Moyses Kolesne questiona o uso de discursos de Lemmy nas eleições, mas os argumentos são fraquíssimos

Em meio à crescente polarização política provocada pelo período eleitoral, diversos músicos brasileiros de Rock e Heavy Metal têm utilizado suas redes sociais para manifestar apoio a determinados candidatos e defender suas respectivas ideologias. Está chato, cansativo e, em muitos casos, já ultrapassou os limites do aceitável. Afinal, aqueles que ousam apresentar opiniões mais ponderadas, sem aderir automaticamente a um dos lados, frequentemente acabam transformados em alvos da milícia digital, que parece não admitir qualquer pensamento fora da cartilha.

Desta vez, quem entrou na discussão foi Moyses Kolesne, guitarrista do Krisiun, que resolveu questionar os fãs que utilizam declarações de Lemmy Kilmister, lendário líder do Motörhead, como contraponto ao evidente partidarismo de parte dos músicos brasileiros. Em uma manifestação nas redes sociais, o guitarrista argumentou que a realidade vivida pelo britânico não permite transportar suas opiniões para o contexto político nacional. Entretanto, ao analisar cuidadosamente suas palavras, encontramos contradições que merecem uma discussão mais aprofundada.

Realidades diferentes: um argumento bastante conveniente

Em sua primeira manifestação, Moyses Kolesne declarou:

“Para os metaleiros que importam discursos como o de Lemmy Kilmister sobre política (sou muito fã dele também, não se enganem) – um homem branco, britânico, moldado pela realidade do Reino Unido -, vale lembrar: essa retórica não explica nem sustenta a vivência do brasileiro em sua maioria pardo, miscigenado, colono, inserido em um país subdesenvolvido, historicamente assolado pelo extrativismo e pela corrupção. Importar esses discursos sem filtro expõe uma profunda dissimulação e dissonância cognitiva diante do vira-latismo e do falso estrangeirismo.”

É bastante conveniente tentar invalidar uma opinião recorrendo ao argumento das diferentes realidades sociais, especialmente quando esse mesmo raciocínio parece desaparecer em outras circunstâncias.

Afinal, até onde sabemos, Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, e Roger Waters, ex-integrante do Pink Floyd, também são homens moldados por contextos históricos, econômicos e culturais muito diferentes daqueles vividos pela população brasileira.

Ainda assim, seus discursos políticos encontram enorme receptividade entre músicos e fãs brasileiros, que frequentemente compartilham, aplaudem e reproduzem suas opiniões. Nesses casos, aparentemente, importar posicionamentos estrangeiros não representa qualquer problema.

Portanto, fica uma pergunta bastante simples: quando os discursos de Morello e Waters encontram afinidade com determinadas ideologias, podemos reproduzi-los sem filtros, Moyses? Ou o problema aparece apenas quando o pensamento importado contraria a preferência política de quem o escuta?

Naturalmente, compreender o contexto de uma declaração é fundamental. Entretanto, utilizar a nacionalidade, a cor da pele ou a origem social de alguém como argumento para desqualificar suas reflexões não constitui, por si só, uma refutação.

O fato de Lemmy ser branco, britânico e ter vivido outra realidade não descredibiliza seu ceticismo diante da classe política. Até porque a desconfiança em relação aos governantes não representa uma experiência exclusiva dos países desenvolvidos. Muito pelo contrário.

Lemmy não tinha compromisso com a classe política

Aqui encontramos o principal problema da argumentação de Moyses: Lemmy Kilmister não construiu sua reputação atacando exclusivamente a esquerda ou a direita. Sua postura era marcada por uma profunda desconfiança em relação aos políticos, aos governos e às estruturas de poder.

Em novembro de 2004, durante uma entrevista ao programa grego TV War, o líder do Motörhead foi bastante direto ao comentar as eleições americanas:

“Não importa em quem você vota, você invariavelmente terá um governo de merda.”

Dois anos depois, em uma entrevista ao The Pitch, o músico reafirmou sua opinião, dizendo que não gostava de nenhum governo e questionou a honestidade de quem escolhia seguir carreira política. O posicionamento não poderia ser mais claro: para Lemmy, o problema estava na própria estrutura do sistema, na conveniência dos discursos eleitorais e na facilidade com que representantes políticos mudavam de opinião para atender aos próprios interesses.

E talvez seja justamente essa independência que provoque tanto desconforto em parte dos músicos brasileiros que decidiram abraçar o discurso partidário.

Lemmy não precisava transformar suas opiniões em uma campanha permanente para defender governantes. Tinha suas convicções, falava o que pensava e não demonstrava qualquer preocupação em agradar militantes.

É difícil imaginar que aceitasse tranquilamente alguém tentando obrigá-lo a seguir determinada cartilha ideológica como vemos hoje no Brasil. Provavelmente, a resposta envolveria um belo e moral fuck off.

A história do Brasil realmente invalida o pensamento de Lemmy?

Na continuação de sua manifestação, Moyses Kolesne apresentou um panorama histórico do país para justificar suas críticas:

“Foram quase quatro séculos de escravidão, mais de um século de hegemonia da direita e décadas de ditadura militar. Em nossa história, tivemos apenas duas décadas de projetos políticos genuinamente comprometidos com a soberania nacional, o combate à fome e o fortalecimento da saúde e da educação públicas. Hoje, essas conquistas voltam a estar sob grave risco diante do avanço do extremismo evangélico fundamentalista, de políticos associados a milícias, da corrupção, da entrega dos recursos patrimoniais e do desrespeito explícito aos territórios indígenas e nativos. O alerta é urgente: o Brasil precisa acordar enquanto há tempo.”

Curiosamente, ao recorrer à história brasileira para justificar a necessidade de rejeitar o pensamento de Lemmy, o guitarrista dá um tiro no pé e acaba recorçando a tese do líder do Motörhead sobre a importância de desconfiar de quem exerce o poder.

Afinal, escravidão, regimes autoritários, exploração econômica, corrupção e perseguições políticas não ocorreram à margem das estruturas de governo. Ao contrário, muitos desses processos contaram com a participação direta de autoridades, instituições e grupos que controlavam o Estado.

Além disso, a Europa também atravessou séculos de guerras, revoluções, regimes totalitários, perseguições religiosas, conflitos territoriais e disputas ideológicas extremamente violentas. O Reino Unido, país de origem de Lemmy, tampouco esteve imune aos abusos políticos e às decisões governamentais que provocaram consequências devastadoras para diferentes populações.

E quem participou da organização, manutenção ou legitimação de grande parte desses acontecimentos? Sim, o poder político!

O brasileiro pode ter uma experiência social muito diferente daquela vivida pelo líder do Motörhead, mas isso não torna menos legítima sua desconfiança em relação aos políticos. A corrupção não muda de natureza ao atravessar uma fronteira, assim como a necessidade de cobrar transparência não desaparece porque determinado governo apresenta propostas com as quais concordamos.

A preocupação seletiva com a corrupção e os escândalos políticos

Outro ponto chama a atenção no discurso de Moyses. Para justificar seu posicionamento favorável a um determinado projeto político, o músico menciona corrupção, soberania nacional, interesses econômicos e supostas ligações de adversários com organizações criminosas. São preocupações legítimas, entretanto, tornam-se menos convincentes quando desaparecem diante dos problemas que envolvem os próprios políticos apoiados.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva possui uma trajetória política marcada por grandes escândalos de corrupção ocorridos durante governos de seu partido, além de processos judiciais e condenações. Aliás, mesmo que elas posteriormente acabaram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, é importante estabelecer a distinção jurídica: o STF anulou as condenações relacionadas reconhecendo problemas de competência judicial, mas não pela inocência de Lula. Tampouco fizeram desaparecer as delações premiadas, os milhões de reais devolvidos aos cofres públicos e não apagam os escândalos políticos que marcaram os diferentes governos.

E não, isso não significa que o outro lado da disputa mereça qualquer benefício da dúvida especial. Flávio Bolsonaro, adversário de Lula nas eleições de 2026, também enfrenta questionamentos e investigações sobre episódios de sua trajetória política, relações e acusações que ganharam destaque durante a campanha.

O problema está em exigir rigor absoluto ao examinar os adversários enquanto se oferece complacência praticamente ilimitada aos aliados.

O Heavy Metal brasileiro precisa mesmo de uma cartilha política?

Talvez o aspecto mais preocupante dessa discussão seja a crescente tentativa de estabelecer uma espécie de pensamento político obrigatório. Se essa lógica continuar avançando, o Metal brasileiro corre o risco de se transformar em um párea na cena mundial.

Caso esse patrulhamento ideológico se torne permanente, é algo absolutamente incompatível com a liberdade que tantos músicos afirmam defender. E o mais irônico é observar artistas que construíram suas carreiras exaltando a rebeldia, a resistência e a contestação ao sistema agora tratando representantes desse mesmo sistema como figuras que precisam de defesa incondicional.

A liberdade de pensamento inclui o direito de desconfiar de ambos os lados.

Por isso, seja no Brasil, no Reino Unido ou em qualquer outro lugar, a postura de cobrança, contestação e desconfiança em relação à classe política permanece necessária, independentemente do espectro ideológico.

E quando um músico tenta relativizar essa postura recorrendo à nacionalidade ou à origem social de quem a expressou, cabe perguntar se o verdadeiro incômodo está na validade do argumento ou simplesmente no fato de ele contrariar suas próprias escolhas.

Lemmy Kilmister não era um santo, um pensador infalível ou alguém acima de contradições. Mas jamais precisou da aprovação de militantes para expressar seu desprezo pelas conveniências do poder.

Portanto, Moyses, Lemmy continua sendo a voz que melhor representa o espírito contestador do Rock, quer você goste ou não.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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