Shamangra é cover? Declaração de Luis Mariutti reacende debate, mas a resposta segue a mesma.

Explorar a nostalgia virou um dos negócios mais lucrativos do Metal

A nostalgia se transformou em um dos mercados mais lucrativos da música pesada mundial. De turnês comemorativas a reuniões clássicas, bandas de diversos estilos perceberam que revisitar momentos históricos da própria carreira é uma maneira extremamente eficiente de mobilizar fãs e gerar receita. Hoje é comum ver artistas executando discos clássicos na íntegra, recriando turnês antigas ou trazendo integrantes históricos de volta aos palcos para despertar a memória afetiva do público.

No Brasil, poucas cenas representam tão bem essa cultura quanto o chamado “Angraverso”. A constante troca de integrantes no Angra ao longo das décadas acabou criando uma série de projetos paralelos, bandas derivadas e carreiras solo conectadas diretamente ao legado do grupo. Alguns desses projetos nasceram com forte identidade autoral, como o Shaman, fundado por Andre Matos, Luis Mariutti, Hugo Mariutti e Ricardo Confessori após a saída do trio do Angra no início dos anos 2000. Outros seguiram uma linha mais voltada ao revival, apostando justamente na nostalgia como principal combustível artístico e comercial.

O próprio Edu Falaschi transita entre esses dois universos. Embora mantenha uma carreira solo com material inédito, o vocalista também construiu turnês extremamente bem-sucedidas revisitando fases clássicas do Angra, executando discos como “Rebirth” e “Temple of Shadows” na íntegra. Em alguns casos, o nível de recriação foi tão específico que chegou a incluir até mesmo a reprodução da antiga turnê de “Rebirth” que gerou o ao vivo “Rebirth World Tour”.

Foto: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia

O argumento de Luis Mariutti contra o rótulo de “cover”

Dentro desse cenário surgem projetos como o All Metal Stars, idealizado como homenagem ao legado de Andre Matos, e também o Shamangra, grupo que reúne Luis Mariutti e Hugo Mariutti em apresentações focadas em clássicos do Angra e do Shaman. E foi justamente esse projeto que voltou ao centro das discussões nos últimos dias após Luis Mariutti rebater críticas que classificam a banda como “cover”.

Nas redes sociais, o baixista argumentou que o repertório atual do Shamangra inclui músicas nas quais ele próprio compôs integralmente as linhas de baixo. Luis também destacou a participação criativa de Hugo Mariutti nas composições executadas pelo grupo, levantando a seguinte provocação: “É cover quando você criou as linhas originais?”.

O questionamento parece válido à primeira vista, principalmente considerando a importância histórica de Luis dentro da construção sonora do Angra clássico. O problema é que a discussão não gira em torno de quem criou determinadas linhas instrumentais, mas sim de quem representa oficialmente a obra e quem compôs as músicas. E é justamente aí que o argumento começa a perder força.

Afinal, o Shamangra é ou não uma banda cover?

As músicas executadas pelo Shamangra não foram lançadas em um álbum solo de Luis Mariutti. Elas pertencem oficialmente ao catálogo do Angra ou do Shaman. Isso significa que, independentemente da participação criativa de integrantes individuais, qualquer execução dessas obras fora das bandas originais inevitavelmente entra no território do cover.

O próprio funcionamento do projeto deixa isso evidente. O(s) vocalista(s) do Shamangra interpreta(m) linhas originalmente criadas por Andre Matos. O baterista executa arranjos criados por Ricardo Confessori. Os guitarristas reproduzem arranjos históricos conhecidos pelos fãs há décadas e de autoria de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. Mesmo que Luis tenha criado todas as linhas de baixo e Hugo tenha ajudado a compor as músicas do Shaman, em essência, trata-se exatamente do conceito de uma banda cover: músicos reinterpretando repertório associado a outra entidade artística.

O exemplo de Dave Mustaine ajuda a explicar a situação

Existem exemplos internacionais que ajudam a esclarecer essa diferença de maneira bastante objetiva. Dave Mustaine participou diretamente da composição de músicas clássicas do Metallica antes de fundar o Megadeth. Ainda assim, quando o Megadeth gravou “Ride the Lightning” em seu último álbum, a faixa foi oficialmente creditada como “Metallica cover”. O motivo é simples: mesmo tendo participado da composição, Mustaine não representa o Metallica enquanto entidade artística. Assim como Luis não representa mais o Angra ou o Shaman.

A mesma lógica vale para Bruce Dickinson tocando músicas do Iron Maiden em carreira solo. Ainda que ele ainda seja o vocalista da banda e tenha ajudado a compor parte dessas canções ou até mesmo as canções inteiras — e este nem é o caso de Luis, já que o músico não é creditado como compositor nas músicas do Angra —, continuam sendo covers quando executadas fora do contexto oficial da banda.

A diferença entre tocar a própria obra e revisitar o passado

Essa distinção ajuda a entender por que o atual Angra não é considerado uma banda cover ao tocar “Carry On”, mesmo sem contar com a formação clássica responsável pela gravação original. O grupo continua sendo oficialmente o Angra. Portanto, Felipe Andreoli não está “fazendo cover” ao executar músicas da própria banda ao qual faz parte.

Por outro lado, quando Edu Falaschi sobe ao palco com sua banda solo para tocar “Nova Era” — música de sua autoria —, a situação muda completamente. Por mais legítima e emocionalmente conectada que seja aquela interpretação, trata-se tecnicamente de um cover do Angra. E isso não diminui em absolutamente nada o valor artístico ou afetivo da apresentação.

Talvez esse seja justamente o principal ponto ignorado em toda essa discussão: ser uma banda cover está sendo encarado como ofensa. O mercado da nostalgia existe porque há demanda. Existe público interessado em reviver determinadas épocas, ouvir músicas clássicas ao vivo e reencontrar artistas ligados emocionalmente a essas obras. Em muitos casos, esses projetos lamentavelmente movimentam mais interesse do que trabalhos inéditos.

Existe uma saída para o Shamangra deixar de ser chamado de cover?

O problema surge quando existe uma tentativa de negar aquilo que claramente define o próprio projeto. O Shamangra nasceu justamente da força nostálgica envolvendo o legado de Angra e Shaman. E não há nada de errado nisso, apesar de uma grande parcela dos fãs não gostarem da exploração do catálogo feita dessa maneira.

Curiosamente, existe uma maneira bastante simples de encerrar definitivamente essa discussão: reativar oficialmente o Shaman.

Luis Mariutti e Hugo Mariutti são membros originais e fundadores da banda. Caso o grupo voltasse oficialmente às atividades com material inédito e uma formação estável, dificilmente alguém classificaria suas apresentações como “cover” ao executar músicas do próprio catálogo.

Mas talvez exista um obstáculo importante por trás disso tudo. Desde o primeiro fim do Shaman, circula nos bastidores a percepção de que o nome da banda pertence a Ricardo Confessori. Embora nunca tenha havido uma explicação pública completamente detalhada sobre os direitos envolvendo a marca, essa possibilidade ajuda a entender por que projetos atuais utilizam nomes alternativos em vez de simplesmente ressuscitar oficialmente o Shaman.

No fim das contas, a discussão talvez nunca tenha sido realmente sobre cover, mas sobre propriedade artística. No caso de Luís, goste ele ou não, a propriedade da obra está em outras mãos.

Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
1 comentário
  • e facil de resolver essa situaçao e so apenas luis tocar a parte de baixo dele sem os outros instrumentos aew deixa de ser banda cover haha,o cara pegou ar demais agora povo vai classicar como cover e uma de fato famosa banda de cover de luxo.

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