Álbuns Injustiçados: Deathrow – “Raging Steel” (1987)

O Deathrow foi uma banda alemã de Thrash Metal que surgiu em Düsseldorf, Renânia do Norte-Vestfália, e que teve um desempenho inicial invejável para muita banda de sucesso mundo afora. Assim como Exumer, Violent Force, Assassin, Darkness, Holy Moses, entre outros nomes cultuados pelos adeptos do estilo, a banda deste nobre papiro causou um impacto grande na cena germânica.
Sob a alcunha Samhain, a banda surgiu em meados de 1984, mantendo o mesmo nome até 1986, quando resolveram mudar ainda naquele ano. Tal escolha foi bastante assertiva a meu ver, já que o primeiro nome não causaria impacto nem nos dias de hoje. Aproveitando o mesmo parágrafo, o Deathrow conseguiu lançar seu debut junto das bandas citadas acima. Ou seja, parecia uma vantagem para um grupo que busca o seu espaço em um cenário tão disputado e com um prospecto alto, apesar do pouco investimento para alcançar esse público de maneira mais rápida.
Sabemos que o disparador alemão de rajadas metálicas possui a bagatela de quatro álbuns de estúdio. São eles: “Riders of Doom” (1986), “Raging Steel” (1987), “Deception Ignored” (1989), “Life Beyond” (1992) — todos qualificados, mas existe um em específico que possui um brilho especial. Dentre os esquecidos, é mais lembrado. É o segundo álbum dos caras, considerado por muitos como sendo o melhor trabalho da banda, inclusive pelo dono do nanquim virtual aqui.
Revelando a equipe de operações da segunda joia do Deathrow
Embora o álbum de estreia possua bastante qualidade, é através do segundo trabalho que iremos avançar nesse capítulo dos álbuns injustiçados. Poderia ser um clássico? Sim. Mas para isso acontecer, deveria ser tão lembrado quanto outros álbuns lançados na mesma época e, principalmente, no respectivo ano.
Via Noise Records, o Deathrow lançou “Raging Steel” no dia 1º de setembro de 1987, apresentando o seu segundo trabalho oficial ao público headbanger. Harris Johns assinou a produção do álbum, enquanto a própria banda cuidou da co-produção. Nesse particular processo, Phil Lawvere, o artista que ilustrou o disco de estreia, concebeu a arte de capa. O encouraçado alemão gravou o álbum em maio/junho de 1987 no Music Lab, em Berlim, Alemanha. Além disso, o disco foi masterizado no Studio-Nord-Bremen, também localizado na Alemanha.
O artefato sonoro possui nove faixas, sendo duas instrumentais. Integram o time que gravou o disco o vocalista e baixista Milo, os guitarristas Thomas Priebe (R.I.P. 2024) e Sven Flügge, além do baterista Markus Hahn. E, só para complementar o início do texto, o Deathrow encerrou as atividades em 1994.

O real alcance de “Raging Steel” e as estratégias adotadas para a sua divulgação
Agora, é necessário colocar a bússola e a lupa voltadas para o cenário underground na Alemanha, que estava efervescente, por sinal. “Raging Steel” marcou um momento crucial de evolução técnica e consolidação para o Deathrow. No entanto, embora a banda nunca tenha atingido o mesmo patamar comercial de gigantes alemães como Sodom, Kreator, e Destruction, o disco teve uma trajetória importante no circuito underground global.
A Noise Records realizou a divulgação do álbum calcada em suas engrenagens. A estratégia, portanto, contou com turnês pelo continente europeu, além da divulgação mediante sua rede de distribuição internacional. Junto a isso, a gravadora investiu em publicidade em revistas especializadas de metal da época e incluiu a banda em compilações de catálogo.
Para se ter uma ideia, o Deathrow excursionou com bandas do calibre de Possessed e Voivod, por exemplo. Dessa forma, o nome alemão ganhou maior proporção – as turnês impulsionaram a promoção do disco.
Musicalmente, o álbum causou forte impressão pela transição da agressividade crua do primeiro disco. O novo trabalho trouxe arranjos mais velozes, precisos e com as primeiras pinceladas de Thrash Metal progressivo. Portanto, essa mudança pavimentou o caminho para a aclamação crítica do álbum seguinte, “Deception Ignored” (1988).
Contudo, apesar de não ter estourado no mainstream, o álbum tornou-se uma “joia escondida”. Hoje, os entusiastas do Metal extremo reverenciam fortemente a obra.
Vendas e projeção mercadológica
Decerto, não existem dados de auditoria pública com números exatos de cópias vendidas. Essa ausência de dados é muito comum para bandas de menor porte da Noise Records nos anos 80. Por causa disso, especialistas estimam um resultado comercial modesto. O Deathrow manteve uma base de fãs pequena e fiel, de modo que operou essencialmente no circuito independente.
Sobre a distribuição no continente europeu e fora dele, o disco ultrapassou fronteiras geográficas significativas por meio de licenciamentos da gravadora. Na Europa, o álbum teve distribuição abrangente. A Noise e a SPV prensaram e comercializaram o material diretamente no mercado comum europeu. Agora, fora da Europa, a banda alemã alcançou o continente americano com prensagens oficiais e distribuição local. O público americano recebeu o lançamento em vinil nos EUA via Noise/Combat. Da mesma forma, a Maze Music/Cobra distribuiu o disco no Canadá. Por fim, a América do Sul também vendeu o álbum. A icônica gravadora paulista Woodstock Discos lançou uma prensagem brasileira oficial ainda em 1987.
O poder técnico e ofensivo de “Raging Steel”
Se o álbum alcançou o status de cult através de fãs fiéis que conquistou desde o ano de lançamento, sua musicalidade merece ser examinada e posta às claras. Afinal, um disco de alto calibre como esse merece ser lembrado e valorizado sempre que possível. Eis aqui a oportunidade de mostrá-lo a quem ainda não o conhece e também fazer o adepto resgatar a nostalgia diante de um conteúdo bastante rico, tratando-se de Thrash Metal.

Vencendo batalhas a troco de nada
A instrumental “The Dawn” abre as cortinas de aço, assim como ocorre no primeiro álbum, cuja abertura pertence à também instrumental “Winds of Death”. A abertura do disco funciona como um verdadeiro preparo para o primeiro ataque. A introdução possui uma característica bem peculiar, trazendo um misto bem dosado de expectativa e tensão, além de se parecer com as trilhas sonoras dos games da época.
Em seguida, “Raging Steel” abre a porta do sótão e coloca a faixa-título no encalço do ouvinte. Após as primeiras notas, o primeiro grito de Milo surge e libera as guitarras da dupla Thomas e Sven para destilar seu ódio repleto de ímpeto e técnica. Nota-se uma produção de época bem interessante, do tipo em que se escuta tudo em ordem, sem nada embolado. Os versos retratam as batalhas do passado em busca de territórios pagãos, mas sem saber o real motivo de cada intriga, de cada luta. A luta nunca é feita por quem planeja, por quem provoca ou por quem declara guerra; os soldados convocados não falam, apenas marcham em direção ao próprio fim. Para reforçar tais dizeres, a banda une a força de riffs ásperos a dedilhados ácidos, ambos prontos para causar um verdadeiro estrago viciante na mente do ouvinte.
A pausa elegante transforma e leva a música para outros caminhos dentro do Thrash, servindo de farol para que o navio sonoro mergulhe com tudo em solos melódicos, velozes e totalmente condizentes com as bases, e vice-versa. Baixo e bateria são primores, mas as guitarras incendeiam a área e tomam conta de tudo.
O ano de 1939
A primeira trinca fecha com “Scattered by the Wind”, faixa que resume os acontecimentos a partido do ano de 1939. Markus impõe um ritmo semelhante a um trem com os comboios lotados de vítimas do holocausto. O ritmo ganha mais forças nos trechos seguintes e se torna tão afiado quando a lâmina e a agulha que testaram as cobaias durante o governo daquele maníaco austríaco na Alemanha.
Solos de guitarra são desferidos como metralhadora pelas mãos flamejantes de Sven, enquanto as bases soam precisas e um poder de ataque impactante a quem ouve. A fuga sonora ajuda a narrar o comando desastroso da tirania. Hitler, como a própria letra diz, era o nome do idiota. Sim, um idiota que os bandidos viram qualidade como possível orador do partido.
O som se encaixa em cada capítulo da história e consegue alertar a todos sobre os horrores de uma época que nunca mais será esquecida. Quem fosse contra o regime atuante, seria caçado, executado ou transformado em escravo até a morte.
Um reino mágico repleto de criaturas conhecidas
Os temas variam em “Raging Steel”, mas a temática das guerras é o mote principal do enredo contido no álbum. Diante disso, “Dragon’s Blood” forma a grande quadra com um riff de preparo de muito bom gosto. Aos poucos, o som vai se encaixando e, a partir dessa montagem, temos o monstro definido. O ritmo cadenciado, porém agressivo, assombra o ouvinte, fazendo-o bangear e se sentir em tempos antigos — tempos estes em que a magia era forte e verdadeira, com batalhas envolvendo dragões, demônios e outras criaturas mitológicas.
O reforço da mensagem chega através de dedilhados com a dosagem certa de melodia. A presença de bruxas e feiticeiros lutando pelo poder no reino mágico é marcada por riffs espaçados que abrem caminho para os solos de guitarra. Observe a sequência desses solos em comunhão com os pedais duplos e a camada de peso constante do baixo: é incrível de se ouvir, assim como é incrível o vislumbre desse mundo. A batalha resulta em idas direto para o inferno e retornos milagrosos. Em suma, o vitorioso da batalha de hoje pode ser o derrotado de amanhã, fazendo uma visita especial ao submundo.

Controlado para realizar a matança
Como o LP é dividido por lados, podemos dizer que “The Thing Within” finaliza o Lado A do vinil. Neste capítulo, somos tragados por um som arrastado que ganha força nas emendas antes de passar pela encruzilhada. Quando pensamos que o riff dará o movimento principal, de repente o som para e ganha notas acústicas. Após outra pausa, surge uma linha de baixo solta e carregada de mistério. Depois de tudo isso, o abalo sonoro sísmico é inevitável; Milo mantém sua voz em união ao seu contrabaixo, contribuindo para uma massa sonora ríspida e inquieta.
Nesse momento, nos deparamos com mais uma pausa. Porém, dessa vez é aquela parada tradicional que gera expectativa para o próximo avanço. Os solos chegam para trazer o brilho necessário às mensagens sobre o controle mental e espiritual, capaz de transformar a vítima em um fantoche para cometer diversas atrocidades sem que a própria pessoa perceba. Ela só passa a desconfiar ao acordar com suas roupas rasgadas e manchadas de sangue seco. Seria o demônio, um ritual de vodu, o uso de drogas pesadas ou algum distúrbio do sono? O fato é que esse tema combina perfeitamente com a pegada do disco, mostrando o quão excepcional é este trabalho do Deathrow.
A promessa de lutar e morrer em nome de Deus
Em clima de alusão ao disco de vinil, “Pledge to Die” abre o baú do lado B e mostra o arranque inicial que soa como um batalhão de cavaleiros a serviço de alguém. Um riff de preparo aparece e em um instante você está no meio desta briga toda. Riffs velozes a ponto de realizarem uma ligação interurbana para o Speed Metal, mas sendo bastante Slayer e Kreator nesse caso. Sven e Thomas não apaziguam as coisas, enquanto Markus os acompanha sem pensar em parar o espancamento de seu kit.
Isso resulta em um combustível de alta performance para os solos e a sequência da jornada eletrizante. Você precisa mesmo de alguém para decidir o que irá fazer? Só por morrer em batalha, acha que será abençoado? Mesmo matando mulheres e crianças por conta de um território que nem sequer será seu? Essas dúvidas permeiam a mente ao mesmo tempo em que os tímpanos são apedrejados por um som despojado e sem medo de ser completamente agressivo.
Insanidade ou perseguição real
Chegamos à “Mortal Dread”, antepenúltima faixa de “Raging Steel”, e aquela que traz o espírito sombrio da noite. Sob a condução da massa percussiva provocada por Markus, a onda pujante e rasante das guitarras e do baixo aparece e contribui para um comando completo da situação. O som começa a ganhar forma e recebe contornos rápidos, incluindo um riff de chamado bem veloz para começar uma valsa alucinante e nostálgica.
Os riffs descem a ribanceira sem freio e muita sede de sangue. O anoitecer te deixa maluco e com dúvidas sobre o seu nível de sanidade. Você sente os passos se aproximarem, mas não consegue enxergar ninguém. Diante desse impasse, a música ganha uma cadência especial, mas logo a dispensa para energizar os solos e manter tudo bem orquestrado para que as cordas finais brilhem na noite.
Os arbustos escondem o malfeitor e ao mesmo tempo oferecem as toneladas de contrabaixo de Milo, além de sua própria voz excelente para o estilo. O vento gelado sopra das árvores e você escuta risos vindos da escuridão. O som segue o seu plano e mantém o pingo de sanidade que te resta.

O grito dos mortos-vivos
Antes do verdadeiro fim, temos “The Undead Cry”, a segunda faixa instrumental do disco. Nela, notamos uma viagem mais introspectiva no início. No entanto, a ordem aqui é não ficar parado e muito menos angustiado. A banda reúne forças para destilar seu maior veneno: um som técnico, vibrante, abrangente, qualificado e eficaz.
Fica notória a sensação de que os músicos seguiriam por caminhas mais desafiadores dentro do estilo. Mesmo assim, ninguém abandona ninguém dentro da tripulação e as partes extremamente velozes, solos vertiginosos e toda a estrutura pertencente ao Thrash seguem intactas. É um som sem vocal, mas que poderia ter letra, tamanha a qualidade deste som. Como não há vocal, serve como exemplo para entender melhor o estilo do Deathrow.
Os últimos passos antes da forca e o poder da mente
A apoteótica “Beyond the Light” chega para selar o destino de alguém que estava no corredor da morte. O tempo passou e, então, o dia da condenação final chegou. A narrativa rica em detalhes mostra todo o caminho do personagem condenado à forca até a sua última tentativa de respiro.
Dedilhados a postos, hora do massacre final! Os riffs levantam poeira da pista sem asfalto e tornam a audição bastante perturbadora aos ouvintes desavisados. As mudanças de andamento acompanham os passos do personagem e nos momentos cruciais ganham ainda mais ímpeto e velocidade. Além de toda essa estrutura, Milo traz um pouco da pimenta aguda em sua voz para representar a agonia do condenado prestes a ser enforcado e ter o seu corpo suspenso no ar.
Os solos, por sua vez, evidenciam a última luta de seus pulmões em busca de ar até que… Uma surpreendente cadência, regada a dedilhados nas linhas do Maiden em seus momentos mais sossegados, aparece para exaltar o escape da alma. Sua mente persiste e encontra a luz, mesmo entendendo que não haverá futuro, muito menos esperança. Contudo, a plateia recebe várias camadas de solos — cortesia de Sven, com Thomas mantendo o ritmo através das bases — e momentos acústicos lamuriantes, em total acordo com o relato.
Conclusões enfurecidas finais
Mesmo com o devido reconhecimento no circuito underground, o fim da banda nos anos 90 fez o Deathrow cair no esquecimento para muitos. A banda raramente aparece em listas de recomendações, de modo que apenas quem mergulha fundo nas entranhas do Teutonic Thrash conhece o grupo. O Deathrow continua sendo para poucos, mas não por elitismo ou rejeição a novos ouvintes; a explicação é simples: o encerramento precoce das atividades limita as possibilidades de divulgação, já que promover um trabalho sem uma banda ativa é um grande desafio.
Se a locomotiva musical alemã ainda existisse, como ocorre com o Assassin, a indicação para novos ouvintes seria muito mais fácil. Apesar disso, os garimpeiros do Metal continuam firmes na missão de destrinchar grandes obras e revelá-las a quem estiver disposto a ouvir. O argumento de que “a molecada de hoje não escuta nada” não se sustenta: os jovens comparecem aos shows de bandas como Sodom, Asphyx e Desaster — podreiras de qualidade que acompanhei de perto e que renderam Live Reviews detalhados desses e de vários outros eventos.
O poder de “Raging Steel” prova que o Deathrow sofreu uma injustiça histórica. Ouça este trabalho agora mesmo, resgate essa obra do esquecimento e comprove a força de um disco cultuado que exige audições completas e em modo repeat.
“Os líderes deram o sinal para lutar
Agora as multidões avançam
Ambos os lados se encontram, ódio e desprezo
Tantas vidas serão perdidas
Gritos e choros, ordens e brados
Ecoam pela multidão
Corpos moribundos em meio ao aço enfurecido
Lutando e morrendo por nada”
Nota: 9,5
Integrantes:
- Milo (vocal, baixo)
- Thomas Priebe (R.I.P. 2024 – guitarra)
- Sven Flügge (guitarra)
- Markus Hahn (bateria)
Faixas
- The Dawn
- Raging Steel
- Scattered by the Wind
- Dragon’s Blood
- The Thing Within
- Pledge to Die
- Mortal Dread
- The Undead Cry
- Beyond the Light
