Pandemmy lança “Santa Catareich”, mas crítica ao neon@z1smo se perde em generalizações e referências desconexas

Antes mesmo que uma única nota de “Santa Catareich” pudesse ser ouvida, o Pandemmy já havia colocado seu novo single no centro de uma discussão que ultrapassava os limites do Metal. A banda pernambucana apresentou uma capa carregada de referências provocativas, associando visualmente o estado de Santa Catarina ao nazismo. Na ilustração, uma mulher loira aparece sentada em um trono cercado por armas, usando uma coroa cuja composição parece remeter à deputada federal Júlia Zanatta. A personagem segura uma Bíblia em uma das mãos e uma taça de leite na outra, além de utilizar uma braçadeira vermelha claramente construída para evocar a estética nazista. Ao fundo, aparece uma versão estilizada da bandeira catarinense com um pentagrama no centro, enquanto o próprio título transforma Santa Catarina em “Santa Catareich”.

Como era previsível, a imagem provocou reações diferentes. Parte dos fãs de Heavy Metal enxergou a provocação como legítima dentro da longa tradição do Metal extremo de utilizar imagens ofensivas, chocantes e deliberadamente desconfortáveis. Outros entenderam que a composição ultrapassava a crítica a grupos extremistas e acabava associando todo um estado — ou, no mínimo, sua população de maneira abrangente — ao nazismo. Foi justamente essa a dúvida levantada pelo Mundo Metal quando a capa apareceu. Em conversa conosco, o guitarrista Pedro Valença negou que essa fosse a intenção do Pandemmy. Segundo o músico, o objetivo era chamar atenção para o crescimento de células neonazistas em Santa Catarina, promover um debate sobre o assunto e, principalmente, deixar que a própria letra esclarecesse qualquer dúvida. Ele também afirmou que o lyric video utilizaria recortes de reportagens verdadeiras para sustentar a mensagem.

Pois bem: “Santa Catareich” chegou oficialmente às plataformas em 11 de agosto de 2026, e agora existe material suficiente para confrontar a explicação com aquilo que efetivamente aparece na música.

O problema existe, mas precisa ser tratado com seriedade

Antes de qualquer crítica à execução do Pandemmy, é importante deixar algo absolutamente claro: a presença de células neonazistas em Santa Catarina não é invenção da banda. Trata-se de um problema real e documentado. Levantamentos realizados pela antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Unicamp que dedicou décadas ao monitoramento de grupos extremistas, apontaram um crescimento expressivo dessas organizações no estado. Dados publicados em 2023 indicavam 320 células catalogadas em território catarinense em 2022, dentro de um universo de 1.117 grupos identificados no país. Esses números não constituem uma estatística oficial do Estado brasileiro — nasceram de um trabalho de monitoramento de fóruns, aplicativos e ambientes digitais —, mas tiveram relevância suficiente para subsidiar debates acadêmicos e ações de autoridades. Posteriormente, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos também realizou uma missão em Santa Catarina para investigar o crescimento dessas organizações.

Também não procede, porém, transformar a existência desses grupos em sinal de conivência coletiva dos catarinenses. Há uma diferença gigantesca entre reconhecer que Santa Catarina enfrenta um problema grave com organizações extremistas e sugerir que o estado, sua população ou suas cidades sejam majoritariamente simpáticos ao nazismo. As próprias instituições catarinenses já promoveram investigações, prisões e apreensões relacionadas a grupos dessa natureza. Em 2022, oito suspeitos de integrar uma célula neonazista interestadual foram presos durante um encontro em São Pedro de Alcântara. Além disso, o estado estruturou uma delegacia especializada na repressão ao racismo e aos delitos de intolerância. Mais recentemente, em junho de 2026, a Polícia Civil de Santa Catarina deflagrou a Operação Estigma, em Campos Novos, contra um investigado por divulgação de conteúdo de exaltação ao nazismo, com apreensão de material relacionado à ideologia. Portanto, existe um problema concreto, mas existe também uma resposta institucional concreta.

Entre uma boa ideia e uma boa execução existe uma enorme distância

É justamente nesse ponto que “Santa Catareich” perde força. A ideia de utilizar uma música de Death/Thrash Metal para denunciar o crescimento de movimentos neonazistas poderia render algo contundente. O Metal sempre ofereceu espaço para críticas políticas, sociais e religiosas, e não existe nenhuma obrigação de suavizar a linguagem quando o alvo é uma ideologia responsável por um dos períodos mais abjetos da história moderna. O problema não está na agressividade. Tampouco está na intenção de incomodar.

O problema aparece quando uma pauta tão séria exige precisão e recebe, em seu lugar, uma sucessão de generalizações, chavões e referências que parecem ter sido reunidas muito mais pela capacidade de provocar determinadas reações políticas do que por sua ligação direta com o neonazismo. Existe uma enorme diferença entre uma boa ideia e uma boa execução dessa ideia. Neste caso, o Pandemmy parece não ter encontrado a habilidade necessária para uma crítica verdadeiramente consistente.

O lyric video realmente apresenta diversos recortes de reportagens verdadeiras. Algumas delas dialogam com o problema denunciado e ajudam a demonstrar que a discussão sobre grupos extremistas no estado possui base factual. Entretanto, a seleção mistura assuntos completamente diferentes. Surgem chamadas relacionadas a registros de ameaças contra mulheres, prefeitos presos e casos envolvendo negativa de aborto legal. Cada uma dessas questões pode, evidentemente, render discussões próprias e legítimas. O problema é outro: qual é a relação objetiva dessas notícias com células neonazistas?

Ao misturar acontecimentos sem demonstrar a conexão entre eles, o vídeo dilui o argumento que deveria fortalecer. Em vez de apresentar uma denúncia organizada sobre grupos neonazistas, começa a surgir uma espécie de inventário de acontecimentos negativos associados ao estado. O foco deixa de ser o nazismo e passa a ser Santa Catarina.

O caso Orelha torna a escolha da letra ainda mais problemática

Talvez o exemplo mais evidente desse desvio aconteça quando a letra menciona o caso do cão Orelha por meio da frase “Juventude assassina de um pobre animal indefeso”. Mesmo que o episódio tivesse alguma relação comprovada com os jovens inicialmente investigados, já seria difícil entender sua presença em uma composição cujo eixo deveria ser o crescimento do neonazismo. Maus-tratos contra animais, por mais repugnantes que sejam, não se transformam em manifestação de extrema direita, muito menos em evidência da existência de células nazistas.

Porém, existe um problema factual ainda maior. Quando “Santa Catareich” foi lançada em 11 de agosto de 2026, a investigação sobre Orelha já havia passado por uma reviravolta decisiva havia quase três meses. Em maio, após analisar cerca de dois mil arquivos, vídeos, imagens e laudos técnicos, o Ministério Público de Santa Catarina concluiu que os adolescentes investigados e o animal não estiveram juntos na praia durante o período da suposta agressão. O órgão também apontou uma grave condição de saúde preexistente no cão e afastou a agressão humana como causa de sua morte. A Justiça posteriormente homologou o pedido de arquivamento do procedimento.

Isso muda completamente a discussão. A letra não apenas utiliza um episódio sem relação demonstrada com o neonazismo: ela apresenta como afirmação algo que, meses antes do lançamento, já havia sido formalmente afastado pelo MPSC no procedimento arquivado. Ainda que o caso tenha continuado gerando controvérsias, questionamentos públicos e discussões políticas, esse era um dado essencial que uma música lançada em agosto de 2026 não poderia simplesmente ignorar.

“Santa Catareich”, “Blumenazi” e os “Vikings reacionários”

A generalização também fica difícil de afastar diante das próprias escolhas linguísticas feitas pelo grupo. Balneário Camboriú aparece como “Balneário dos Vikings reacionários”, enquanto Blumenau vira “Blumenazi”. Isoladamente, alguém poderia argumentar que se trata apenas de sarcasmo ou do exagero típico de uma letra de Metal extremo. Dentro do conjunto, porém, essas expressões se somam a uma música intitulada “Santa Catareich”, a uma capa que transforma símbolos estaduais em elementos de uma estética nazista e a um vídeo que reúne acontecimentos negativos de naturezas completamente distintas.

Nesse cenário, fica cada vez mais complicado sustentar a explicação anterior de que não existe qualquer generalização. Não estamos diante apenas de uma frase ou de uma imagem que possa ter sido mal interpretada. Existe uma sequência de escolhas artísticas que transforma cidades e o próprio nome do estado em caricaturas associadas ao nazismo ou a outros problemas sociais.

E talvez esse seja o maior desperdício de “Santa Catareich”. O Pandemmy possuía elementos suficientes para construir uma música sobre um problema verdadeiro. Existem investigações, apreensões de armas, prisões, materiais nazistas encontrados pela polícia, estudos acadêmicos, grupos organizados e missões de órgãos de direitos humanos. Não faltava munição factual para uma crítica pesada, agressiva e praticamente impossível de contestar.

Mesmo assim, a banda decidiu ampliar o alvo.

Quando tudo vira extrema direita, nada mais explica o nazismo

No final, a sensação transmitida pela música e principalmente pelo vídeo é menos a de uma investigação artística sobre o neonazismo e mais a de uma crítica generalizada a Santa Catarina, aparentemente feita pela conhecida predominância eleitoral da direita no estado. O problema dessa escolha não está em criticar a direita, a esquerda, governos ou qualquer posição política. Uma banda possui total liberdade para estabelecer seus alvos. A questão é anunciar uma denúncia específica contra o nazismo e depois utilizar acontecimentos que não demonstram qualquer relação necessária com essa ideologia.

Prefeitos presos não são, pela simples condição de terem sido presos, representantes do nazismo. Um caso envolvendo a morte de um animal também não é automaticamente um ato político — e, no caso específico de Orelha, a acusação utilizada pela letra havia sido afastada oficialmente antes mesmo do lançamento da música. Da mesma maneira, outros problemas sociais apresentados no vídeo precisam de uma conexão demonstrável com o tema central para fazer parte de um argumento coerente. Caso contrário, o que sobra é apenas associação descuidada.

Esse método ainda cria outro efeito indesejado: enfraquece os próprios casos realmente sérios apresentados no lyric video. Quando uma matéria sobre uma célula neonazista aparece lado a lado com acontecimentos completamente desconexos, ambos passam a fazer parte de uma mesma colagem emocional. Em vez de separar evidência de indignação, “Santa Catareich” joga tudo no mesmo liquidificador.

Um debate necessário reduzido ao velho Fla x Flu ideológico

Eu esperava que “Santa Catareich” justificasse a provocação de sua capa. Esperava uma letra capaz de demonstrar por que o Pandemmy escolheu imagens tão fortes e decidiu associar visualmente Santa Catarina ao nazismo. Principalmente depois da explicação de Pedro Valença, havia a expectativa de encontrar uma composição que delimitasse claramente seu alvo: células neonazistas, supremacistas, seus integrantes, propagadores e eventuais redes de apoio.

Não foi isso que encontrei.

Da forma como o material foi construído, o resultado provavelmente servirá muito mais à polarização que já domina as redes sociais do que ao debate que a própria banda dizia querer promover. Quem estiver ideologicamente predisposto a concordar com a mensagem poderá aplaudir tudo sem questionar suas generalizações. Quem estiver no campo oposto poderá resumir o lançamento à palavra “lacração” e ignorar até mesmo as denúncias verdadeiras que aparecem no vídeo. E existe ainda aquela enorme parcela de fãs de Metal que já não suporta transformar qualquer assunto em uma disputa política permanente e provavelmente ignorará.

É uma pena, principalmente porque existe um problema real por trás de tudo isso. O neonazismo merece investigação, denúncia, repressão policial e discussão pública. Justamente por ser um assunto sério demais, não precisa de exageros artificiais para parecer assustador.

O maior problema de “Santa Catareich” não é ser ofensiva, raivosa ou politicamente posicionada. Metal extremo nunca precisou pedir licença para provocar ninguém. O problema é querer denunciar um fenômeno complexo utilizando, em vários momentos, argumentos que não possuem relação demonstrada com ele, generalizações que a própria banda anteriormente disse querer evitar e até uma acusação que já havia sido oficialmente afastada meses antes do lançamento.

Quando existem tantos fatos reais capazes de sustentar uma crítica, recorrer à caricatura não torna a denúncia mais pesada. Apenas a torna mais fácil de contestar.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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