Chaene da Gama do Black Pantera atribui rejeição a Derrick Green ao racismo, mas declaração gerou debate

O Heavy Metal brasileiro se tornou, nos últimos anos, um ambiente onde determinadas opiniões acabam apresentadas com pouca preocupação em separar experiências pessoais, interpretações políticas e fatos que possam ser efetivamente comprovados. Discussões sociais sempre fizeram parte da música e não existe qualquer problema nisso. A questão começa quando uma percepção individual passa a funcionar como explicação abrangente para o comportamento de milhares de pessoas.

No caso do Black Pantera, banda de Rock em evidente crescimento no cenário nacional, a pauta antirracista, os posicionamentos políticos e uma visão de mundo progressista ocupam espaço central na identidade do grupo — em determinados momentos, tão evidente quanto a própria música produzida pelo trio. E não há nada de errado nessa escolha. Cada artista decide de que maneira deseja construir sua trajetória, quais bandeiras pretende levantar e quais ferramentas utilizará para ampliar sua mensagem e conquistar visibilidade.

O problema surge quando uma afirmação grave não possui elementos suficientes para sustentar a dimensão que recebe. Ao apresentar uma experiência pessoal como retrato de um comportamento coletivo, naturalmente o discurso encontrará forte identificação dentro de uma parcela do público que compartilha daquela mesma visão. Em contrapartida, também poderá gerar descrédito entre ouvintes que enxergam a situação por outro ângulo e não reconhecem a generalização apresentada.

Chaene da Gama relaciona rejeição a Derrick Green com racismo

Foi justamente nesse terreno que Chaene da Gama, baixista e vocalista do Black Pantera, entrou ao falar sobre a entrada de Derrick Green no Sepultura e a resistência enfrentada pelo norte-americano desde que assumiu os vocais do grupo. As falas aconteceram em entrevista a apresentadora Andreza Delgado, do canal TV PerifaCon:

“Os integrantes negros davam para contar nos dedos. Às vezes, o cara nem se via como negro, porque tem a questão do colorido. Eu gostava muito da Legião Urbana porque o baixista da banda era um negão, era um negrete. Aquilo para mim era fantástico. Gostava de ver as fotos dos caras e ver um negro lá. No rock nacional dos anos 80, tinha o Clemente, que está aí até hoje com os Inocentes. Nos anos 90, O Rappa já tinha uma questão mais ativa com uma banda mais miscigenada. Mas você ainda precisa contar nos dedos quantos integrantes negros tem nas bandas.

Quando Derrick entrou para o Sepultura, foi um momento histórico para mim por duas coisas: era um negão foda cantando no Sepultura e o cara era gigante com dreads enormes. Mas muitos amigos meus não gostaram dele na banda, e não sabiam explicar o por que de não gostar. Eles não gostaram por que o cara é preto.

E o cara é foda! Ele canta muito e destrói! Tenho orgulho em dizer que ele é meu amigo. Mas eu imagino o que ele passou entrando no Sepultura naquele momento. Ele podia ter desistido. Ele mesmo fala que sofreu muito preconceito. Até hoje tem uma galera que torce o nariz.”

A fala de Chaene merece discussão justamente porque parte de uma experiência vivenciada por ele. Segundo seu próprio relato, pessoas próximas rejeitaram Derrick Green e, ao serem questionadas sobre as razões, não apresentaram argumentos que o músico considerasse convincentes. A partir dessa experiência, ele interpretou o comportamento como uma manifestação de racismo. Apesar de ser uma vivência pessoal, ela não deve ser invalidada. Caso aquelas pessoas realmente tenham rejeitado Derrick por causa da cor de sua pele, estamos falando objetivamente de preconceito. Mas esta é uma avaliação do próprio músico e não uma declaração convicta dos mencionados. E o problema está em ampliar esse episódio para um cenário muito maior e tratar aquela experiência como explicação predominante para quase três décadas de críticas dirigidas ao vocalista do Sepultura.

Derrick Green entrou no lugar de Max Cavalera

É impossível analisar a rejeição inicial a Derrick Green ignorando quem ele precisou substituir.

Max Cavalera não era apenas mais um integrante do Sepultura. Foi fundador, vocalista, guitarrista, compositor e principal rosto público da banda durante sua ascensão internacional. Em termos de projeção mundial dentro do Heavy Metal, poucos — se é que algum — músicos brasileiros alcançaram um nível de reconhecimento comparável ao de Max no auge do grupo.

Além disso, sua saída não aconteceu em uma transição amigável ou planejada. Max Cavalera deixou o Sepultura em 1996 depois de uma ruptura extremamente conturbada com Andreas Kisser, Paulo Jr. e seu próprio irmão, Igor Cavalera. A separação aconteceu justamente quando o grupo vivia seu maior período comercial e tinha acabado de lançar “Roots”.

Para uma enorme parcela do público, aquela ferida nunca cicatrizou completamente. Até hoje existem fãs que não aceitaram a saída de Max e sequer consideram legítima a continuidade do Sepultura sem sua presença. Outros respeitam a fase posterior, mas possuem preferência absoluta pelos discos antigos. Há ainda quem tenha acompanhado normalmente o trabalho com Derrick Green e considere alguns álbuns dessa etapa entre os melhores da carreira.

Todas essas posições podem existir sem qualquer relação com racismo.

A mudança de sonoridade começou antes de Derrick

Outro ponto frequentemente ignorado nessa discussão é que a transformação musical do Sepultura começou bem antes da chegada de Derrick Green.

Nos primeiros anos, trabalhos como “Morbid Visions”, “Schizophrenia”, “Beneath The Remains” e “Arise” consolidaram uma identidade muito mais agressiva, inicialmente próxima do Death Metal e depois profundamente ligada ao Thrash Metal. Essa sequência representa, para muitos fãs antigos, justamente a essência musical do grupo.

Entretanto, em “Chaos A.D.”, de 1993, a banda começou a modificar significativamente sua proposta. Os riffs ficaram mais cadenciados, grooves ganharam espaço e elementos brasileiros passaram a aparecer de maneira mais explícita. Três anos depois, “Roots” ampliou ainda mais essas experiências ao incorporar percussões, referências indígenas, afinações mais graves e estruturas muito distantes da abordagem de discos como “Arise”.

Portanto, parte do público já demonstrava resistência às mudanças de direção antes mesmo de Max Cavalera sair.

Após a entrada de Derrick, porém, o grupo não tentou retornar ao Thrash Metal clássico dos anos 1980 e início dos anos 1990. Pelo contrário. “Against”, lançado em 1998, aprofundou influências alternativas, elementos de Hardcore e outras experiências que já vinham sendo desenvolvidas anteriormente.

Para um fã que desejava ouvir novamente algo próximo de “Beneath The Remains”, “Arise” ou mesmo “Schizophrenia”, portanto, o novo cenário representava duas mudanças simultâneas: a perda de Max Cavalera e uma continuidade cada vez mais distante daquela sonoridade clássica.

Reprodução/Facebook

Derrick Green certamente enfrentou racismo

Isso não significa dizer que Derrick Green jamais sofreu racismo durante sua passagem pelo Sepultura. Seria irresponsável afirmar algo assim. O próprio vocalista já falou publicamente sobre situações de preconceito vivenciadas ao longo de sua trajetória. Também existem episódios concretos envolvendo ataques racistas dentro do próprio ambiente do Heavy Metal.

Portanto, dizer que Derrick sofreu preconceito nestes mais de 28 anos é perfeitamente plausível e respaldado por relatos do próprio músico. O ponto controverso está em outra afirmação: dizer de maneira generalizada que os fãs não gostam dele porque ele é preto.

Pode existir uma parcela de pessoas que pensa dessa forma? Evidentemente. Infelizmente, racistas existem em praticamente todos os ambientes da sociedade, incluindo o Rock e o Heavy Metal. Mas transformar essa parcela em explicação para a rejeição histórica sofrida por Derrick Green significa ignorar uma quantidade enorme de fatores musicais, históricos e emocionais que cercaram sua entrada no Sepultura.

A maioria das críticas sempre esteve ligada à música

Durante décadas, as críticas mais recorrentes direcionadas à fase Derrick Green passaram por questões bastante conhecidas: sua voz, seu estilo de interpretação, a ausência de Max Cavalera, o direcionamento musical adotado pela banda e a comparação inevitável entre os discos posteriores e os trabalhos clássicos.

Um fã pode simplesmente preferir a voz de Max ou considerar Derrick tecnicamente competente e, ainda assim, não gostar de seu timbre. Pode achar “Arise” extraordinário e não gostar de “Against”. É possível gostar de “Chaos A.D.”, rejeitar “Roots”, apreciar “Machine Messiah” e considerar “Quadra” um excelente disco. Nada disso, isoladamente, possui qualquer relação com a cor da pele de quem está cantando.

Os fãs mais antigos que cresceram ouvindo “Morbid Visions”, “Schizophrenia”, “Beneath The Remains” e “Arise” frequentemente demonstram um desejo muito simples: gostariam que o Sepultura tivesse continuado produzindo discos dentro daquela proposta musical. Se após 1996 a banda tivesse lançado um álbum com a agressividade, os riffs e a identidade daqueles trabalhos — fosse Derrick Green, Max Cavalera ou qualquer outro vocalista no microfone — é bastante provável que parte significativa da resistência tivesse sido menor.

E isso é uma discussão musical, não racial.

Reprodução/Facebook

Crítica artística não pode ser automaticamente tratada como preconceito

Transformar uma crítica musical em acusação generalizada de racismo não traduz a complexidade da realidade. Mais do que isso: esse tipo de discurso pode se tornar perigoso quando cria a impressão de que criticar determinado artista significa necessariamente atacar aquilo que ele representa socialmente. Não gostar da música produzida por Derrick Green não significa ser racista. Da mesma maneira, não gostar da música do Black Pantera não significa considerar irrelevante a luta antirracista defendida pela banda.

São assuntos perfeitamente separáveis.

Uma pessoa pode considerar a mensagem do Black Pantera importante e, simplesmente, não gostar de suas músicas. Outra pode amar o som do grupo e discordar de determinadas posições políticas expressadas por seus integrantes. Da mesma forma, alguém pode reconhecer que Derrick Green enfrentou preconceito, respeitar sua história, admirar sua longevidade no Sepultura e ainda preferir artisticamente Max Cavalera.

Não existe contradição alguma nisso.

Ninguém precisa gostar de um artista por obrigação

Nenhum artista deve ser automaticamente exaltado em função de sua origem, cor de pele, nacionalidade, gênero, orientação política ou qualquer outra característica pessoal. O reconhecimento artístico precisa começar por aquilo que o músico produz. Quando falamos de uma banda, o primeiro ponto de contato continua sendo a música: as composições, os riffs, os vocais, a bateria, as letras, a produção e aquilo que aquele trabalho desperta em quem está ouvindo. Todos os demais elementos podem enriquecer a experiência e oferecer contexto, mas surgem posteriormente.

Por isso, reconhecer a existência de racismo dentro do Heavy Metal não exige transformar toda crítica direcionada a um músico negro em preconceito. Da mesma maneira, combater generalizações não significa negar os episódios reais enfrentados por Derrick Green. O racismo deve ser apontado, denunciado e combatido quando existe. Mas crítica musical precisa continuar sendo tratada como crítica musical.

No final das contas, ninguém é obrigado a gostar de Derrick Green, Max Cavalera, Sepultura, Black Pantera ou qualquer outro artista. O público sempre terá o direito de decidir o que deseja ouvir, elogiar ou criticar.

E, quando o assunto é música, o primeiro critério continua sendo justamente esse: a música.

Photo: Wagner Meier, Getty Images
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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