Wolf Hoffmann alerta para os impactos da inteligência artificial sobre a música e a arte

Créditos: Rudy De Doncker

O guitarrista Wolf Hoffmann, do Accept, comentou o avanço da inteligência artificial na criação musical e artística em entrevista a Jorge Botas, do Metal Global, de Portugal. Para o músico, embora a tecnologia represente um desenvolvimento inevitável, sua capacidade de produzir músicas, textos, imagens e outras obras com qualidade cada vez maior provoca preocupação. Especialmente sobre o futuro dos artistas humanos e sobre o próprio significado de criar arte.

“É assustador, cara. Acho que é um desenvolvimento necessário, porque todos nós sabíamos que isso chegaria um dia, e aqui está agora. Mas, ao mesmo tempo, eu gostaria… Quer dizer, sempre crescemos pensando que a arte só poderia ser feita por humanos. Mas agora os limites ficam realmente confusos, principalmente porque a qualidade é simplesmente impressionante. Algumas coisas que saem da IA são tão boas, seja em filmes, textos, fotos ou, é claro, obras de arte. Algumas delas parecem incríveis, mas isso certamente não ajuda na ideia de: ‘Ei, mãe e pai, quero ser artista’, porque eles vão dizer em breve: ‘Qual é o sentido?’”

Hoffmann também comparou a facilidade proporcionada pela tecnologia com as dificuldades enfrentadas por músicos de sua geração.

“Hoje em dia alguém pode simplesmente dizer: ‘Sabe de uma coisa? Não vou me dar ao trabalho. Vou apertar um botão no meu laptop e sou um artista. Aí está a música. Pronto. Não preciso mais aprender um instrumento.’ E isso é um pensamento assustador.”

A reflexão, porém, abre um debate mais amplo: devemos preservar exclusivamente a criatividade natural dos artistas ou considerar o uso da inteligência artificial como uma nova manifestação de arte? As respostas estão longe de ser consensuais.

O risco de uma indústria sem artistas?

A preocupação do guitarrista aumenta quando a tecnologia entra no mercado musical.

“Sim, soa muito, muito bem. E em que momento as gravadoras vão dizer: ‘Sabe de uma coisa? Não precisamos contratar nenhum artista. Não precisamos contratar o Accept. Não precisamos contratar nenhuma banda de verdade, porque simplesmente geramos a música, criamos um artista falso e vendemos isso’? Não sei. Será que isso vai ser algo do futuro, em que as pessoas comprarão discos de IA? Ou talvez não comprem mais nada. Não sei. Talvez tudo seja gratuito.”

Créditos: Facebook do Accept

Além da discussão artística, entretanto, o uso irresponsável da ferramenta já levanta outro problema: conteúdos falsos podem atribuir músicas, imagens, declarações ou acontecimentos a artistas que jamais tiveram qualquer envolvimento com eles. Hoffmann defendeu regulamentações mais fortes para proteger o trabalho dos músicos e comparou o atual cenário ao impacto provocado pelo Napster.

“A tecnologia está tão à frente que ainda não temos realmente as respostas para tudo isso. [Os legisladores] são lentos demais. Quando começam a pensar em como lidar com coisas assim, elas já estão completamente estabelecidas. É muito parecido com o que aconteceu quando o Napster surgiu. Levou anos para encontrar uma regulamentação para aquilo.”

O palco ainda pertence aos músicos

Apesar das incertezas, Hoffmann acredita que existe algo que a tecnologia ainda não consegue reproduzir integralmente: a experiência de um show real.

“A única coisa boa é que você não consegue realmente falsificar shows ao vivo ainda. Para assistir a um concerto ou se você quiser ir a um show do Accept, ainda existem cinco caras que precisam viajar, montar seus equipamentos e tocar ao vivo na sua frente. E não acho que isso vá mudar tão cedo, a menos que você entre nessa coisa de falso — como é que se chama? — holograma. Tenho certeza de que isso estará aqui em pouco tempo, mas não acho que haverá um holograma do Accept tão cedo.”

A discussão, portanto, vai muito além de decidir se a inteligência artificial é “boa” ou “ruim”. A tecnologia pode funcionar como instrumento criativo, mas também exige responsabilidade para evitar falsificações, exploração do trabalho alheio e a substituição indiscriminada de artistas. Enquanto esse debate continua, Wolf Hoffmann mantém sua preocupação diante de um cenário que muda rapidamente. Justamente no momento em que o Accept celebra 50 anos de carreira com o álbum “Teutonic Titans 1976–2026”, lançado em 4 de setembro pela Napalm Records. O novo álbum reúne cerca de 50 convidados em 19 versões revisitadas de clássicos da banda.

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