Resenha: Harrowed – “The Eternal Hunger” (2026)

Poucos estilos — talvez nenhum — conseguem manter um nível tão elevado de lançamentos consistentes quanto o Death Metal. De veteranos consagrados a novos nomes da cena, passando pelo Brutal Death, Technical Death Metal e, naturalmente, pelo Death Metal mais old school, o gênero segue entregando, ano após ano, discos acima da média. Muitos deles, caso tivessem sido lançados em meados dos anos 1990, provavelmente já seriam considerados clássicos absolutos pelo teste do tempo.

A verdade é que o Death Metal se expandiu de tal forma que hoje abriga um universo de possibilidades dentro de um mesmo guarda-chuva sonoro. Cada vertente desenvolveu características próprias, permitindo abordagens bastante distintas sem perder a essência extrema do estilo. E, justamente por existir tanta oferta de qualidade, torna-se ainda mais difícil para um novo grupo chamar atenção. Mesmo assim, o álbum de estreia do Harrowed consegue esse feito com naturalidade.

Formado na Suécia pelo baterista e vocalista Adam Lindmark (ex-Morbus Chron) e pelo guitarrista e baixista Tobias Alpadie (VAK e ex-Tribulation), o duo lançou “The Eternal Hunger” no dia 27 de fevereiro pela Dying Victims Productions. O disco mergulha profundamente nas origens do gênero e bebe diretamente da fonte de obras fundamentais como “Left Hand Path”, do Entombed, sem abrir mão de influências igualmente marcantes de nomes como Autopsy, Master, Celtic Frost e até mesmo do Slayer. Em vez de simplesmente reproduzir fórmulas antigas, a dupla utiliza essas referências como base para construir um trabalho cheio de personalidade.

Produção que respeita o passado sem sacrificar a qualidade

A produção assinada por Robert Pehrsson e Adam Lindmark merece destaque. Ela alcança com precisão algo que muitos tentam reproduzir — especialmente dentro da cena brasileira —, mas raramente conseguem: soar autenticamente oitentista sem recorrer à má gravação como recurso estético. Os timbres de guitarra são serrilhados, a bateria exibe aquela sujeira característica do período e toda a atmosfera transpira decadência e morbidez. Ainda assim, cada instrumento permanece perfeitamente audível, preservando definição e dinâmica suficientes para revelar todos os detalhes da execução. É o melhor dos dois mundos: o charme analógico aliado à clareza de uma produção moderna.

Com oito faixas e pouco mais de 36 minutos de duração, “The Eternal Hunger” apresenta uma dinâmica admirável. O álbum alterna momentos de pura brutalidade com passagens mais cadenciadas e atmosféricas, sempre mantendo a audição interessante. O duo demonstra domínio absoluto sobre sua proposta, conduzindo cada composição de maneira imprevisível e mantendo o ouvinte constantemente atento ao que acontecerá no próximo riff.

Um desfile de riffs inspirados e atmosferas sombrias

“Bayonet” abre os trabalhos com um riff devastador de Tobias Alpadie e rapidamente estabelece o tom do disco. Trata-se de um ataque impiedoso que convida imediatamente ao headbanging. Apesar da agressividade predominante, a música apresenta mudanças de andamento muito bem construídas e chega a surpreender ao incorporar um trecho de Death/Doom que certamente faria Martin van Drunen, do Asphyx, sorrir de aprovação.

Na sequência, “The Cold Of A Thousand Snows” mistura a crueza de “Morbid Tales”, do Celtic Frost, com o Autopsy dos primeiros anos de carreira. Entretanto, o grande mérito está nas linhas melódicas de guitarra, que conferem identidade própria à composição e impedem qualquer sensação de simples reverência aos clássicos. Fechando essa excelente sequência inicial, “Ultra-Terrene Phantasmagoria” acrescenta uma dose generosa de Punk Hardcore, sem esconder a enorme influência de “Scream Bloody Gore”, principalmente em seu trecho final.

“The Haunter” muda completamente o clima da audição. A atmosfera soturna, os dedilhados carregados de tensão e as claras referências a “Seasons In The Abyss”, do Slayer, criam uma das experiências mais envolventes do álbum. Com mais de seis minutos de duração, a faixa passeia por diversas variações rítmicas enquanto constrói um groove pantanoso absolutamente irresistível. É nesse momento que fica evidente que o Harrowed está vários degraus acima da média.

Logo depois, “Blood Covenant” recoloca combustível na máquina de destruição. Assim como acontece em “Bayonet”, a composição começa em ritmo acelerado, fortemente influenciada pelo Thrash Metal, antes de reduzir a velocidade estrategicamente para explorar atmosferas densas e passagens quase sufocantes. Quando a violência retorna, ela parece ainda mais impactante.

Um álbum que entende perfeitamente sua proposta

“The Reins” traz o peso característico do Master de Paul Speckmann, enquanto reforça novamente a influência do Punk Hardcore. Embora seja provavelmente a composição mais simples do disco, ela cumpre perfeitamente sua função e prepara o terreno para “Formaldehyde Dreaming”, uma das grandes surpresas do trabalho. Aqui, o duo flerta com um excelente Death ‘n’ Roll, sustentado por riffs extremamente memoráveis e passagens quase psicodélicas que ampliam ainda mais a riqueza sonora do álbum.

O encerramento acontece com a faixa-título, “The Eternal Hunger”, que ultrapassa os seis minutos e sintetiza tudo aquilo que tornou o disco tão interessante. Ecos de Grave, Entrails e Cancer aparecem naturalmente ao longo da composição, enquanto o tempero inconfundível do Slayer — especialmente das fases “Seasons In The Abyss” e “South Of Heaven” — permanece evidente em diversos momentos. Ainda assim, a música jamais soa derivativa. Pelo contrário, ela funciona como uma declaração definitiva da identidade construída pela dupla ao longo do álbum.

Photo: @rockshutterz

No fim das contas, o maior mérito do Harrowed está justamente em compreender que um excelente disco não precisa reinventar o gênero nem recorrer a experimentações forçadas para parecer relevante. O duo demonstra convicção em sua proposta e executa cada ideia com absoluta segurança. Adam Lindmark e Tobias Alpadie deixam claras suas influências durante toda a audição, mas jamais ultrapassam a tênue linha que separa homenagem de mera imitação. Há personalidade suficiente para transformar referências clássicas em algo genuinamente próprio.

“The Eternal Hunger” certamente encontrará seu público entre os admiradores da fase mais primitiva do Death Metal. O disco entrega atmosferas fúnebres, riffs memoráveis, mudanças de andamento inteligentes e uma produção impecável para a proposta escolhida. Não pretende reinventar o estilo, tampouco revolucionar seus fundamentos. Em vez disso, aposta naquilo que realmente importa: músicas fortes, inspiradas e capazes de transportar o ouvinte diretamente para os porões úmidos e sombrios onde o gênero nasceu. Audição obrigatória para qualquer fã do Death Metal clássico.

Nota: 8,8

Integrantes

  • Tobias Alpadie – guitarra e baixo
  • Adam Lindmark – vocal e bateria

Faixas

  1. Bayonet
  2. The Cold Of A Thousand Snows
  3. Ultra-Terrene Phantasmagoria
  4. The Haunter
  5. Blood Covenant
  6. The Reins
  7. Formaldehyde Dreaming
  8. The Eternal Hunger
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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