“Se você está entrando na música para ganhar dinheiro, cara, você tem um parafuso a menos”, dispara Joel Hoekstra

Photo: Charlotte Wellings

O mercado da música sempre carregou um quê de mistério. Todos os dias, milhares de artistas apostam talento, tempo e energia na tentativa de transformar paixão em profissão. No entanto, poucos alcançam o reconhecimento que almejam. Existe um caminho certo? Ou tudo depende de sorte, timing e conexões? Talvez a resposta esteja no equilíbrio entre trabalho duro, visão estratégica e aquela parcela indispensável de oportunidade.

Nesse contexto, as declarações de Joel Hoekstra soam como um banho de realidade. Em entrevista à revista Guitar World, o guitarrista — conhecido por seu trabalho com Whitesnake, Trans-Siberian Orchestra e Night Ranger — deixou claro que jamais enxergou a música como um atalho financeiro. Pelo contrário: ele encarou a escolha como um salto no escuro.

Paixão antes de tudo

Hoekstra relembra que cresceu em uma região operária nos arredores de Chicago, onde ninguém imaginava que ele dividiria palcos com grandes nomes do Hard Rock. Ainda assim, decidiu cedo que viveria da guitarra. “Eu me comprometi com a pobreza”, afirmou, ao reconhecer que poderia passar a vida inteira sem estabilidade financeira. Ainda assim, seguiu em frente.

Além disso, ele foi direto ao ponto ao aconselhar músicos iniciantes: quem entra na música apenas para ganhar dinheiro “tem um parafuso a menos”. Segundo ele, qualquer outra carreira ofereceria jornadas mais previsíveis e caminhos mais claros. A música, em contraste, funciona como um “Velho Oeste” — imprevisível, instável e aberta a qualquer possibilidade. Por isso, Hoekstra defende que o artista precisa amar o processo antes de pensar em recompensas.

Curiosamente, o guitarrista admite que não traçou um plano grandioso. Ele apenas queria se tornar um músico profissional. Com o tempo, somou trabalho consistente a uma dose de sorte e passou a explorar cada oportunidade que surgiu. Ao mesmo tempo, reconheceu suas limitações e pontos fortes, mantendo os pés no chão. Essa consciência, aliás, sustenta sua longevidade no mercado.

Enquanto fala sobre perseverança, Hoekstra também observa como o cenário mudou. Hoje, a internet encurtou distâncias e democratizou a distribuição musical. Um artista pode gravar um álbum profissional em casa e disponibilizá-lo globalmente. Para ele, isso amplia as chances, principalmente para quem vive fora dos grandes centros. Entretanto, a concorrência também cresce na mesma proporção.

Experiência, networking e visão de mercado

A trajetória de Joel Hoekstra comprova sua visão prática sobre carreira. Além das turnês e gravações com Whitesnake, ele construiu um currículo versátil ao colaborar com Foreigner, Accept e projetos como Revolution Saints e Iconic. Paralelamente, prepara o quarto álbum de Joel Hoekstra’s 13, intitulado From The Fade, com participações de nomes como Vinny Appice, Tony Franklin, Derek Sherinian e Girish Pradhan. Cada parceria reforça algo essencial: networking importa — e muito.

Por fim, Hoekstra mostra que talento precisa caminhar ao lado de profissionalismo. Ele atua como educador, colunista da Guitar World e presença constante em eventos e workshops, o que amplia sua rede e mantém seu nome ativo no mercado. Sua mensagem final ecoa como um guia para quem deseja trilhar o mesmo caminho: faça boa música, com paixão e convicção, entregue sempre o melhor que puder ao público, profissionalize-se, entenda o mercado atual, aprenda sobre redes sociais e estratégias digitais — mas nunca deixe de investir em networking e de buscar ambientes e situações que possam favorecer sua trajetória.

Abaixo a declaração completa de Joel Hoekstra:

“Eu nunca tive realmente nenhum grande plano além de ser um guitarrista profissional. Por mais engraçado que isso soe, para o cara que acabou no palco com o Whitesnake fazendo poses com o cabelo comprido e tudo mais, a coisa mais importante para mim era conseguir viver da minha guitarra. Foi isso que eu decidi fazer quando era criança. E eu me comprometi com a pobreza por causa disso. Eu pensei: ‘Ok, provavelmente vou ser pobre pelo resto da minha vida.’ Mas você precisa ter essa disposição, eu acho, para entrar na música. Se você está entrando na música para ganhar dinheiro, cara, você tem um parafuso a menos, porque poderia conseguir qualquer outro emprego, trabalhar muito, muito menos horas e ter um caminho claro para isso, enquanto a música é como o Velho Oeste, eu acho. É como se qualquer coisa pudesse acontecer a qualquer momento. Então, só o fato de que é possível através de trabalho duro já diz muito. E acho que isso deveria realmente servir de incentivo para qualquer músico mais jovem por aí agora. Especialmente com a internet, o mundo encolheu. Você pode levar sua música a qualquer pessoa, e a gravação caseira chegou a um ponto em que você pode fazer um disco profissional aí mesmo onde você está. Então não importa onde você esteja — se você mora numa área mais rural, por exemplo — se ainda tiver ambição de se conectar com músicos conhecidos e tentar expandir seu nome, e obviamente com as coisas estando no domínio digital como estão, você nunca sabe até onde isso pode te levar.”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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