Do pior ao melhor: AC/DC

Poucas bandas conseguiram atravessar cinco décadas de carreira mantendo uma identidade tão forte quanto o AC/DC. Enquanto o mundo do Rock assistiu ao surgimento e desaparecimento de inúmeros movimentos, modismos e tendências, os australianos permaneceram praticamente inabaláveis. O segredo nunca esteve na reinvenção, mas justamente no contrário: aperfeiçoar uma fórmula que parecia simples, mas que poucos conseguiram reproduzir com a mesma eficiência.

Riffs marcantes, refrões feitos para multidões, uma cozinha extremamente sólida e uma química rara entre Angus Young, Malcolm Young, Phil Rudd, Cliff Williams, Bon Scott e, posteriormente, Brian Johnson, transformaram o AC/DC em uma das bandas mais importantes da história do Hard Rock. Ao longo do caminho, alguns discos se tornaram verdadeiros monumentos da música, enquanto outros acabaram ofuscados pelo peso de seus antecessores. Dentro dessa mesma discografia, ainda tivemos discos que simplesmente demoraram anos para receber o reconhecimento que mereciam.

Naturalmente, uma trajetória tão extensa também apresenta momentos mais inspirados do que outros. Pensando nisso, resolvemos aceitar o desafio de colocar todos os 16 álbuns de estúdio internacionais do AC/DC em ordem de qualidade. Como toda lista desse tipo, ela é totalmente opinativa e certamente renderá debates entre os fãs.

O programa “Do Pior ao Melhor” analisou toda a discografia do AC/DC

Antes de entrar no ranking propriamente dito, vale destacar que o canal do Mundo Metal no YouTube promoveu, na última quinta-feira, 25 de junho, uma edição especial do quadro “Do Pior ao Melhor”, dedicada exclusivamente à discografia do AC/DC.

Apresentado pelos âncoras Fabio Reis e Daniel Dante, o programa percorreu toda a trajetória da banda, analisando cada um dos seus álbuns de estúdio, desde os primeiros passos com Bon Scott até a fase mais recente com Brian Johnson. Ao longo da transmissão, a dupla discutiu curiosidades sobre as gravações, mudanças de formação, bastidores, desempenho comercial, turnês e a importância de cada trabalho dentro da história de uma das maiores bandas de Rock de todos os tempos.

Como acontece em toda edição do quadro, o ranking gerou muita discussão entre os espectadores. Afinal, montar uma lista envolvendo uma discografia tão consistente quanto a do AC/DC é uma tarefa praticamente impossível sem provocar divergências. Muitos fãs concordaram com as escolhas, outros defenderam posições diferentes para determinados discos, mas uma coisa ficou clara: a qualidade da obra da banda torna qualquer classificação um enorme desafio.

Se você ainda não assistiu ao programa, vale a pena reservar um tempo.


16. Blow Up Your Video (1988)

Depois de uma sequência de discos que dividiram opiniões durante a década de 1980, Blow Up Your Video representou uma pequena recuperação comercial para o AC/DC, mas dificilmente pode ser colocado entre os grandes momentos da carreira da banda. Produzido novamente por Harry Vanda e George Young, o álbum trouxe um som mais direto e menos carregado do que Fly on the Wall, mas ainda sem o brilho criativo que marcou os trabalhos da década anterior.

Faixas como “Heatseeker”, “That’s the Way I Wanna Rock ‘n’ Roll” e “Meanstreak” mostram que o grupo ainda sabia construir bons riffs, porém poucas músicas alcançaram o status de clássicos permanentes do repertório. Além disso, foi durante a turnê desse disco que Malcolm Young precisou se afastar temporariamente para tratar problemas relacionados ao alcoolismo, sendo substituído pelo sobrinho Stevie Young.

Mesmo tendo alcançado resultados comerciais melhores que seu antecessor, Blow Up Your Video ocupa a última posição do nosso ranking por soar irregular, assim como pouco inspirado quando comparado ao restante da discografia do AC/DC. Está longe de ser um álbum ruim, mas também não apresenta elementos suficientes para competir com os trabalhos que viriam a seguir.

15. Flick Of The Switch (1983)

Se existe um disco injustiçado na carreira do AC/DC, provavelmente é Flick of the Switch. Lançado logo após dois gigantes como Back in Black e For Those About to Rock (We Salute You), o álbum acabou sendo recebido com certa frieza pelo público. No entanto, o tempo tratou de mudar essa percepção, e hoje muitos fãs enxergam nele um dos trabalhos mais autênticos da fase Brian Johnson.

Foi também um período turbulento para a banda. Durante as gravações, Phil Rudd deixou o grupo após uma série de desentendimentos com Malcolm Young, abrindo espaço para a chegada de Simon Wright. Ao mesmo tempo, os irmãos Young decidiram produzir o álbum sem ajuda externa, buscando recuperar a sonoridade crua e direta dos primeiros discos gravados com Bon Scott.

Embora músicas como “Nervous Shakedown”, “Guns for Hire” e a faixa-título tragam riffs excelentes e uma pegada bastante agressiva, falta ao álbum aquele grande clássico capaz de colocá-lo entre os melhores da banda. Ainda assim, é um disco que envelheceu muito melhor do que sua reputação inicial fazia imaginar.

14. Stiff Upper Lip (2000)

Depois do ótimo Ballbreaker, o AC/DC optou por seguir ainda mais profundamente suas raízes blueseiras em Stiff Upper Lip. Produzido por George Young, irmão de Angus e Malcolm, o álbum abandonou qualquer preocupação com tendências do mercado e apresentou uma banda confortável em sua própria identidade.

A faixa-título tornou-se o principal destaque do disco e permanece relativamente presente nas coletâneas da banda. Outras músicas, como “Satellite Blues”, “Safe in New York City” e “Meltdown”, reforçam a influência do Blues que sempre esteve presente na carreira do grupo, embora sem a mesma força de trabalhos anteriores.

O maior problema de Stiff Upper Lip talvez seja justamente sua excessiva segurança. O disco dificilmente decepciona, mas também raramente surpreende. Em uma discografia tão rica quanto a do AC/DC, isso acaba pesando na comparação com os álbuns que aparecem mais acima.

13. Fly On The Wall (1985)

Poucos discos do AC/DC dividiram tanto a opinião dos fãs quanto Fly on the Wall. Musicalmente, o álbum possui qualidades evidentes: riffs pesados, boas composições e um Brian Johnson bastante agressivo. O grande problema sempre esteve na produção, frequentemente criticada por deixar os vocais excessivamente abafados, bem como comprometer o impacto das músicas.

Mesmo assim, faixas como “Fly on the Wall”, “Shake Your Foundations”, “Sink the Pink” e “Danger” mostram uma banda ainda bastante inspirada. O disco também marcou a estreia dos irmãos Angus e Malcolm Young como produtores exclusivos do grupo, após o encerramento da parceria com Mutt Lange.

Com o passar dos anos, Fly on the Wall ganhou muitos defensores justamente por seu peso e sua atmosfera mais crua. Ainda assim, a produção continua sendo um obstáculo difícil de ignorar, impedindo que um repertório bastante sólido alcance todo o seu potencial.

12. Rock Or Bust (2014)

Poucos discos do AC/DC carregam um peso emocional tão grande quanto Rock or Bust. Lançado em 2014, ele marcou a primeira vez que a banda entrou em estúdio sem Malcolm Young, afastado em razão da doença que o obrigaria a abandonar definitivamente a carreira. Por certo, durante décadas, Malcolm foi o principal arquiteto do som do grupo, responsável por boa parte dos riffs compostos ao lado do irmão Angus. Sua ausência levantou uma pergunta inevitável: seria possível existir AC/DC sem Malcolm?

A resposta veio através de um álbum surpreendentemente consistente. O posto de guitarrista base foi assumido por Stevie Young, sobrinho dos irmãos Young, que já havia substituído Malcolm temporariamente durante a turnê de Blow Up Your Video. Produzido novamente por Brendan O’Brien, Rock or Bust apostou em músicas curtas, diretas e extremamente fiéis à identidade da banda. Faixas como “Rock or Bust”, “Play Ball”, “Baptism by Fire” e “Rock the Blues Away” mostram um grupo determinado a seguir em frente sem perder sua essência.

O disco alcançou o 3º lugar na Billboard 200, liderou as paradas em diversos países e vendeu cerca de 3 milhões de cópias em um mercado já dominado pelo streaming. A turnê, entretanto, foi marcada por dificuldades: Phil Rudd acabou afastado por problemas judiciais e Brian Johnson precisou interromper as apresentações após ser diagnosticado com um sério problema de audição, sendo substituído temporariamente por Axl Rose.

11. Power Up (2020)

Se Rock or Bust provou que o AC/DC podia continuar sem Malcolm Young, Power Up mostrou que o espírito do guitarrista permanecia vivo dentro da banda. Lançado em 2020, o álbum marcou o retorno de Brian Johnson, Phil Rudd e Cliff Williams, reunindo novamente quase toda a formação clássica. Portanto, mais do que um simples disco de inéditas, ele funciona como uma emocionante homenagem ao legado deixado por Malcolm.

A saber, todas as composições nasceram de riffs desenvolvidos ao longo dos anos por Angus e Malcolm Young, preservando a assinatura criativa da dupla. Produzido novamente por Brendan O’Brien, o álbum apresentou músicas como “Shot in the Dark”, “Realize”, “Demon Fire” e “Through the Mists of Time”, esta última acompanhada de um videoclipe que emocionou os fãs ao celebrar toda a trajetória do grupo.

Mesmo lançado durante a pandemia, Power Up tornou-se um enorme sucesso. Apesar disso, o álbum alcançou o primeiro lugar em mais de vinte países e confirmou que o AC/DC ainda era capaz de mobilizar milhões de pessoas em todo o planeta. Poucas bandas veteranas conseguiram lançar um trabalho tão forte após mais de quatro décadas de carreira.

10. Black Ice (2008)

Depois de oito anos sem gravar um álbum de inéditas, muitos acreditavam que o AC/DC caminhava silenciosamente para a aposentadoria. Em vez disso, a banda voltou com um dos maiores sucessos de sua carreira recente. Black Ice mostrou que o grupo continuava absolutamente relevante em uma indústria musical completamente diferente daquela que o consagrou.

Produzido por Brendan O’Brien, o disco apresentou um repertório bastante variado, reunindo quinze faixas que passeiam pelo Hard Rock clássico, pelo Blues e pelo Rock de arena. Músicas como “Rock ‘n’ Roll Train”, “Big Jack”, “War Machine”, “Anything Goes” e a faixa-título rapidamente conquistaram espaço entre os fãs, enquanto War Machine ainda renderia à banda um Grammy de Melhor Performance de Hard Rock.

Os números impressionam até hoje. Black Ice estreou em primeiro lugar em 29 países, liderou a Billboard 200, vendeu cerca de 8 milhões de cópias e deu origem à Black Ice World Tour, uma das turnês mais lucrativas da história do Rock, reunindo aproximadamente cinco milhões de espectadores ao redor do mundo.

9. Ballbreaker (1995)

Em meados da década de 1990, o Hard Rock parecia perder espaço para o Grunge e para o Rock Alternativo. Enquanto diversas bandas tentavam adaptar sua sonoridade às novas tendências, o AC/DC fez exatamente o contrário. Com Ballbreaker, o grupo decidiu olhar para trás e recuperar o peso, isto é, o groove e a simplicidade que haviam marcado seus discos da década de 1970.

O álbum marcou o retorno do baterista Phil Rudd, ausente desde For Those About to Rock (We Salute You), além de trazer o renomado produtor Rick Rubin. Embora o relacionamento entre Rubin e a banda tenha sido marcado por divergências durante as gravações, o resultado final impressiona pela sonoridade seca e orgânica. Faixas como “Hard as a Rock”, “Hail Caesar”, “Boogie Man”, “Ballbreaker” e “Cover You in Oil” mostram um AC/DC extremamente confortável em suas raízes blueseiras.

Com mais de 5 milhões de cópias vendidas e um 4º lugar na Billboard 200, Ballbreaker provou que a banda não precisava seguir modismos para continuar relevante. Pelo contrário, bastava soar como ela mesma.

8. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (1976)

Depois de chamar a atenção do público australiano com High Voltage e T.N.T., o AC/DC deu um passo importante rumo à consolidação de sua identidade com Dirty Deeds Done Dirt Cheap. Lançado originalmente em 1976, o álbum mostrou uma banda cada vez mais segura de sua proposta, equilibrando o peso dos riffs de Angus Young e Malcolm Young com o humor irreverente e as letras provocativas de Bon Scott.

Produzido novamente pela dupla Harry Vanda e George Young, o disco expandiu a sonoridade apresentada nos trabalhos anteriores sem abandonar a simplicidade que se tornaria uma das maiores marcas registradas do grupo. Em razão disso, faixas como “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “Problem Child”, “Squealer”, “Love at First Feel” e “Ride On” demonstram uma banda cada vez mais confortável alternando momentos de pura agressividade com composições carregadas de Blues.

Entre todas as músicas, “Ride On” merece um destaque especial. Trata-se de uma das interpretações mais emocionantes de Bon Scott, revelando um lado inegavelmente melancólico pouco explorado pelo vocalista. Já a faixa-título acabaria se transformando em um dos maiores clássicos da carreira do AC/DC, permanecendo presença constante nos shows durante décadas.

Curiosamente, o álbum só seria lançado oficialmente nos Estados Unidos em 1981, quando o sucesso de Back in Black despertou enorme interesse pelos trabalhos antigos da banda. Surpreendentemente, mesmo com cinco anos de atraso, Dirty Deeds Done Dirt Cheap alcançou o 3º lugar na Billboard 200 e vendeu milhões de cópias, provando que aquelas músicas haviam resistido perfeitamente ao tempo.

7. Powerage (1978)

Existe uma pergunta que divide fãs de AC/DC há muitos anos: qual é o disco mais subestimado da banda? Para muitos músicos, críticos especializados e admiradores de longa data, a resposta é quase automática: Powerage.

Lançado em 1978, o álbum marcou a estreia de Cliff Williams no baixo após a saída de Mark Evans, completando aquela que muitos consideram a formação clássica do grupo. Assim sendo, foi também um momento de enorme amadurecimento artístico. As composições ganharam mais groove, os riffs ficaram ainda mais refinados e Bon Scott entregou algumas das melhores letras de toda a sua carreira.

Embora não tenha obtido o mesmo sucesso comercial de discos como Highway to Hell ou Back in Black, Powerage conquistou um respeito enorme entre músicos. Keith Richards, dos Rolling Stones, Joe Perry, do Aerosmith, e Slash, do Guns N’ Roses, estão entre os artistas que já destacaram o álbum como um dos pontos altos da carreira do AC/DC. O próprio Angus Young também declarou em diversas entrevistas que este está entre seus discos favoritos da banda.

O repertório ajuda a explicar tanta admiração. “Rock ‘n’ Roll Damnation”, escrita após pressão da gravadora para que o grupo produzisse uma música mais radiofônica, tornou-se um sucesso imediato. Já “Down Payment Blues”, “Sin City”, “What’s Next to the Moon” e, principalmente, “Riff Raff” mostram um AC/DC extremamente inspirado, combinando peso, groove e letras mais elaboradas do que o habitual.

Com o passar dos anos, Powerage passou por um verdadeiro processo de redescoberta. O que inicialmente parecia apenas mais um bom álbum transformou-se em um dos trabalhos mais respeitados da discografia da banda, frequentemente citado entre os maiores discos de Hard Rock já gravados.

6. The Razors Edge (1990)

No fim da década de 1980, muita gente acreditava que o AC/DC já havia vivido seus melhores dias. Embora continuasse lotando arenas ao redor do mundo, a banda não lançava um grande sucesso comercial desde For Those About to Rock (We Salute You). Foi justamente nesse cenário que surgiu The Razors Edge, um álbum responsável sobretudo por recolocar o grupo definitivamente entre os gigantes do Rock mundial.

Produzido por Bruce Fairbairn, o disco apresentou uma sonoridade mais moderna, sem abrir mão da identidade construída ao longo dos anos. Outro elemento importante foi a presença do baterista Chris Slade, cuja pegada mais técnica deu ao álbum uma personalidade bastante distinta dentro da discografia do AC/DC.

Logo na abertura, o riff de “Thunderstruck” deixou claro que a banda ainda era capaz de criar clássicos instantâneos. A música tornou-se inegavelmente um dos maiores hinos da história do Rock e continua sendo presença obrigatória em praticamente todos os shows do grupo. O álbum ainda trouxe sucessos como “Moneytalks”, “Are You Ready”, “Fire Your Guns” e a pesada faixa-título.

O sucesso foi imediato. The Razors Edge alcançou o 2º lugar na Billboard 200, vendeu mais de 11 milhões de cópias em todo o mundo, bem como deu origem à gigantesca The Razors Edge Tour, registrada parcialmente no clássico álbum ao vivo AC/DC Live. A participação da banda no histórico Monsters of Rock, realizado em Moscou diante de um público estimado em mais de um milhão de pessoas, apenas reforçou que o AC/DC continuava sendo uma das maiores atrações do planeta.

5. For Those About To Rock (We Salute You) (1981)

Poucas bandas enfrentaram um desafio tão grande quanto o AC/DC em 1981. Afinal, como gravar um novo álbum depois de lançar Back in Black, um dos discos mais vendidos da história da música? Assim, em vez de tentar repetir a fórmula do antecessor, o grupo optou por seguir outro caminho. A aposta foi em um trabalho mais pesado, cadenciado e com forte influência dos grandes riffs de Malcolm e Angus Young.

Novamente produzido por Robert John “Mutt” Lange, o álbum mostrou uma banda certamente mais confiante com Brian Johnson nos vocais. Se em Back in Black ainda existia a inevitável comparação com Bon Scott, aqui Brian já demonstrava personalidade suficiente para ocupar seu espaço.

A faixa-título transformou-se imediatamente em um dos maiores hinos da carreira do AC/DC, eternizada pelos canhões que passaram a integrar o espetáculo da banda nos shows. O disco ainda apresentou músicas como “Let’s Get It Up”, “Put the Finger on You”, “Inject the Venom” e “Evil Walks”. Foi a consolidação de um repertório extremamente consistente.

Embora tenha vivido por muitos anos à sombra de Back in Black, For Those About to Rock (We Salute You) conquistou resultados impressionantes. O álbum alcançou o 1º lugar na Billboard 200, feito inédito na carreira do AC/DC, vendeu mais de 7 milhões de cópias e consolidou definitivamente a banda entre os maiores nomes do Hard Rock mundial.

4. Let There Be Rock (1977)

Se os primeiros trabalhos do AC/DC apresentaram ao mundo uma banda cheia de personalidade, foi com Let There Be Rock que os australianos provaram definitivamente que estavam destinados a ocupar um lugar entre os gigantes do Hard Rock. Lançado em 1977, o álbum elevou a agressividade, a velocidade e a confiança do grupo a um novo patamar, tornando-se um divisor de águas em sua carreira.

Naquele momento, o AC/DC já havia conquistado enorme popularidade na Austrália e começava a chamar atenção no Reino Unido. Ao mesmo tempo, o cenário do Rock passava por profundas transformações com a ascensão do Punk. Enquanto diversas bandas tentavam se adaptar às novas tendências, os irmãos Angus Young e Malcolm Young seguiram pelo caminho oposto: gravaram o disco mais pesado da carreira até então, reforçando ainda mais a identidade construída nos trabalhos anteriores.

Produzido novamente por Harry Vanda e George Young, o álbum marcou a despedida do baixista Mark Evans, substituído pouco depois por Cliff Williams. Musicalmente, é um verdadeiro desfile de clássicos. A faixa-título apresenta uma divertida releitura da criação do Rock em forma de paródia bíblica. Enquanto isso, “Whole Lotta Rosie”, inspirada em uma história real vivida por Bon Scott, transformou-se em um dos maiores hinos da banda. O repertório ainda inclui músicas como “Hell Ain’t a Bad Place to Be”, “Bad Boy Boogie”, “Overdose” e “Dog Eat Dog”, que ajudaram a consolidar a reputação do grupo como uma das atrações ao vivo mais explosivas da época.

Embora seu desempenho comercial tenha sido apenas moderado no lançamento, Let There Be Rock envelheceu de forma extraordinária. Hoje figura regularmente entre os maiores discos de Hard Rock já gravados e serviu de influência para incontáveis bandas surgidas nas décadas seguintes. O lendário filme-concerto Let There Be Rock: The Movie, gravado em Paris durante a turnê seguinte, eternizou a energia daquela formação. Além disso, o filme também ajudou a transformar o álbum em um verdadeiro objeto de culto entre os fãs.

3. High Voltage / T.N.T. (1975–1976)

Poucas bandas possuem uma história tão curiosa em seus primeiros lançamentos quanto o AC/DC. Dependendo do país em que o fã viveu, o início da carreira do grupo aconteceu de formas completamente diferentes. Na Austrália, a banda apresentou sua identidade através de dois discos distintos: High Voltage, lançado em fevereiro de 1975, e T.N.T., lançado no fim do mesmo ano. Já o restante do mundo conheceu o grupo por meio de High Voltage, uma compilação internacional lançada em 1976.

Por esse motivo, optamos por tratar esses álbuns como uma única posição em nosso ranking. Separados, contam apenas parte da história. Juntos, representam o verdadeiro nascimento do AC/DC como o mundo passou a conhecê-lo.

Foi nesse período que praticamente todos os elementos responsáveis por transformar a banda em uma das maiores da história apareceram pela primeira vez. Os riffs inconfundíveis de Angus Young e Malcolm Young, o groove preciso de Phil Rudd, o carisma irreverente de Bon Scott e uma coleção de músicas que permanecem essenciais até hoje. Clássicos como “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)”, “T.N.T.”, “High Voltage”, “The Jack”, “Live Wire” e “Rocker” estabeleceram uma identidade que poucas bandas conseguiram construir de maneira tão rápida.

Outro aspecto impressionante é a velocidade com que o AC/DC amadureceu artisticamente. Em pouco mais de um ano, o grupo saiu dos pubs australianos para iniciar sua expansão internacional. Primeiramente conquistando espaço na Europa e chamando a atenção da Atlantic Records, que apostaria alto na banda nos anos seguintes. O trabalho dos produtores Harry Vanda e George Young foi fundamental para capturar aquela energia crua e espontânea que ainda hoje impressiona.

Mais do que dois excelentes discos, High Voltage e T.N.T. representam a certidão de nascimento de uma das maiores instituições da história do Rock. Tudo aquilo que o AC/DC desenvolveria nas décadas seguintes já estava presente aqui, ainda em estado bruto, mas absolutamente reconhecível.

2. Highway To Hell (1979)

Em 1979, o AC/DC já era respeitado por músicos, críticos e fãs de Hard Rock, mas ainda faltava um elemento importante para que a banda alcançasse o estrelato mundial: um álbum capaz de romper definitivamente as barreiras do mercado norte-americano. Depois de uma sequência de excelentes trabalhos, a Atlantic Records decidiu apostar em um novo produtor, Robert John “Mutt” Lange. Sua visão transformaria completamente o futuro do grupo.

Ao contrário do que muitos imaginam, Mutt Lange não mudou a essência do AC/DC. Seu mérito foi lapidar uma sonoridade que já existia, valorizando os riffs dos irmãos Young, os refrões e backing vocals, sem retirar espontaneidade da banda. O resultado foi um disco extremamente equilibrado, pesado na medida certa e repleto de músicas que rapidamente se tornaram clássicos.

A faixa-título “Highway to Hell” tornou-se um dos maiores hinos da história do Rock, cercada por polêmicas envolvendo seu nome e acusações infundadas de satanismo, sempre negadas pela banda. O álbum ainda apresentou pérolas como “Girls Got Rhythm”, “Touch Too Much”, “Shot Down in Flames”, “If You Want Blood (You’ve Got It)” e “Night Prowler”, mostrando Bon Scott no auge de sua criatividade como vocalista e letrista.

O sucesso finalmente chegou. Highway to Hell transformou o AC/DC em um fenômeno internacional, alcançando excelentes posições nas paradas e abrindo definitivamente as portas do mercado norte-americano. Infelizmente, seria também o último álbum de estúdio gravado por Bon Scott, que morreria em 19 de fevereiro de 1980, poucos meses após o lançamento. Sem que ninguém pudesse imaginar, aquele disco encerrava um dos capítulos mais importantes da história da banda.

1. Back In Black (1980)

A história de Back in Black é uma das maiores histórias de superação já vividas por uma banda de Rock. Depois da morte de Bon Scott, praticamente ninguém acreditava que o AC/DC conseguiria seguir em frente. A perda de seu vocalista e principal letrista parecia representar o fim de uma trajetória que finalmente começava a alcançar o sucesso mundial.

Incentivados pela família de Bon, Angus Young e Malcolm Young decidiram continuar. A escolha de Brian Johnson, então vocalista da Geordie, causou surpresa, mas bastaram poucos ensaios para que a banda percebesse ter encontrado a pessoa certa. Sob a produção impecável de Mutt Lange, o grupo entrou no Compass Point Studios, nas Bahamas, determinado a prestar uma homenagem ao antigo companheiro da melhor maneira possível: fazendo música.

O resultado ultrapassou qualquer expectativa. “Hells Bells”, “Shoot to Thrill”, “Back in Black”, “You Shook Me All Night Long”, “Have a Drink on Me” e “Rock and Roll Ain’t Noise Pollution” formam uma sequência de clássicos que poucas bandas conseguiram igualar em toda a história da música. A capa completamente preta, adotada em sinal de luto por Bon Scott, tornou-se uma das imagens mais icônicas do Rock.

Os números ajudam a explicar a dimensão do fenômeno. Com mais de 50 milhões de cópias vendidas, Back in Black é o álbum de Hard Rock mais vendido de todos os tempos. Também é o segundo disco mais comercializado da história da música, atrás apenas de Thriller, de Michael Jackson. No entanto, seu verdadeiro legado vai muito além das estatísticas. O álbum mostrou que uma banda pode transformar uma tragédia pessoal em uma obra de arte capaz de atravessar gerações.

Quase meio século depois de seu lançamento, Back in Black continua sendo referência para músicos, produtores e fãs de Rock em todo o planeta. Mais do que o melhor disco da carreira do AC/DC, ele representa um dos momentos mais importantes da história da música popular.


Relembre as melhores músicas!

Montar um ranking da discografia do AC/DC talvez seja uma das tarefas mais difíceis para qualquer fã de Rock. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, a banda construiu um catálogo extremamente consistente. Dessa forma, atravessou mudanças de formação, transformações na indústria musical e diferentes gerações sem jamais perder sua identidade.

Talvez justamente por isso este seja um daqueles raros casos em que o último colocado não pode ser considerado um álbum ruim. Muito pelo contrário. Mesmo Blow Up Your Video, que ocupa a 16ª posição em nossa lista, possui excelentes músicas e momentos inspirados para justificar uma audição atenta. A diferença entre os discos do AC/DC está muito mais no nível de inspiração e na quantidade de clássicos do que propriamente na qualidade.

Pensando nisso, também preparamos uma playlist especial do AC/DC, reunindo músicas de toda a carreira da banda. Ela funciona tanto como uma excelente viagem no tempo para quem acompanha o grupo há décadas quanto como um verdadeiro guia para quem deseja conhecer melhor uma das discografias mais importantes da história do Rock. Da fase de Bon Scott aos grandes clássicos com Brian Johnson, a seleção percorre todos os momentos marcantes. Além disso, ela ajuda a entender por que o AC/DC continua sendo uma referência absoluta quando o assunto é Hard Rock.

Agora queremos saber a sua opinião. Você concorda com o nosso ranking? Qual álbum ficou alto ou baixo demais? Conte para a gente nos comentários e participe dessa discussão que, muito provavelmente, nunca terá uma resposta definitiva.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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