Resenha: The Furor – “Phenomenal Abomination” (2026)

Nem toda one man band nasce dessa forma. Em muitos casos, o projeto começa como a expressão criativa de um único músico e, com o tempo, transforma-se em uma formação completa. Com The Furor, o caminho seguiu justamente o sentido oposto. A banda surgiu na Austrália, em 2002, como um trio, chegou a funcionar como quarteto em determinado momento, mas desde Head Full Of Hell (2022) passou a existir exclusivamente sob a condução de Louis Rando, aqui creditado apenas como Dizazter.

Agora, com Phenomenal Abomination, o oitavo álbum da carreira, o músico reforça o caráter solitário do projeto e evidencia o tamanho de sua produtividade. Além do The Furor, ele ainda integra bandas como Bloodlust, Depravity, Devouror, Impiety, Mhorgl, Pathogen, Sekt e Shrapnel — sem contar os diversos nomes pelos quais já passou ao longo dos anos. Trata-se, claramente, de um artista inquieto e extremamente ativo dentro do underground extremo.

Técnica, violência e criatividade

Logo nas primeiras audições, Phenomenal Abomination deixa claro seu propósito: abrir as portas do inferno e convidar o ouvinte a atravessá-las sem hesitação. O Black/Death Metal executado aqui combina precisão técnica, violência sonora e uma criatividade que impede qualquer sensação de repetição.

Enquanto muitos discos do estilo apostam em estruturas lineares e riffs que soam familiares demais, o trabalho de Dizazter segue na direção contrária. Cada faixa apresenta mudanças rítmicas constantes, viradas inesperadas e arranjos que mantêm a audição sempre alerta. Mais do que técnica, o que impressiona é a capacidade de soar criativo em todos os instrumentos.

Com exceção dos solos de guitarra, todas as partes foram executadas por Dizazter. Para esses momentos específicos, ele contou com participações pontuais: Jarrod Curley nas faixas 1 e 2, Grant Touchell nas faixas 3, 6, 7 e 8, e Daniel James nas faixas 4, 5 e 9.

O álbum, lançado de forma independente em 2 de janeiro, traz nove faixas inéditas e também conta com edições físicas disponibilizadas diretamente pelos canais oficiais da banda (Facebook e Instagram).

O início da tempestade

A abertura com Black Storm Of Invincible Mayhem e Molten Militia cumpre com eficiência o papel de apresentar a proposta do disco. A dupla entrega técnica apurada, solos bem encaixados e mudanças de andamento que já antecipam o nível de complexidade do restante do trabalho.

Em seguida, Honour The Onslaught confirma que o álbum não ficará preso a uma fórmula específica. A faixa se destaca como uma das mais memoráveis do repertório, principalmente pela forma como os vocais de Dizazter se encaixam com naturalidade na brutalidade instrumental. Nada soa aleatório; cada elemento parece colocado com precisão cirúrgica.

Alternância entre peso e atmosfera

Impaled Paradise começa cadenciada, mas logo evolui para uma demonstração de técnica, com destaque para as linhas de bateria e os riffs densos da guitarra base. Já Tirade Of The Tyrants surge com uma introdução macabra antes de explodir em um Death Metal inegavelmente feroz e impiedoso.

Essa transição constante entre o Black Metal e o Death Metal constitui uma das principais qualidades do disco. Em vez de tratar os estilos como compartimentos isolados, Dizazter os funde com naturalidade, criando um fluxo sonoro coeso e agressivo.

O apocalipse final

A reta final começa com a transgressora Pandaemoniac, passa pela criativa Culture Butcher — repleta de viradas inesperadas e quebradeiras — e desemboca no desfecho apocalíptico formado por Unquenchable Conquest e Vendetta Of The Undead.

Na primeira, todos os elementos esperados do estilo aparecem com força total: atmosfera densa, velocidade, peso e tensão. Já a última faixa utiliza uma introdução climática quase enganosa, preparando o terreno para uma explosão de caos sonoro que encerra o álbum certamente em alto nível.

Produção e impacto geral

A produção, mixagem assim como a masterização ficaram nas mãos de Joe Haley, que entrega um som cristalino na medida certa. O resultado valoriza cada instrumento sem comprometer o caráter extremo das composições, contribuindo diretamente para a força do álbum.

Sem depender de hype ou grandes expectativas externas, Phenomenal Abomination conquista espaço naturalmente nas audições diárias. Trata-se de um disco competente, criativo e extremamente agradável dentro de sua proposta — uma verdadeira aula de Black/Death Metal logo no início de um ano que promete muitos lançamentos relevantes.

Nota: 8,8

Integrantes:

  • Dizazter — bateria, baixo, guitarra e vocal

Faixas:

  • 01 Black Storm Of Invincible Mayhem
  • 02 Molten Militia
  • 03 Honour The Onslaught
  • 04 Impaled Paradise
  • 05 Tirade Of The Tyrants
  • 06 Pandaemoniac
  • 07 Culture Butcher
  • 08 Unquenchable Conquest
  • 09 Vendetta Of The Undead
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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