Tom Morello pede voto em Lula, mas quem vive as consequências é o brasileiro

Tom Morello nunca escondeu suas posições políticas. Pelo contrário. O guitarrista do Rage Against The Machine construiu parte importante de sua trajetória artística em torno do ativismo e defende publicamente que músicos não precisam separar suas convicções de sua atividade profissional.

Na madrugada deste sábado, 3 de outubro, Morello resolveu novamente transportar esse ativismo para a política brasileira. Na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais, publicou em seu Instagram uma arte de Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhada da inscrição “LULA26” e das hashtags #RockTheVote e #Brazil. Não foi a primeira vez: ele também manifestou apoio ao petista nas eleições de 2022.

A postagem recebeu apoio de diversos músicos brasileiros, entre eles João Gordo, Fernanda Lira, Amilcar Christófaro, Clemente Nascimento, integrantes do Black Pantera e outros nomes. Também vieram críticas de brasileiros questionando justamente por que um artista estrangeiro, que não vive no país, estaria tentando influenciar uma eleição nacional.

Músico pode falar de política? É claro que pode

Aqui existe uma distinção importante. O Mundo Metal não defende que músicos permaneçam calados diante de assuntos políticos. Um músico é cidadão antes de ser artista. Tem opiniões, valores, preocupações e o mesmo direito à liberdade de expressão de qualquer outra pessoa.

O próprio Tom Morello respondeu recentemente às críticas de quem pede que artistas “fiquem fora da política”. Em entrevista à Metal Hammer, questionou: “Por que você deveria abrir mão do seu direito à liberdade de expressão por causa do trabalho que faz?”.

O problema começa quando uma personalidade utiliza o prestígio conquistado em uma área para tentar conferir peso especial à sua opinião em outra. Um músico falando sobre guitarras, amplificadores, harmonias, composição, gravação, turnês ou indústria musical está tratando diretamente da área na qual acumulou experiência. Quando esse mesmo músico passa a falar de política, economia, direito constitucional, relações internacionais ou administração pública, a lógica muda.

É semelhante a ouvir um excelente vendedor falando sobre genética ou um professor de inglês explicando física quântica. Ambos podem ter estudado esses assuntos? Evidentemente. Mas sua profissão, por si só, não concede qualquer autoridade adicional sobre eles.

E aqui existe uma ressalva particularmente importante no caso de Tom Morello: ele não é simplesmente “um guitarrista opinando sobre política”. Morello estudou Ciência Política em Harvard. Portanto, seria intelectualmente desonesto utilizar contra ele o argumento simplista de que “músico não estudou política”. Isso, porém, não resolve a questão.

Estudar política não significa conhecer profundamente a realidade brasileira

Ter formação política não transforma ninguém em especialista automático sobre cada eleição realizada no planeta.

A realidade brasileira envolve relações entre Executivo, Congresso, STF, governos estaduais, partidos, investigações, sistema tributário, segurança pública, previdência, legislação, economia, escândalos recentes e uma infinidade de questões locais que não podem ser compreendidas simplesmente através de uma divisão internacional entre “esquerda” e “direita”.

Tom Morello não mora no Brasil. Não vota no Brasil. Não utiliza diariamente os serviços públicos brasileiros, não paga os mesmos impostos de quem vive aqui e não estará submetido diretamente às consequências administrativas do governo que está ajudando a promover.

Isso deveria, no mínimo, servir para que o músico tivesse um entendimento muito simples: acompanhar um país à distância é muito diferente de viver suas consequências cotidianas.

O problema não é ter opinião. É tentar transformar prestígio artístico em influência eleitoral

É justamente aí que está a diferença que muitas vezes desaparece dessas discussões. Utilizar uma plataforma construída graças à sua carreira musical para publicar material de campanha na véspera da eleição acompanhado de uma chamada para votar é irresponsável. Já não estamos simplesmente diante de um cidadão expondo sua visão de mundo. Estamos diante de uma celebridade internacional utilizando seu alcance para tentar influenciar a decisão eleitoral de pessoas que viverão diretamente as consequências daquela escolha.

Existe ainda outro problema recorrente na relação entre celebridades e política: a facilidade com que opiniões particulares passam a ser apresentadas como evidências de superioridade moral.

Um artista acredita estar defendendo aquilo que considera correto. Até aí, absolutamente normal. A distorção aparece quando a equação passa a ser: “eu defendo o lado certo, portanto preciso convencer meus seguidores a fazer o mesmo”.

Pessoas possuem necessidades, experiências, prioridades econômicas, valores e interpretações diferentes da realidade. Política não é uma equação matemática na qual determinada celebridade descobriu a resposta correta e agora precisa distribuí-la para seguidores menos esclarecidos.

O fenômeno também existe dentro do Metal brasileiro

Evidentemente, isso não acontece apenas com artistas estrangeiros. Nesta mesma eleição, o Violator declarou apoio explícito a Lula e publicou uma mensagem eleitoral poucos dias antes da votação. O posicionamento gerou forte repercussão entre os próprios seguidores.

Andreas Kisser, do Sepultura, também publicou a capa de “13”, do Black Sabbath, acompanhada das hashtags #13, #Lula e referências a outros candidatos de seu campo político.

Nesse caso existe ao menos uma diferença fundamental em relação a Morello: esses artistas são brasileiros e viverão diretamente sob o governo resultante das urnas.

Ainda assim, permanece a mesma pergunta sobre autoridade.

O fato de alguém saber escrever excelentes riffs, tocar bateria de maneira extraordinária ou comandar uma banda importante não transforma automaticamente sua análise política em algo mais qualificado do que a de um médico, mecânico, engenheiro, pedreiro ou balconista.

Fama amplia alcance, não necessariamente conhecimento.

E o espírito antissistema do Metal?

Existe ainda uma contradição particularmente curiosa quando isso acontece dentro do Metal.

Durante décadas, boa parte da cultura do gênero construiu sua identidade sobre a desconfiança em relação ao poder. Presidentes, governos, corporações, partidos, guerras, corrupção e autoridades tornaram-se alvos recorrentes de bandas de Heavy Metal, Thrash Metal, Punk, Hardcore e inúmeras outras vertentes.

O conselho básico sempre pareceu bastante simples: Não confie em quem governa você.

Agora, em meio a uma sociedade profundamente polarizada, vemos parte dos mesmos artistas trocar a crítica permanente ao sistema por militância eleitoral destinada justamente a colocar determinado grupo no comando desse sistema.

Em vez de “questione quem está no poder”, muitas vezes a mensagem começa a soar como: “Ajude o meu lado a chegar ao poder.”

Existe uma diferença gigantesca entre essas duas coisas.

Saudades de Lemmy

Talvez por isso seja inevitável lembrar de Lemmy Kilmister. Lemmy estava longe de ser um homem sem posições políticas. Criticava governantes, tinha opiniões fortes e frequentemente controversas sobre diversos assuntos. Mas demonstrava uma profunda desconfiança da própria classe política.

Em entrevista ao The Guardian, em 2004, afirmou que já não tinha vontade de votar havia anos e resumiu sua opinião sobre os políticos de forma bem menos diplomática: para ele, eram todos “assholes”. Na mesma conversa, criticou duramente George W. Bush.

Talvez aí esteja uma diferença interessante. Lemmy não era apolítico. Era desconfiado do poder. E não deixa de ser curioso observar quantos artistas reverenciam Lemmy, vestem camisetas do Motörhead, tocam suas músicas, repetem suas frases e celebram sua rebeldia para, na primeira oportunidade eleitoral, transformar suas próprias redes sociais em palanque para algum candidato.

O Metal não nasceu para pedir bênção ao sistema

No fim das contas, existe uma razão histórica para o Heavy Metal ter desenvolvido uma relação tão desconfiada com autoridades, partidos, governos e instituições. O Metal não decidiu ser antissistema por capricho. Durante décadas, foi justamente o sistema que tentou colocar o Rock e o Heavy Metal dentro de uma caixa.

Bandas foram acusadas de corromper jovens, discos receberam selos de advertência, letras foram levadas ao Congresso, artistas enfrentaram campanhas religiosas, músicas sofreram tentativas de censura e gêneros inteiros foram tratados como ameaça moral. O PMRC, nos Estados Unidos, tornou-se apenas um dos exemplos mais conhecidos de uma longa história de políticos, grupos organizados e instituições tentando decidir aquilo que fãs poderiam ou não ouvir.

O headbanger aprendeu a desconfiar do sistema porque, durante muito tempo, o sistema desconfiou dele primeiro. Talvez seja justamente por isso que soe tão estranho assistir a artistas ligados ao Metal abandonarem essa postura de vigilância para transformar suas redes em propaganda eleitoral.

A rebeldia do Metal certamente nunca esteve em escolher qual político merece nossa devoção. Estava em não devotar nenhum deles. Criticar quem governa. Questionar autoridade. Desconfiar de discursos prontos. Recusar a ideia de que algum partido, candidato ou grupo político seja proprietário da virtude.

É isso que figuras como Lemmy representavam tão bem.

O Heavy Metal nunca precisou escolher um lado do sistema para ser político. Ele sempre foi mais perigoso quando estava do lado de fora, apontando o dedo para todos eles.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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