Se você ouviu alguma música lançada pelos americanos do Gruesome desde seu início em 2014, sabe que a principal inspiração do quarteto vem da ovacionada banda Death, uma das grandes pioneiras do Metal extremo, principalmente, do gênero que carrega seu nome, o Death Metal.
Chuck Schuldiner, líder, compositor, guitarrista e vocalista do Death, faleceu em 13 de dezembro de 2001, após uma penosa batalha contra um câncer cerebral. Mesmo com sua partida, a obra musical deixada foi tão impactante que outras bandas até os dias de hoje se inspiram e buscam influências no trabalho. Este é exatamente o caso do Gruesome, se bem que o grupo não apenas usa o Death como referência, mas procura – devidas as proporções – lançar álbuns que soam quase como uma continuação do trabalho de Chuck. É claro que tudo é muito respeitoso e, até o momento, eles tem conseguido se sair muito bem.
A banda nasceu na California e depois se mudou para Florida, que é o epicentro do Death Metal nos EUA. Atualmente, o Gruesome conta com Robin Mazen (baixo), Gus Ríos (bateria), Daniel Gonzalez (guitarra) e Matt Harvey (vocal e guitarra), juntos eles lançaram três álbuns de estúdio, sendo eles “Savage Land” (2015), “Twisted Prayers” (2018), bem como o novíssimo “Silent Echoes” (2025).

Emulando com precisão cirúrgica
O guitarrista e vocalista Matt Harvey consegue emular com muita competência e precisão os timbres vocais do mestre Chuck. E, apesar das músicas serem todas compostas pelo Gruesome, elas soam como uma homenagem. São muitas as referências e, apesar da pouca originalidade, a banda faz um trabalho de excelência ao ponto de se destacar entre os nomes mais prolíficos da atual cena.
Em “Silent Echoes”, eles começaram a desenvolver um DNA próprio, mas é algo que ainda precisa ser trabalhado no futuro, portanto, nada que os distancie muito do Death será ouvido aqui. A única mudança é que nos dois primeiros discos, os álbuns homenageados eram a dobradinha “Leprosy”/”Spiritual Healing” e agora o foco passou a ser na fase “Human”. É explicitamente uma homenagem a este período do Death, com uma arte que evoca as cores e a subjetividade da capa original e elementos musicais que nos remetem ao clássico de 1991.
Em termos de letras e, principalmente, na construção das faixas, é uma emulação quase perfeita. Há quem ache isso ruim, mas como é muito bem feito acaba soando muito bem aos ouvidos.

Cuidado!
Um ponto que precisa ser abordado é que o Death era uma banda extremamente única e contava com um fator importantíssimo a seu favor: a imprevisibilidade.
Quase todos os músicos que fizeram parte das muitas formações da banda eram geniais e entregavam criações muito além do corriqueiro. Dito isto, emular o Death, mas sem os fatores genialidade e imprevisibilidade sendo adicionados ao bolo, faz com que as audições não apresentem qualquer tipo de surpresa ao ouvinte.
Você é capaz de prever cada virada, cada quebra rítmica, quando um solo entrará e quando haverá uma passagem instrumental diferente. Pelo menos, os fãs mais antigos do Death certamente irão conseguir fazer estas previsões.
Trabalhar desta forma pode ser jogo ganho por conta do culto a Chuck Schuldiner e ao Death, mas um passo fora linha pode transformar um trabalho promissor em uma mera banda cover. É preciso ter cuidado para que isso não aconteça.

“Silent Echoes” é o “Human” dos tempos atuais?
“Silent Echoes” chegou às lojas e plataformas de streaming no último dia 6 de junho, através do selo Relapse Records. São 8 composições, pouco mais de 33 minutos de duração e, meu primeiro ponto é exatamente este. Com pouco mais de meia hora de duração, é daqueles discos enxutos, direto ao ponto e que você compreende muito mais rápido o seu conteúdo. Porém, pela falta de originalidade, se tivesse mais uma ou duas músicas seria o suficiente para que aparecesse aquela barriga incômoda.
A produção do Jarrett Pritchard é muito caprichada e o álbum consegue soar clean, mas não deixa de ter aquela sujeira mais que bem vinda em álbuns de Death Metal. Jarret também é o responsável pela mixagem e masterização do trabalho.
Segundo a banda:
“Silent Echoes é o verdadeiro momento de se levantar ou se calar do quarteto por um simples motivo: foi escrito e gravado no espírito da obra-prima do Death Metal progressivo de 1991 do Death, ‘Human’. O longo período de gestação entre os álbuns do Gruesome foi a combinação de vários fatores, mas nenhum mais significativo do que o falecimento prematuro e inesperado do baterista do Cynic e do ‘Human’, do Death, Sean Reinert, em 2020.
Reinert era o melhor amigo e mentor do baterista do Gruesome, Gus Rios, e foi originalmente escalado para produzir o álbum. Em vez disso, Rios, juntamente com o vocalista/guitarrista Matt Harvey, o guitarrista Daniel Gonzalez e a baixista Robin Mazen, transformaram ‘Silent Echoes’ em uma homenagem a Reinert, cuja influência e presença em Silent Echoes estão por toda parte. ‘Silent Echoes’ é a transmutação do Gruesome nos campos complexos e influenciados pelo jazz, explorados em ‘Human’.
Como afirma Harvey, ‘há menos piscadelas para o público neste álbum’, o que é verdade: as homenagens abertamente intencionais presentes nos dois álbuns anteriores da banda foram substituídas pelo trabalho fluido e ágil da bateria de Rios, bem como pelos riffs de guitarra multifacetados e espiralados de Harvey e Gonzalez, este último responsável pelos leads melódicos do álbum. Numa época em que a sede por tudo relacionado a Chuck Schuldiner permanece insaciável, deixemos que quatro veteranos talentosos, verdadeiros e bem-intencionados do Death Metal ajudem a dar continuidade ao legado do homem.”

Os ecos de Chuck
“Condemned Identity” abre o álbum de maneira direta, como uma boa faixa de abertura deve fazer, já “A Darkened Window” é um pouco mais melodiosa. Os solos de guitarra são muito bons e, ao mesmo tempo que as quebras das músicas soam como Death, quando os solos entram em ação você vê que é um lado um pouco mais altoral do Gruesome.
“Frailty” foi a primeira música disponibilizada ainda em 2024, e me lembro que quando ouvi nem achei que era tão Death assim, mas inserida na lista de faixas do álbum e com os timbres de Matt, mesmo que a banda tenha se permitido viajar um pouco mais para fora da casinha, ainda sim está dentro de um contexto. “Shards” começa bem visceral, depois começa a apresentar as tradicionais quebradeiras. Talvez possa ser uma tentativa de mesclar a musicalidade de “Leprosy” com o que o Death fez depois e saiu uma mistura interessante.
“Silent Echoes” segue a mesma linha das duas primeiras, e confesso que neste ponto isso me incomodou um pouco. Em alguns momentos a banda começa a se repetir e o que salva o track neste ponto é a instrumental “Voice Within The Void”, que traz variação e se difere do que vinha sendo mostrado até o momento.
Perto do final, temos “Fragments Of Psyche”, mais uma que segue o movimento das ondas, mas traz o atrativo de ter a participação do falecido Sean Reinert; e para encerrar, “Reason Denied”, esta com algumas mudanças mais do que bem vindas, quebradeiras e depois descambando para a porradaria sonora.
Consistente, mas poderia ser mais
Inegavelmente, trata-se de um disco consistente, mas que apresenta pouca variação. O tracklist enxuto ajudou a nota se manter alta, mas queremos ver mais algumas músicas ao estilo de “Voice Within The Void” e “Frailty” no futuro.
Talvez o Gruesome precise acreditar um pouco mais no seu próprio potencial de composição e arriscar algumas faixas que não tragam tantas referências ao Death. A banda é muito boa e tem muito potencial, sendo assim, o álbum passa de ano. No próximo vou ser mais exigente na análise.
Nota: 7,8
Integrantes:
- Robin Mazen (baixo)
- Gus Ríos (bateria)
- Daniel Gonzalez (guitarra)
- Matt Harvey (vocal e guitarra)
Faixas:
- Condemned Identity
- A Darkened Window
- Frailty
- Shards
- Silent Echoes
- Voice Within The Void (Astral Oceans)
- Fragments Of Psyche
- Reason Denied