Capa de novo single do Pandemmy associa Santa Catarina ao n@zi5mo e gera polêmica nas redes

Photo: Diego Cruz (Via Studio)

A banda Pandemmy, formada em Recife (PE) e na ativa desde 2009, tornou-se um dos assuntos mais comentados entre os fãs de Heavy Metal nos últimos dias. Conhecido por combinar elementos de Thrash Metal e Death Metal, o grupo possui quatro álbuns de estúdio na discografia e prepara o lançamento do single “Santa Catareich”. Antes mesmo da música chegar às plataformas digitais, entretanto, sua arte de capa desencadeou uma intensa discussão nas redes sociais.

O próprio nome da faixa já despertou reações. O título faz referência ao estado de Santa Catarina ao mesmo tempo em que incorpora a palavra “reich”, historicamente associada ao regime nazista. A ilustração mostra uma personagem loira segurando uma bíblia e um cálice, usando uma braçadeira vermelha inspirada na iconografia nazista, sentada sobre um trono formado por armas de fogo e tendo a bandeira catarinense ao fundo. O resultado foi uma avalanche de comentários, tanto de pessoas que elogiaram a proposta quanto de outras que a consideraram ofensiva.

O debate vai além da capa

Muito diferente do que parte dos comentários nas redes sociais tem sugerido, a principal discussão talvez não seja se a banda está certa ou errada em sua crítica. Dependendo da visão de mundo ou do posicionamento ideológico de cada pessoa, essa resposta inevitavelmente será diferente. A questão mais relevante parece ser outra: existe um limite que uma banda de Metal não deveria ultrapassar quando utiliza a provocação como recurso artístico?

O Metal extremo sempre conviveu com esse tipo de linguagem. Desde suas origens, bandas de Death Metal, Black Metal e até mesmo de Thrash Metal recorreram a capas, letras e imagens capazes de chocar determinados públicos. Em muitos casos, justamente esse desconforto fazia parte da proposta artística. Portanto, a utilização de elementos controversos está longe de ser uma novidade dentro do gênero.

Por outro lado, quando a provocação associa crimes, ideologias ou comportamentos a um estado inteiro, o debate ganha uma dimensão diferente. Quem aprova a capa porque concorda com a mensagem proposta pelo Pandemmy também precisa considerar que a liberdade de chocar não pertence apenas a um lado do espectro político. Se, no futuro, uma banda de Santa Catarina — ou de qualquer outro estado — decidir lançar uma capa semelhante, associando outro estado brasileiro a algum crime ou ideologia apenas para provocar, o precedente já estará estabelecido. Depois disso, dificilmente será possível defender que um caso é aceitável e o outro não. Ou esse tipo de recurso artístico vale para todos, ou não vale para ninguém.

Photo: Diego Cruz

Liberdade artística e responsabilidade

Independentemente da intenção declarada pelo Pandemmy, a composição visual pode ir além de uma crítica direcionada a um grupo político específico. A utilização do nome “Santa Catareich”, acompanhada da bandeira oficial de Santa Catarina e de símbolos amplamente associados ao nazismo, pode fazer com que a associação recaia sobre o estado como um todo. É justamente essa escolha artística que concentra boa parte das críticas dirigidas à banda. Se a proposta era retratar um determinado segmento político, muitos argumentam que a mensagem acabou atingindo indistintamente milhões de catarinenses, inclusive pessoas que não compartilham da ideologia criticada pelos músicos.

Ao mesmo tempo, quem entende que a capa deveria ser censurada também enfrenta uma contradição. A história do Heavy Metal sempre caminhou lado a lado com a defesa da liberdade de expressão artística. Hoje a censura pode atingir uma obra que agrade determinado grupo; amanhã poderá atingir outra produção por motivos completamente diferentes. Não por acaso, esse tema costuma dividir opiniões mesmo entre fãs que compartilham visões semelhantes sobre política.

E qual é a posição do Mundo Metal diante dessa situação? Nossa opinião é que cada indivíduo deve responder por seus próprios atos. Se o Pandemmy considerou apropriado lançar essa arte, os músicos naturalmente precisarão lidar com as consequências de sua decisão, sejam elas positivas ou negativas. O nazismo constitui crime no Brasil e, caso alguém entenda que a imagem extrapola os limites previstos em lei, caberá às autoridades competentes analisar a questão e à banda apresentar sua defesa. Da nossa parte, continuamos acreditando que artistas deveriam conquistar notoriedade principalmente pela qualidade de sua música. Infelizmente, nos últimos anos, diversos nomes passaram a recorrer à polêmica e à polarização como forma de atrair atenção. Cada um sabe onde o seu calo aperta.

A explicação da banda

Ao divulgar oficialmente a capa em sua página no Facebook, o Pandemmy explicou que a ilustração foi produzida por Bruno Oliveira, artista nordestino radicado em Natal (RN), e apresentou a interpretação que pretende transmitir com o trabalho.

A publicação afirma:

“Bangers, é com satisfação que vos apresentamos a arte da capa do single ‘Santa Catareich’. A ilustração foi produzida por Bruno Oliveira, artista nordestino que reside em Natal/RN.

A arte expõe o confuso conjunto de valores que se vinculam aos grupos de extrema direita e em consequência disso o caos social permitido pelo sistema político/econômico liberal em que vivemos.

‘Santa Catareich’ é uma crítica à extrema-direita brasileira, que encontra em um dos Estados do Sul do país um terreno fértil para se fortalecer socialmente e politicamente. O resultado dessa tragédia é a disseminação de ideais supremacistas e um ambiente fértil para diversos tipos de preconceitos.

Com letra 100% em português, o single ‘Santa Catareich’ será lançado no dia 11 de agosto nas principais plataformas de streaming.”

O que você pensa à respeito? Use o espaço destinado aos comentários para deixar a sua opinião sobre o tema.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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