Resenha: Crypted Roots — “Oath Of The Ancient Ones” (2026)

Em um cenário no qual dezenas de novos discos surgem diariamente, encontrar um trabalho capaz de provocar surpresa genuína tornou-se uma tarefa cada vez mais difícil. Oath Of The Ancient Ones, novo registro do Crypted Roots, pertence justamente a essa rara categoria. Lançado de maneira independente em 15 de julho de 2026, o álbum reúne dez faixas e pouco mais de 45 minutos de música, apresentando uma combinação incomum de peso, técnica, melodias marcantes e estruturas que frequentemente escapam das fórmulas tradicionais.

O grupo define sua música inicialmente como Melodic Thrash Metal, embora essa classificação pareça limitada diante da variedade presente no álbum. A descrição Melodic Death/Thrash Metal aproxima-se mais do resultado, mas também não contempla completamente aquilo que o quarteto constrói. Há elementos de Heavy Metal, Power Metal, Metal Progressivo e referências ao chamado Prog Thrash, além de momentos nos quais melodias sofisticadas convivem naturalmente com vocais extremos, riffs cortantes e mudanças bruscas de andamento.

Formado em 2023, em Tooele, no estado norte-americano de Utah, o Crypted Roots começou essencialmente como um projeto conduzido por Silas Young, responsável por guitarras, baixo e vocais. O álbum de estreia, When Atoms Split, saiu naquele mesmo ano, enquanto o EP The Skinwalker Waltz chegou em janeiro de 2024. A transformação em algo mais próximo de uma banda aconteceu com Æonian Justice, trabalho no qual Berzan Önen assumiu parte significativa dos vocais e Rodrigo Giacon começou a aparecer como guitarrista solo convidado.

Berzan ÖnenReprodução

Muito além do Melodic Thrash Metal

A presença de Berzan Önen tornou-se ainda mais relevante após o vocalista ser escolhido para integrar a nova formação do Nevermore, ao lado de Jeff Loomis, Van Williams, Jack Cattoi e Semir Özerkan. Ao explicar a escolha, Loomis destacou a emoção demonstrada pelo cantor durante sua audição, assim como sua capacidade de interpretar o repertório de Warrel Dane sem se limitar a uma imitação. Segundo o guitarrista, Önen consegue reproduzir elementos característicos do antigo vocalista, mas também domina outras abordagens que poderão levar o Nevermore a diferentes direções musicais.

Por isso, Oath Of The Ancient Ones ganha inevitavelmente uma camada adicional de interesse. Este é o segundo trabalho completo do Crypted Roots com Berzan Önen e, ao mesmo tempo, o primeiro lançado depois de sua entrada no Nevermore. Para quem aguarda ansiosamente o futuro álbum de inéditas do grupo liderado por Jeff Loomis e Van Williams, o disco funciona quase como uma prévia de algumas possibilidades, principalmente pelas linhas vocais, pelos timbres utilizados e pela maneira como o cantor alterna agressividade, dramaticidade e melodias mais elaboradas.

Entretanto, reduzir Oath Of The Ancient Ones a uma espécie de antecipação do próximo capítulo do Nevermore seria injusto. Embora a influência apareça com clareza, o Crypted Roots demonstra personalidade suficiente para não depender apenas dessa comparação. O grupo compreende a linguagem de suas referências, mas não tenta reproduzi-las mecanicamente. Em vez disso, utiliza esse vocabulário para construir músicas repletas de viradas inesperadas, riffs bem elaborados e contrastes entre técnica refinada e violência sonora.

Silas Young — guitarrista, baixista, vocalista e compositor

Peso, melodias e mudanças inesperadas

A abertura com For The Spectacle apresenta imediatamente o lado mais agressivo do álbum. Os riffs ríspidos, a intensidade dos vocais e as mudanças rítmicas estabelecem uma atmosfera pesada, mas sem transformar a faixa em uma demonstração gratuita de brutalidade, muito menos de virtuose. O Crypted Roots demonstra desde os primeiros minutos que pretende escrever músicas, não apenas acumular passagens técnicas.

A regravação de When Atöms Split, originalmente associada ao primeiro álbum do grupo, mantém essa pressão. A música revela como a sonoridade do projeto evoluiu desde seus primeiros passos, principalmente com a presença de Berzan Önen. O vocalista acrescenta novas camadas dramáticas à composição, enquanto as guitarras ampliam o equilíbrio entre agressividade e melodia.

É em Shattered Illusions, porém, que o disco começa a revelar suas qualidades mais particulares. A faixa abandona estruturas previsíveis, trabalha melhor as mudanças de atmosfera e permite que a interpretação de Önen assuma um papel ainda mais expressivo. Em determinados momentos, a música poderia perfeitamente integrar algum álbum do Nevermore produzido entre Dead Heart in a Dead World e This Godless Endeavor. Ainda assim, o resultado não soa como uma cópia perdida daquela fase.

Chaos Crusade retoma a violência direta, apoiada por riffs rápidos e uma execução bastante precisa. Mesmo nos momentos mais agressivos, o grupo nunca perde completamente o senso melódico.

Essa característica impede que as faixas se tornem excessivamente uniformes e ajuda a criar um disco pesado, mas suficientemente dinâmico para sustentar a atenção durante toda a audição.

Entre Sanctuary e Nevermore

Uma das grandes surpresas aparece em Escape Reality. A composição remete ao início do Sanctuary, especialmente à atmosfera encontrada em Refuge Denied, mas acrescenta peso contemporâneo e características próprias. A influência surge menos como uma reprodução de riffs específicos e mais como uma combinação de elementos.

Após o breve interlúdio Denial, com apenas 55 segundos, o disco apresenta uma nova versão de The Skinwälker Waltz. A faixa integra o grupo das composições mais agressivas do álbum e ainda conta com a participação de Ol Drake no solo de guitarra. O músico acrescenta uma passagem virtuosa sem romper a identidade da canção, reforçando o cuidado do Crypted Roots em utilizar a técnica como parte da composição, e não como simples exibição.

Na sequência, One Last Dose Of You representa um dos pontos mais altos do trabalho. Com mais de sete minutos, a música oferece espaço para que o grupo desenvolva ideias, altere atmosferas e avance sem a obrigação de retornar rapidamente a um refrão. Ao lado de Shattered Illusions, a faixa figura entre as verdadeiras gemas escondidas de Oath Of The Ancient Ones. Ambas exigem uma audição mais atenta, mas recompensam o ouvinte com detalhes que aparecem gradualmente.

As guitarras acústicas registradas por Wraithbound ampliam o alcance de One Last Dose Of You, enquanto os vocais transitam entre momentos introspectivos e explosões de intensidade. Mais uma vez, a lembrança do Nevermore aparece, mas o Crypted Roots começa a afastar-se das comparações justamente quando permite que suas composições respirem e sigam caminhos menos previsíveis.

Rodrigo Giacon — guitarra solo do Crypted Roots

Um cover completamente transformado

A escolha de 18 and Life, clássico do Skid Row, parecia improvável dentro de um disco tão pesado e tecnicamente elaborado. Entretanto, o Crypted Roots consegue transformar a música sem destruir sua identidade. A banda altera o peso, a interpretação e a atmosfera da composição, conduzindo-a para seu próprio universo sonoro.

O maior mérito está no equilíbrio. O grupo não apresenta uma reprodução obediente da gravação original, mas também não modifica a faixa apenas para demonstrar ousadia. A melodia permanece reconhecível, enquanto a abordagem vocal e instrumental faz com que a versão se encaixe naturalmente no restante do álbum. Trata-se de um cover que respeita a origem, mas não se intimida em mudar a forma.

O encerramento acontece com Oath Of The Ancient Ones, talvez a composição mais autoral do repertório. As referências aos trabalhos anteriormente liderados por Warrel Dane ainda surgem em alguns momentos, sobretudo na construção dramática dos vocais. Entretanto, os trechos instrumentais, as mudanças internas e determinadas linhas interpretadas por Berzan Önen apontam para uma identidade que já começa a se desprender dessas associações.

A faixa-título funciona como uma síntese do álbum. Há peso, melodias, técnica, agressividade e uma busca constante por caminhos menos evidentes. Em vez de tentar encerrar o disco com uma composição imediatamente acessível, o Crypted Roots opta por reforçar exatamente aquilo que tornou o trabalho interessante: sua disposição para combinar diferentes linguagens sem transformar a mistura em algo desorganizado.

Uma das grandes surpresas de 2026

Oath Of The Ancient Ones apresenta o Crypted Roots como uma banda em pleno processo de expansão. O disco ainda carrega influências bastante reconhecíveis, principalmente de Nevermore, Sanctuary e, em menor escala, Iced Earth, mas trabalha com diferentes vertentes do Metal tradicional e progressivo. Contudo, seus melhores momentos aparecem justamente quando o grupo abandona qualquer preocupação com classificações e permite que as músicas avancem livremente.

A produção independente de Silas Young oferece clareza suficiente para destacar os riffs, os solos e as diferentes abordagens vocais. Além dele e de Berzan Önen, a gravação contou com Rodrigo Giacon nas guitarras solo e Fabián Carrión Troya na bateria. A arte da capa ficou sob responsabilidade de Adam Burke.

Em meio a uma enxurrada de lançamentos que conduzem o ouvinte aos mesmos lugares, Oath Of The Ancient Ones apresenta um frescor difícil de ignorar. Quando reverencia o passado, escolhe algumas das bandas mais criativas e complexas do Metal. Quando se afasta dessas referências, revela uma formação capaz de construir algo igualmente interessante.

Para os admiradores de Nevermore e Sanctuary, o álbum surge como uma descoberta praticamente obrigatória. Para os demais, representa a oportunidade de conhecer uma banda independente que compreende a diferença entre simplesmente tocar pesado e escrever músicas realmente marcantes. Oath Of The Ancient Ones não utiliza a complexidade para esconder a falta de ideias; utiliza boas ideias para tornar a complexidade necessária.

Nota: 9,2

Integrantes:

  • Silas Young (guitarra, baixo e backing vocals)
  • Berzan Önen (vocal)

Músicos convidados:

  • Rodrigo Giacon (guitarra solo)
  • Fabián Carrión Troya (bateria)

Faixas

  1. For the Spectacle – 4:17
  2. When Atöms Split – 4:40
  3. Shattered Illusions – 4:08
  4. Chaos Crusade – 4:37
  5. Escape Reality – 4:46
  6. Denial – 0:55
  7. The Skinwälker Waltz – 4:56
  8. One Last Dose of You – 7:38
  9. 18 and Life – 3:33
  10. Oath of the Ancient Ones – 5:47
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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