Resenha: Desaster – “Kill All Idols” (2025)

Quando um novo disco do Desaster surge em meio ao horizonte de eventos, qualquer área do universo visível é abalada por conta da monstruosidade contida dentro deste mesmo artefato sonoro. Sucessor do excelente “Churches Without Saints”, de 2021, “Kill All Idols” chega com a obrigação e a intenção de devastar ainda mais as áreas sofridas com sua explosão musical e a sua tempestade com cheiro e sabor de enxofre.
O Desaster é uma já veterana e bem estabelecida dentro do underground mundial, tanto em seu berço alemão, quanto aqui mesmo no Brasil e em diversos outros picos do planeta. Obviamente, esse olhar é reduzido quando falamos de alcance global e por isso deixo bem claro sobre a observação quanto ao underground em si. Ou melhor dizendo, o nosso querido “bueiro”.
Um dos principais nomes do subgênero híbrido mais sólido do Metal esteve recentemente na capital de São Paulo, fazendo parte do cast da 1ª edição do Março Maldito Festival. O evento teve a liderança do Sodom, além do retorno dos suecos do Bewitched. A resenha desse festival você pode conferir ao clicar AQUI.
A organização do novo livro de receitar malignas do Desaster
A banda pode ser destaque em muitos lugares, mas nas páginas voltadas ao Metal extremo sempre marcam presença. Portanto, dentro do cenário pútrido e com aquele bar velho de balcão grudento, piso de taco sujo e copo com marcas de resto de cerveja vencida, o Desaster reina junto com outras bandas do gênero.
Mas a questão aqui não é sobre a soberania de um nome dentro do submundo do Metal. O que importa é saber se esse tanque de guerra do inferno continua turbinado e com munição o suficiente para destronar nossos tímpanos. Quer um spoiler? Sim, continua e até supera o álbum anterior em alguns detalhes específicos.
A nova jornada do quarteto alemão
Liderada pelo guitarrista Infernal e pelo baixista Odin, temos uma banda completamente devota ao Black/Thrash Metal e consciente do que se deve apresentar dentro desse estilo. Assim, sendo bastante consistente dentro de sua premissa.
“Kill All Idols” foi lançado no dia 22 de agosto via Metal Blade Records, sendo este o 10º registro oficial da banda alemã. O número, além de ser uma marca super importante para os caras, também marca uma nova era para os mesmos. O disco conversa com todas as fases da banda, desde os tempos mais podres, profanos e sujos, até os momentos de maior cadência, harmonia agonizante e produção melhorada.
Sataniac é um vocalista que parece ter nascido junto com a banda, pois consegue interpretar com maestria até mesmo as grandes músicas que ele não gravou. Para nível de conhecimento histórico e informação, Okkulto foi por muito tempo a voz do Desaster.
O novo full length foi gravado na sala de ensaio da banda em Koblenz, Alemanha. Além disso, foi mixado e masterizado por Greg Wilkinson, do Autopsy, no Earhammer Studio, Oakland, Califórnia, EUA. Estúdio este do próprio Greg.
Ou seja, está aí a importância de uma boa produção mesmo com os princípios de uma guitarra mais suja e ríspida. Basta saber como proceder e, nesse aspecto, o Desaster não costuma desapontar. E sobre o fest citado acima, foi muito gratificante presenciar adeptos mais jovens cantando praticamente todas as músicas do Desaster, sendo muito parecido com o que aconteceu com o show do Savatage em que estive presente.
O fim de tudo reunido em uma completa devastação sonora
Cá estamos dentro de mais um turbilhão de emoções e aquele vislumbre de um mundo caótico, uma ventania negra constante e tudo indo pelos ares. E no meio disso tudo, nós lá meio da desgraça sorrindo e dançando a poderosa valsa com Odin (o deus nórdico) e toda a sua trupe de deuses, entre outras criaturas mitológicas fenomenais.
De repente, uma explosão rápida ocorre e somos jogados em uma arena completamente combalida e condenada ao caos eterno. Uma grande força surge e, de forma bastante repulsiva, expele todo o ódio, a sede de sangue e de vingança que um demônio pode reunir e oferecer a um humano em completa desgraça. O ambiente é deveras ameaçador e profano. A fumaça que enfeita o cenário vem do enxofre puro que é retirado das linhas de guitarra de Infernal.
A força repulsiva é apoiada e acelerada pela bateria incessante e persistente de Hont. Você e eu somos jogados diretamente no redemoinho da perdição e as pausas com o chimbal em destaque nos fazem crer que as correntes que se aproximam são nada mais nada menos que o baixo denso e estremecedor de terras de Odin.
Melodias melancólicas e gélidas são despejadas como vela derretida na alma e as variações sonoras atingem o âmago do ser inválido e inoperante. Contudo, temos uma junção do Black/Thrash com o Black Metal convencional e mais cadenciado. O retorno à guerrilha é sobreposto e inserido com exatidão para dar aquele impacto final, tanto em “Great Repulsive Force” quanto no ouvinte.
Sem escapatória e sem projeção retilínea
Em seguida, somos inseridos aos riffs em média velocidade, mas que desafiam os puritanos com sua dissonância formidável e, somado a uma breve virada de bateria, a intensidade sonora aumenta e temos mais um retorno excepcional ao início. Porém, de forma breve. Aqui, temos variações com tempos mais curtos e que surpreendem bastante nas primeiras audições do novo disco.
As mudanças de andamento provocam a emanação do profano e tudo se alinha em favor da escuridão plena e eterna. “Emanation of the Profane” conversa consideravelmente com o álbum anterior e mostra novos horizontes malignos ao próprio Desaster.
O despedaçar de tudo através de uma obra ligada ao próprio caos
O terceiro ato apresenta uma sonoridade voltada para momentos específicos da banda e que traz algumas curiosidades informadas pelos músicos.
Em primeiro lugar, o vocalista Sataniac disse:
“É um hino universal ao Homo sapiens, que não deixa pedra sobre pedra para ser ‘esquecido’ ao destruir seus próprios alicerces. Mas não devemos esquecer. Não somos capazes de destruir a Terra. Só podemos tornar esta bela zona habitável inabitável para nós mesmos. Essa arrogância que antecede a ruína não é simplesmente maravilhosa?”
Em segundo lugar, foi a vez do guitarrista Infernal falar sobre a música e revelar pontos específicos da mesma:
“Towards Oblivion’ foi originalmente chamada de ‘Stormbringers’ e foi concebida como um hino de speed metal para o nosso fã-clube. A parte do meio é baseada na música ‘Hellbangers’ do álbum de 2007 “Satan’s Soldiers Syndicate”, que também conta com os Stormbringers no refrão. A ideia de lançar a música em diferentes versões como um single de 7″ nunca se concretizou, e a letra e o título acabaram sendo alterados.”
Você deve ter reparado quando a faixa foi colocada como Speed Metal e os dizeres estão corretos, pois verá que os músicos nem sempre erram nesse aspecto.
O espancamento sonoro de um Rock veloz do inferno!
A faixa em questão surge a partir de um dedilhado despretensioso e que serve como sinal de alerta para uma devastação sonora abissal. De fato, isso ocorre logo a seguir e coloca chamas negras infernais em tudo o que atinge. Se de início temos uma guitarra isolada, agora temos toda a ala instrumental unida em prol do colapso musical total.
O dedilhado é um tremolo em dois formatos, complementado por uma sessão de alavanca torturantemente espetacular. A valsa começa e você já leva o primeiro coice do corcel negro indomável. O trepidar da bateria de Hont incita ao Speed e também ao Thrash, enquanto os riffs emendam o Black/Thrash ao Speed. O ritmo “dançante” é agregado ao Rock veloz, mas também tem seus passos nada charmosos e vagarosos. O espirro de sangue no coturno do bandido é visto de melhor forma por conta desses compassos mais calmos e providenciais.
A receita abre caminho para solos dissonantes e uma cozinha que levanta até demônio de todos os níveis. O motor do Speed ascende ao término desse poderoso hino. A faixa te leva ao esquecimento de músicas ruins e cheias de enfeites baratos. Aqui, a sujeira bem produzida impera de maneira formidável e “Towards Oblivion” cumpre com maestria o seu papel.
Pelo fim do ídolo de barro
Adiante, temos aquilo que deveria ser feito em prol da liberdade real. Afinal de contas, o que te ilumina não pode te sufocar jamais e muito menos separar as pessoas do seu convívio. Entretanto, lideranças são formadas como fantoche para outros mentecaptos realizarem suas artimanhas por trás das cortinas ou alguma figura alçada ao poder para dominar o território por convencimento e charlatanismo barato.
Mata o ídolo é a solução definitiva? Não, mas é o começo para algo triunfante dar as caras. No entanto, isso vai depender de qual tipo de ídolo estamos ou estaremos lidando. Portanto, “Kill the Idol”, em singular e diferente do título do álbum a qual está no plural, manda a real e nos coloca novamente em um cenário de completa destruição.
“Isso vai para todos os ídolos…
Foda-se todos e fiquem tranquilos…”
A rifferama desenfreada começa e já temos as primeiras vítimas! A valsa está sangrenta e a fome de vingança contra os ídolos de barro é cada vez maior! Sangue de líderes! Essa é a solução! A cadência surge como um pisar de cascos na carcaça do inimigo desfalecido. O baixo de Odin se destaca e sobrepõe de maneira excepcional. A pancadaria ressurge e não há clemência para o seu ídolo. Aqui ele é minúsculo, um simples inseto insolente e rastejante, além da própria música ser a segunda mais curta do álbum.
O ídolo se desfaz e dele sobram as cinzas
Após mais um massacre, é importante ressaltar que sobram as cinzas após as labaredas imensas consumirem toda a carcaça do infeliz. O ritual da nuvem de cinzas está pronto para acontecer e, sem prévio aviso, temos um primeiro passo bastante extremo com palhetadas rápidas e envoltas por blast beats inflamáveis de tão intensos.
Sataniac encarna a própria criatura sendo abatida como um urso sendo degolado. Um dedilhado mais calmo surge, acompanhado por um cavalgar de contrabaixo mais contido e bastante denso. Também temos uma bateria servindo o banquete à moda cautelosa e exibindo um ar misterioso. Tudo caminha para próximo do Doom Metal, mas não chega a acontecer essa magia densa. O Black/Thrash toma forma, mas com passagens apenas um pouco mais rápidas.
A retomada quase mórbida vem novamente à tona e as cinzas se misturam ao enxofre, até que todo o movimento segue pelo vale tradicional da banda e da própria música.
As palhetadas mais rápidas surgem e avisam que a desgraça irá pairar em plano terreno. O final é basicamente a parte veloz e mais extrema, assim trazendo mais elementos para “Ash Cloud Ritual”.
“Bombas de magma, rochas brilhantes, gases e poeira
O Armagedom cobra seu preço
Explosão de megatons
O inferno ascende, paisagens em chamas
O Armagedom cobra seu preço”
Submundo em êxtase
“Fathomless Victory” chega para retratar uma vitória incontestável, insondável e formidável. O plano terreno agora possui um governante de verdade. O causador das mortes de inocentes e proteção dos assassinos está ausente para sempre a partir de agora. O império do submundo subiu aos céus e trouxe aos anjos a queda definitiva.
Através das primeiras notas isoladas e do tilintar dos pratos, temos mais um capítulo da jornada. Perceba o nível de gordura desse baixo. Os apreciadores de ventilador tornam ao pó ao ouvirem essa belezura aqui. Odin comanda a bagaça fumegante e seus comparsas de banda seguem o percurso bem concentrados. A escalada sonora se faz presente e temos aqui aquela junção costumeira entre o Black/Thrash e o Black Metal. Tenha bons fones ou caixas de som bacanas para apreciar esse belo e nefasto arsenal de guerra dos alemães.
Em dado momento, a faixa ganha ímpeto e você se vê jogado em um território vasto, porém lotado de criaturas submundanas com muita sede de sangue e desejo de degolar os mensageiros de notícias falsas que vemos por aí afora. O rito se inicia e depois entra em uma camada densa, para depois retomar o sentido de ritual sombrio. Hont experimenta o seu kit e a banda mergulha em solo denso novamente. Essa variação acaba hipnotizando o ouvinte, que acaba por participar desse ritual macabro, se saindo purificado da trama.
Altas demandas para sacrifícios e luxúria
“Throne of Ecstasy” chega com os 12 pés na porta e revela mais uma página de sonoridade extrema. Dessa vez, Sataniac falou o seguinte:
“Enquanto Churches Without Saints era um álbum de black-death-thrash metal old school típico do Desaster, o novo é um pouco mais diverso. É claro que Kill All Idols incorpora nossa abordagem clássica do Black/Thrash Metal e as partes épicas pelas quais o Desaster é conhecido também estão lá. Mas, por outro lado, há partes do álbum em que nossas raízes punk brilham mais claramente do que nunca.”
Certamente, vemos um espírito Punk em vários trechos dos sons, principalmente quando temos compassos mais simples e ríspidos. É aquele Punk mais arruaceiro e vibrante, longe anos-luz de ser radiofônico, exceto se o inferno tiver uma rádio de Metal. Bem, eu sei que tem e lá só toca podreira.
A faixa em questão traz o trono do êxtase, sendo essa a sensação de quem batalhou para estar diante da grande vitória. A escuridão vencendo a luz e o trono garantindo todos os pecados como forma de agradecimento pelo bom momento (nivelado para baixo). A intro quase mergulha no Death Metal, mas rasga os alto-falantes em favor do estilo tradicional da horda satânica germânica. Os blast beats surgem e os pedais ganham mais ímpeto. Hont está descontrolado e provoca o completo caos. Talvez, a melhor performance dele no disco, ou uma das melhores!
As guitarras alternam entre o extremo, visceral, maldito e mais contido. E essa faixa também possui um momento mais contido, quase partindo para um Heavy tradicional. E tem gente que fala que banda desse estilo não muda o seu som. Cotonete com algodão negro pra esse ser repugnante, viu?!
O êxtase no submundo está ligado à luxúria e, como uma boa banda de som podre, sempre haverá um grupo de freiras corrompidas e prostitutas para o deleite do líder de tudo.
A transformação de um contrabaixo
Em se tratando de exigências, temos as leis implacáveis de “They Are the Law”, antepenúltimo trecho do pergaminho impuro. Olha esse início alá Motörhead! Vou até voltar a música de novo e mais umas 666 vezes para destacar esse início incrível! Agora sim, certamente, podemos dizer que Odin incorporou o Deus Lemmy e aprontou das suas por aqui. O início pode ser breve, mas faz total diferença para esta que é a música mais curta do disco. Tudo isso, contudo, sem contar os solos dissonantes e distorcidos breves bem inseridos no cenário de execuções sumárias.
“Soprado pela justiça a qualquer momento
Martelado pelo pior do crime
Um gostinho das putas sangrentas que eles servem
Leis para fazê-los sangrar e derrubá-los”
Agora sim, temos um início muito diferente do convencional. Sataniac aproveita para encarnar a verdadeira criatura submundana pronta para exalar os seus versos nada amigáveis aos puritanos de plantão.
A cadência providencial torna o som mais rico em contraste com a agressividade vinda após a próxima curva. Um misto de Belphegor e Brujeria é visto por aqui, mas em um formato bem breve, tornando a música mais exótica dentro do álbum. Ainda sim está instaurada dentro das leis do Black/Thrash, porém com outros elementos extras. “Stellar Remnant” traz solos distorcidos e diferenciados, servindo como abertura para os momentos mais extremos de si mesma. Seu final é agonizante com aquele compasso a qual vai parando passo a passo.
Apoteose rústica, ruidosa, voraz e maldita
“Idol’s End (outro)” marca o fim dessa nova história maquiavélica retratada pelo Desaster, que associa muito o lado profano e mitológico ao que acontece na vida carnal. E sim, as pessoas estão se digladiando por nada e ficando cada vez mais doentes. Tal adoecimento contribui para uma manifestação do próprio planeta e esse armagedom poderá sair das telas dos filmes e atingir a sua e a minha casa também. Os dedilhados são bem lúgubres e fecham o álbum ao melhor estilo “término podre com o cabo da guitarra ainda plugado. O agudo no final já diz tudo e não é o agudo do Mick Box (Ufa!). Ouça e proclame a sua própria devastação sonora!

“Feel free to breathe the filth
Tasty sickness we create
Consumed by consuming darkness
Friends of foe fucked by own fate
Damnation be your destiny
Your greedy hope divinity
Decadence your bleeding fate
Take own poison, enjoy the end”
nota: 9,3
Integrantes:
- Infernal (guitarra)
- Sataniac (vocal)
- Odin (baixo)
- Hont (bateria)
Faixas:
- 1. Great Repulsive Force
- 2. Emanation of the Profane
- 3. Towards Oblivion
- 4. Kill the Idol
- 5. Ash Cloud Ritual
- 6. Fathomless Victory
- 7. Throne of Ecstasy
- 8. They Are the Law
- 9. Stellar Remnant
- 10. Idols’ End (Outro)
