João Gordo explica o que significa ser punk aos 62 anos: “Para mim, ser punk é ser antifascista. Essa é a minha bandeira principal”

João Gordo é um dos músicos mais autênticos da cena underground brasileira e, goste dele ou não, sua influência pode ser sentida em diversas bandas e artistas, inclusive fora do Punk e do Hardcore. À frente do Ratos de Porão há décadas, o vocalista construiu uma trajetória que extrapolou os limites da música e, principalmente durante sua passagem pela MTV, transformou-se também em uma figura conhecida pelo grande público.
Gordo nunca teve papas na língua. Ao longo da carreira, acumulou declarações controversas, brigas, histórias envolvendo excessos e posicionamentos políticos defendidos de maneira bastante enfática. Aos 62 anos, algumas coisas mudaram, enquanto outras parecem permanecer exatamente no mesmo lugar. Em nova entrevista ao VIVA Notícias, o músico falou sobre sua relação com o Punk, a estreia tardia do Ratos de Porão no Rock in Rio, os tempos de televisão, sua passagem frustrada pela Record, a decisão de abandonar antigos excessos e os cuidados que precisa manter atualmente.
“Para mim, ser punk é ser antifascista”
Décadas depois de conhecer o Punk, Gordo não enxerga sua relação com o movimento simplesmente como uma preferência musical. Questionado sobre o que significa ser punk aos 62 anos, explicou que a escolha feita ainda na adolescência acabou se tornando parte permanente de sua vida.
“É um estilo de vida, né? Aquele que eu escolhi e desde os 13 anos eu tô nessa. Então, teve altos e baixos, teve uns caminhos que eu segui aí na minha vida, mas eu tô marcado por isso o resto da minha vida. Não tem como sair disso, cara.”
Na sequência, o vocalista apontou aquilo que considera a principal bandeira dessa identidade:
“E para mim ser punk é ser antifascista. Essa é a minha bandeira principal: o antifascismo. Aí isso engloba um monte de coisas, um monte de ideologia, estilo de vida, né? Onde toca e onde não toca, saca? O que faz e o que não faz. Então tem essa ideologia que a gente segue à risca.”
A postura política nunca ficou separada da trajetória de João Gordo e frequentemente também o colocou no centro de discussões que ultrapassam a música. Para ele, entretanto, essa associação permanece diretamente ligada à maneira como entende o próprio Punk.

Ratos de Porão nunca fez parte do Rock nacional, segundo João Gordo
Outro assunto abordado foi a estreia do Ratos de Porão no Rock in Rio. Apesar de existir há mais de quatro décadas, a banda precisou esperar até 2026 para finalmente participar do festival.
Gordo acredita que a demora possui uma explicação simples: o grupo nunca pertenceu ao circuito convencional do Rock brasileiro.
“Primeiro é que o Ratos de Porão nunca fez parte do Rock nacional. Tava sempre ali outsider total. Então, onde tinha Raimundos, Pitty, Planet Hemp, Charlie Brown, ali não era lugar pro Ratos de Porão. A gente é do underground, né?”
Na avaliação do vocalista, o reconhecimento demorou a acontecer até mesmo dentro do próprio país, enquanto a banda construiu paralelamente uma extensa trajetória internacional.
“Até pra gente tocar por reconhecimento demorou bastante. Acho que o reconhecimento veio mais porque a gente toca em tudo quanto é festival no mundo inteiro, então por que não vai tocar no Rock in Rio, entendeu? Então, acho que teve esse reconhecimento aí, embora que tardio, e rolou.”
A observação ajuda a explicar uma peculiaridade da história do Ratos de Porão. O grupo conseguiu tornar seu nome conhecido internacionalmente dentro do Punk, Hardcore e Crossover, mas nunca seguiu exatamente o caminho de bandas brasileiras que atravessaram o underground para ocupar espaços permanentes no mainstream nacional.
MTV transformou João Gordo em figura popular sem exigir mudança de comportamento
Se o Ratos de Porão permaneceu durante décadas ligado ao underground, seu vocalista viveu uma experiência bastante diferente individualmente.
A entrada na MTV Brasil colocou Gordo diante de uma audiência muito maior e ajudou a transformá-lo em uma figura pop. O curioso, segundo ele, é que essa popularidade não surgiu de uma tentativa de adaptar seu comportamento para a televisão.
“Eu não tive que mudar nada, né? Eu sempre fui o mesmo louco e drogado, tá ligado? Aquela época, louco demais.”
Justamente aquilo que poderia parecer incompatível com a televisão acabou funcionando diante das câmeras.
“E aquilo ali, como me jogaram ali na televisão e o pessoal meio que abraçou esse estilo que eu tinha, né, gordão maluco ao vivo de tarde falando um monte de groselha, o pessoal abraçou.”
Durante sua passagem pela emissora, Gordo comandou programas e entrevistas que frequentemente se apoiavam nessa personalidade imprevisível. A televisão ampliou enormemente sua exposição sem necessariamente produzir o mesmo efeito sobre o Ratos de Porão, que continuou mantendo sua identidade no circuito pesado.

A ida para a Record: “Todo mundo foi meio com uma ilusão”
Se a experiência na MTV Brasil marcou positivamente sua trajetória, Gordo guarda uma lembrança bastante diferente de sua passagem pela Record.
A contratação gerou controvérsia na época devido às críticas que o músico já havia feito às igrejas e à religião. Entretanto, segundo ele, a mudança aconteceu em um momento no qual sentia que perdia espaço na antiga emissora.
“Lá na MTV eles tavam puxando meu tapete. Foi bem a época do stand-up. Tinha aquele monte de humorista. E a gente ali que era a cara da MTV tava ficando meio de lado.”
Foi então que Marcos Mion apresentou uma proposta para levá-lo à Record.
“Apareceu o Marcos Mion, com uma proposta gigantesca e falou: ‘Meu, vai ser muito legal’. E eu fui parar lá. Só que não foi legal.”
Gordo conta que percebeu rapidamente que a liberdade imaginada antes da mudança não existiria na prática.
“Acho que a primeira matéria polêmica que eu fiz eles censuraram. Aí eu vi onde eu tava, né?”
Segundo o vocalista, a expectativa era produzir algo diferente dos programas humorísticos que dominavam parte da televisão naquele período. A realidade, porém, ficou distante da promessa inicial.
“Então toda aquela promessa do Mion, ‘ah, vai ser melhor. Ah, vai ser mais legal que o CQC, vai ser mais inteligente que o Pânico, vai ser mais isso e aquilo’. Não foi nada disso. Eu e a galera do Hermes e Renato, a gente tava lá chorando, cara. Todo mundo foi meio com uma ilusão que ia ser legal e não foi.”
“Se eu não me ligar, eu vou morrer logo”
Boa parte da história de João Gordo também ficou marcada pelos excessos. Drogas, álcool e uma rotina pouco preocupada com a própria saúde apareceram repetidamente nos relatos do músico ao longo das décadas.
A chegada aos 60 anos, entretanto, provocou uma mudança de perspectiva.
“Cara, eu entrei na terceira idade com o pé na porta, né? E aí eu percebi: ‘Mas se eu não me ligar, eu vou morrer logo, cara’. Com 64, você vê todo mundo caindo à minha volta, com 63, 64, 65, tô com 62.”
A resposta foi abandonar o álcool e tentar controlar comportamentos que anteriormente faziam parte de sua rotina.
“Falei: ‘Vou ter que tomar jeito, cara’. Aí eu parei de beber e, parando de beber, parou todos os excessos.”
Gordo não tenta, porém, construir uma narrativa perfeita sobre esse processo. O vocalista reconhece que houve recaídas e explica que permanecer longe dos excessos se torna ainda mais complicado por causa do ambiente em que trabalha.
“Lógico que eu tive recaída, lógico que eu tive, né, meu? Mas para mim, como eu tava te falando, se você quer sair tem que parar com todos os excessos, tem que sair do meio.”
E imediatamente surge o problema:
“Mas e quando você é o meio? E quando você tem que viajar onde só tem loucura, você chega lá no lugar, só tem nego doido, tipo, oferecendo mundos e fundos. Tem que ter uma força de vontade do caralho.”
Hoje, ele afirma conseguir conviver com essa realidade sem retornar ao comportamento anterior.
“E eu consigo, né? Consigo. E, assim, é a melhor fase da minha vida. Porque tá tudo controlado, os exames, né?”

Vegano? “Eu sou vegano de Doritos com Coca-Cola”
A alimentação também apareceu na conversa. Embora frequentemente seja identificado como vegano, Gordo esclareceu que atualmente é vegetariano.
Ele conta que manteve o veganismo durante aproximadamente quatro anos, mas acabou abandonando a dieta porque não conseguia se alimentar corretamente.
“Eu fico muito doente, fico com muita dor. Então, eu não posso ser vegano porque eu como tudo errado.”
Como costuma acontecer quando Gordo fala sobre assuntos mais sérios, a explicação terminou em uma autocrítica bem-humorada:
“Eu sou vegano de Doritos com Coca-Cola, tá ligado? Eu fico fraco.”
Assim, em vez de insistir em uma alimentação que não estava funcionando para seu organismo e para seus hábitos, decidiu retornar ao vegetarianismo.
João Gordo diz que precisa cuidar da cabeça
A preocupação atual não termina nos exames físicos. Depois de décadas convivendo com viagens, televisão, música, excessos e uma rotina constantemente movimentada, Gordo reconhece que também precisa cuidar da saúde mental.
“Eu preciso de um psicólogo para conversar. É muita doideira.”
Como exemplo, citou uma sequência recente de 15 shows em 17 dias. O problema, segundo ele, não está somente no desgaste da estrada, mas também na dificuldade de desacelerar quando finalmente volta para casa.
“A minha cabeça não dá conta de registrar tudo que acontece. Aí acabou, de repente eu já tô aqui em casa, tem problemas familiares e, nossa, é muito difícil o retorno, cara.”
Até recuperar uma rotina normal exige algum tempo.
“Pra você pegar a rotina que você tinha antes demora uns quatro dias.”
Aos 62 anos, portanto, João Gordo continua lidando com uma contradição que aparece em boa parte de sua história: escolheu ainda adolescente um estilo de vida do qual diz não conseguir — e nem querer — escapar, mas precisou aprender a abandonar alguns dos comportamentos que durante muito tempo vieram junto com ele.
