Tecladista do Journey chama Bruce Springsteen de “velho amargo” e manda músico se calar sobre política

A polarização política avança em diferentes partes do mundo, mas poucos países sentiram esse acirramento de maneira tão intensa quanto os Estados Unidos. Desde a primeira eleição de Donald Trump, passando pelo governo de Joe Biden e chegando ao retorno do republicano à presidência, o debate público norte-americano mergulhou em uma disputa ideológica permanente. Naturalmente, esse ambiente também alcançou artistas do Rock e do Heavy Metal. Enquanto alguns preferem guardar suas opiniões, outros fazem questão de transformar palcos, entrevistas e redes sociais em espaços de militância. Em determinados casos, surge até uma cobrança para que terceiros também se manifestem, postura frequentemente adotada por Tom Morello.

O problema começa quando a fama artística passa a ser confundida com autoridade intelectual. Músicos entendem de política tanto quanto qualquer pessoa comum: alguns estudam o tema, mas a maioria não domina seus mecanismos, não apresenta aprofundamento teórico e apenas repete palavras de ordem alinhadas ao próprio campo ideológico. O resultado costuma envolver argumentos superficiais, indignações seletivas, narrativas pobres e defesas apaixonadas. Independentemente de o público concordar ou não com seu artista favorito, músicos falando sobre música normalmente demonstram muito mais conhecimento. Quando entram na política, seja pela esquerda ou pela direita, frequentemente oferecem pouco além de convicções pessoais tratadas como verdades incontestáveis.

Jonathan Cain manda Bruce Springsteen “fazer sua arte”

Em entrevista à The Complete Disaster Network, o tecladista do Journey, Jonathan Cain, falou sobre artistas que expõem publicamente suas posições políticas. Conservador declarado e marido de Paula White-Cain, conselheira de Donald Trump no White House Faith Office, o músico afirmou que já foi democrata, mas abandonou o partido após o governo de Barack Obama. Em seguida, atacou diretamente Bruce Springsteen e o ator Robert De Niro: “Caras como Bruce Springsteen deveriam se calar. Honestamente, cale a boca, Bruce. Quem é o outro? Robert De Niro. Quero dizer, quem se importa, pessoal? Sério? Façam sua arte.”

Cain argumentou que procura afastar a política das apresentações do Journey, embora esteja lançando a canção patriótica The Winds Of Freedom: A Salute To America e mantenha proximidade com Kid Rock, outro conhecido apoiador de Trump. Segundo o tecladista, artistas deveriam buscar a união do público. Como exemplo, citou Paul McCartney, lembrando que democratas e republicanos cantam juntos Hey Jude.

“Sinto o mesmo com o Journey. Temos pessoas de diferentes partidos na plateia e todas estão cantando Don’t Stop Believin’”, afirmou. Apesar desse discurso conciliador, ele voltou a atacar Springsteen: “Eu costumava gostar dele, mas agora ele é irritante. É um velho irritante e amargo. Pare com isso. Você nasceu nos Estados Unidos, não nasceu, cara? Então aja como tal.”

Born In The USA e a disputa em torno de Donald Trump

A crítica também alcançou Born In The USA, faixa que Cain classificou como uma espécie de ataque ao próprio país. Entretanto, Springsteen sempre descreveu a composição como uma música de protesto. Em sua autobiografia Born To Run, publicada em 2016, o cantor explicou que a letra retrata um homem enviado à Guerra do Vietnã, traumatizado pela experiência e abandonado pelo governo depois de retornar para casa. A disputa ganhou ainda mais força após Springsteen chamar Trump de “traidor” e acusá-lo de perseguir cidadãos que exerciam o direito à liberdade de expressão. Posteriormente, o músico também classificou o presidente como “idiota”, embora tenha relacionado a ascensão do republicano à desindustrialização dos Estados Unidos e ao crescimento da desigualdade econômica.

Donald Trump, por sua vez, respondeu com ataques pessoais, chamou Springsteen de “cantor ruim e muito entediante” e incentivou um boicote aos seus shows. Agora, Jonathan Cain entra na mesma disputa dizendo que celebridades deveriam evitar discursos políticos, ao mesmo tempo em que lança uma música patriótica, declara apoio ao presidente e encerra sua entrevista afirmando que permanecerá ao lado de sua bandeira, dos Estados Unidos e de Jesus Cristo. No fim das contas, tanto os ataques de Cain quanto as declarações de Springsteen reproduzem o cenário que domina o debate político norte-americano: acusações, provocações e certezas absolutas. Apenas defesa apaixonada do próprio ponto de vista, nenhum aprofundamento ou reflexão importante.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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