Rising: o álbum que ajudou a moldar o Heavy Metal moderno

Quando se fala nos discos mais importantes da história do Heavy Metal, alguns títulos aparecem de forma quase automática. Paranoid, do Black Sabbath, British Steel, do Judas Priest, The Number Of The Beast, do Iron Maiden e Ace Of Spades, do Motörhead costumam dominar esse tipo de debate. No entanto, existe um álbum que muitas vezes recebe menos atenção do grande público, mas cuja influência pode ser percebida em diversas vertentes do Metal surgidas nas décadas seguintes: Rising, segundo trabalho de estúdio do Rainbow, lançado em 17 de maio de 1976.

Embora não tenha sido o disco mais vendido de sua época, Rising se transformou em uma referência criativa para músicos de diferentes gerações. Sua combinação de riffs pesados, melodias grandiosas, elementos da música clássica, letras inspiradas em fantasia e performances instrumentais de altíssimo nível ajudou a estabelecer as bases do que mais tarde seria conhecido como Power Metal, além de exercer forte influência sobre o Metal Neoclássico, o Metal Sinfônico e até mesmo parte do Heavy Metal Tradicional que dominaria os anos 80.

O impacto foi tão grande que bandas como Helloween, Stratovarius, HammerFall e outras incorporaram características de músicas como “Stargazer” e “A Light In The Black”. Para historiadores do gênero, Rising representou a primeira demonstração desenvolvida de como o Heavy Metal poderia soar épico, cinematográfico e ao mesmo tempo extremamente pesado.

Mais impressionante ainda é o fato de que o álbum foi criado por uma formação que permaneceu unida por pouco tempo. A parceria entre Ritchie Blackmore e o vocalista Ronnie James Dio produziu apenas alguns discos de estúdio antes de seguir caminhos distintos. Ainda assim, o material registrado em Rising foi suficiente para garantir um lugar permanente entre as obras mais influentes já lançadas dentro do Rock.

Photo: Fin Costello/Redferns

Como nasceu o Rainbow

A história do Rainbow começou em um momento de enorme sucesso para o Deep Purple, mas também de crescente desgaste interno. Em meados da década de 1970, o guitarrista Ritchie Blackmore já demonstrava insatisfação com os rumos musicais adotados pela banda. Enquanto seus companheiros exploravam cada vez mais influências de blues, funk e soul, Blackmore desejava seguir por um caminho mais pesado. O guitarrista desejava trilhar uma estrada mais sombria e fortemente inspirado pela música clássica europeia.

Foi nesse período que surgiu a oportunidade de trabalhar com o vocalista Ronnie James Dio, então líder da banda Elf. Durante uma turnê nos EUA, Blackmore teve contato com o grupo e ficou impressionado pela potência vocal de Dio e pela qualidade de suas letras. Nelas, Dio frequentemente abordavam temas ligados à fantasia, mitologia e mundos imaginários. A química artística entre os dois foi imediata.

Em fevereiro de 1975, Blackmore reuniu os integrantes do Elf para gravar um álbum que inicialmente seria apenas um projeto paralelo ao Deep Purple. O resultado foi “Ritchie Blackmore’s Rainbow”, disco que apresentou ao público uma sonoridade distinta daquela praticada por sua banda principal. O álbum recebeu boa recepção e acabou convencendo o guitarrista de que havia encontrado um novo caminho para sua carreira.

A reformulação

Pouco depois do lançamento, Blackmore tomou uma decisão que surpreendeu o mundo do rock: deixou o Deep Purple para se dedicar integralmente ao Rainbow. No entanto, ele também acreditava que a banda precisava de músicos mais experientes para alcançar o nível que imaginava. Com isso, dispensou praticamente toda a formação original do projeto.

O único integrante que permaneceu ao seu lado foi Ronnie James Dio. Para substituí-los, Blackmore recrutou Cozy Powell, um dos bateristas mais respeitados do Reino Unido, além do baixista Jimmy Bain e do tecladista Tony Carey. A nova formação combinava técnica, criatividade e personalidade em doses raramente vistas dentro de uma mesma banda.

Seria essa formação que entraria em estúdio para gravar Rising, um álbum que acabaria transformando o Rainbow em uma das bandas mais influentes da história.

Entra em cena Martin Birch

Com a nova formação definida, o Rainbow seguiu para o renomado Musicland Studios, em Munique, na Alemanha, durante os primeiros meses de 1976. O local já era bastante conhecido no cenário do Rock por receber artistas de grande porte e oferecia a infraestrutura necessária para que Ritchie Blackmore colocasse em prática uma visão musical muito mais ambiciosa do que aquela apresentada no álbum de estreia.

Para comandar as sessões, a banda contou com o produtor Martin Birch, profissional que mais tarde se tornaria uma verdadeira lenda do Heavy Metal por seu trabalho com bandas como Iron Maiden, Black Sabbath, Deep Purple e Whitesnake. Birch desempenhou papel fundamental na construção do som de Rising, ajudando a equilibrar o peso das guitarras de Blackmore com os teclados de Tony Carey. Além disso, o produtor ainda lidou muito bem com a bateria explosiva de Cozy Powell e os vocais dramáticos de Ronnie James Dio.

Desde o início, Blackmore tinha em mente a criação de um disco que soasse grandioso. Ao contrário de muitos trabalhos da época, que apostavam principalmente na energia do Hard Rock tradicional, o guitarrista buscava incorporar elementos inspirados na música clássica, na fantasia épica e em arranjos mais elaborados. Essa combinação acabaria se tornando uma das características mais marcantes do álbum e influenciaria gerações futuras de músicos.

As gravações de Rising

O exemplo mais evidente dessa ambição pode ser encontrado em “Stargazer”. Para registrar a música, o Rainbow contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Munique, composta por dezenas de músicos. Em 1976, uma banda de Hard Rock investir em uma orquestra completa para uma única faixa era algo extremamente incomum.

Outro elemento que contribuiu para o caráter épico do disco foi o trabalho lírico de Ronnie James Dio. Enquanto as bandas da época abordava temas relacionados a relacionamentos e excessos, Dio mergulhava em histórias de magos, profecias e personagens fictícios. Contudo, anos depois, essas características se tornariam marcas registradas do Power Metal. E, todavia, isso levou fãs a apontarem Rising como um dos responsáveis pelas bases do subgênero.

A identidade visual também desempenhou um papel importante. A capa foi criada pelo artista Ken Kelly, famoso por seus trabalhos com o Kiss. A ilustração mostra um gigantesco punho emergindo do mar e segurando um arco-íris. Certamente, uma imagem tão impactante que acabou se tornando uma das capas mais reconhecíveis de toda a história do rock pesado.

Quando as gravações chegaram ao fim, poucos imaginavam o tamanho da influência que aquelas seis músicas exerceriam sobre as décadas seguintes. O álbum possuía pouco mais de trinta minutos de duração, mas cada faixa apresentava elementos que seriam absorvidos por inúmeras bandas nos anos posteriores.

Photo: David Warner Ellis/Redferns

Tarot Woman

Logo nos primeiros segundos de “Tarot Woman”, o ouvinte percebe que Rising não seria apenas mais um disco de Hard Rock dos anos 70. A longa introdução de sintetizadores executada por Tony Carey surpreendentemente cria uma atmosfera misteriosa e quase cinematográfica. Tudo isso antes da entrada de um dos riffs mais marcantes da carreira de Ritchie Blackmore. Em uma época em que muitas bandas priorizavam abordagens mais diretas, o Rainbow inegavelmente optava por construir tensão e ambientação desde o início do álbum.

A letra escrita por Ronnie James Dio apresenta uma cartomante capaz de enxergar o futuro através das cartas de tarô. O tema antecipava uma das características que se tornariam marca registrada do vocalista: a utilização de elementos místicos e fantásticos para abordar temas universais. Embora a fantasia estivesse presente, Dio frequentemente utilizava essas imagens como metáforas para escolhas, destino e autoconhecimento.

Musicalmente, a faixa estabelece praticamente todos os pilares de Rising. Os teclados assumem papel de destaque, a bateria de Cozy Powell demonstra enorme personalidade e a interação entre Blackmore e Dio atinge um nível impressionante. Não por acaso, muitos fãs consideram “Tarot Woman” uma das melhores músicas de abertura já registradas dentro do Heavy Metal.

Run With The Wolf

A segunda faixa mantém a atmosfera sombria do álbum, mas apresenta uma abordagem mais direta e agressiva. Construída sobre um riff simples e eficiente, “Run With The Wolf” evidencia o talento de Blackmore para criar músicas pesadas sem abrir mão da melodia.

A letra mergulha em referências ao imaginário dos lobisomens e das criaturas da noite, temas que sempre despertaram o interesse de Dio. Embora não possua a grandiosidade narrativa de “Stargazer”, a composição ajuda a reforçar o clima quase medieval que permeia boa parte do álbum.

Curiosamente, “Run With The Wolf” costuma ser uma das músicas menos comentadas de Rising, possivelmente por estar cercada por faixas que se transformaram em clássicos absolutos. Ainda assim, sua combinação de peso, velocidade e refrão marcante faz dela uma peça importante dentro da dinâmica do disco.

Starstruck

Se boa parte do álbum explora mundos de fantasia, “Starstruck” segue um caminho diferente. A inspiração para a letra veio de uma fã que perseguia constantemente Ritchie Blackmore durante turnês e hospedagens em hotéis. O resultado foi uma canção com uma temática muito mais próxima da realidade do que o restante do repertório.

Musicalmente, ela talvez seja a faixa que mais se aproxima das raízes do Deep Purple. O trabalho de teclado de Tony Carey dialoga constantemente com a guitarra de Blackmore, enquanto a seção rítmica mantém uma pegada mais próxima do Hard Rock clássico do que do Metal épico que dominaria o restante do álbum.

A acessibilidade da música levou a gravadora a escolhê-la para lançamento como single em alguns mercados. Embora não tenha se transformado em um grande sucesso comercial, “Starstruck” acabou se tornando uma das canções mais conhecidas do álbum e demonstrou que o Rainbow conseguia equilibrar composições complexas com momentos mais diretos e radiofônicos.

Do You Close Your Eyes

A quarta faixa encerra o lado A do vinil original e funciona como uma espécie de explosão de energia antes da grandiosidade que viria a seguir. Com pouco mais de dois minutos e meio de duração, “Do You Close Your Eyes” é a música mais curta de Rising, mas isso não significa que seja menos importante dentro da construção do álbum.

Ao contrário da maioria das letras escritas por Ronnie James Dio naquele período, a canção abandona completamente os elementos de fantasia e mergulha em uma temática mais direta, abordando relacionamentos e atração. Essa mudança de abordagem ajuda a criar um contraste interessante dentro do repertório, mostrando que a banda não dependia exclusivamente de dragões, magos e profecias para construir músicas memoráveis.

A performance da banda é explosiva. Cozy Powell conduz a faixa com uma energia quase punk antes mesmo do punk ganhar força mundial, enquanto Ritchie Blackmore entrega riffs e solos carregados de atitude. Não por acaso, a música acabou se tornando presença frequente nos shows da época e muitas vezes era utilizada para encerrar apresentações da turnê de divulgação do álbum.

Stargazer

Se existe uma música capaz de resumir toda a importância de Rising, essa música é “Stargazer”. Com mais de oito minutos, a composição representa o momento em que todas as qualidades do Rainbow se unem. Peso, técnica, atmosfera, ambição artística e narrativa épica coexistem em uma obra que muitos consideram o maior feito da carreira da banda.

A música começa com uma das introduções de bateria mais famosas da história do Rock. O desempenho de Cozy Powell se tornou tão icônico que continua sendo estudado e admirado por bateristas até hoje. Poucos segundos depois, surge o monumental riff criado por Ritchie Blackmore, imediatamente reconhecível para gerações de fãs de Heavy Metal.

A história narrada por Dio apresenta um poderoso mago que escraviza milhares de pessoas para construir uma torre gigantesca. Seu objetivo é alcançar os céus e conquistar a capacidade de voar. À medida que a construção avança, o personagem se torna cada vez mais obcecado. Quando finalmente decide colocar seu plano em prática, o resultado é trágico: o mago despenca para a morte diante daqueles que dedicaram suas vidas ao seu sonho impossível.

A grandiosidade da narrativa foi acompanhada por uma produção ambiciosa. Para registrar a faixa, o Rainbow contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Munique, algo raro para uma banda de Hard Rock em 1976. Os arranjos orquestrais ampliaram ainda mais a sensação de monumentalidade da composição e ajudaram a criar uma experiência sonora que parecia muito maior do que os recursos normalmente utilizados pelo gênero naquela época.

O impacto de “Stargazer” foi tão grande que a música acabou se transformando em um dos pilares de estilos como o Power Metal e o Metal Neoclássico. Muitos anos depois, o próprio Blackmore declarou que considera “Stargazer” uma das melhores composições de toda a sua carreira.

A Light In The Black

Encerrando o álbum, “A Light In The Black” funciona quase como uma continuação direta de “Stargazer”. Se a faixa anterior narra a ascensão e a queda do mago que escravizou milhares de pessoas para construir sua torre, esta composição mostra o que acontece depois de sua morte. De repente, aqueles homens finalmente conquistam a liberdade, mas se deparam com uma nova dificuldade: após anos vivendo sob o comando de outra pessoa, eles já não sabem qual caminho seguir.

Segundo o próprio Ronnie James Dio, a “luz na escuridão” mencionada no título representa justamente a esperança de encontrar um novo propósito. Musicalmente, a faixa oferece uma demonstração impressionante da capacidade técnica da banda. Inclusive, ao longo de seus mais de oito minutos de duração, Ritchie Blackmore e Tony Carey protagonizam alguns dos momentos instrumentais mais inspirados de todo o álbum. Os diálogos entre guitarra e teclado antecipam abordagens que se tornariam extremamente comuns entre bandas de Power Metal nas décadas seguintes.

A seção rítmica formada por Jimmy Bain e Cozy Powell também merece destaque. Enquanto Bain sustenta a estrutura da música com linhas de baixo firmes e criativas, Powell entrega uma performance cheia de variações e viradas que mantêm a composição em constante movimento. Sendo assim, o resultado é um encerramento épico para um disco que já havia demonstrado ambição artística desde seus primeiros minutos.

Juntas, “Stargazer” e “A Light In The Black” ocupavam todo o lado B do vinil original. Mais do que duas músicas independentes, elas formam uma única narrativa dividida em capítulos, algo extremamente incomum para o Heavy Metal da época. Desse modo, essa combinação ajudou a consolidar a reputação de Rising como uma obra visionária e muito à frente de seu tempo.

O legado de Rising

Cinquenta anos após seu lançamento, Rising continua sendo apontado como um dos discos mais influentes da história do Heavy Metal. Embora o álbum não tenha alcançado os números comerciais de alguns gigantes do gênero, sua importância artística acabou se mostrando muito maior do que qualquer estatística de vendas.

Grande parte dessa influência está ligada à forma como Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio conseguiram unir elementos aparentemente distintos. O peso herdado do Hard Rock britânico, bem como as influências da música clássica, as letras inspiradas em fantasia e a execução instrumental sofisticada criaram uma fórmula que serviria de referência para inúmeras bandas surgidas nos anos seguintes.

É difícil ouvir grupos como Helloween, Blind Guardian, Stratovarius, Rhapsody Of Fire, HammerFall, Angra, Avantasia ou Kamelot sem perceber ecos das ideias apresentadas em Rising. Muitos dos elementos que definem o Power Metal moderno já estavam presentes de forma embrionária — e em alguns casos plenamente desenvolvida — nas composições de “Stargazer” e “A Light In The Black”.

O reconhecimento da crítica especializada também reforça a importância do álbum. Em 1981, a revista Kerrang! chegou a eleger Rising como o maior álbum de Heavy Metal de todos os tempos. Décadas depois, publicações como Rolling Stone, Classic Rock e Q Magazine continuaram incluindo o disco em listas dos trabalhos mais importantes já produzidos dentro do Rock pesado.

Charts, certificações e conquistas

Mesmo sem alcançar o topo das paradas, Rising apresentou resultados bastante sólidos para um álbum tão ambicioso e pouco convencional. Assim, no Reino Unido, seu principal mercado, o disco alcançou a 11ª posição da parada oficial de álbuns e permaneceu por 22 semanas entre os mais vendidos do país.

Nos Estados Unidos, o álbum atingiu a 48ª posição da Billboard 200, um resultado respeitável para uma banda que ainda construía sua identidade. O disco também obteve bom desempenho em mercados como Canadá, Japão, Austrália, Suécia, assim como Alemanha e outros, contribuindo para consolidar o nome do Rainbow internacionalmente.

As vendas renderam ao álbum certificações importantes ao longo dos anos, incluindo Disco de Ouro no Reino Unido, além de certificações de ouro em outros mercados relevantes. Com o passar das décadas, novas edições e relançamentos continuaram atraindo fãs, certamente demonstrando a longevidade de sua popularidade.

Talvez o dado mais impressionante seja que, quase meio século após sua estreia, Rising permanece sendo citado por músicos, produtores e jornalistas como um dos discos mais influentes já lançados. Em uma carreira que sobretudo contou com grandes álbuns tanto no Deep Purple quanto no Rainbow, muitos consideram que foi justamente aqui que Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio alcançaram o auge absoluto de sua parceria criativa.

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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