana Heaven’s Gate, que comprova como a lavagem cerebral é real. Para os que não conhecem, essa seita pregava que nossos corpos são apenas um veículo para o plano superior, onde seríamos arrebatados para um próximo nível. Para isso, esses membros recorrem ao “não-viver” em grupo para que seus corpos se esvaziassem e, por fim, levados para sua nova morada pelo cometa Hale-Bopp.
Encaminhados e levados a se comportarem como ratos de laboratório, “Test Site” mostra como a humanidade consegue ser enegrecida e mórbida. Mas as bases rápidas alinhadas com o peso da cozinha e vocal excelente de John, são a pitada de peso que faz com quem sintamos na pele o desprezo pelos governantes e seus ideais egoístas e medíocres. Usando pessoas inocentes como métodos de aumentar a sua força militar e científica, como se não fossem nada mais que meros objetos de estudo que podem morrer e sumir sem nenhum problema.

Seguindo a onda assassina e assombrosa, temos “Amputate”, o single lançado pelo grupo. Um trabalho digno e totalmente focado no Old School que consagrou o Cancer. Com bases densas e uma atmosfera criada para envolver o vocal com um sentido de contar uma história macabra, temos um verdadeiro hino do horror. Após um solo simples, temos uma excelente motivação:
“They were Forced to Pay,
Amputation is the Way.
A Brutal Way to Motivate,
They Amputate, They Amputate”
Cancer em grande estilo
Já a realidade apresentada em “When Killing Isn’t Murder” é uma forma de tentar acordar aqueles que seguem querendo não enxergar. Já diz o ditado ‘o pior cego não é aquele que não vê, mas sim aquele que enxerga e não quer ver’. Seja por meio de ideais religiosos, políticos, científicos e/ou egocêntricos, as pessoas buscam sempre minimizar o seus atos, mesmo que eles sejam tão abomináveis para a sociedade. Um assassinato sempre será um assassinato, ele não pesa menos porque foi em prol de seus ideais, mas muitos não se importam com isso. Como que regurgitando sua bile, sua podridão, esses seguem trabalhando em negação de seus atos, como agentes “demonificadores” do mundo.

A trinca final, é com o mesmo empenho do resto do disco. Dessa forma, começando com “Covert Operations”, as linhas rápidas e sibilantes nos mantém presos ao desenvolvimento da faixa. Lembrando um pouco o que o Bolt Thrower fez durante toda sua carreira, essa faixa apenas acelera um pouco do que seus irmãos de criação (mais velhos) já faziam. Com um solo bem construído mais rápido também, temos aqui uma faixa que facilmente encanta e grava na nossa cabeça, por causa do refrão grudento.
Em sequência temos “Jesus for Eugenics” a ‘balada’ do disco. Simplesmente uma construção que dá gosto de ouvir. A progressão e o crescimento da música são certamente feitos de forma orgânica, e sem pesar na audição. Respeitando o alcance vocal de John, a faixa se desdobra a manter o teor um pouco mais misterioso, porém apresentando o peso que posteriormente estávamos ouvindo. Aqui, a faixa mostra que é possível sim termos ambos aspectos sem transformar a composição em uma monstruosidade de 10 minutos.
Conclusões
Por fim, “Corrosive” representa tudo de Old School que a banda já produziu. Sabe aquele faixa do ‘tupa-tupa’ que todo fã de Death e Thrash ama? Bem vindo. A escolha de utilizar essa como a faixa de fechamento do disco foi genial, nos dando aquele gostinho de ‘quero mais’ e nos fazendo esperar novos lançamentos neste estilo.
Primeiramente, esse disco não é um “To The Gory End”, “Death Shall Rise” ou “The Sins Of Mankind”. Mas a sua composição completa e reconstrução da banda após anos, nos faz ter esperança de que o Cancer tenha voltado (perdão ao trocadilho) a apresentar algo digno de sua trajetória. Não me levem a mal, fãs da fase ‘diferente’, eu gosto de experimentação, mas nada supera o que já consagrou o grupo. Cancer é sinônimo de Death Metal, é sinônimo de música suja, bruta e densa. Hoje, podemos dizer que finalmente, temos esse ícone do Metal de volta a vida!
Nota: 8,3
Formação:
John Walker (vocal, guitarra)
Daniel Maganto (baixo)
Gabriel Valcázar (bateria)
Robert Navajas (guitarra)
Faixas:
1. Enter the Gates
2. Until the Died
3. Inverted World
4. Bodies
5. Test Site
6. Amputate
7. When Killing Isn’t Murder
8. Covert Operations
9. Jesus for Eugenics
10. Corrosive
album impecavel para mim a mais fraquinha e “Amputate” apesar ter excelente instrumental a parte vocal vocal parece mais monologo contando uma historia do que musica death mas ela é otima nao me entenda mal mas em comparativo ao resto do album essa musica fica devendo , ate agora e melhor album do ano nao so de death como metal mesmo album redondinho deis a capa a parte instrumental e vocal tudo feito com maestria.