Sammy Hagar diz que Van Halen evitava tocar antes ou depois do AC/DC: “Você estava encrencado”

Sammy Hagar guarda uma lembrança bastante clara do impacto causado pelo AC/DC na época de Bon Scott: para ele, colocar a banda australiana como atração de abertura era praticamente condenar o artista principal a uma noite complicada.

Em uma nova entrevista publicada pelo canal oficial de Bon Scott, o ex-vocalista do Van Halen relembrou a primeira vez que viu o AC/DC ao vivo, falou sobre a presença de palco de Angus Young, explicou por que sua antiga banda evitava dividir festivais com os australianos e classificou “Highway To Hell” como uma obra-prima do Rock.

Hagar já conhecia o AC/DC antes de assistir à banda ao vivo. A música que despertou sua atenção foi “Problem Child”.

“Eu simplesmente amei aquela música. Achei muito legal, muito agressiva, e a maneira como ele cantava… Virei fã do AC/DC imediatamente.”

Algum tempo depois, surgiu a oportunidade de assistir ao grupo abrindo uma apresentação solo de Ronnie Montrose, antigo companheiro de Sammy no Montrose.

Foi aí que ele percebeu o tamanho do problema.

Segundo Hagar, Angus Young subiu nas costas de Bon Scott e atravessou a plateia durante a apresentação. A reação do público foi tão forte que Sammy começou a se preocupar com o que aconteceria quando Ronnie tivesse de entrar no palco.

“Eles simplesmente destruíram tudo para o Ronnie.”

Hagar conta que chegou a oferecer ajuda ao antigo parceiro:

“Eu disse: ‘Ronnie, você quer que eu apareça e cante ‘Bad Motor Scooter’ ou ‘Rock Candy’ com você? Porque, cara, você vai ter dificuldades’.”

Segundo Sammy, suas previsões se confirmaram.

“Foi horrível. Eu tive que ir embora no meio do show dele. Foi constrangedor.”

Van Halen preferia não correr o risco

Existe apenas um detalhe histórico a corrigir no relato. Durante a entrevista, Hagar calcula que o episódio teria ocorrido em 1975 ou 1976 e sugere que aquela seria uma das primeiras visitas do AC/DC aos Estados Unidos.

Os registros da turnê, porém, situam a apresentação em 16 de julho de 1978, no San Jose Convention Center, na Califórnia, com o AC/DC abrindo justamente para Ronnie Montrose. Cerca de 2.800 pessoas teriam acompanhado o concerto.

Ou seja, a lembrança do que aconteceu naquela noite permanece bastante específica, mas Sammy deslocou o episódio alguns anos para trás ao tentar reconstruí-lo de memória.

O impacto daquela apresentação aparentemente ficou com Hagar durante muito tempo.

Anos depois, quando já fazia parte do Van Halen, surgiram oportunidades para que as duas bandas participassem dos mesmos festivais. A resposta do grupo de Sammy era simples: melhor evitar.

“Sempre dizíamos: ‘Não, não, não. Nem queremos estar num show com o AC/DC. Eu pago dinheiro para assistir ao AC/DC, mas não queremos tocar antes deles. Não queremos tocar depois deles’.”

Hagar resumiu a reputação conquistada pelos australianos nos anos 1970:

“Sempre que eles abriam para alguém, você estava encrencado”

A preocupação não era exatamente exagerada. Durante aquela fase, o AC/DC passou boa parte de suas excursões internacionais atuando como banda de abertura para artistas maiores. Acontece que sua intensidade no palco frequentemente transformava os australianos em uma das atrações mais comentadas das noites.

Bon Scott cantava sempre no limite

Hagar também destacou aquilo que mais o impressionava em Bon Scott como vocalista. Para Sammy, parte do encanto estava justamente na impressão de que Bon cantava permanentemente no limite da própria voz.

“Ele estava sempre no limite de a voz quebrar. Parecia que bastava mais um passo e ele perderia tudo.”

O vocalista comparou isso a um piloto conduzindo um carro de corrida no limite da aderência em cada curva.

“É assim que você vence uma corrida. Eu gostava muito disso nele.”

Hagar também reconheceu os méritos de Brian Johnson, utilizando a própria história no Van Halen como comparação.

Assim como Brian precisou ocupar o lugar de Bon Scott, Sammy teve de entrar numa banda que já possuía uma identidade profundamente associada ao vocalista anterior, David Lee Roth.

“Brian foi ótimo. Ele conseguiu fazer funcionar, da mesma maneira que eu consegui fazer funcionar no Van Halen.”

Ainda assim, para Hagar, existe algo particularmente especial naquela primeira era do AC/DC.

“Aquele material antigo é simplesmente foda. É implacável. Bon está ali gritando até os pulmões saírem. Aquilo é Rock and Roll.”

“Highway To Hell” é uma obra-prima

Quando chegou o momento de apontar seu álbum preferido, Sammy não hesitou: “Highway To Hell”, lançado em 1979 e último disco de estúdio do AC/DC com Bon Scott.

“Você precisa dizer que foi o melhor disco deles. Não importa quem você seja, precisa reconhecer que aquilo é uma obra-prima do Rock and Roll.”

E Hagar foi ainda mais longe ao falar da faixa-título:

“‘Highway To Hell’… simplesmente não existe música de Rock and Roll melhor no planeta.”

Para alguém que passou décadas dividindo palcos com alguns dos maiores nomes do gênero, o elogio possui um peso considerável.

Mas talvez a maior demonstração de respeito esteja naquela decisão tomada muitos anos antes: Sammy Hagar adorava assistir ao AC/DC — só não queria ser a banda que precisaria subir ao palco antes ou depois deles.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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