Turnê vira pesadelo: três bandas da Indonésia ficam presas na Irlanda após produtora desaparecer

Às vezes, diante de determinadas histórias envolvendo produtores de shows, dá aquela impressão de que certas pataquadas são uma exclusividade brasileira. Contratos que não são cumpridos, hotéis que misteriosamente não foram pagos, transporte que desaparece, apresentações canceladas na última hora e músicos estrangeiros tentando entender onde se meteram. Porém, o que aconteceu nos últimos dias com três bandas da Indonésia mostra que aventureiros existem dos dois lados do Atlântico.
Aliás, para quem acompanha o underground brasileiro, é praticamente impossível conhecer a história de Deadsquad, Jasad e Death Vomit sem lembrar do desastre envolvendo a M.A.D. Produtora, em março de 2025. O M.A.D. Metal Fest, programado para os dias 8 e 9 daquele mês, em São Paulo, acabou cancelado praticamente em cima da hora. Tudo aconteceu após o encerramento abrupto das atividades da empresa e um aparente surto do proprietário. O caso chegou ao absurdo de integrantes do Yoth Iria desembarcarem no Aeroporto de Guarulhos sem ninguém para recebê-los, sem hotel pago, alimentação ou mesmo um show para realizar. Outras atrações também precisaram reorganizar compromissos às pressas. Dark Funeral e Besatt, por exemplo, conseguiram manter uma apresentação em São Paulo através de uma nova produção.
Agora troque o Brasil pela Irlanda, a M.A.D. Produtora pela Diablo Productions e coloque três bandas de Metal Extremo da Indonésia no meio da confusão. O resultado é uma história assustadoramente parecida.
Deadsquad, Jasad e Death Vomit estavam em turnê pela Europa

As três bandas viajavam pela Europa como parte da Cataclysmic Tour 2026. A sequência de apresentações deveria continuar normalmente no domingo, 16 de agosto, quando Deadsquad, Jasad e Death Vomit tocariam no Pavilion, em Cork, na Irlanda.
Foi aí que os problemas começaram a aparecer publicamente.
A apresentação em Cork acabou cancelada e, inicialmente, a Diablo Productions alegou que havia ocorrido “um problema inesperado com a van”. Entretanto, aquilo estava longe de representar toda a dimensão da confusão. No dia seguinte, 17 de agosto, as bandas deveriam seguir para Londres, onde fariam um show no tradicional The Underworld, em Camden. Essa apresentação também caiu.
Segundo o relato conjunto dos músicos, a produtora não cumpriu uma série de compromissos previamente acertados. Isso envolveu transporte, hospedagem e organização dos locais onde os concertos aconteceriam. Pior: de acordo com as bandas, depois que os problemas começaram, a Diablo Productions simplesmente deixou de responder às tentativas de contato.
Em comunicado, os três grupos disseram que tentaram solucionar a situação internamente e mantiveram uma postura colaborativa durante todo o processo. Ainda assim, classificaram o que ocorreu como demonstração de falta de preparação, organização, comunicação e profissionalismo.
“Nós nos sentimos seriamente enganados e abandonados pela Diablo Productions”, afirmaram os músicos, que decidiram tornar o caso público também como alerta para outros artistas e profissionais da cena extrema internacional.
O The Underworld nem sequer havia sido pago
A situação ganhou contornos ainda mais absurdos quando o próprio The Underworld se manifestou.
A tradicional casa de shows de Londres informou que a Diablo Productions não havia efetuado o pagamento necessário para a realização do evento e que também não conseguia mais contato com a empresa. Ou seja, não se tratava apenas de uma dificuldade momentânea de transporte entre Irlanda e Inglaterra.
Segundo o relato publicado pelo local, a negociação para o concerto simplesmente não havia sido concluída como deveria.
O The Underworld aproveitou o episódio para criticar aquilo que chamou de produtores “rogue/cowboy”, expressão utilizada no Reino Unido para descrever operadores irresponsáveis ou pouco profissionais. A casa ainda ressaltou que shows podem vender abaixo das expectativas, mas decisões precisam acontecer em comum acordo entre todas as partes e com antecedência razoável.
Enquanto isso, Deadsquad, Jasad e Death Vomit continuavam na Irlanda, sem a estrutura logística que deveria levá-los ao próximo compromisso da excursão.
Até o momento da publicação das informações pelas revistas Metal Injection e Metal Hammer, a Diablo Productions não havia apresentado uma resposta pública às acusações feitas pelas bandas e pelo The Underworld.
Então apareceu Ailsa Dempsey
É justamente neste ponto que a história deixa de ser apenas mais um relato sobre irresponsabilidade no mercado de shows.
Com três bandas estrangeiras e sua equipe presas na Irlanda, alguém decidiu fazer aquilo que, teoricamente, deveria ter sido responsabilidade de quem organizava a turnê.
A irlandesa Ailsa Dempsey abriu as portas de sua própria casa para receber músicos e integrantes da equipe. Não estamos falando de duas ou três pessoas: são 16 pessoas hospedadas por ela enquanto todos tentam encontrar uma maneira de retomar a excursão.
“Quando Deadsquad, Jasad e Death Vomit ficaram presos aqui na Irlanda, abri minha casa para receber os 16”, explicou Ailsa ao apresentar a campanha criada no GoFundMe.
Depois de acompanhar de perto aquilo que os músicos estavam enfrentando, ela decidiu ir além da hospedagem emergencial e criou uma arrecadação para colocar as bandas novamente na estrada.
O próximo desafio é chegar a Eindhoven
O objetivo imediato é levar músicos e equipe até Eindhoven, na Holanda, onde a Cataclysmic Tour 2026 tem uma apresentação programada para 20 de agosto.
Sem o suporte prometido anteriormente, os integrantes passaram a ter que arcar com voos e transporte terrestre até os aeroportos — despesas que, segundo a campanha, estavam originalmente previstas dentro da estrutura fornecida pela produtora.
Por isso, Ailsa Dempsey lançou uma arrecadação com meta inicial de 10 mil euros, destinada principalmente às passagens e aos deslocamentos necessários para tirar as 16 pessoas da Irlanda e colocá-las novamente na rota da turnê.
No momento da consulta feita pelo Mundo Metal, a campanha contabilizava 5.577 euros, provenientes de 119 doações, e aparecia com novas contribuições temporariamente pausadas.
A notícia mais importante, entretanto, é que a excursão não foi abandonada. A partir da apresentação em Eindhoven, a organização do restante da Cataclysmic Tour 2026 ficará sob responsabilidade da DF Bookings, empresa que agora trabalha para recolocar os grupos no itinerário planejado.
“Cada contribuição ajuda a fechar o buraco deixado por um produtor que não cumpriu a sua parte”, resumiu Ailsa Dempsey ao explicar a urgência da arrecadação.
E talvez essa seja a parte mais inacreditável de toda a história. Quando uma produtora falhou em garantir transporte, hospedagem e compromissos básicos de uma turnê internacional, uma pessoa que sequer deveria ser responsável por solucionar o problema colocou 16 músicos e profissionais dentro da própria casa, criou uma campanha e começou a organizar uma saída.
Se o plano funcionar, Deadsquad, Jasad e Death Vomit estarão em Eindhoven no dia 20 de agosto para continuar a turnê. Depois de tudo o que aconteceu na Irlanda, chegar ao palco já será uma pequena vitória.
