Resenha: Tuatha De Danann – “In Nomine Éireann” (2020)

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Gravadora: Heavy Metal Rock

Não parece muito, mas o fato é que o Tuatha De Danann surgiu em 1995 quando à época se chamava Pendragon. Outro fato interessante é que a banda tocava Doom Metal, podendo ser conferido em sua primeira demo intitulada “The Last Pendragon”. Após uma breve separação em 2012, a banda se reformulou em 2013, quando o membro fundador Bruno Maia retornou à banda, da qual havia deixado em 2010. Foram cinco anos de espera até que o Tuatha De Danann lançasse seu mais recente álbum ainda no ano de 2020. “In Nomine Éireann” é o quinto álbum de estúdio e foi lançado via Heavy Metal Rock no dia 25 de novembro do ano citado. Dentre as faixas contidas no disco, quatro delas são instrumentais e marcam essa característica que todo adepto da banda conhece. O line up principal conta com o já citado Bruno Maia, acompanhado de Giovani Gomes e Edgard Britto. Como de costume, a formação está completa no rodapé do texto e contará com todos os instrumentos tocados por cada componente que acompanha o trio atual do Tuatha De Danann. Além do trio, o disco apresenta diversas participações especiais e traz o próprio Bruno como produtor do álbum, tendo produzido o disco no Braia Studios em Varginha, Minas Gerais. A capa foi idealizada por Paulo Oliveira, com concepção da arte por Rodrigo Barbieri. Além dos (agora) cinco full lengths, a banda também possui três EP’s, duas demos e um split nomeado “KultRock Sound # 14”, que conta com as bandas Hybrid Viscery, Raspatul, Dawn Of Defiance, Torviscerizer e Fragmenta.

O Celtic e o Folk Metal são as principais sementes cultivadas para que a sonoridade dos mineiros de Varginha possa construir suas canções que são baseadas em contos e fatos pertences às terras celtas com seus costumes e seu folclore rico em curiosidades e mistérios, assim como diversas outras culturas que estiveram presente neste plano em outras eras. Tuath (a) dé Danann é uma raça sobrenatural na mitologia irlandesa. Isso se traduz em “pessoas / tribos da deusa Danu”. Como a banda abdicava de guitarras pesadas e pedais voltados ao som mais extremo como os eslavos do Arkona (do original Аркона), para colocar um exemplo bem claro e forte, a banda acabava ficando de fora das audições de muitos adeptos da mistura entre o Metal e a música folclórica e tradicional de tais povos. Se isso ocorria com parte do público, a banda não pode jamais se queixar dos seus próprios fãs. Afinal, eles conquistaram uma base sólida de fãs mesmo com percalços como este que destaquei. Porém, aqui não medimos tamanho ou importância dos fãs, pois o principal é saber se o novo álbum dos caras convence ou não convence a quem vos digita, e também a você, respeitável magnânimo!

Para entender um pouco mais sobre a sonoridade de um dos pioneiros do Folk Metal no Brasil, é necessário entender que aonde existe o folclore e o cultivo da arte local, estará presente o Tuatha de Danann. Esse álbum em específico faz uma homenagem à música celta e irlandesa, utilizando de elementos clássicos e históricos da região. Dito isso, vamos ao que mais interessa que é mergulhar nas águas desse rio arredondado com um furo no meio.

O pergaminho sonoro abre os primeiros compassos com uma de suas primeiras faixas instrumentais, que se chama“Nick Gwerk’s Jigs”. Trata-se de um tecido musical muito bonito e rico em histórias e contos entre as notas despejadas na trama. Apesar de toda pompa, entendi como uma canção longa demais até por se tratar de uma canção sem voz abrindo o disco. As outras faixas de mesma característica, “Moytura”, “The Master Reels” e “The Dream One Dreamt”, apesar de bem distintas possuem o mesmo intuito. Para entender a estrutura de cada uma destas ideias é necessário parar tudo o que se está fazendo para apreciar cada passagem de nota e todos os climas contidos nas canções expostas. Nada como uma viagem por todas as encarnações passadas para praticamente vivenciar a época histórica de cada composição apresentada. Ao ouvir tais canções, você consegue notar diversos instrumentos juntos em cada plano musical oferecido, no qual deixarei em evidência ao término da leitura. Embora eu tenha achado um pouco grande a primeira canção instrumental para abertura desta nova obra, não somente ela como as outras três oferecem um clima muito autêntico e alegre para o disco, sem que pudesse se tornar maçante de ouvir.

“Molly Maguires” e “Guns And Pikes” receberam videoclipes que alternam entre um videoclipe comum com um lyric video e funcionam muito bem, principalmente a primeira. “Molly Maguires” inicia com uma base muito prazerosa e estendendo seu véu festivo logo em suas primeiras notas. Uma canção alegre e contagiante que pede mais uma dose daquela boa cerveja. Não! Se tomar essas cervejas de milho perderá toda a magia e efeito dos versos destilados por Bruno Maia e seus amigos das regiões celtas e irlandesas. Após uma interessante intro instrumental, que eu poderia chamar de “III”, não poderia ser outra canção a estar presente logo na sequência. “Abram caminho para Molly Maguires / Eles são bebedores, são mentirosos, mas são homens / Abram caminho para Molly Maguires / Você nunca verá gente como eles novamente” – sinta-se em séculos passados numa reunião de vila em frente a uma fogueira enquanto a banda faz a festa e todos brindam após uma longa jornada de conflitos, perdas, e vitórias. Logo em mente surge o glorioso Eluveitie e também o nobre Korpiklaani como aparatos influentes para a festa prosseguir revelando causos de tempos passados que reacendem nos dias de hoje. “Guns And Pikes” começa de forma mais leve e melodiosa, mas logo passa a despejar mais peso até que a canção anterior. Segue mais um aperitivo: “Jack é um revolucionário / Ele diz que não vai desistir / Até todo homem e mulher / Tem uma configuração de vida decente / Ele vai levantar uma arma contra a tirania / Onde o ar levanta a cabeça / E ele vai te derrubar no chão / Se você disser que a causa está morta.” Se levantar contra a tirania era algo honroso e não era para qualquer um. Infelizmente, hoje em dia não é bem assim. Você pode se levantar contra a tirania que o próprio povo irá te apunhalar pelas costas por não defender o tirano que estiver no comando. Algum malfeitor terá de seguir ou se tornará o inimigo de cada ser carnal imbecil que tem a mentalidade de um cuspe desferido por um bárbaro a lustrar suas botas.

Outro fator preponderante para a harmonia completa do disco são as nuances provocadas perante o mesmo com a ordem das canções muito bem estudada e colocada, dando a síntese ideal para o que fora proposto. Uma chuva de ritmos incandescentes com a intenção de descrever os bravos irlandeses através da energia brasileira e muita dedicação em cada estrofe construída e executada. Para continuar a audição imagine estar em uma praça ou vá até uma com sua garrafa de cerveja real e aprecie o dom da natureza em te acolher como ser pertencente a esta terra. Não exagere ao beber para não perder o rumo de casa antes do término do álbum. “The Calling” oferece versos envoltos por uma voz feminina junto aos compassos e frases melódicas oferecidas pelo power trio contador de boas histórias. Está curioso em saber de quem se trata? Os homens desta vila não podem ouvir uma voz encantadora que já querem saber de quem se trata o quanto antes! Assim estragam a surpresa! (risos) Vamos em frente!

Trazendo mais peso e outra vocalista junto à canção, a mesma bebe da fonte do Power e do Heavy Metal sem se embriagar nos estilos, com a clara intenção de se manter em suas tradições. Os solos são muito bem elaborados e encaixados no momento certo. Estou falando de “The Wind That Shakes The Barley”, esta que também contribui para o desempenho alto do álbum. “Newry Highwayman” também merece destaque por ter um refrão bem colocado e qualificado. Mais um tributo de bom apreço para o que o Tuatha costuma apresentar aos seus ouvintes. Outra canção que merece ser ressaltada, mas que acabou entrando como faixa bônus é a faixa “King”. Sendo uma das duas composições autorais da banda no disco (as outras nove são tributos prestados às canções irlandesas), trata-se de uma canção bastante enérgica assim como “The Calling, o outro tema autoral. “King” é pesada e conta com o toque especial do conjunto que explora todos os expoentes contidos no disco. Um Folk/Heavy de merecer aplausos!

A propósito, você pode ter notado a falta de alguma ou outra canção do disco a ser decifrada de forma minuciosa, não é mesmo? Bem, isso foi proposital para que você mesmo possa concluir dizendo o que achou desta experiência. Em meu discurso eu diria que não acompanhei de perto a carreira da banda, mas que sempre soube de sua competência. E anos após eu abrir as portas para audições mais românticas, referindo-me às misturas entre diversos instrumentos de época, isso acabou facilitando as coisas por aqui. Portanto, para apreciar este disco você deve esquecer muito do que costuma ouvir com frequência para não tornar os nuances não muito agradáveis, digamos assim. O “Torta de Danone” (carinhosamente apelidado por alguns amigos) está de volta com mais um disco lançado e cheio de vontade para espalhar sua homenagem aos quatro cantos e aos sete mares deste plano.

Antes de finalizar a carta em homenagem aos duendes de verde, vamos aos participantes que contribuíram de forma especial para a conclusão deste enobrecido trabalho: Alex Navar (uilleann pipes) em “Nick Gwerk’s Jigs”, “Guns and Pikes”, “Moytura” e “The Dream One Dreamt”; Keith Fay (vocais) em “Molly Maguires”; Kane O’Rourke (violino) em “Nick Gwerk’s Jigs”, “Molly Maguires”, “Moytura” e “The Master Reels”; Marcell Cardoso (bateria) em “Guns and Pikes” e “The Wind that Shakes the Barley”; Folkmooney (vocais) em “Guns and Pikes”; Manu Saggioro (vocais) em “The Calling”; Daísa Munhoz (vocais) em “The Wind that Shakes the Barley”; Talita; Quintano (vocais) em “Newry Highwayman”; John Doyle (violão e bouzouki) em “The Master Reels”; Rafael Salobreña (bodhran) em “The Master Reels”; Marc Gunn (vocais) em “The Devil Drink Cider”; Fabricio Altino (bateria) em “The Devil Drink Cider”; Finn Magill (violino) em “The Dream One Dreamt”. A lista é grande mesmo e não poderia ser diferente. Muitos arranjos, instrumentos diversificados e vozes marcantes contornam toda a ideia representada neste disco. E se esse álbum conseguiu convencer alguém que não era fã da banda até então, creio que quem seja adepto da sonoridade do Tuatha De Danann possa apreciar completamente este trabalho que é digno de nota.

  • Nota: 8,5
  • Integrantes:
  • Bruno Maia (vocal, guitarra, violão, bouzouki, banjo, low whistle, tin whistle)
  • Giovani Gomes (baixo, vocal de apoio)
  • Edgard Britto (teclado, escaleta)
  • Nathan Viana (violino)
  • Raphael Wagner (guitarra)
  • Rafael Delfino (bateria e bodhran)
  • Faixas:
  • 1. Nick Gwerk’s Jigs
  • 2. Molly Maguires
  • 3. Guns And Pikes
  • 4. Moytura
  • 5. The Calling
  • 6. The Wind That Shakes The Barley
  • 7. Newry Highwayman
  • 8. The Master Reels
  • 9. The Devil Drink Cider
  • 10. The Dream One Dreamt
  • 11. King
  • Redigido por: Stephan Giuliano
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