Resenha: Vreid – “Wild North West” (2021)

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Gravadora: Season Of Mist

Faz um bom tempo em que o Black Metal atravessou as fronteiras do seu território tradicional, alcançando outras regiões, dentre as quais só fizeram o subgênero mais avesso às diversas crenças propagar a sua chama mundo afora. Porém, é certo dizer que isso sempre aconteceu desde o seu surgimento, mas que durante esse processo, alguns países ficaram mais famosos que os demais por conta de tal vertente. Podemos encabeçar esse pensamento ao colocar a gloriosa Noruega em primeiro plano, e que de alguns anos para cá, não tem sido tão citada como o principal termômetro e ponto central do assunto. Afinal, o Metal sempre conviveu e convive até os dias de hoje com imensas barreiras dos mais variados tipos e equívocos provocados por uma sociedade doente e decadente. Mas, não é o ponto ao qual visitaremos, e sim para dizer que o território norueguês passou a dividir os holofotes tanto com seus irmãos e vizinhos nórdicos, quanto outros diversos locais.

Ao tratar exatamente da Noruega como algo que fora um pouco “esquecida” por conta de grandes bandas e discos que surgiram dos mais diversos países durante toda essa jornada “muzgal”, temos nesse instante este nobre país novamente como o centro da sonoridade pantanosa e obsoleta (sempre tratando os adjetivos no melhor dos sentidos), e trazendo consigo uma vasta gama de empenho e qualidade de seus respectivos músicos que venham a representar. E no encalço desta mais recente trama temos o principal personagem interpretado pelo Vreid, banda de Black Metal originária de Sogndal, Vestland, que iniciou a sua revolta musical em meados de 2004. Com oito discos de estúdio na bagagem, antes deste novo trabalho, os noruegueses possuem uma leva de fãs considerável, porém, não é das mais conhecidas até então. Óbvio que a pessoa que imagina que o Black Metal jamais deveria aparecer às massas pode torcer o nariz neste momento ao falarmos de público, pois estes logo ligam a matéria ao marketing, ao modismo e à venda dos integrantes para o mercado, tornando a banda uma empresa caça-níquel. E não é esse o propósito neste pergaminho sombrio e macabro. O último álbum do Vreid foi lançado em 2018, chamado “Lifehunger”, e após quatros singles, todos lançados neste ano vigente, via Season Of Mist, “Wild North West” foi lançado no dia 30 de abril e marca mais um ponto para o lado negro da força. Ah, mas já está dando o veredicto de que é realmente um bom álbum? Sim, até por se tratar de um álbum que obteve certo destaque e relevância durante o seu lançamento. Só resta saber se é apenas um bom álbum ou se possui a força de um gigante de gelo para destruir quarteirões repletos de ruídos sem sentido que chamam de música. Os singles lançados foram: “Wild North West”, “The Morning Red”, “Spikes Of God” e “Into The Mountains”.

O disco foi produzido em parceria entre Jarle Hváll Kvåle e Anders Nordengen, enquanto a masterização ficou a cargo de Tony Lindgren. Para a masterização e engenharia de som, temos as assinaturas de Helge Bentsen e o próprio Jarle Hváll Kvåle. Já o responsável pela arte da capa foi Remi Juliebø, capa que lembra um pouco as artes dos trabalhos do meu bravo conterrâneo Whipstriker. Porém, as semelhanças ficam apenas do design da imagem, já que o som em si nós descobriremos juntos logo a seguir. O novo full length ainda traz alguns resgates, dentre eles, as linhas de teclado na canção “Into The Mountain”, número 7, construídas por Terje “Valfar” Bakken, falecido em 2004. Ainda na mesma canção aparecem as participações das três backing vocals – Eli, Helena e Anna. A outra participação é do convidado Espen Bakketeig, que preenche as lacunas com seus teclados nas faixas 2, 6 e 8 do disco, “Wolves At Sea”, “Dazed And Reduced” e “Shadowland”, respectivamente. Dito isso, vamos viajar até o território gélido e poliesportivo norueguês.

“Wild North West” official music video

O álbum que prometia um tom épico para a sua jornada lírica e sonora não foge à regra e, sem esconder tais características sentidas em forma de impressão antes da audição, mostra de fato a que veio, estendendo o caminho trilhado pelos versos a desfilar durante a passagem do disco. De forma inicial, estamos justamente diante daquela que foi um dos singles lançados, e escolhida para representar o nome do mais novo lançamento, “Wild North West”. Ao contrário de certos discos, este sim possui a abertura correta e que casa muito bem com a proposta oferecida, dando ao ouvinte muito mais do que uma capa bonita de um livro comum, mas a ânsia por estar diante do que pode vir a ser uma grande viagem sonora repleta de boas histórias para ouvir e contar aos seus semelhantes. Os primeiros passos são orquestrados pelas notas sinistras de teclado que mostram o silêncio vivo da floresta, contornadas pelos outros instrumentos que fazem a sustentação como bravas montanhas vivas, se saindo necessária para que seja dada a largada por entre os rios da vida. Sem tantas surpresas, esta acelera o percurso durante os versos proferidos de forma animalesca e voraz, onde as sombras dos abetos jogam sobre a fazenda a sua beleza natural, em meio ao canto das guitarras com seus agonizantes tremolos, que vão de encontro aos vocais límpidos e misteriosos, sendo protegido pelos braços das trevas. Os solos entram em ação para completar o passeio junto ao tempo lento, que passa devagar para a natureza, mas breve para todos nós. Nas profundezas do noroeste selvagem existe um baixo que sabe ser veloz e pulsante nos momentos propícios, e também ser vagaroso e constante nas quebras de ritmo que entregam todo o mapa destas colinas íngremes, das quais os sinos da história dobram o espírito jovem de sangue vermelho, disposto a servir, lutar e explorar novos horizontes. Uma viagem perante às linhagens ancestrais com o intuito de buscar o que pode ser seu através de um reino deixado para trás.

Prosseguindo mar adentro com “Wolves At Sea”, outro dos quatro singles lançados, o litoral está desaparecendo à exemplo das guitarras que colocam o ouvinte no cenário até que os outros instrumentos se encontram para mais uma caminhada sob o mar aberto em busca do infinito universo. Este é o destino de um jovem soldado, que acompanhado por triunfantes ritos de bateria e escalas de baixo, segue seu destino de encontro os breves solos de guitarra. “Camuflado pela escuridão da noite / Os lobos sumiram de vista / Esses jogos intermináveis de olhos vendados / Traga milhares de sepulturas oceânicas sem nome” – o desfecho de uma guerra é sempre trágico tanto para quem perde quanto para quem ganha, pois o vitorioso é sempre o covarde que está atrás de uma mesa coberta por mapas e rascunhos inúteis. Além de uma bússola mirada para o inferno… A canção se encerra de forma vagarosa após a fumaça baixar sem perder sua identidade histórica sonora para com seu comprometimento nesta jornada. Viradas insanas de bateria enfeitam a obra, dando vazão para mais peso e sofrimento a esta nobre receita do Metal Negro, que conta com uma das três participações do tecladista Espen Bakketeig no disco. Fechando a trinca inicial, apresenta-se o que eu chamo de canção do também norueguês, Tristania, principalmente em suas bases e versos, exceto o refrão. Lembra em específico a faixa “Equilibrium” do álbum “Ashes” (2005). Não que “The Morning Red” seja ruim, mas poderia vir uma faixa mais agressiva antes dessa. No entanto, não sofre mal a ponto de perder tantos pontos em uma avaliação. Os primeiros versos indicam uma manhã vermelha que colore o mar e brilha atrás das árvores negras, quebrando o amanhecer e mostrando aos sobreviventes uma noite perseguida pela morte, e que pela manhã vermelha, já está tudo calmo novamente.

“Shadows Of Aurora” official music video

A canção que poderia inverter com sua anterior é exatamente a faixa seguinte, “Shadows Of Aurora”, que por sua vez despeja mais velocidade com influências de Death Metal claras, principalmente se olharmos para os trabalhos mais antigos do sueco Unleashed. Para quem gosta bastante de contrabaixo, esta pode ser uma das preferências de quem pensar assim. Seu início é calmo, porém, ameaçador… Os primeiros riffs cavalgados surgem e… A roda é formada e o mosh infernal toma as dependências submundanas de assalto. A escuridão do norte pegou fogo, e as labaredas incendeiam toda a cena com performances excepcionais das guitarras flamejantes e do baixo inimigo de linhas cruas e simples. A bateria contribui para a dança mágica no céu noturno como um martelo de guerra, estraçalhando as costelas de quem ousa invadir essa terra, apoiada por uma lua mística e sob as sombras da Aurora, a loucura arcana parece não ter fim, dando prosseguimento à luta contra o relâmpago, a junção ao fogo e uma briga para sobreviver diante de um caminho pelo instante mais perverso e obscuro nesse instante. “As paredes estão se fechando / Onde eu fui / Aqui não encontro salvação / Este é o nascimento do meu tormento / De portas fechadas.” É Metal extremo que chamam? Pois é… Então, aqui está o cartão de visitas para altas doses de marretadas na mente quase que sem interrupção. Aqui temos um Black Metal mais tradicional, com todo aquele arsenal que pressiona a alma do ouvinte contra a parede, mas… A canção possui suas doses destacáveis de nuances, até retomar o seu ponto veloz inicial como se estivesse amarrado a uma cama, perdendo toda a liberdade em meio aos fraseados e efeitos de guitarra que antecedem os solos viscerais, até que a cena mostra esta câmara horripilante e torturadora de almas. Trema de medo com os vocais rasgados desde o princípio, com a sensação de engasgar com seus próprios gritos, tudo isso junto a uma erupção vista sob um olhar de pura ansiedade, acompanhada por um pesadelo que vai além dos sonhos mais doentios contidos em “Spikes Of God”, outro dos quatro singles lançados. “Esta figura com mãos frias / E o sorriso do mal à espreita / Traz um arrepio avassalador nas minhas espinhas / Eletrochoque não é suficiente / O furador de gelo penetra na minha mente” – seria uma operação, um exame para saber a causa da morte ou uma cadeira elétrica? Conseguimos enxergar três situações originadas em uma só estrofe que aponta para as fagulhas de Deus…

“Dazed And Reduced” official music video

“Dazed And Reduced” é a canção mais “Endorama” (Kreator) do disco, com vocais limpos e depressivos desde o seu início, e com uma roupagem que remete ao Heavy, Black e Gothic Metal com controle do veículo, mesmo com a pista coberta de neve e deslizando bastante. Jarle Hváll Kvåle reforça os apoios vocais ao seu compatriota Sture Dingsøyr, que mostra habilidade ao desenvolver variadas linhas de voz para este trabalho. A canção também te leva ao lançamento recente dos germânicos do Desaster, “Churches Without Saints”, mais precisamente até a faixa “Exile is Imminent”. O som do vazio possui melodias tristes carregadas de angústia e lágrimas que congelam antes de tocar o solo nevado. Morto por dentro, consegue-se ouvir o balançar das árvores mesmo que não se consiga ouvir o vento tocar as pétalas das rosas, que por sua vez, se desfazem em um piscar de olhos. Através das janelas quebradas, o ritmo ganha força e propaga a mensagem sob a batuta de um baixo inquieto e um alicerce percussivo muito bem executado, além de mais uma participação de Espen Bakketeig nos arranjos de teclado.

“Atordoado e reduzido
Sozinho e confuso”

“Eu grito, mas ninguém responde
Eu vejo apenas os fantasmas da minha vida”

A alma perdeu a âncora que a prendia em algum lugar, mas este lugar não existe mais… O porto de onde iam e vinham os povos não há mais a chegada nem a partida de ninguém… Sem um fator que possa te prender aqui, você flutua mais a cada dia, e acompanhado de uma linha de guitarra condizente com a trilha percorrida é mais do que notório que não se haja mais sonhos para perseguir. Afinal, tudo foi levado embora e, mesmo sem se orientar de tal fé poderia se ajoelhar e orar. Mas, o orgulho em ser um espírito primordial o impede, fazendo com que seus próprios instintos liderem o caminho frente aos compassos de bateria que permearão o seu espírito vagando pelo completo vazio. Mais melodias inóspitas são jorradas pelas janelas dilaceradas pelas catástrofes humanas, até que o habitual da canção retoma a dianteira, pouco antes de se jogar desfiladeiro abaixo…

“Into The Mountains” official music video

Parecida em sua abertura com a sua antecessora, “Into The Mountains” dá as cartas de forma lamuriante e nefasta com o apoio vocal do trio Eli, Helena, Anna, que são brevemente acompanhadas por teclados angustiantes. No alto das montanhas misture as fórmulas atuais contidas na sonoridade do Desaster, corra mesmo não conseguindo ver que existem vários elementos de bandas como Dark Funeral e 1349, enquanto as sombras te impõem medo e as arvores sussurram para ti mesmo que não consiga ouvir. As sombras estão nos circundando como uma oração contemplada por sons calcados em outras bandas mais, como Necrophobic e Varathron. A melancolia predomina enquanto nos derivamos para o norte e a minha bússola está em casa. Sem a certeza deste “norte” encaramos de peito aberto, dando de cara com solos melódicos e intimistas, para que sob o olhar da floresta, as trilhas conduzam ao verdadeiro destino, encaminhados pelos incessantes pedais de Jørn Holen. A canção sofre uma breve pausa para o baixo tome a ponta e seja acompanhado novamente pelos teclados soturnos, mais um serviço oferecido por Espen Bakketeig, todos sendo uma grata cortesia deixada por Terje “Valfar” Bakken, junto com o kit de Jørn Holen exercendo um lado mais jazzístico”. Neste instante podemos lembrar do Queen, nos momentos em que o eterno John Deacon, seu ex-baixista clássico, mostra seu arsenal em seu instrumento de trabalho. O caminho estava aberto, mas a floresta nos prendeu diante de um ritmo extasiante e a única saída era o riacho dos rios que contornam estas montanhas assombradas de meus sonhos e relatos, onde nenhum homem pode descer. As guitarras retomam o seu posto e com os vocais mais tradicionais do estilo, juntamente com linhas mais limpas, fazem um belo dueto até que o silêncio nos envolve até o fim da jornada.

Como em um convento, os teclados de “Shadowland” simulam um órgão antigo, para que todos ouçam a palavra que será dita dentro de instantes, que ao esperar causam calafrios ocasionados pelos temas absorvidos até o momento, instante este que vem a ser o final da obra. Meio que incorporando o Behemoth e o Black Sabbath, as guitarras clamam pelo oculto, pelo sombrio e pelo maquiavélico. Toda a banda convoca seu exército de riffs em busca de … “Um caixão para o corpo / Uma jornada para a alma / Nessas paisagens de morte / O retorno para casa” – é a estrada da vida com seus percalços e desafios que te conduzem a uma jornada que pode ter um final de luz ou de sombras, mas que jamais deixará você de lado neste mundo catastrófico. Dedilhados mais contidos emendam o dito de que uma vida sem sombras é um passeio sem vida, e que todas essas notas a serem exauridas dos encordoamentos dividem e aplainam a beleza que fora revelada à vista de fora, enquanto os pregos ligam a madeira e completam o caixão. As cores desbotas e o brilho em silêncio são exemplificadas através das guitarras distorcidas e, talvez seja o som mais mórbido do disco, mesmo que não seja uma canção ‘parada’ como é de costume em viagens desse tipo. Nesse último suspiro do álbum, podemos sentir o partir após uma longa jornada…

“Um caixão para o corpo
Uma jornada para a alma
Nessas paisagens de morte
O retorno para casa”

“Wild North West” traz à tona em tom épico, uma passagem rebuscada através das mais diversas e ricas histórias relacionadas ao seu país natal. Seja por meio de contos de fadas, ou por relatos verdadeiros, o álbum conduz o ouvinte em uma caminhada que mergulha mar adentro feito um turbilhão, indo em direção profunda aos temas que envolvem guerra, medo, traição, perda, ansiedade e loucura com letras instigantes que personificam a natureza humana. O disco atinge o coração nórdico no âmago de seu som, seguindo as dicas da paisagem acidentada da Noruega enquanto apresenta os quadros ligados entre a escuridão eterna e o consolo da luz estimulante.

“Este é um porto seguro?
Onde os pesadelos vão dormir
Ou isso é um inferno vivo
Onde os demônios reaparecem”

Nota: 9,2

Integrantes:

  • Jarle Hváll Kvåle (baixo, teclados, vocal de apoio, guitarra)
  • Sture Dingsøyr (vocal, guitarra)
  • Jørn Holen (bateria)
  • Stian Bakketeig (guitarra)

Músicos convidados:

  • Terje “Valfar” Bakken (teclados) *(R.I.P 2004) – faixa 7
  • Espen Bakketeig (teclados) – faixas 2, 6 e 8
  • Eli, Helena, Anna (vocais de apoio) – faixa 7

Faixas:

  • 1. Wild North West
  • 2. Wolves At Sea
  • 3. The Morning Red
  • 4. Shadows Of Aurora
  • 5. Spikes Of God
  • 6. Dazed And Reduced
  • 7. Into The Mountain
  • 8. Shadowland

Redigido por: Stephan Giuliano

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