Dymna Lotva: vocalista Nokt enfrenta julgamento por “terrorismo” e “extremismo” após apoiar a Ucrânia contra a Rússia

A vocalista Katsiaryna “Nokt Aeon” Mankevich, da banda bielorrussa Dymna Lotva, enfrenta um processo criminal em seu país natal que reúne acusações de “propaganda de terrorismo”, “financiamento de atividade terrorista”, “assistência a atividade extremista”, ameaça contra o presidente Alexander Lukashenko e insulto ao chefe de Estado. O caso corre à revelia, já que a cantora vive atualmente na Polônia, onde possui status de proteção internacional. O julgamento começou no Tribunal da Cidade de Minsk em 14 de agosto de 2026 e, em uma das acusações, a legislação bielorrussa prevê pena de até 12 anos de prisão.

A situação é o capítulo mais recente de uma longa sequência de problemas entre a Dymna Lotva e o governo de Lukashenko. Formada em Minsk, em 2015, por Nokt e Jaŭhien Charkasau, a banda construiu sua identidade misturando Black Metal, Doom Metal e elementos do folclore bielorrusso. O nome significa algo próximo de “Pântano em Fumaça” e remete às regiões pantanosas de Polesie, território marcado por episódios violentos ao longo da história. Os primeiros álbuns, The Land Under The Black Wings: Swamp e Wormwood, exploraram a natureza, as lendas, a cultura e episódios históricos da Bielorrússia. Já o terceiro, The Land Under The Black Wings: Blood, lançado em 2023, incorporou de maneira mais direta experiências relacionadas à repressão e à guerra.

Dos protestos nas ruas ao exílio

A relação do grupo com a política mudou profundamente após a contestada eleição presidencial de 2020. Nokt, Jaŭhien e os demais integrantes participaram dos protestos contra Lukashenko, enquanto a banda também utilizou sua música para abordar a repressão no país. Segundo os próprios músicos, promotores começaram a receber pressão para retirá-los de eventos e ameaças de consequências caso mantivessem suas apresentações. Assim, diante do risco crescente, membros da Dymna Lotva passaram a morar em locais onde não estavam oficialmente registrados para dificultar sua localização pelas autoridades.

A saída da Bielorrússia, porém, não encerrou o período de tensão. Em agosto de 2021, os músicos estabeleceram-se em Irpin, na Ucrânia, mas poucos meses depois enfrentaram a invasão russa iniciada em fevereiro de 2022. O grupo ficou preso por aproximadamente duas semanas durante a ocupação da região e posteriormente conseguiu escapar, seguindo para a Polônia. Nokt, Jaŭhien e o guitarrista Mikita Stankevich receberam proteção internacional no país ainda em 2022.

Foi no exílio que a Dymna Lotva retomou suas atividades, lançou The Land Under The Black Wings: Blood pela Prophecy Productions e voltou aos palcos. A formação atual também conta com o baterista polonês Bocian, nome artístico de Wojciech Muchowicz. Mais recentemente, em 7 de agosto de 2026, o grupo lançou seu quarto álbum, Vyraj, mantendo como base o Black Metal e o Post-Black Metal. Eles também ampliaram a sonoridade com referências de Doom Metal, Heavy Metal, Metal Progressivo, música eletrônica, Goth e música folclórica.

Músicas da Dymna Lotva entram na lista de “materiais extremistas”

Mesmo longe da Bielorrússia, os integrantes continuaram na mira das autoridades. Em novembro de 2025, sete músicas da Dymna Lotva disponibilizadas no YouTube foram classificadas oficialmente como “materiais extremistas”. Entre elas estavam conteúdos ligados à defesa da identidade bielorrussa, críticas à repressão e manifestações de apoio à Ucrânia. O PEN Belarus, organização dedicada à liberdade de expressão e aos direitos de artistas e escritores, confirmou a inclusão das obras na lista de materiais proibidos.

A medida também criou preocupação em relação aos fãs que permanecem no país. Nokt alertou que pessoas que compartilharam, comentaram ou interagiram com os vídeos poderiam enfrentar consequências judiciais. Em entrevista à Metal Hammer, a cantora afirmou que até uma interação com esse material poderia colocar cidadãos bielorrussos em risco. A classificação das obras faz parte de uma política mais ampla do governo contra conteúdos considerados “extremistas”.

O caso da Dymna Lotva aparece em um cenário maior de repressão cultural. Em junho de 2026, o relator especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos na Bielorrússia, Nils Muižnieks, denunciou o aumento da pressão sobre artistas, escritores e outros representantes da cultura. Especialistas da ONU também manifestaram preocupação com o uso das legislações antiterrorismo e antiextremismo contra pessoas acusadas por atividades relacionadas à expressão política, associação e manifestação.

O processo contra Nokt

Em 8 de junho de 2026, o Comitê de Investigação da Bielorrússia abriu um procedimento especial contra Nokt, mecanismo que permite que processos avancem mesmo quando o acusado se encontra fora do território bielorrusso. A vocalista, que também integra o projeto Hangover In Minsk, passou a responder a cinco dispositivos diferentes do Código Penal.

Ao divulgar o caso, a Dymna Lotva publicou a lista completa das acusações e adicionou, entre parênteses, sua própria explicação para aquilo que considera ter motivado cada uma delas:

Parte 1 do Artigo 289-1 — Propaganda de terrorismo (por apoiar publicamente o Exército ucraniano e voluntários bielorrussos que defendem a Ucrânia) — pena de até 3 anos de prisão;

Parte 1 do Artigo 290-1 — Financiamento de atividade terrorista (por fazer doações e arrecadar dinheiro para o Exército ucraniano e voluntários bielorrussos que defendem a Ucrânia) — pena de até 12 anos de prisão;

Partes 1 e 2 do Artigo 361-4 — Assistência a atividade extremista (por participar de protestos contra a ditadura) — pena de até 7 anos de prisão;

Artigo 366-1 — Violência ou ameaça de violência, destruição ou dano à propriedade contra Lukashenko (por causa de um boneco de vodu do ditador 😁😁😁) — pena de até 9 anos de prisão;

Parte 1 do Artigo 368 — Insulto a Lukashenko (por dizer a verdade) — pena de até 4 anos de prisão.”

Na sequência, a banda informou:

“Ela foi intimada a comparecer perante o Comitê de Investigação do Distrito Soviético de Minsk. Hahah, sério mesmo? 🤣

A audiência judicial está marcada para 14 de agosto.”

A declaração foi publicada antes da data da audiência. Em 14 de agosto, o Tribunal da Cidade de Minsk efetivamente iniciou o julgamento à revelia. Em uma atualização publicada em 17 de agosto, o PEN Belarus registrou o começo do processo e classificou o caso como politicamente motivado, mas não informou a existência de uma sentença até aquele momento.

Nokt: “Talvez o regime queira tornar o extreme metal extremo novamente?”

Diante das acusações, Nokt respondeu publicamente e relacionou diretamente o processo à participação nos protestos e ao apoio à Ucrânia. A vocalista também ironizou a gravidade das imputações ao comparar sua situação com as frequentes discussões sobre o suposto enfraquecimento da postura contestadora do Metal e do Black Metal.

Em sua declaração, ela afirmou:

“As pessoas dizem que hoje em dia o Metal, incluindo o Black Metal, ficou seguro e comportado demais. Beleza, então segura minha cerveja — estou sendo acusada com base em cinco artigos do Código Penal da Bielorrússia, incluindo acusações de ‘atividade extremista’ e ‘financiamento do terrorismo’. Posso ser condenada a até 12 anos de prisão! Será que o regime de Lukashenko quer tornar o Extreme Metal extremo novamente?”

Apesar do tom sarcástico, Nokt tratou a motivação do caso de maneira direta:

“Agora falando sério, esse processo criminal é 100% motivado politicamente e está relacionado à minha participação nos protestos e ao meu apoio à Ucrânia. É até lisonjeiro saber que, seis anos depois dos protestos e cinco anos depois de eu ter deixado a Bielorrússia, o regime ainda está de olho no que estamos fazendo. Isso confirma que estamos no caminho certo e nos motiva a continuar.”

A interpretação apresentada pela cantora encontra paralelo nas avaliações de organizações de direitos humanos que acompanham a situação do país. O PEN Belarus incluiu o processo contra Nokt entre os casos envolvendo repressão a representantes da cultura, enquanto especialistas das Nações Unidas vêm criticando o emprego das categorias de “terrorismo” e “extremismo” contra manifestações não violentas de dissidência e expressão política na Bielorrússia.

Proteção na Polônia e o risco de confisco de bens

Por viver fora da Bielorrússia, Nokt não compareceu ao processo em Minsk. A cantora possui proteção internacional na Polônia, condição concedida em razão da perseguição sofrida em seu país de origem. Ainda assim, um julgamento à revelia pode gerar consequências dentro do território bielorrusso, incluindo medidas patrimoniais e a manutenção da musicista em listas de procurados. O PEN Belarus registra Katsiaryna Mankevich entre os músicos procurados pelas autoridades; devido a acordos entre Bielorrússia e Rússia, essa condição também pode ampliar os riscos de detenção em território russo.

A própria vocalista comentou a situação com humor:

“Quero pedir aos nossos fãs que não se preocupem comigo. Na Polônia, tenho status legal de proteção internacional devido à perseguição política. Na Bielorrússia, como resultado desse julgamento, meus bens poderiam ter sido confiscados — se eu tivesse algum. Gastar todo o meu dinheiro com música acabou sendo uma ótima ideia!”

Por fim, Nokt encerrou sua mensagem dirigindo-se diretamente ao órgão responsável pelo processo:

“E ao Comitê de Investigação do Distrito Sovetsky de Minsk, eu gostaria de dizer:

Beijem a minha bunda extremista.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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