Resenha: Stormsorrow – “The Blood Red Horizon” (2025)

Para garimpeiros de plantão como nós, poucas coisas são tão satisfatórias quanto se deparar com um disco de uma banda brasileira que simplesmente não carrega os vícios enraizados em grande parte das produções nacionais recentes. O mínimo que se espera de um álbum de Metal lançado em 2025 envolve coesão, produção competente, boas ideias, execução sólida e, se possível, elementos adicionais igualmente importantes, como letras instigantes e performances individuais marcantes. Felizmente, tudo isso aparece em doses generosas no álbum de estreia do Stormsorrow, intitulado “The Blood Red Horizon”. Podemos afirmar, sem receio, que se trata de um contraponto robusto ao velho e caricato discurso underground do “faça de qualquer jeito, sem se preocupar com o resultado final”.
Desde a apresentação inicial, o cuidado com os detalhes salta aos olhos. À medida que o ouvinte se aprofunda nas nuances da obra, o interesse cresce de forma progressiva. Mesmo debutando oficialmente na cena, o Stormsorrow surge com uma proposta ousada, fruto da mente criativa do vocalista, guitarrista e compositor Kahlil Souto. Este trabalho inaugura uma trilogia e tem como uma de suas principais características a fusão de diversos gêneros. No entanto, não se trata de uma mistura aleatória ou sem propósito, mas sim da construção de uma identidade musical forte, coesa e com direcionamento claro.
A difícil arte de rotular álbuns inrotuláveis
Seria tentador classificar a banda como Melodic Death Metal, mas essa definição soaria simplista diante da quantidade de estilos, referências, transições, camadas e reviravoltas presentes ao longo do álbum. Encaixar “The Blood Red Horizon” em uma única caixa seria, no mínimo, injusto. Assim, para oferecer uma noção mais precisa, vale defini-lo como um disco de Metal extremo que transita com naturalidade entre o Melodic Death Metal, o Thrash Metal, o Death Metal old school e o Heavy Metal, condensando todo esse arsenal sonoro de forma inteligente e bem estruturada.
Em outras palavras, apesar da ampla miscelânea de vertentes, a organização do tracklist faz total sentido. O álbum flui de maneira orgânica, sem causar estranhamento, mesmo quando, em determinado momento, surgem os vocais Heavy/Power de Mário Pastore como convidado. Tudo soa natural, como se aquela música exigisse exatamente esse tipo de voz para alcançar seu propósito. Essa homogeneidade transmite ao ouvinte uma convicção artística clara por trás da obra — algo cada vez mais raro, especialmente no universo da música extrema.
Lançado de forma independente em 10 de dezembro, o Stormsorrow surpreendeu boa parte da imprensa especializada, sobretudo aquela parcela que não se limita aos lançamentos do momento, às convenções previsíveis, às obviedades ou, infelizmente, aos artistas mais hypados da vez. Quem ouviu o álbum de maneira imparcial e nutre apreço pelo Metal extremo brasileiro percebeu rapidamente que estamos diante de um trabalho diferenciado, capaz de se destacar mesmo quando comparado a lançamentos internacionais.

Uma jornada repleta de verdades inconvenientes
Com aproximadamente 49 minutos de duração e 11 composições, “The Blood Red Horizon” conduz o ouvinte por uma jornada quase apocalíptica pelas mazelas da sociedade contemporânea e suas origens. Evidentemente, tudo isso passa pelo filtro da visão de mundo de Kahlil Souto, autor de todas as letras. O disco aborda temas como guerras, subversões políticas, coletivismos e as degenerações da alma e da mente humana. As letras são duras, diretas e, muitas vezes, desconfortáveis — detalhes que os ouvintes mais atentos certamente não ignorarão.
A audição começa com uma breve introdução atmosférica que desemboca em “Burning Skies”, primeiro single lançado em novembro de 2025. Inspirada no filme “Fire in the Sky”, dirigido por Robert Lieberman, a canção narra a história de Walton, um lenhador do Arizona que, em 1975, teria sido abduzido por alienígenas diante de seus colegas de trabalho.
A música aproveita a temática para questionar assuntos considerados tabu, convidando o ouvinte a refletir sobre até que ponto teorias da conspiração são apenas teorias ou, na verdade, encobertamentos governamentais e manipulações silenciosas. Destaque para o riff inicial, a atmosfera quase etérea no pré-refrão e o trecho após o segundo refrão, que antecede o belíssimo solo de Vicente Luiz.
Peso lírico e musical em comunhão
A faixa-título, “The Blood Red Horizon”, segue por um caminho mais direto, com riffs e linhas fortemente influenciados pelo Thrash Metal e pelo Death Metal. Aqui, a velocidade vem acompanhada de agressividade e perversão, enquanto um grande mal indefinido se aproxima para instaurar o caos e a ruína. Seria uma entidade cósmica despertando em fúria para reivindicar o que lhe pertence? Ou a própria maldade humana, movida por engrenagens políticas apodrecidas, sacrificando muitos em favor de uma elite abastada? Talvez seja apenas o Stormsorrow emergindo do underground para conquistar tudo à sua frente.
Ainda é necessário destacar a participação de Alexandre Grunheidt (da banda Ancesttral) que adiciona um contraste vocal interessante e prepara o terreno para o que ainda está por vir.
“Sem direitos
Sem regras
Este é o nosso chamadoNós somos a retribuição
Somos o câncer que devora o mundo
Nenhuma chance de redenção
Agora contemple
Enquanto pintamos o horizonte com sangue”
“Face the Obliteration”, além de figurar entre as melhores faixas do álbum, apresenta solos intensos e um refrão devastador, trazendo a degradação ambiental para o centro do debate. Ao final, a mensagem se impõe: por mais que o homem destrua, a natureza sempre encontrará uma forma de prevalecer.
Em “Hellgate Assembly”, Kahlil Souto presta sua “singela e carinhosa” homenagem à cidade de Brasília, retratada como o epicentro da parasitagem e certamente da falência do Estado brasileiro. O trecho “Nas planícies centrais, três cabeças da Hidra se reuniram / Como um ninho de serpentes, usurpando o trono da Majestade” faz uma referência clara aos três poderes de uma democracia em frangalhos.
A participação especial nesta faixa evidencia o respeito dos músicos pelo próprio material. A composição é furiosa e urgente, mas um trecho específico pedia uma voz que transmitisse desespero, quase como uma súplica. Nesse momento, Lord Vlad (da banda Malefactor) entra de forma cirúrgica. Ainda mais impactante é o manifesto à la Lemmy, no qual Kahlil destila todo o seu “apreço” pela classe política:
“Curvem-se aos reis, sanguessugas e ladrões, vermes da burocracia”.

Horrores espirituais e horrores humanos
“Rebellion Burns Within” surge intensa e sombria, representando a degeneração espiritual. Baseada no livro “The Devil Made Me Do It”, que aborda o caso de Arne Cheyenne Johnsson — o primeiro julgamento nos EUA a alegar possessão demoníaca como defesa —, a faixa trabalha a ideia do mal tomando o corpo de uma pessoa comum e conduzindo-a a cometer um crime brutal.
“Eu não consigo me lembrar, mas eles jamais acreditariam
Esta é a história de como o diabo me fez fazer isso
Levado ao tribunal, um homem simples condenado
Meu apelo negado, apenas um peão na mão do diabo
16 de fevereiro de 1981
O ar ficou frio e minha mente se esvaziou, enquanto tomavam controle do tempo
Seu Deus não pode ouvi-lo aqui”
Mesmo para os descrentes, a simples possibilidade de uma história como essa ser real já é suficiente para gelar a espinha.
Em “Darkest December”, outra participação especial se destaca: Victhor De Victhorian, da banda de Black Metal Victhorian, do Piauí. O clima épico da faixa carrega uma temática pesadíssima, remetendo a um dos episódios mais trágicos da história: o Holodomor, termo ucraniano que significa “matar pela fome”, uma fome em massa deliberadamente provocada pelo regime soviético de Josef Stalin na Ucrânia entre 1932 e 1933.
Sem exageros, este é o melhor refrão do álbum e uma das faixas mais marcantes de 2025. Victhor foi a escolha ideal, e a união desses universos resultou em um verdadeiro conto de horror musical — ainda mais perturbador por retratar um fato histórico real.
“Quando o inverno cai sobre nós
E a fome dilacera nossas almas
Nós permaneceremos
No dezembro mais sombrio, manchado de sangueAgora pais se alimentam de seus filhos
Enquanto gelo e carne se entrelaçam como um só
Nós permaneceremos
No dezembro mais sombrio, nenhum deus jamais veio”

Peculiaridades de uma era
Já próximo do final, “Scars of My War” aborda as batalhas internas travadas diariamente contra nossos próprios demônios. Apesar da carga extrema, alguns riffs e passagens instrumentais remetem claramente à identidade do Iced Earth. Principalmente, se pensarmos nos primórdios, em álbuns como “Night of the Stormrider” e “Burnt Offerings”.
Na sequência, “Post-Truth Warfare” traz a já mencionada participação de Mário Pastore, que se encaixa de forma natural com seus vocais Heavy/Power. A temática não poderia ser mais atual: as redes sociais, seus usuários, assim como suas peculiaridades — ou melhor, os “especialistas” formados por coaches e influencers, estudiosos que nunca leram um livro e doutores sem sequer o ensino médio completo.
Antes do desfecho, “Times of Decay” inegavelmente representa melhor a geração que viu o Metal nascer, crescer e se desenvolver. Infelizmente, esta geração hoje assiste, incrédula, à deterioração da cena promovida por uma juventude incapaz de compreender a essência do gênero. O refrão traz uma referência direta a um clássico oitentista e, quando Kahlil Souto canta: “Através dos meus olhos, eu testemunho / Os últimos segundos até a meia-noite…”, a reação quase automática é pensar: Bruce Dickinson estava certo.
Redefinindo o Metal brasileiro
A apoteose chega com “The Storm Will Remember My Name”, segundo single do álbum e também a faixa mais longa do tracklist. Novamente com a participação de Lord Vlad, o Stormsorrow entrega uma composição multifacetada, repleta de variações rítmicas, melodias envolventes e quebras cuidadosamente planejadas.
A música fala sobre legado. Embora “The Blood Red Horizon” marque a estreia oficial da banda, ele representa o resultado de mais de 20 anos de ideias, amadurecimento e trabalho. Após idas e vindas, Kahlil Souto encontrou o momento ideal para dar vida a essas composições e apresentá-las ao público. A faixa funciona como um manifesto, no qual o artista reflete sobre o mundo em que vivemos. Ao se posicionar de forma contundente, é inevitável pensar que ele grava seu nome na história do Metal nacional por meio dessas 11 músicas.
Com produção, mixagem e masterização assinadas por Vicente Luiz, arte de capa criada por Carlos Fides e conceito musical idealizado por Kahlil Souto, o debut do Stormsorrow alcançou um destaque raro para uma banda underground em sua primeira empreitada. O álbum figurou em listas de melhores do ano de diversos veículos especializados, incluindo o Mundo Metal, superando nomes consagrados e/ou excessivamente badalados.
“The Blood Red Horizon” prova que o Metal brasileiro pode — e deve — ser muito mais do que um patético fã-clube de Angra e Sepultura. Enquanto essas duas bandas agonizam presas aos próprios momentos áureos, exploram um público adoecido com eventos caça-níqueis e acumulam o recorde de ZERO bandas nacionais apoiadas, novos nomes surgem com competência, talento e potencial para se destacar no cenário mundial. Resta saber se você fará parte desse grupo de apoiadores ou se continuará entre aqueles que permitem que nosso underground definhe lentamente.
Nota: 9,7
Integrantes:
- Kahlil Souto (vocal e guitarra)
- Yuri Passos (baixo)
- Arthur Albuquerque (bateria)
- Vicente Luiz (guitarra)
Faixas:
- Intro
- Burning Skies
- The Blood Red Horizon
- Face the Obliteration
- Hellgate Assembly
- Rebellion Burns Within
- Darkest December
- Scars of My War
- Post-Truth Warfare
- Times of Decay
- The Storm Will Remember My Name