Clássicos: Violent Force – “Malevolent Assault of Tomorrow” (1987)

O Violent Force é uma banda alemã de Thrash Metal com um potencial gigante, mas que acabou não vingando por obra do destino. O exército musical alemão carrega um forte status cult no cenário underground do Metal. Conheça a história dos representantes da cidade de Velbert antes de mergulharmos nas músicas do seu único álbum de estúdio.
A gravadora Roadrunner Records lançou o único e cultuado disco da banda, intitulado “Malevolent Assault of Tomorrow”, em novembro de 1987. Esse trabalho é um marco do underground da “primeira leva” do Thrash/Speed Metal alemão. O álbum compartilha a mesma estética crua e veloz de contemporâneos como Kreator, Destruction e Sodom.
A cavalaria da bandeira de três listras gravou e mixou o disco no renomado Karo Musik Studio, em Münster, na então Alemanha Ocidental. O lendário Kalle Trapp assinou todo o trabalho deprodução, engenharia de som e mixagem. Trapp é famoso por produzir clássicos de bandas como Blind Guardian, Kreator (“Endless Pain”) e Destruction. Desse modo, o produtor lapidou a agressividade caótica da banda em um som feroz, porém minimamente audível para os padrões da época.
A formação oficial do exército germânico chamado Violent Force
O quarteto original de Velbert trazia a seguinte formação:
- Lemmy: Vocal, guitarra, além de principal compositor e letrista.
- Stachel: Guitarra.
- Waldy: Baixo.
- Hille: Bateria.
Além disso, a história dos guerreiros do Metal alemão guarda uma nota importante sobre as baquetas. O saudoso baterista Atomic Steif (ex-Sodom, Living Death, Holy Moses) tocou originalmente com os caras nas fitas demo. No entanto, ele não gravou o álbum inteiro. O baterista oficial, Hille, assumiu o posto principal no estúdio. Mesmo assim, Steif participou como convidado especial e gravou as faixas “Dead City”, “Sign of Evil” e “Destructed Life”.

O nível das vendas e a projeção internacional do Violent Force
Não existem registros de auditoria pública ou dados oficiais exatos de vendas para o disco. A gangue da música “amorosa” encerrou as atividades logo após o lançamento underground na década de 1980. Por isso, o mercado estima as vendas físicas originais em apenas alguns milhares de cópias na época.
No cenário local, o álbum encontrou forte apoio no circuito de fanzines e fitas-K7. Esse movimento se associava diretamente à efervescente cena de fã-clubes de Velbert. Contudo, a banda ficou à sombra dos “Três Grandes do Thrash Alemão” (Destruction, Kreator, Sodom). Esses três nomes já conquistavam uma franca ascensão comercial na Europa.
Por outro lado, a distribuição global da Roadrunner Records levou o disco para além das fronteiras europeias. O álbum ganhou o status de clássico cult absoluto no mercado mundial de colecionadores e entusiastas do Old School Thrash. Como resultado direto desse sucesso tardio, o mercado ganhou reedições oficiais em CD e vinil na Europa, Estados Unidos e até edições licenciadas no Brasil.
O fim precoce e as demos que impulsionaram o único disco
O Violent Force encerrou as atividades oficialmente entre 1988 e 1989. Logo após o lançamento do álbum, a banda enfrentou severas instabilidades na formação e conflitos internos de direcionamento. Por conta disso, Lemmy e Atomic Steif se reuniram como um duo. Eles escreveram e gravaram, de forma caseira, uma demo completa com o repertório planejado para o segundo disco de estúdio.
No entanto, vários fatores desmotivaram os músicos. A falta de suporte financeiro pesou bastante na época. Além disso, a gravadora direcionou as atenções para outras vertentes do Metal. O quarteto “velbertense” também sofria com a falta de consenso para estabilizar um quarteto fixo.
Como consequência, os músicos engavetaram o material desse segundo disco por décadas. Mais tarde, o mercado lançou essas faixas apenas de forma não oficial ou como bônus em coletâneas. Esse cenário decretou o fim precoce do projeto.
Antes de assinarem com a Roadrunner Records, o quarteto construiu sua reputação por meio de fitas cassete copiadas de forma caseira. Esse material circulou intensamente pelo circuito mundial de troca de fitas (tape-trading). A trilogia de demos originais ditou a identidade veloz da banda por meio desse tipo de propagação.
Primeiro, o conglomerado germânico lançou a demo inaugural “Dead City” em março de 1985. Logo em seguida, em junho do mesmo ano, veio a demo “Velbert Dead City / Dead City II”. Já no ano seguinte, a banda alemã lançou o terceiro trabalho, intitulado ”Dead City III: The Night”.
Para ser mais exato diante dessas informações, a divulgação se propagou em maior escala a partir do segundo registro. O som do Violent Force impactou diretamente as pessoas da cidade a partir desse lançamento.

Um arsenal poderoso reunido em um único álbum
O Violent Force nos apresentou um trabalho digno de nota, mesmo sendo um disco único. Por isso, vamos mergulhar nessa joia imaculada para desfrutar de sua grandeza. Essa análise vai deixar o registro salvo para que muito mais adeptos conheçam essa excelente obra do Teutonic Thrash Metal.
Por outro lado, o momento é ideal para relembrar essa grande descoberta se você conheceu o disco na época do lançamento ou já é fã há mais tempo. Afinal, podemos tratar esse álbum como um trabalho a ser exaltado, sem qualquer hesitação.
“Malevolent Assault of Tomorrow” abre a caixa de ferramentas com nada mais nada menos que “Dead City”. A veia Punk acende logo a partir das primeiras notas de baixo, sendo acompanhadas por uma bateria que funciona como um marcador temporal. Em seguida, as guitarras extremamente afiadas e diretas chegam para causar rachaduras na mente através de sua agressão sonora.
Se você quer criar algo, terá que tirar enfiar sua guitarra na poeira, trazendo um contraste aos primeiros versos da música. Além disso, o ritmo é direto, mantendo balanço nítido entre o Speed e o Thrash Metal. A crítica ao modo de vida da cidade de Velbert impõe aos músicos ainda mais ódio, deixando a composição mais veloz e mais intensa. Esse peso se destaca principalmente quando a bateria evoca sorrisos de criança em uma cidade morta. Por sua vez, os solos trazem melodias amplamente satisfatórias e criam uma corrida desenfreada para evidenciar as falhar desse lugar. Nesse aspecto, o retorno para o baixo à frente do trabalho mostra-se providencial, trazendo mais alternâncias para uma abertura caótica e desgraçada de tão boa que é.
Os desafios de cada esquina
“Para criar algo novo e vencer a estagnação, é preciso agir ativamente e satisfazer os próprios desejos. No cenário urbano, o caos e o desprezo pelas leis ambientais alimentam uma violência que consome os envolvidos, enquanto o excesso de álcool destrói movimentos pacifistas tradicionais. Além disso, comportamentos infantis em ambientes hostis escancaram a perda da inocência, e o tédio existencial de Velbert reflete uma cidade sem vida onde figuras aparentemente pacíficas escondem uma loucura profunda.
Ou seja, essa imagem de garotas recatadas que curtem a moda disco revela um forte contraste. Embora elas prefiram a paz e fujam de agressões, uma loucura oculta as domina.”
A euforia levada ao limite
O segundo soco do destroçador de ossos alemão atende por “Soulbursting”. Um riff calmo no início representa a juventude rebelde, intensa, cheia de carga química e sem limites. Porém, esse mesmo riff logo passa a rabiscar a folha a ponto de rasgá-la, provocando faíscas que incendeiam o caderno inteiro. Ademais, a soma de substâncias duvidosas pode tornar a noite mais do que simplesmente caótica. Diante disso, os riffs impactantes e colossais traduzem uma comunidade ávida por shows em meio à destruição pelo vício.
Nesse cenário, a junção entre o histórico da cidade natal, os movimentos da população local — principalmente os fãs de Metal — e o caos em vários âmbitos se transformam em combustível. Esse poder de fogo faz o Violent Force atingir horizontes jamais vistos. Consequentemente, o ritmo intenso, violento e espetacular abre caminho para variações bem dosadas. Todavia, a banda sempre encontra espaço para expandir esses horizontes ao incluir solos vertiginosos e energizantes, sem contar as bases que formam camadas seguras e provocadoras de valsas calamitosas.
O contrabando de captagon
“Uma juventude rebelde vive intensamente e sem limites, buscando liberdade extrema por meio de substâncias químicas perigosas e noites caóticas de shows. Consequentemente, essa rotina destrutiva cobra um preço físico devastador, resultando em corpos lesionados pelo excesso e fígados completamente destruídos pelo vício.
Portanto, a estrofe final celebra a autonomia absoluta e o desapego total, rejeitando opiniões alheias enquanto os jovens priorizam o prazer imediato. Desse modo, os versos finais traduzem uma filosofia de vida hedonista, onde aproveitar o presente justifica qualquer autodestruição ou julgamento social.”
Altas doses do veneno da vingança
O terceiro ataque sonoro letal acontece por meio das garras de “Vengeance and Venom”. Um velho sábio de chapéu já dizia: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.” Esse dito cabe muito bem para o tema dessa nobre canção “inofensiva”. De antemão, a música oferece um requinte apropriado a quem toma coragem para partir em busca de vingança. Nesse sentido, a sede de sangue interminável move o cérebro em uma só direção. Para ilustrar isso, ataques ríspidos e vorazes de guitarra disparam solos fervilhantes e cortantes. Ao mesmo tempo, o baixo pulsa rápido como um coração amargurado e envenenado, enquanto a bateria dilacera o peito em palpitações no formato de explosões sônicas. Por fim, a faixa super curta e direta ao ponto alimenta a alma de quem sofreu na infância e clama por vingança.
A revolta de um filho contra um pai abusador
“Um trauma severo na infância de um homem desperta um ódio profundo contra a humanidade. Consequentemente, ele canaliza essa dor antiga em uma jornada sombria e violenta. Impulsionado por esse rancor, o protagonista busca vingança através da destruição total. Desse modo, as suas ações violentas geram caos e sofrimento generalizado por onde passa.
Portanto, esse comportamento destrutivo perpetua um ciclo trágico e cruel. Como resultado, o personagem justifica a sua crueldade presente usando as dores do passado.”

Simplesmente, “Malevolent Assault of Tomorrow”
Ao chegar até aqui, você pode dizer que são três músicas seminais para o estilo. No entanto, você jamais ficará satisfeito e desejará ir mais longe. Essa ida, portanto, acaba por te jogar de encontro a um dos grandes hinos cult do Thrash Metal mundial. Falo de “M.A.O.T.”, a sigla perfeita quando o assunto é Thrash/Speed Metal na essência.
Nesse ponto, as palhetadas velozes corrompem você, enquanto o requinte cruel de baixo e bateria o amarra contra a parede. Eu ainda não citei os vocais por achar que o melhor momento é agora. A plenos pulmões, o vocalista despeja drives amargos e inflamáveis, junto a um horror voltado para o ataque malevolente do amanhã. Simultaneamente, a luxúria e a matança envolvem o palco, enquanto a noite pulsa os corações vingativos e assassinos. Os solos soam como uma queda brusca da ponte, ao passo que uma bateria intensa e perspicaz complementa o traçado. Afinal, se todo o cuidado é pouco, quanto mais violência sonora, melhor! Faixa providencial, primordial e REPETACULÊ!
A única crença em seu cérebro vazio
“Em paralelo a essa destruição sonora, um ambiente de dor e morte corrompe o andarilho, enquanto pensamentos bestiais e luxúria mórbida o guiam. Alimentado por forças demoníacas, ele persegue e elimina suas vítimas, libertando almas enquanto os corpos apodrecem. Em seguida, o horror infinito consome sua consciência e acelera sua ruína com visões caóticas. Quanto à conclusão dessa observação, o fogo encerra a agonia e uma luz infernal sela seu destino trágico.
Se, “cabeça vazia é oficina do Diabo”, essa letra é uma das mais diretas e referentes a esse dito popular. Para alguns, pode parecer fuga do caos provocado pela sociedade. Já para outros, pode ser um espaço para destilar seus verdadeiros anseios.”
O tema instrumental que surge no momento certo
Qualquer que fosse a faixa seguinte, ela teria uma missão ingrata. Afinal de contas, depois da faixa-título — uma pancadaria que não deixa nenhum headbanger de pé —, qual música seria capaz de manter o disco em alto nível?
Pois bem, essa árdua tarefa ficou nas mãos de “What About the Time After”. Mas como estamos falando da joia suprema do Violent Force, a canção logo conquista seu espaço merecido no coração apodrecido do ouvinte. Fazendo uma alusão ao título da música, o “período posterior” a “M.A.O.T.” se revela imponente e devastador.
A grande sacada da banda foi encerrar o lado A do LP com uma faixa instrumental, sabendo que o ouvinte terminaria a audição com ainda mais sede de riffs velozes e alucinantes — tudo graças ao poder de fogo avassalador desferido pela faixa-título.
A vontade de assassinar e atormentar diante de um colapso existencial
Não confunda “Sign of Evil” com o EP de estreia do Sodom, “In the Sign of Evil”, lançado em 1985. Embora ambas as faixas sejam grandes petardos, o objetivo aqui é destacar toda a elegância e malevolência de seu compatriota. As guitarras demonstram um ímpeto despojado, apelando para boas alavancadas, antes de mergulhar em riffs sujos e opressores.
Sob o alicerce amaldiçoado da bateria e do baixo, a música é envelopada pelo mais puro Metal, abrindo um horizonte de solos incisivos e nefastos. Enquanto os vocais rasgam os alto-falantes, as guitarras acompanham sem jamais perder o fôlego. No entanto, o momento-chave se desenrola a partir das linhas de contrabaixo e bateria; mesmo sem a presença das guitarras, essa cozinha rítmica conduz o time diretamente para o reduto dos solos técnicos, melódicos e ambiciosos. Fica evidente que guitarras acima da média nunca faltaram ao esplêndido Violent Force.
O senhor das guerras e das mentes corrompidas
“Os versos adotam o ponto de vista de uma força maligna universal. Primeiramente, o eu lírico assume a autoria da morte de Jesus Cristo. Ele também reivindica a culpa por todas as guerras da humanidade. Além disso, a entidade afirma controlar os sentimentos e as ações dos seres humanos. A busca por almas perdidas move as suas ações destrutivas. Desse modo, o personagem passa a se alimentar de situações desprovidas de ordem e justiça. O intuito é provocar o caos e incitar o ódio a quem finge defender a ordem e o progresso.
Junto a esse movimento alarmante, a mensagem principal sugere que o mal reside secretamente dentro de cada indivíduo. Contudo, as pegadas de sangue marcam e retratam o crime e a violência como impulsos inevitáveis da própria mente humana.”
Aquela que une força e violência
A representação da violência ininterrupta, mais conhecida por ser a faixa que carrega o nome da banda, “Violent Force”, é impulsionada por uma bateria incessante. Quando o volume aumenta, nota-se o impacto logo na primeira entrada do quarteirão. As guitarras surgem na saída seguinte, enquanto o baixo instiga o caos na mesma via. Quando os instrumentos finalmente se unem, ocorre uma pausa ensaiada, marcada precisamente pela caixa do kit — um respiro proposital para que as cordas preparem um novo e fatal arranque.
Esse ataque subsequente deságua em um verdadeiro assalto em campo de batalha, repleto de solos espinhentos e melódicos que extraem o máximo da distorção explorada. A marcação dos tons avisa que um novo redemoinho sonoro está a caminho; prontamente, os músicos atendem ao próprio chamado e incendeiam a composição. Abre-se, assim, o espaço ideal para uma camada apoteótica, digna de um grandioso final de espetáculo.
Um submundo repleto de dor e sofrimento
“A composição descreve uma força maligna e implacável que destrói a sociedade e pune os governantes. Previamente, os músicos narram uma jornada sombria inspirada pelo submundo, onde espalham dor e sofrimento sem qualquer remorso. Sob a influência de uma divindade ligada à morte, a banda alimenta a própria alma com um desejo profundo de vingança.
Posteriormente, a canção decreta o colapso total dos sistemas sociais e prevê a queda definitiva de todos os imperadores ricos e corruptos. O texto antecipa o retorno cíclico dessa insanidade destrutiva através do tempo. De forma deprimente e delinquente, o crime e a morte voltam a reinar diretamente do inferno, mantendo o sentido de destruição total da obra original.”
O poder do anoitecer
“The Night” mal afia suas facas e já as lança em forma de solos que cortam como navalhas enferrujadas, disseminando o vírus do Metal. O cenário é totalmente propício para valsas intermináveis, sem qualquer chance para respirar ou tomar água. Em dado momento, as guitarras sofrem uma queda de volume — reflexo de problemas na gravação —, mas isso abre espaço para que o alicerce sonoro arranque a poeira debaixo do piso, tamanha a vibração causada pelo peso e pelo poder de ataque destrutivo. Embora possua muito ímpeto e energia redobrada, considero que a faixa sofre uma sutil perda de brilho em relação às composições que a cercam. Mesmo assim, entrega outro festival de riffs serrilhados, com doses de solos espalhados por esse emaranhado de notas diretas.
A morte reina nas planícies vazias
“A epístola musical retrata um cenário pós-apocalíptico desolador e sufocante dominado por desertos e névoa. Inevitavelmente, as criaturas rastejam pela escuridão enquanto enfrentam a falta de ar e a ausência total de qualquer esperança ou redenção. Sob a ameaça de um sol destrutivo, esses seres travam lutas sangrentas e violentas no meio da noite escura.
Diante desse cenário, o amanhecer surge como uma força apocalíptica inevitável que transforma o mundo em uma gigantesca bola de fogo. O sol dispara seu raio mágico e elimina definitivamente a chance de novas noites existirem para os sobreviventes. Em um resumo plausível, a morte reina absoluta sobre planícies vazias cheias de carne e osso, restando apenas rastejar em busca da luz.”
Destruição interna através dos tímpanos e do fígado
“Destructed Life” segue o padrão de qualidade aprovado pelo “Inmetro do Metal” e adiciona ainda mais combustível a esse comboio desenfreado, mas que sabe exatamente para onde vai. Um riff nos moldes clássicos surge por entre a fumaça oitentista e abre a lata sem precisar de abridor. Essa atitude promove mais uma correria sem freio, movida por uma vontade imensa de acelerar sem olhar para trás.
O ritmo malicioso despeja tonéis de urânio pela pista e prepara o terreno com solos cirúrgicos. Essas linhas são ousadas o bastante para ditar a cadência no momento certo, trazendo um pouco do tempero do Leste Europeu. Tanto os solos quanto as bases são incríveis e, mesmo com uma linha de bateria mais simples, o resultado provoca uma nostalgia daquelas. Isso justifica o meu ponto sobre a sutil perda de brilho da faixa anterior.
Esse momento é surpreendente, pois incrementa novas camadas a um disco que é direto, mas longe de ser retilíneo. Obviamente, a rifferama faiscante logo retoma o seu posto. Entretanto, essa velocidade traz uma sensação diferenciada, misturando a energia de bangear sem parar a uma imensa alegria no coração. Se esta não for a melhor faixa do disco para o dono do nanquim virtual que vos digita, com toda a certeza está entre as melhores.
Alcoolizado e condenado ao próprio vício
“Cada estrofe escancara o modus operandi de boa parte das pessoas, principalmente os mais jovens, ao buscar refúgio através do álcool, dentre vários entorpecentes. Porém, o foco é na bebida, mostrando o caminhar de uma figura imersa no vício, na marginalidade e na autodestruição urbana. Inicialmente, o personagem desperta pálido em uma cela de prisão imunda após dormir em um metrô escuro e empoeirado. Ele ignora os avisos do policial sobre o seu fim iminente e rejeita o café oferecido, exigindo apenas mais bebida alcoólica. Sob o impacto de entorpecentes que afetam seu cérebro, o indivíduo assume uma postura de falsa imortalidade e afirma que sobreviverá como um zumbi.
Em um segundo momento, o homem confronta um diagnóstico médico alarmante que aponta a falência total de seu fígado por causa dos excessos. Ele reage com desdém e deboche diante da previsão de que não alcançará a velhice. Por essa razão, o protagonista retorna imediatamente para o balcão de um bar com os olhos já vesgos pelo efeito do álcool. Ele aceita o próprio destino trágico e assume estar completamente perdido, enquanto acredita que o Diabo pagará a sua conta final.”
Suicídio, morte e inquisição diante da estupidez das autoridades
Você gosta de S.D.I., a banda alemã de Speed Metal? Eu gosto bastante, e não há como negar que “S.D.I. (Suicide, Death, Inquisition)” possui muito do DNA que o seu irmão de território também carrega. Embora não traga tantas novidades em relação às demais faixas, ela ostenta uma introdução que evoca uma valsa respeitosa — daquelas que você termina e quer ouvir de novo, feito uma criança em brinquedo de parque de diversões.
O riff principal recebe a marcação exata do baixo, enquanto a bateria encara um andamento mais contido, porém bastante expressivo. O rangido das guitarras é sensacional, destilando palhetadas ritmadas com intervalos precisos e muito bem inseridos. Quando a intensidade aumenta, é impossível não imaginar os headbangers girando em círculos após o comando vindo do palco. O som explode e você se vê diante de um caos maravilhoso!
Os solos funcionam como verdadeiros condutores de toda essa eletricidade, aliados a um alicerce assertivo e especial. O andamento rápido e rasteiro prevalece, escoltado por vocais repletos de ódio e muito drive. Mas se engana quem pensa que a música para por aí: a cadência retoma o seu posto e estende o tapete para mais uma saraivada de solos alarmantes e magistrais. Junto ao kit espancado, temos um contrabaixo que racha como motor de caminhão, contornando cada curva perigosa com apetite. Ele se une a guitarras capazes de incendiar lares ortodoxos e povoados inteiros, que se assustam com o tilintar absoluto dos pratos e uma alavancada excepcional.
Um povo receoso diante da estupidez das autoridades
“O último capítulo identifica o pânico e o desespero gerados pelo avanço tecnológico voltado para o extermínio em massa e para as guerras espaciais. A partir de então, as linhas textuais descrevem um cenário opressor onde a produção desenfreada de armamentos dita a lei universal, silenciando os questionamentos e o choro da população apavorada. Os civis vivem sob o medo constante daquilo que as autoridades lançam em direção às estrelas através de conflitos impiedosos. Diante dessa inquisição mortal e suicida, resta aos cidadãos apenas o direito passivo de esperar pela própria morte inevitável.
Na curva seguinte, o caos se instala no planeta com o início definitivo de uma guerra nuclear avassaladora cercada de calor extremo e estupidez humana. As pessoas que antes debochavam da situação agora encaram a destruição total e se sangram diante de uma realidade sem qualquer refúgio seguro. Uma névoa atômica e tóxica encobre o mundo inteiro, transformando o fim dos tempos na única libertação possível contra o ódio puro. Por fim, as cinzas e a escuridão eterna confirmam a ruína da civilização, restando apenas os sinais brilhantes e tardios da morte.”

Morbid Corpse –
Considerações ofensivas do amanhã malevolente
Imagine uma banda disposta a mostrar o seu trabalho para toda a cidade, mesmo sem ter grana para investir nisso. O pouco que os músicos conseguiam ia diretamente para esse curto investimento: uma divulgação calcada em fitas cassete improvisadas e espalhadas através do boca a boca. Essas demos distribuídas aos poucos deram uma ajuda importante para o lançamento do primeiro full-length.
Para esse lançamento, os caras resolveram caprichar a ponto de tornar o álbum seminal para o estilo. E, como não estamos tratando de toda a história do Violent Force, aterrissamos nossa aeronave da nostalgia em 1987, ano de lançamento de muitas pérolas alemãs, incluindo o diamante bruto chamado “Malevolent Assault of Tomorrow”. Um disco promissor que, se tivesse o devido investimento e marketing a favor, bateria de frente em vendas com as principais bandas de Thrash Metal da Europa. Aqueles que tiveram contato imediato com esse trabalho já o colocaram no topo do subgênero. E isso, portanto, torna significativa a sua alcunha de clássico do Thrash Metal, não apenas da Alemanha, mas também do mundo!
Além disso, podemos ver uma banda bastante madura no quesito composição. Não apenas o som, mas as letras abordam assuntos pertinentes e que soam muito atuais. Os problemas citados naquela época são os mesmos grandes problemas que assolam a população mundo afora hoje em dia. O medo de uma Terceira Guerra Mundial continua a assombrar as pessoas — guerras por toda a parte continuam a eclodir, embora nem sempre tragam o interesse da mídia para serem divulgadas a todo instante. Em suma, tanto a sonoridade de “Malevolent Assault of Tomorrow” quanto as suas letras são o mais puro suco do Metal inquieto, crítico e questionador. Sem levantar bandeiras, mas mostrando a todos que nada que pareça perfeito realmente está. Ouça esse disco imediatamente, caso ainda não o conheça!
“Anos e anos vagando pelas planícies
Essa é a razão de seus pensamentos bestiais
Seguido por sombras demoníacas por toda parte
Em seus olhos, você pode ver a carne apodrecerM.A.O.T. – você verá o sangue deles fluir livremente
Sinta o hálito frio em sua pele
Mais uma mulher morre sob seu sorriso
Sua alma se liberta, se seu corpo morrer sob o sol
Prepare-se para a corrida eterna
A névoa mágica desfaz sua confusão”
Nota: 9,7
Integrantes:
- Lemmy (vocal, guitarra)
- Stachel (guitarra)
- Waldy (baixo)
- Hille (bateria)
Artistas convidados:
- Atomic Steif (R.I.P. 2025 — bateria nas faixas 1, 6, 9)
Faixas:
- Dead City
- Soulbursting
- Vengeance and Venom
- M.A.O.T. (Malevolent Assault of Tomorrow)
- What About the Time After (instrumental)
- Sign of Evil
- Violent Force
- The Night
- Destructed Life
- S.D.I. (Suicide, Death, Inquisition)
