Tom Morello defende músicos politizados, mas ignora uma questão fundamental: eles realmente sabem do que estão falando?

Ao longo de sua carreira, Tom Morello nunca escondeu suas convicções políticas. Seja à frente do Rage Against The Machine, em sua trajetória solo ou em entrevistas, o guitarrista sempre utilizou a música como ferramenta de ativismo. Em uma nova conversa à Metal Hammer, Morello voltou a defender que artistas não apenas têm o direito de se manifestar politicamente, como também possuem a responsabilidade de fazê-lo em tempos que ele considera perigosos.

Segundo o músico, o silêncio abre espaço para o avanço do autoritarismo. “Todo ato artístico é um ato de resistência. Toda canção cantada é um farol de luz na escuridão que se aproxima, e toda verdade dita é, esperançosamente, como um sino que toca para as pessoas que serão responsáveis por acabar com essa loucura”, afirmou.

Morello também criticou aqueles que defendem que músicos não deveriam se envolver com política, classificando essa posição como hipócrita e uma tentativa de restringir a liberdade de expressão de artistas.

O argumento em defesa da liberdade de expressão possui mérito. Afinal, qualquer cidadão tem o direito de manifestar suas opiniões, independentemente da profissão que exerça. O problema é que a discussão não termina aí. Em nenhum momento Morello aborda uma questão igualmente importante: ter liberdade para opinar não significa necessariamente possuir conhecimento suficiente para falar sobre determinado assunto de forma responsável.

Política, economia, geopolítica e questões sociais são temas complexos que exigem estudo, leitura e análise constante. Quantos artistas que se posicionam diariamente sobre esses assuntos realmente se dedicaram a compreender profundamente aquilo que defendem? Quantos leram autores de diferentes correntes de pensamento antes de emitir opiniões categóricas? E quantos apenas repetem discursos populares, slogans de redes sociais ou posicionamentos que estão em evidência naquele momento?

Liberdade de expressão não substitui conhecimento

Essa questão se torna ainda mais relevante quando lembramos do alcance que músicos possuem. Diferentemente de um cidadão comum, artistas frequentemente exercem influência sobre milhões de pessoas. Muitos fãs acompanham suas opiniões com a mesma admiração dedicada à sua obra. Isso cria uma responsabilidade adicional. Quando uma figura pública fala sobre música, ela está atuando dentro de sua área de especialização. Quando passa a comentar temas extremamente complexos sem o devido aprofundamento, entra em um terreno muito mais nebuloso.

Durante a entrevista, Morello declarou: “Você presta um desserviço a si mesmo e à sua época quando censura quem você é dentro da sua arte”. A frase certamente encontrará apoio entre seus admiradores. Porém, existe outro lado da moeda: também é possível prestar um desserviço ao debate público quando opiniões influentes são apresentadas sem o embasamento necessário. Liberdade de expressão e responsabilidade intelectual não são conceitos opostos; na verdade, deveriam caminhar juntos.

Há ainda um aspecto prático que muitos artistas preferem ignorar. Vivemos uma época marcada por intensa polarização. Ao transformar constantemente sua plataforma artística em um palanque político, um músico inevitavelmente divide seu público. Isso não significa que ele deva permanecer em silêncio, mas apenas que cada posicionamento carrega consequências. No fim das contas, cada artista é livre para decidir qual caminho seguir. O que talvez merecesse mais atenção é a diferença entre ter algo a dizer e simplesmente sentir a necessidade de dizer alguma coisa.

Abaixo as falas completas de Tom Morello:

“Sim. Com certeza. Especialmente no meu país, nestes tempos perigosos, em que há tanta supressão de ideias, censura de livros e artistas sendo cancelados por suas opiniões políticas, que simplesmente se manifestar exige coragem… A coragem é contagiosa, e quando artistas defendem suas convicções contra o… Nós temos um presidente que pessoalmente vai atrás de você e envia o Departamento de Justiça contra você se você se posicionar contra o seu regime. Isso acaba intimidando muitas pessoas e fazendo com que elas deixem de dizer o que pensam. Mas o momento em que você fica em silêncio é o momento em que o autoritarismo vence, é o momento em que o fascismo avança mais alguns passos. Por isso, todo ato artístico é um ato de resistência. Toda canção cantada é um farol de luz na escuridão que se aproxima, e toda verdade dita é, esperançosamente, como um sino que toca para as pessoas que serão responsáveis por acabar com essa loucura.'”

Questionado sobre o que diria às pessoas que insistem que “Metal não deveria ser político”, Morello respondeu:

“‘Bem, quando as pessoas dizem que músicos não deveriam se envolver com política, isso significa que elas discordam da sua política. No momento em que você escreve uma música que concorda com as opiniões delas, de repente elas passam a apoiar isso. Então, primeiro, é muito hipócrita. E, segundo, eu também penso: por que você deveria abrir mão do seu direito à liberdade de expressão no trabalho que faz? Porque isso ofende alguém? Eu acho que o oposto é o que realmente é verdade. Acho que você presta um desserviço a si mesmo e à sua época quando censura quem você é dentro da sua arte. E não estou falando apenas de músicos. Acho até estranho isolar os músicos como se fossem uma categoria à parte, do tipo: “Ah, eles não deveriam dizer nada”. Eu penso que, no seu trabalho como jornalista musical, no seu trabalho como empresário de turnê ou até mesmo como motorista de ônibus, seja qual for a sua profissão, você não deveria deixar para trás quem você é e no que acredita. E, como eu disse, existe uma camada extra e escaldante do inferno reservada para pessoas que, em tempos de grande injustiça, censuram a si mesmas e permanecem caladas quando deveriam ter se manifestado, apenas porque têm medo de algum troll da internet.'”

Sobre se acredita que músicas com mensagens políticas podem realmente mudar alguma coisa, Tom declarou:

“‘Essa é uma questão mais ampla: a música pode causar impacto? As canções podem mudar o mundo? Bem, eu só posso falar da minha experiência pessoal. A música me mudou. A música ajudou a formar a pessoa que eu me tornei. E toda vez que estou em uma linha de piquete ou envolvido em algum trabalho ativista, isso acontece em parte por causa do Public Enemy e do The Clash. Eu percebi que era possível ser músico e… Não se trata de dizer: ‘Vote neste candidato específico’ ou ‘Defenda esta causa específica’. Trata-se de ser um farol que mostra que você não está sozinho. Você pode ter a sensação de que algo está errado com o mundo, que as coisas não fazem sentido. Talvez você nem acompanhe o The New York Times todos os dias ou qualquer outra fonte de notícias, mas quando ouvi músicos como Chuck D e Joe Strummer expressando suas opiniões — pessoas vindas de Staten Island e de Londres, com origens muito diferentes da minha — eles entendiam que a opressão era algo ruim, que enfrentar a opressão era algo bom, e faziam isso com guitarras e toca-discos. Isso me fez pensar: “Sabe de uma coisa? Eu vivo em uma cidade onde muitas pessoas têm opiniões muito diferentes das minhas, mas eu não estou sozinho.” E essa é uma das razões pelas quais acredito que, seja na música do Rage Against The Machine, no meu trabalho solo ou nas minhas colaborações com Serj Tankian e com o meu filho Roman, é importante, primeiro, não deixar para trás quem você é naquilo que faz e, segundo, saber que cada música pode ser como um farol de esperança para alguém.'”

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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