Resenha: Exumer – “Death Mask Messiah” (2026)

Desde o seu retorno definitivo em meados de 2008, o Exumer não lançou nenhum trabalho abaixo da média. Isso trouxe uma carga positiva para que a banda pudesse seguir em frente, ao contrário das grandes dificuldades enfrentadas nos seus primeiros anos de existência. Embora tivesse uma concorrência bem forte dentro do território alemão, o Exumer também estreou de forma exímia através da joia magnânima “Possessed by Fire” (1986). Porém, os maiores problemas aconteceram após o lançamento do segundo disco intitulado “Rising from the Sea” – este, o trabalho derradeiro para que o exumador germânico saísse de cena, ao menos naquele período.
Enquanto o debut apresentou a banda com uma identidade própria pronta para ser lapidada, o registro seguinte colocou a banda em um mar de dúvidas e pouca aceitação devido ao fato de que essa obra possui muito de Slayer e pouco de Exumer. Ou seja, é uma tentativa de se parecer com alguém que você nunca foi. Contudo, esse foi um gatilho importante para quebrar toda a expectativa gerada pelo primeiro álbum dos alemães.
Eu, desde que conheci o som da banda, tenho essa percepção e coloco uma distância abissal entre os dois trabalhos. Há quem goste de ambos até por igual, mas existe uma grande parcela de metalheads que optam muito mais pelo debut, deixando o outro disco de escanteio.
Em meio a esse intervalo, o vocalista e membro fundador Mem V. Stein remontou a banda e a trouxe de volta para tentar seguir seus anseios novamente. Dessa vez, o dono da voz rasgada e com identidade própria fez aquilo que não aconteceu após o LP estreante. Tratou de resgatar aquela sonoridade do início de carreira para incorporar aos tempos atuais. O resultado veio com o surpreendente “Fire & Damnation”, lançado em 2012.
Nova aposta aliada às tradições
A partir de então, o Exumer obteve melhor aceitação e suporte para seguir lançando material inédito. Diferentemente da dúvida deixada após o segundo full-length, a banda alemã consolidou o seu nome no certame underground mundial após o REPETACULÊ “The Raging Tides”, de 2016, um disco perfeito e semelhante ao debut. Muitos o colocam como o melhor da banda e eu não diria que essas pessoas estão erradas, devido à exímia qualidade deste artefato sonoro.
Em seguida, veio o também muito bom, “Hostile Defiance”, de 2019, mas sem tanta badalação. E, agora estamos diante de outra pedrada dos thrashers germânicos. Falo de “Death Mask Messiah”, lançado no dia 28 de agosto via Metal Blade Records. O novo álbum comporta 11 faixas inéditas e foi produzido por Dominic Paraskevopoulos (Kreator, Caliban), enquanto a mixagem e a masterização ficaram a cargo de Arthur Rizk (Soulfly, King Diamond). Gravado entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o trabalho marca a estreia do baterista Jerome Reil e do baixista Alex Voss em estúdio. Além disso, a arte de capa e o layout foram assinados por Björn Gooßes, do estúdio Killustrations.
A nova obra, liderada por Mem V. Stein, faz uma ligação direta com os trabalhos anteriores, trazendo uma evolução natural dentro de seu propósito, mas sem dispensar a assinatura registrada do Exumer, que o consolidou dentro do Thrash Metal. Diante dessa visão, o vocalista disse:
“Estamos muito mais agressivos do que em ‘Hostile Defiance’ e estamos retornando a um estilo mais direto, mais ‘na cara’ em ‘Death Mask Messiah’. Estamos dando continuidade ao processo que começou com nosso primeiro trabalho pela Metal Blade, ‘Fire & Damnation’, de 2012, quando queríamos soar como uma banda contemporânea sem perder o espírito e nossa herança musical dos anos 1980.”

Exumer e o poder dos singles
O conceito de “Death Mask Messiah” foi inspirado em vários fatores que envolvem política, manipulação e disseminação de desinformação provocada por líderes. Há um ponto central no enredo, mas ele não se fecha, se tornando abrangente para representar um número maior de figuras e acontecimentos. O álbum passeia pela política norte-americana da última década, pela pandemia, além do cerco a Waco, no Texas, envolvendo a seita dos Branch Davidians. A figura central da história é representada pelo líder religioso David Koresh, morto durante o confronto. A faixa-título foi a primeira a ser disponibilizada e carrega esse conceito.
Mem V. Stein menciona que a própria faixa realiza uma leitura mais profunda sobre figuras manipuladoras de multidões em busca de poder. Ela apresenta Koresh como personagem principal da trama, mas também emoldura uma imagem ampla de charlatães e imbecis que, nas palavras dele, “conduzem os EUA ao inferno por causa de sua sede de poder”.
Pé na porta: é o Exumer!
O primeiro torpedo lançado pelo encouraçado alemão fez o estardalhaço necessário, sendo importante para a banda e também para o próprio Metal, mais precisamente, o Thrash Metal da velha guarda. Ao afiar a lâmina, a rifferama toma o cenário de assalto e, logo na curva seguinte, chegam os versos ácidos com a voz áspera e intimidadora de Mem V. Stein.
O ritmo começa em alta velocidade e ganha o reforço de variações que enriquecem a trama. Sem dar tempo de piscar duas vezes, vemos e sentimos os alucinantes e cortantes solos de guitarra. Ao passar por eles, você pensa se será somente isso ou a montanha-russa de emoções ainda dará outra volta. A volta acontece inclusive com pausas características do Thrash, uma bateria trepidante e perspicaz, além de um baixo condutor de muita energia e ímpeto. Vale salientar a outra parcela de solos muito bem executados, preenchendo o espaço de maneira exímia. Ray e Marc demonstram estar com os dedos eletrocutados, tamanha a energia despejada nos riffs e solos desta música. Estes solos são mais melódicos e complementam muito bem a trama, dando um toque de tensão e angústia para a faixa rápida, rasteira e tão agressiva como um gorila ao defender seu território.
O segundo single que faz sombra a qualquer arranha-céu
Sem chance para respirar, o Exumer incendeia o cenário com “Blinding Skies”, outro single poderosíssimo da banda. A junção entre o som ríspido com o ritmo mais voltado aos pedais cavalares traz o clima necessário para o andamento da história.
Mem falou sobre o significado desta música. Veja o que ele disse, enquanto ouve essa nobre canção:
“Impulsionado por uma barragem implacável de riffs, o conteúdo lírico da música destaca as consequências do excesso de poder político e a influência do complexo industrial-militar — empurrando a sociedade para conflitos prolongados que beneficiam poucos às custas de muitos. É uma perspectiva que sentimos ser importante destacar, considerando a plataforma que temos e o cenário atual.”
Os países dominantes podem ter arsenais potentes, mas o Exumer tem um exército percussivo chamado Jerome Reil. A mescla entre o Thrash mais agressivo, rápido e navalhante com o ritmo mais cadenciado e focado no peso da bateria torna o rolo compressor sonoro ainda mais devastador. O melhor trecho vem na sequência, com uma linha tensional excelente — artifício crucial para fazer os solos agudos e velozes estilhaçarem a vidraça com toda a sede por Thrash Metal.
Os alemães mostraram a força de seus singles, mas a verdade é que eles querem mostrar a força do trabalho completo, o que é muito exigido dentro do underground. Com isso, o Exumer mantém a boa forma e fixa de vez seu nome dentro do certame das principais bandas do estilo. Obviamente que, para um seleto grupo de fãs, a banda nunca deixou de figurar nesse grupo. Quando olhamos para o geral, porém, grande parte do público não costuma mencionar o Exumer. Ainda assim, nós estamos aqui para ajudar a bradar aos quatro cantos que essa banda é tão boa e necessária quanto as outras mais faladas e badaladas.
Pessoas imundas como esporos
Dando seguimento ao disco, “Sin Bleeder” chega com aquele aviso de pé na porta e espancamento garantido. O ritmo te faz olhar nos olhos da morte e entender a receita desse mundo sujo – disputa por armas, morte e ganância. Palhetadas certeiras aliadas aos riffs de sustentação, unindo densidade e velocidade numa mesma trilha. Você até encontra semelhanças com outras bandas pelo caminho, como Exodus, Assassin, Destruction, Overkill e Kreator, mas a identidade sonora cobre todas essas lembranças e outras mais. A bateria acelera ainda mais nos momentos em que a música clama por isso, mas o destaque principal fica por conta do conjunto da obra. Sensacional, por sinal.
Quando você escuta “Eradication”, percebe que não há limites para os caras. É uma faixa melhor que a outra, o que te deixa em dúvidas para saber qual é a mais impactante. A dúvida percorre sobre o efeito do remédio, se vai conseguir acabar com os esporos na coluna da sociedade. Sendo um pouco mais contida em questão de arranque e velocidade, a música soa favorável aos solos mais elaborados, tocados nota por nota, sem que haja aquela fritação tradicional. Diante disso, temos riffs mais pesados e um refrão para ser cantado na íntegra. Vale destacar também os trechos pontiagudos de guitarra que soam bastante precisos e dão um toque especial a mais para este capítulo do disco.
Convite a uma valsa insana
De volta à agressividade costumeira, “Ravishing Waste” te convida para uma valsa arrebatadora durante os estágios finais de existência do mundo. Os riffs incendeiam o cenário novamente e se aliam aos vocais sensacionais de Mem, que destacam o alastrar da desinformação. Refrão poderoso e contundente, apoiado por backing vocals tradicionais, além de uma virada de bateria formidável, liberando acesso para mais variações condizentes com a trama repleta de ganância e fúria. Os solos robustos e cheios de efeitos, com alavancadas incríveis e melodias cativantes, fazem a faixa entrar em combustão. Tudo isso graças à condução precisa do baixista Alex Voß.
ATF em cena
“Allocated Savagery” marca a virada para a metade final do disco e surge de forma tranquila. Não por ser uma música calma, mas por aparecer após uma sequência devastadora de lares ortodoxos e gabinetes de terroristas engravatados imbecis. Nessa faixa, a selvageria é distribuída e quem não seguir as regras da ATF americana não se sairá muito bem. O seu avanço é iminente e o primeiro grito lembra o conterrâneo Schmier, só que menos agudo que o modelo apresentado pelo icônico vocalista e baixista do Destruction.
Você percebe o peso do refrão e liga os fatos com os versos e a própria ponte para não se deixar desviar das normas. Você não sairá vivo mesmo implorando. O ferimento por bala foi muito forte e te deixará longe da salvação. O tiroteio segue em aliança com os solos de guitarra. A bateria reforça o bombardeio e as melodias acompanham a jornada de clemência e escorrer do sangue. O ritmo frenético dita as regras por aqui.
Venda de almas e avanço da mentira
Não é o single do novo disco do Kreator, “Krushers of the World”, mas a “Serpent” do Exumer entrega uma verdadeira picada venenosa à sua maneira. Cadência para banguear e agitar de forma fotográfica. Pode filmar que o show não pode parar. A venda de almas por trocados e mentiras é mais presente do que aparenta, pois nada é sagrado – já que os atos estão consumados. Você pode encarar os deuses nos olhos durante essa passagem sonora pesada. O andamento encorpado dos acordes destaca cada acontecimento que afronta a humanidade, enquanto os pedais duplos surgem em tempos com intervalos para favorecer a jornada sombria. Quanto o alicerce pega embalo e decola, os solos aparecem para orquestrar o roubo constante de almas para o bem estar de poucos ao mesmo tempo em que o mundo arde em chamas.
O assassinato da humanidade e a demência mental mundial
Tirar o ato de respirar de seu semelhante deveria ser algo imperdoável. No entanto, aqui não há perdão e sequer descanso entre as faixas. “Fratricide” não deixa o disco esfriar e joga mais lenha nessa fogueira metálica. A trilha do assassinato se esconde na próxima emenda entre a letra e o refrão. As guitarras de Ray e Marc não aliviam sequer um instante, sendo um banquete primoroso para esse fratricídio. Os solos chicoteiam a alma do inimigo e revelam seus crimes. Além disso, o abalo sísmico da música faz com que a parte final não dê trégua a ninguém.
“Scorcher” lembra o álbum “Scorched” do “gigante” Overkill, mas a sua semelhança para por aí. Ou será que não? O aparato inicial quebra as paredes e derruba o prédio. Abra o paraquedas e caia direto no refrão simples e direto. A gasolina necessária está diante dos seus ouvidos e os riffs ajudam a eletrocutar. A sociedade está perdida no tempo, sendo comandada por governos desmoralizados. A decadência mental é destacada durante várias alavancadas através de solos distorcidos, agudos como navalha e emendados bem no refrão. O progresso atrasado diz que a faixa não pode acabar mais cedo do que aparenta. Sendo assim, ela segue como um tanque de guerra e destrona quem vir pela frente até que o seu volume seja encerrado.
A morte congelante do planeta e uma homenagem ao Nasty Savage
Eis que o dedilhado ardiloso de “Frozen Ground” dá as caras e insere a relação de assassinato ao próprio planeta. O som se torna denso, veloz e trepidante como um vagão descontrolado. Entretanto, o controle musical é notório e prepara os ouvidos do headbanger em meio à poluição do ar, congelamento de áreas específicas e o calor intenso de outras. Enquanto respiramos, o baixo condutor de Voß coordena as operações e ajuda a acordar as mentes lobotomizadas para que não caiam nos contos de fadas ditos pelos lavadores de dinheiro do mundo. Os solos escorregam pelas mãos como sangue jorrado sem sentimentos e a velocidade da faixa servirá de trilha para o testemunho de um verdadeiro ecocídio. Nesse cenário, o dedilhado tenso apoteótico coloca uma colher cheia de mistério e pânico sobre tal questão.
Além das dez faixas inéditas comentadas, “Death Mask Messiah” reserva uma participação especial de Nasty Ronnie, vocalista do Nasty Savage, que despeja sua voz na versão para “Unchained Angel”. A escolha não foi à toa, pois também possui um significado histórico, já que o Exumer excursionou com a banda norte-americana durante sua primeira turnê europeia, em 1988.

Considerações exumadoras finais
Em suma, digo que o quinteto formado por Mem, Ray, Marc, Alex e Jerome é um elenco de grande porte e vive um excelente momento. Ouvir “Death Mask Messiah” na íntegra me trouxe uma vontade enorme de conferir as novas composições ao vivo. Imagino o Exumer em um Setembro Negro ou Bangers Open Air, e em side show para estender o setlist e despejar o novo repertório. O catálogo dos alemães é riquíssimo em qualidade, aliado à perseverança de seu líder, que resolveu seguir em frente.
O resultado está aí: um disco à altura de sua história e um trabalho que bate de frente com qualquer medalhão do Thrash Metal mundial, independente do porte. Detalhe para os vocais de Mem von Stein, que estão afiadíssimos — o timbre encorpado amplia a identidade e o jeito de conduzir os versos. Para finalizar, repasse a mensagem e faça o máximo de pessoas ouvirem o álbum no mais alto volume! Afinal, o exumador de cadáveres de posers está de volta e com sede de Thrash!
“Prelúdio: O mundo está em seus estágios finais de existência. A desinformação se alastra e domina o cenário. Ninguém se sente seguro, ninguém sabe ao certo — participar ou recuar. Algumas almas errantes, certamente encontradas sob a superfície, mergulhadas em um mar de ganância e fúria… o último dos desertos.”
Nota: 9,0
Integrantes:
- Mem von Stein (Vocal)
- Ray Mensh (guitarra)
- Marc Bräutigam (guitarra)
- Alex Voß (baixo)
- Jerome Reil (bateria)
Faixas:
- Death Mask Messiah
- Blinding Skies
- Sin Bleeder
- Eradication
- Ravishing Waste
- Allocated Savagery
- Serpent
- Fratricide
- Scorcher
- Frozen Ground
- Unchained Angel
