Resenha: Demon Spell – “Blessed Be The Dark” (2026)

Mais de duas décadas após o surgimento da NWOTHM (New Wave Of Traditional Heavy Metal), já não existe qualquer surpresa em encontrar bandas de Heavy Metal apostando em propostas retrô. O que separa uma experiência comum de um disco realmente marcante, no entanto, passa por fatores como competência, honestidade, poder de imersão e inspiração. Além disso, uma produção equilibrada, bons músicos e canções que permaneçam na cabeça também fazem toda a diferença.

No caso dos italianos do Demon Spell, todos esses requisitos aparecem muito bem preenchidos. Desde a estética das fotos promocionais até a escolha da arte de capa e dos flyers de divulgação, o quarteto de Catânia, na Sicília, demonstra absoluta coerência com sua proposta. Musicalmente, o grupo remete diretamente aos primeiros passos do Mercyful Fate, sobretudo ao EP autointitulado lançado em 1982, mas seria injusto reduzi-lo a apenas mais uma banda clone.

Se o EP “Evil Nights”, de 2024, já havia chamado atenção, é em “Blessed Be The Dark” que o conjunto realmente consolida seu potencial e prova que pode alçar voos mais altos. O Heavy Metal apresentado aqui carrega uma atmosfera sinistra, letras voltadas ao ocultismo e riffs tão diabólicos quanto divertidos. Pode até parecer inocente em uma primeira audição, porém este é o tipo de álbum que pede uma sexta-feira chuvosa, perto da meia-noite e com todas as luzes apagadas. Fica o desafio.

Uma abertura digna de ritual

Após uma curta introdução, o baterista Dario Casabona dá início à imponente “As Lucifer Smiles”, faixa de abertura tão forte que chega a impressionar. Os vocais de Federico Fano lembram bastante os de King Diamond, especialmente nos tons mais graves. Ainda assim, o cantor não se limita à comparação: ele também explora agudos e falsetes com personalidade, sempre em sintonia com a proposta sombria do disco.

Hexes And Horrors” não diminui a pressão, mas é quando “Curse Of The Undead” começa que o ouvinte pode se sentir transportado para a primeira vez em que escutou “A Corpse Without Soul”, do Mercyful Fate. Toda aquela aura de maldade, perigo e fascínio pelo proibido está presente. É quase como se você não devesse estar ouvindo aquilo, mas resistir se torna impossível.

Em “High On Sacrifice”, percebe-se que o álbum já alcançou sua metade, embora a tensão e a vitalidade dos primeiros acordes permaneçam intactas. Francesco Bauso se destaca com riffs muito bem construídos, enquanto os solos são diretos, mas carregam uma felicidade ímpar. Essa combinação se repete durante todo o desenvolvimento do trabalho e ajuda a manter a audição sempre envolvente.

Na sequência, “The Tolling” surge como aquela música que faz o ouvinte apertar o botão de repeat. Trata-se de uma faixa tão grudenta que certamente encontrará espaço em playlists de quem aprecia o lado mais clássico e teatral do Heavy Metal. Depois de algumas audições, é bem provável que você volte aqui para agradecer. De nada!

Um álbum que entende sua própria proposta

Perto do final, “Dive The Hellfire” adiciona uma pitada de Judas Priest à fórmula e se aproxima um pouco mais da sonoridade explorada no EP “Evil Nights”, agora com uma qualidade de gravação muito superior. Em seguida, “Premonitions” funciona como uma breve passagem instrumental e prepara o terreno para a poderosa faixa-título.

Com pouco mais de três minutos e meio, “Blessed Be The Dark” encerra o disco como um verdadeiro turbilhão de riffs cortantes, linhas vocais empolgantes e velocidade. O Demon Spell fecha a obra com a sensação de que o jogo está ganho, sem desperdiçar tempo com excessos ou ideias que não contribuem para o resultado final.

Pode ser que eu queime a língua — e até torço para que isso aconteça —, mas dificilmente o próprio Mercyful Fate conseguirá apresentar um disco tão empolgante quanto este nos próximos anos. Evidentemente, essa afirmação não diminui a importância dos dinamarqueses; ela apenas reforça o quanto “Blessed Be The Dark” consegue absorver suas influências sem perder o próprio brilho.

Vale, porém, uma advertência: nada do que você ouvir aqui soará revolucionário ou reinventará o Heavy Metal. Ainda assim, quem se importa? O que está à mesa é um álbum divertido, empolgante, honesto, bem executado e surpreendentemente nostálgico. E, se tudo isso não for suficiente para convencer você, talvez o Heavy Metal tenha deixado de correr em suas veias.

Nota: 9

Integrantes:

  • Federico Fano (vocal)
  • Francesco Bauso (guitarra)
  • Riccardo Liberti (baixo)
  • Dario Casabona (bateria)

Faixas:

  1. As Lucifer Smiles
  2. Hexes And Horrors
  3. Curse Of The Undead
  4. High On Sacrifice
  5. The Tolling
  6. Dive The Hellfire
  7. Premonitions
  8. Blessed Be The Dark
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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