Sepultura: “Não acho que temos força para fazer oito turnês de despedida, mas quem sabe?”, diz Andreas

Ao longo das últimas décadas, as chamadas turnês de despedida se tornaram um fenômeno recorrente dentro do Rock e do Heavy Metal. Em teoria, elas representam o encerramento de ciclos históricos, oferecendo aos fãs a última oportunidade de ver seus ídolos ao vivo. No entanto, na prática, nem sempre esse adeus é definitivo — e é justamente aí que mora o problema.
Com frequência, essas turnês carregam um forte apelo emocional que impulsiona vendas de ingressos, muitas vezes com preços inflacionados. Além disso, servem para reacender o interesse em bandas que já não vivem seu auge criativo, explorando a nostalgia como principal combustível. O resultado? Um desgaste considerável do próprio conceito de “despedida”.
Diversos nomes ajudaram a esvaziar o peso dessa palavra. Manowar, Scorpions, Kiss e até o Slayer já protagonizaram anúncios de encerramento seguidos de retornos — alguns, inclusive, mais de uma vez. Outros casos recentes, como os retornos de Rush e Twisted Sister, reforçam ainda mais essa percepção de que “despedida” pode ser apenas uma pausa estratégica.

A desconfiança em torno do Sepultura
Diante desse histórico, não surpreende que a turnê final do Sepultura, intitulada “Celebrating Life Through Death”, tenha sido recebida com certo ceticismo desde o início. Ainda assim, o grupo brasileiro conseguiu algo raro: voltou ao centro das atenções globais, ocupando palcos de grandes festivais e lotando casas de show ao redor do mundo.
Entretanto, à medida que o tempo passou, dúvidas começaram a surgir. Afinal, seria mesmo o fim? Ou apenas mais um capítulo dentro da já desgastada tradição das despedidas não tão definitivas assim?
Agora, uma nova declaração de Andreas Kisser joga ainda mais lenha nessa fogueira.
Em entrevista ao programa Metal On Tap, Andreas Kisser foi direto ao abordar a possibilidade de o Sepultura voltar a se apresentar no futuro — mesmo após o encerramento oficial das atividades. Sua fala não deixa margem para interpretações otimistas para quem esperava um fim definitivo:
“Cara, eu não descarto nada. É irrelevante dizer se [a aposentadoria] vai ser para sempre ou se vamos voltar. O importante é que vamos parar agora. Precisamos desse descanso, porque organizamos tudo em torno disso. Precisamos do nosso tempo — precisamos de tempo para olhar para outras direções.
O Sepultura não vai morrer. Quer dizer, o Motörhead está mais vivo do que nunca… infelizmente não temos mais as turnês, mas o Motörhead estará conosco para sempre. Então vamos explorar territórios diferentes e tal. E o futuro, vamos lidar com ele quando chegar. As possibilidades estão sempre abertas. Não acho que temos força para fazer oito turnês de despedida, mas quem sabe? [risos] Quero dizer, você vê Scorpions, vê Ozzy Osbourne, vê Kiss, Mötley Crüe, Slayer… Está tudo bem descansar e sair um pouco. Isso é saudável, porque mostra que a arte não está realmente ligada a um estereótipo do que você deve ser aos olhos dos outros.”
A fala é clara: o fim existe — mas não necessariamente é permanente.
Entre marketing, polêmicas e expectativas frustradas
Com isso, o que antes era apenas desconfiança passa a ganhar contornos mais concretos. A turnê “Celebrating Life Through Death” reposicionou o Sepultura no cenário mundial como há muito não se via. O nome da banda voltou a circular com força, impulsionado pela promessa de despedida definitiva.
Nesse contexto, especulações cresceram: um possível reencontro com Max Cavalera em um show final histórico ou até mesmo a reunião da formação clássica. No entanto, nada disso se concretizou. O que o público recebeu foi uma sequência de apresentações consistentes, porém sem grandes surpresas — além de trocas públicas de farpas entre Andreas Kisser e Max Cavalera, que alimentaram mais polêmica do que celebração.
Somado a isso, o lançamento do EP “The Cloud Of Unknowing” dividiu opiniões e foi considerado desnecessário por parte dos fãs, especialmente dentro de um contexto de encerramento.
O fim… ou apenas mais uma pausa?
Ao que tudo indica, o Sepultura deve encerrar suas atividades ao final deste ano. Contudo, a própria declaração de Andreas Kisser deixa evidente que esse fim não precisa ser definitivo — e talvez nunca tenha sido pensado dessa forma. O Angra recentemente promoveu um hiato bastante contraditório e não seria surpresa ver o Sepultura trilhar um caminho parecido.
Para muitos fãs, resta a sensação de terem embarcado em uma despedida que pode não ser exatamente aquilo que parecia. E, para quem se sentiu enganado, o próprio guitarrista já deixou claro seu posicionamento em entrevista recente:
“O fã que se foda!”
No fim das contas, a história do Sepultura parece seguir o mesmo roteiro de tantas outras bandas: a despedida como evento, não necessariamente como ponto final.

