Resenha: Iron Maiden – “A Matter of Life and Death” (2006)

Essa resenha sobre “A Matter of Life and Death”, 14º álbum de estúdio do Iron Maiden, lançado no dia 28 de agosto de 2006 via EMI, percorrerá um caminho diferente do convencional. O narrador deste relato contará sua vivência e contato, desde o início até os dias atuais, com esse trabalho da Donzela. Portanto, não faremos mergulhos profundos no conteúdo lírico, até porque sabemos que ele é, de fato, bastante rico.

Este pergaminho surgiu de algo não planejado, mas que se conecta a outro de nossos trabalhos aqui no Mundo Metal. No dia 30 de agosto, realizamos mais um episódio do MM News em nosso canal no YouTube. O canal abordou várias notícias e, dentre elas, o quadro de artistas e álbuns aniversariantes. O AMOLAD completou exatos 20 anos no último dia 28 e foi um dos discos parabenizados na live. Porém, bem antes da transmissão, resolvi ouvir um pouco do álbum, mais por uma vontade ligeira e espontânea do que por obrigação. Para tornar esse relato mais plausível, voltarei 20 anos no tempo, seguindo em frente a partir dali.

Iron Maiden e seu álbum controverso

Desde o lançamento de “A Matter of Life and Death”, tive muita vontade de adquirir o CD, principalmente — ou tão somente — por conta da arte gráfica. Eu sempre adorei a capa desse disco. Certo dia, vi o álbum na loja SoWhat, na Galeria do Rock, centro de São Paulo, e resolvi comprar. Aproveitei a superpromoção de R$ 12,00 à época e o trouxe para incrementar minha pequena, mas crescente, coleção.

No entanto, mesmo com uma capa tão bonita, era um disco que me dava cansaço e sono. Somente a “queridinha” acendia a luz verde: o ótimo single “The Reincarnation of Benjamin Breeg”. Eu me sentia mal por isso, pois achava que a música deveria se aproximar da qualidade da arte, em vez de ser o sonífero que parecia na época em que o adquiri.

Eu sabia que “Brave New World” (2000) e “Dance of Death” (2003) eram superiores. O primeiro marcou a volta de Bruce Dickinson e Adrian Smith, e o segundo manteve a pegada, oferecendo ótimas composições. No entanto, não comprei o segundo por causa da capa — uma imagem que me causa mal-estar devido à cinetose. Até então, eu não sabia o nome do problema que tinha. Descobri após um vídeo do canal do Velberan, no qual ele comenta sobre esse distúrbio relacionado ao movimento. Enfim, segui rejeitando o “sonífero”. Mas…

Da esq. para dir – Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra), Steve Harris (baixo), Bruce Dickinson (vocal), Nicko McBrain (bateria) e Dave Murray (guitarra)

Mudanças acontecem com o passar dos anos

O tempo passou e serviu para eu revisitar obras esquecidas — por um motivo qualquer ou por nenhum —, fossem elas boas ou ruins na minha memória. “A Matter of Life and Death” costumava me amolar com sua extensa carga sonora, levada lenta e cadenciada, poucas mudanças de andamento e introduções longas que pareciam não levar a lugar nenhum, exceto ao sono completo.

Entretanto, a percepção mudou de forma vagarosa, mas perceptível. Assim como o riff extenso e misterioso de “The Longest Day”, fui absorvendo melhor as composições. Primeiro, passei a gostar de mais duas músicas. Posteriormente, de outras duas. Minha conclusão na época: daria um EP interessante.

Dando um salto temporal, para me preparar para a live Do Pior ao Melhor – Iron Maiden” no Mundo Metal, precisei fazer uma nova audição minuciosa do 14º disco para enriquecer os comentários que faria ao vivo. Como resultado, o exercício me fez enxergar o álbum com outros olhos. Longe de torná-lo uma obra-prima incontestável, mas as novas audições certamente me deram muito mais bagagem para respeitá-lo.

Um disco que amolava bastante

Chegando aos dias atuais, me deparei com ele novamente. Será que eu poderia entender a obra ainda melhor? Será que não mudaria nada? Ou será que eu retornaria ao começo? Bem, eu não esperava por nada e não planejei nada. Simplesmente aproveitei a ocasião, e o resultado foi surpreendente. Vem comigo que eu te explico no caminho!

Recentemente, fiz um novo exercício de audição e o disco soou muito melhor. Nada que o torne excepcional, mas modificou bastante a minha visão sobre ele. Tanto que fiz questão de ouvi-lo novamente e me deparei com outra mudança, incluindo uma nova descoberta.

Esse trabalho possui identidade própria. É mais cru e não traz fórmulas prontas. É um Iron Maiden mais experiente, sem ser extravagante, mas com a assinatura clássica da banda. Ainda possui seus defeitos, como faixas extensas demais e nuances que flertam com um Rock de garagem mais lento, repleto de melodias abertas e demoradas. Não chega a ser um material radiofônico, até por sua longa duração, mas há um claro plano de liberdade sonora ali. Bruce Dickinson é o rei da interpretação e se sai bem até nas músicas menos qualificadas, como “Out of the Shadows”, por exemplo.

“Different World” single

Parou de amolar como antes

Eu nunca liguei muito para “Different World”, mas, por algum motivo, passei a enxergar sua relevância para a obra. Atualmente, a vejo como uma boa faixa de abertura, que não tira o foco das músicas seguintes e traz um equilíbrio positivo para a audição.

“The Colours Don’t Run” nunca foi um primor, mas passei a compreender seu andamento de maneira mais contundente, tornando-a um dos principais destaques do lado A da bolacha. Já “Brighter than a Thousand Suns” possui uma introdução repetitiva, mas sustentada por um ótimo riff de guitarra. Seu maior problema é a própria extensão, o que deixa uma sensação meio agridoce; afinal, ela tem um bom refrão, solos inspirados e um trecho mais rápido que transmite muita confiança — algo que o álbum sempre teimou em esconder. Consequentemente, esse diferencial a torna mais prazerosa de ouvir. Se a primeira e a última parte a tornam intragável para muitos, podemos compará-la a uma bolacha não tão saborosa, mas com um recheio excelente.

“The Pilgrim” é a faixa mais curta do álbum, com 5min07s de duração. Isso ajuda bastante em sua dinâmica, embora ela não possua o mesmo brilho do “recheio” da faixa anterior ou das composições seguintes. Todavia, não se pode esquecer do solo e de suas bases, elementos que a tornam melhor do que poderia ser. Por fim, na já citada “The Longest Day”, Steve Harris aparece em primeiro plano com seu baixo cavalgado. A introdução parece legal de início, mas corre o risco de cair no vale da monotonia. Nada acontece, exceto pelo fato de Bruce ditar um ar misterioso e conseguir abrir as cortinas para um ótimo refrão.

AMOLAD não me amola tanto mais

Que chovam as críticas, mas essa eu vou pular, está bem? Falo de “Out of the Shadows”, um puro Rock de garagem descompromissado com um ar meio country; uma balada estranha. O violão sempre me deixa com dúvidas: ou ele vem para tornar a música épica, ou vem para estragar tudo e te dar motivos para ligar para o caminhão de lixo.

“A Matter of Life and Death” tem o seu clássico e ele se chama “The Reincarnation of Benjamin Breeg”. Com uma introdução simplista e breve, seu riff pesado traz uma vibe meio Deep Purple, AC/DC e Rainbow, provocando uma situação interessante e até engraçada se observarmos o que veio antes dela. Enquanto essa música toca, a anterior é esquecida num piscar de olhos. Os solos surgem de forma sutil e, logo em seguida, tomam o espaço de assalto, apoiados por bases pesadas e sólidas. Em resumo, o trabalho precisava de um personagem para reencarnar e socorrer um disco que sempre flertou com o esquecimento.

“The Reincarnation of Benjamin Breeg” single

Sensações que alternam

“For the Greater Good of God”, embora longa, seria muito melhor se não fosse pela enrolação inicial, que mais parece trilha sonora de pôr do sol na praia. Em virtude de uma levada mais suave, essa mesma linha foi reforçada e virou o modelo principal e quase único da canção. Fica aquela eterna ameaça de alçar um voo rasante, mas a aeronave mal decola. O motor de arranque parece enguiçado no semáforo, até ser salvo pelo refrão e seu tom mais épico. Seguindo o padrão do álbum, a segunda parte se transforma e a torna mais audível. O problema é aturar um andamento sem fortes emoções até chegarem as levadas mais arriscadas e ousadas dos caras, incluindo os solos.

“Lord of Light” antecipa o final do play, mas é sofrível até o minuto 1:38. Depois disso, a música muda de figura e injeta uma energia extra que poderia ter aparecido em outros momentos. Sim, é verdade que esse andamento um pouco mais veloz é a cara da banda britânica, e ele se faz mais do que necessário para que o álbum sobreviva e a audição chegue tranquila ao fim. Ao contrário desse ritmo mais rápido, o refrão aposta no peso e na excelente movimentação que Bruce traz para os versos. Essa alternância entre o excessivamente leve e o mais encorpado acaba enchendo a paciência, contudo, aqui eu sobrevivo graças à adição de outra mudança que destaca ainda mais os solos.

Mas não se tornou um super disco

Certamente haverá quem concorde e quem discorde deste relato, mas para o dono do nanquim virtual que vos digita, está tudo bem. Nem eu mesmo esperava por isso, e sei que esse fenômeno pode acontecer com álbuns de outras bandas também.

Dito isso, nos deparamos com a apoteótica “The Legacy” e seu tédio inicial. Outra vez, os ingleses apostam em uma introdução musical intimista que massageia os ouvidos, provoca um peso descomunal nas pálpebras e te prepara para um longo cochilo. Porém… surge um riff que sempre me lembra algum noticiário ou programa de TV antigo que passava entre 5 e 6 horas da matina. Isso se estende e você se pergunta: por que diabos isso? A música não engrena, volta a amolar e a paciência esgota.

Mas nem tudo são flores murchas. A banda finalmente acorda e resolve tocar com vontade. A liberdade musical grita alto. Compreendo perfeitamente quem se sinta prejudicado ao tentar entender a proposta e a curvatura dessa obra, visto que ela possui outra parada idêntica à do início monótono. Em outros tempos, eu teria desistido fácil. Hoje, reconheço que a metade final ganha vários pontos, e os dedilhados caprichados surgem para apoiar o ímpeto vocal de Bruce Dickinson. Dave Murray, Janick Gers e Adrian Smith se soltam mais e contribuem para um encerramento digno, mesmo que a música não seja um primor por completo. Para jogar contra, ainda temos mais uma repetição daquele acorde chato de violão para fechar o caixão.

(Image credit: Mick Hutson/Redferns)

Novas conclusões amoladas

Diante desses novos fatos, concluo que, apesar de todo o meu histórico de distanciamento e negação quanto a este disco, o Iron Maiden entregou um trabalho honesto e totalmente fiel à liberdade criativa que a banda buscava na época.

Por um lado, uma parcela dos fãs admira este álbum do começo ao fim. Em contrapartida, outros ouvintes ainda o utilizam como um clássico calço de geladeira. Eu, particularmente, agora integro o time dos que reconhecem as boas músicas e as ótimas ideias inseridas na obra. Além disso, é inegável que Bruce Dickinson atinge notas espetaculares nesse 14º disco, enquanto o timbre cru das guitarras garante uma atmosfera muito mais natural do que a de outros lançamentos mais badalados.

Portanto, ao brincar com o acrônimo, afirmo com convicção: o AMOLAD não me amola mais como antes. E quanto a você? O disco ainda te dá sono ou você também passou a compreender “A Matter of Life and Death” de outra forma?

“É a mesma coisa em todos os países quando você diz que está partindo
Deixando para trás os entes queridos que esperam em silêncio no corredor
Para onde você vai, há uma aventura que outros só sonham
Sinal vermelho e verde, isso é real – e então você vai para a guerra
Pela paixão, pela glória
Pelas memórias, pelo dinheiro
Você é um soldado do seu país
Qual a diferença? Tudo igual

Longe da terra natal
Hasteamos uma bandeira em terras estrangeiras
Navegamos para longe como nossos pais antes
Essas cores não fogem da guerra fria e sangrenta”

Nota: 7,3

Integrantes:

  • Bruce Dickinson (vocal)
  • Steve Harris (baixo)
  • Dave Murray (guitarra)
  • Adrian Smith (guitarra)
  • Janick Gers (guitarra)
  • Nicko McBrain (bateria)

Faixas:

  1. Different World
  2. These Colours Don’t Run
  3. Brighter than a Thousand Suns
  4. The Pilgrim
  5. The Longest Day
  6. Out of the Shadows
  7. The Reincarnation of Benjamin Breeg
  8. For the Greater Good of God
  9. Lord of Light
  10. The Legacy
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