“O death metal era visto como uma moda passageira”, relembra Scott Burns sobre os primórdios do gênero

Scott Burns por Tim Hubbard

Durante uma entrevista concedida ao autor Sam Retzer para a revista Tape Op, o lendário produtor Scott Burns falou sobre sua participação no desenvolvimento do Death Metal. Scott logo relembrou os tempos em que trabalhou em álbuns fundamentais de bandas como Death, Atheist, Cannibal Corpse, Obituary e Deicide.

Questionado se elevou o nível artístico do death metal ao produzir discos como “Unquestionable Presence”, do Atheist, e “Human”, do Death, Burns respondeu com humildade e preferiu destacar o talento dos músicos envolvidos.

“Na verdade, não. Eu agradeço por isso, mas não sei. Eu sabia que caras como Sean Reinert e Roger Patterson, do Atheist, eram especiais, assim como o que o Cynic fez em ‘Focus’. A cena estava ficando mais popular no underground, mas ao mesmo tempo nós tínhamos King Diamond, Slayer, Megadeth, Metallica, Anthrax, Overkill e Testament; as ‘grandes bandas’.”

Sean Reinert (de pé), Scott Burns (meio) e Chuck Schuldiner (sentado à direita) disponibilizada pelo site Tape Op

Em seguida, o produtor explicou que poucas pessoas imaginavam a dimensão que o death metal alcançaria décadas depois.

“Eu acho que o death metal era visto talvez como uma moda passageira. Não interprete isso da forma errada. Minhas bandas tinham um público muito dedicado, especialmente na Europa, mas era um público menor porque o som era extremamente extremo. O PMRC colocou um selo de advertência em ‘Butchered At Birth’, do Cannibal Corpse. Se você tivesse me dito que eu estaria falando sobre isso tantos anos depois, eu teria respondido: ‘Nem pensar’. Mas pense da seguinte forma: você ainda ouve muitos vocais como os de King Diamond? Você ouve muitos cantores que soam como John Tardy? Lamb Of God, Lorna Shore e Amon Amarth; todas essas bandas enormes usam vocais pesados e profundos. George ‘Corpsegrinder’ Fisher, Frank Mullen e Glen Benton — todos eles usam vocais graves. Se alguém tivesse me dito que esse estilo seria tão predominante hoje, eu teria respondido novamente: ‘Nem pensar!’. Não porque eu não acreditasse nele; é apenas algo que ainda me impressiona. É ótimo, e eu fico extremamente feliz com isso, mas mostra que nunca sabemos o que vai acontecer.”

Além disso, Scott Burns destacou a importância da comunidade de músicos e engenheiros de som que circulava diariamente pelo Morrisound Recording. Segundo ele, o espírito colaborativo teve papel decisivo no crescimento da cena.

“Acho que sua observação faz muito sentido. É como diz o velho ditado: ‘É preciso uma aldeia inteira’. Entre os engenheiros, Steve Heritage tinha uma forte ligação com o punk rock e gravou o Hot Water Music. Sean Malone era um fenômeno e já tinha tocado em bandas de punk e new wave que eu conhecia desde os primeiros dias. Os engenheiros Judd Packer e ‘Super Brian’ Benscoter também eram incríveis. Brian é um verdadeiro herói pouco reconhecido. Ralph Santolla era um guitarrista fenomenal e floresceu ainda mais como músico de estúdio com o passar dos anos. Ele fazia sweep picking como Yngwie Malmsteen e trabalhou com Jim Morris em muitos projetos. Quando enfrentávamos problemas com algum baterista, podíamos ligar para Alex Marquez. Muitas vezes as bandas eram jovens e inexperientes, e esses caras chegavam como músicos de sessão no estilo Steely Dan. Nós podíamos usar termos musicais como ‘toque algo neoclássico’ ou ‘preciso de um som de Stratocaster’, e eles entendiam imediatamente.”

O produtor também reservou elogios especiais para o guitarrista James Murphy, que deixou sua marca em diversos clássicos do gênero.

“James Murphy era incrível; um dos melhores guitarristas com quem já trabalhei. O death metal prosperava com o caos das alavancadas de Rick Rozz e Kerry King, então era muito legal ouvir Murphy solar sobre riffs pesados como fez em ‘Spiritual Healing’, do Death, e ‘Cause Of Death’, do Obituary. Essa era a beleza do Morrisound; era uma comunidade. Estamos falando de Tampa, não de uma grande metrópole. Todo mundo se conhecia e havia uma atmosfera muito positiva. Nós, da equipe do estúdio, não nos importávamos com a presença de fãs, desde que as bandas concordassem. Como acontece em qualquer cena musical ativa, existia uma grande camaradagem entre os músicos.”

O nome de Scott Burns tornou-se sinônimo da ascensão do Death Metal entre o final dos anos 1980 e meados da década de 1990. Trabalhando no lendário Morrisound Recording, em Tampa, ele ajudou a moldar o som de álbuns clássicos. Dentre estes do Death, Cannibal Corpse, Sepultura, Obituary, Deicide, Napalm Death e Terrorizer, transformando gravações brutais e caóticas em registros que se tornaram referências definitivas para o gênero. Em 2023, a Decibel Books lançou o livro “The Scott Burns Sessions: A Life In Death Metal 1987-1997”. Trata-se, decerto, de uma extensa obra dedicada à sua trajetória e influência na história do metal extremo.

Deixe seu comentário