Resenha: Phantom – “Not Midnight Yet” (2026)

Você percorre a estrada em alta velocidade e, de repente, passa por um quebra-molas daqueles de bater a cabeça no teto! O susto quase faz você perder o controle do carro, invadir a pista contrária e tirar um fino de uma carreta. Essa cena de filme funciona como uma metáfora perfeita para o conteúdo de “Not Midnight Yet”, o novo disco do Phantom. Lançado em 26 de junho pela High Roller Records, o álbum amplia o catálogo dos mexicanos e expande os próprios horizontes musicais da banda.
Caso você ainda não tenha captado o sentido dessa analogia automobilística, a leitura logo esclarecerá tudo. Afinal, a comparação não indica que a obra seja ruim ou bizarra, mas sim surpreendente. Portanto, você compreenderá o significado exato ao longo desse trajeto. Como pista inicial, se você já conhece o trabalho anterior, “Tyrants of Wrath”, conseguirá antecipar os primeiros passos deste novo pergaminho musical.
Dessa vez, a banda opta por uma quadra de videoclipes, ampliando o processo de divulgação. De forma inteligente, a banda oferece mais material ao público, principalmente, o fã de música e também de vídeo. A banda gravou e mixou o material no Nehtron Studio, enquanto o estúdio Temple of Disharmony, na Alemanha, Patrick W. Engel cuidou da masterização final.
A ilustradora e tatuadora norte-americana Maegan LeMay assina a arte da capa de “Not Midnight Yet”, consolidando uma parceria visual de peso com o Phantom. Conhecida por seu estilo sombrio, violento e detalhista, ela já havia ilustrado o disco anterior da banda, o bastante elogiado e já citado “Tyrants of Wrath”.

The night is here!
A análise da pista pela qual estamos percorrendo parte do ponto inicial chamado “Hordes of Bats”. O tilintar sombrio do órgão vampiresco dita o rumo da história a partir do princípio. A bordo do veículo, podemos observar a vingança de Drácula contra o território da Valáquia após ver sua mulher, Lisa, sendo queimada na fogueira como uma bruxa. A reviravolta contornada por asas de carmesim ganha mais ímpeto através de uma agressão sonora bastante veloz e regada por riffs cortantes, os quais remetem ao Speed e ao Thrash Metal germânico, principalmente o Thrash praticado pelo Destruction nos anos 80.
O céu se racha ao meio conforme a linha de bateria atravessa a garganta das vítimas. Sem clemência, corpos são dilacerados aos montes pelas guitarras flamejantes. Seus dedilhados incendeiam as casas, gritos são interrompidos pelo degolar do contrabaixo e toda a Valáquia vai abaixo com os vocais insanos de J. C. García. Sendo assim, os solos complementam o desmembramento e o retorno ao pó das almas corrompidas deste lugar.
“Vingança, a noite obedece
O céu está rasgado, a lua fica vermelha,
Sombras arrombam as portas,
Capelas queimadas, reduzidas a pó.Observando de longe,
Meu império sombrio começa a se erguer,
Criaturas! Saiam e matem
Tragam-me vítimas, mutiladas, dilaceradas e
Esfoladas”
O despertar do conde, nas palavras do Phantom
Após o início de uma vingança suprema, temos o despertar da criatura através do mausoléu. “Out of the Mausoleum” é autoexplicativa e reforça a sua mensagem através dos cortes feitos pelos riffs ardentes, além do reforço impiedoso de uma cozinha abastecida pelo sangue de suas vítimas. Dedilhados meio apagados iniciam a jornada e logo tomam a dianteira, apoiados por bases precisas.
O riff de chamado para o despertar do ser maligno acontece e você se vê diante de uma valsa do mais impuro Rock veloz, enegrecido pelas forças do mal. A música possui mais paradas estratégicas, trazendo mudanças para o som e o enriquecendo com mais ferrugem e enxofre. Os pedais levantam a poeira, causando um nevoeiro imenso, e os solos de guitarra são a chave para o poder da criatura que assola a mente e a alma de quem o vê. Tiro certeiro em favor de um bom Blackened Speed Metal. O trecho final traz uma versão adaptada da icônica música tema do jogo Tetris (conhecida originalmente como a canção folclórica russa “Korobeiniki”).
“Além dos reinos da escuridão
Todos os meus enganadores esperavam que eu morresse
Jogado em uma maldita sepultura congelante
Nenhuma água benta ou sacerdote jamais veio em meu auxílioDo crepúsculo ao amanhecer
Eu retorno como um pesadelo do
Passado, em seus sonhos eu apareço
Assombrando sua paz, trazendo a escuridão para a luz”
Meu coração sangra, mas ainda bate
O órgão surge de maneira impiedosa para anunciar “Dracula’s Curse”, que narra a jornada sem fim de um caminhar infinito e entristecido. Em seguida, as guitarras sugam fluidos e destronam almas por meio de riffs que desenham esse trajeto nefasto. Essas linhas sonoras apresentam um receituário voltado ao Heavy Metal tradicional, perfeitamente alinhado ao contrabaixo de Raír Tavizón e à bateria acelerada de J. P. Alatorre. Para completar, solos cortantes desabam telhados próximos à caminhada maldita do conde, deixando o percurso ainda mais impressionante. Dessa forma, o folclore vampírico da Transilvânia avança de vento em popa, impulsionado por um excelente ritmo mid-tempo sob o comando absoluto das cordas.
“Sem conclusão final, o dracônico
Rei ainda vagueia, em eterna tristeza
A lua é seu único amor, séculos
De sofrimento, nunca destinado a morrer.
E em seu pacto solitário com o inferno
Sua tristeza permanece inabalável”
A estrela do amanhecer sangrento e seu golpe de ferro mortal
A faixa comanda duas frentes, simbolizando seu nome duplo. O ritmo instrumental aparece para revelar a primeira parte, a estrela do amanhecer sangrento. Para depois, complementar com o golpe de ferro fulminante e mortal. “Morgenstern / Iron Strike” caminha sob o laço de sangue feito com o Heavy Metal ríspido, cheio de tremolo e com a aura impiedosa, conforme manda a cartilha de Drácula. Ademais, os solos metralham e se desfazem de suas vítimas como se não fossem nada. Essa sequência da jornada traz variações voltadas para o headbanging, enquanto a passagem sonora evoca batalhas e armamentos medievais diretamente associados à mitologia vampírica.
“Nuvens cinzentas circulando no céu
Trovões sangrentos como gritos distantes
Apocalipse sobrenatural, esmagando carne e ossoTodos os horizontes se fendem com luz ardente
Fogos consumindo os mansos e os dóceis
Implorando pela morte com um gemido sufocante”
Invocação das forças letais
“Summoned to Kill” joga o ouvinte de volta ao campo de batalha por meio de um instrumental impulsivo. Logo de início, a faixa começa sem qualquer cerimônia e indica que a sequência de golpes musicais será ardente, estridente e envolvente. Enquanto isso, os versos concentram forças na invocação de rituais e no anseio por vingança. Nesse cenário, o ritmo frenético das cordas e do alicerce percussivo faz jorrar o sangue por condados assassinos. Para finalizar, os vocais recuperam seu vigor total e entregam um Speed/Thrash nos moldes do Living Death, coroando o sucesso que o álbum constrói até aqui.
“Nenhuma estaca ou corrente
Funciona contra mimVampiro! Um senhor
Da escuridãoO pesadelo
Arrancando seus olhos com as garras.A noite desce
Você não pode mais se esconder”
Após a meia-noite, todas as superstições se tornam reais
Um título como “Not Midnight Yet” lembra facilmente o clássico “2 Minutes to Midnight”, clássico absoluto do Iron Maiden (“Powerslave”, 1984). Uma breve virada de bateria e riffs eletrizantes ensaiam o início do sétimo capítulo dessa história. O compasso mais cadenciado e voltado ao Metal tradicional é desferido sem medo e com total devoção ao estilo de música mais prolífico do mundo, cortesia do Phantom.
A traição inesperada de um aliado o faz pensar que tudo que parecia ter significado, passa a valer pela outra ponta e toda a superstição se torna real. A escuridão da noite ainda permeia o que está por vir e ninguém está a salvo.
O conde revela que está próximo do fim, mas que ainda não é o final. Ainda há muito a fazer e o traidor não poderá limpar seus pecados, enquanto a música avança e se encontra com arranjos de violão. Diante disso, a melodia marca e fortalece o refrão, oferecendo a sustentação ideal para a sonoridade enriquecida com urânio metálico. Por fim, a aceleração das bases e os solos contagiantes rasgam os alto-falantes, elevando o triunfo à escala do Thrash oitentista e revigorante.
“Segurando entre minhas mãos
Coisas que nenhum espelho poderia prever
Uma alma quebrada pela dor
De nenhuma causa compreensívelMil perguntas na minha cabeça
Por que a traição? Por que desta forma?
Mas desta vez você não vai escapar
Você não vai lavar os seus pecados”
Ode ao folclore romeno
“Solomonari” invade o cenário medieval da Romênia e destaca o poder oculto de quem controlava essas terras tão valiosas quanto o seu próprio folclore. Os feiticeiros Solomonari (ou Șolomonar no singular) conduzem e conjuram ritos sob uma atmosfera maligna, modificando até mesmo o próprio clima. A faixa inicia em forma de hino, trazendo um ar bastante épico para a introdução melódica. Riffs incandescentes chamam o ouvinte para mais uma viagem sonora cheia de riscos, onde somente os fortes e valentes sobrevivem.
O Heavy Metal do Phantom canta alto nas caixas de som e toda a magia da época gloriosa é transportada para os tempos atuais, também descrevendo o poder oculto dos feiticeiros – estes podem mudar o clima com chuvas para uma boa colheita, desde que sejam bem tratados ao pedirem comida de porta em porta nas aldeias. Caso contrário, provocam tempestades com a clara intenção de impedir o proveito do plantio. Eles se disfarçam de pedintes, carregando seus livros de feitiços e instrumentos mágicos.
Seu ritmo mid-tempo é proposital e mantém a toada épica. Vale destacar o trabalho dos guitarristas Harel O. e J. C. García, desde a abertura da música, passando pelos riffs, emendas e solos vertiginosos e magistrais. As runas de pavor prevalecem e a força reunida no sangue para o ritual é mantido em cada nota desferida com o poder da música pesada e épica.
“Línguas de cinzas e runas de pavor
Incantações para os mortos!!Quebre o selo do tempo infinito
O sangue é a chave para a vida!”
A soberania das entidades malignas
Apostos os dedilhados rápidos e rasteiros para abrir alas aos riffs impiedosos de “Sepulchral Majesty”. Estes, por sua vez, exalam o enxofre necessário para destacar sua temática através dos versos. Esta música narra o retorno vingativo de um poderoso guerreiro morto em 1475, agora transformado em um senhor vampírico, Strigoi, que busca sangue em um cenário macabro.
Em meio ao som do Phantom voltado ao Thrash/Speed Metal, com emendas e viradas bruscas, cortantes e letais, a letra descreve o banquete sangrento do ser, que é descrito como o filho de Belial. Destaque para o refrão com tração nas quatro rodas, como um possante veículo de rally e vocais que arriscam agudos certeiros. Tudo isso, sem contar os solos autênticos e efervescentes.
“O luar brilha na capela de sangue,
As presas do conde rasgam sua carne,
A sede de sangue venceu. Desejando o seu fim, enquanto drena toda a sua vida
Banquete insaciável do filho de Belial”
“Uno, dos, três, cuatro.”
“Curse Your Name” possui um início diferenciado também, incluindo um arranjo especial para este primeiro capítulo antes do fim deste trabalho. Perceba que o andamento se assemelha aos moldes do Metallica, principalmente na parte inicial. Isso traz mais corpo e beleza ao caos que está por vir.
Diante de um sistema cruel cheio de regras e nenhum propósito construtivo, a composição do Phantom retrata o ódio profundo e a rejeição contra figuras autoritárias e divinas. Esse caos surge sem qualquer segredo e apresenta aqueles trechos mágicos que te chama para agitar na pista e também dissolver o seu ódio através do som e em sua garrafa de cerveja. Os riffs, no entanto, projetados para os versos apresentam um toque especial e calcado no receituário do Iron Maiden, somando com os refrãos projetados em cima do Living Death. Dessa forma, os vocais perseguem os horizontes do vocalista Thorsten Bergmann.
O nome do ser enganoso será amaldiçoado enquanto o personagem principal segue o seu caminho sozinho em busca da noite.
“Sem tempo para tristeza
Sem tempo a perder
Eu me fui para todo o sempre
E agora eu amaldiçoo o seu nome!Talvez amanhã! Você acerte.
Por enquanto, serei a tristeza silenciosa em seus olhos.Meu coração não está vazio, mas eu tenho que lutar,
Uma trilha solitária, meu amigo, eu caminho em direção à
Noite”
Violões que aquecem o que sobrou da alma
O conceito evoca a melancolia e o rastro de sofrimento deixado pelas criaturas da noite. Para tanto, o Phantom utiliza uma curtíssima peça instrumental que serve de ponte atmosférica dentro da obra.
“A Trail Full of Sorrows” retrata o prenúncio do fim da jornada e a construção de um grande trabalho, com surpresas, além de pontes para as próximas edições.
Memórias de batalhas travadas e o triunfo do Metal
A última deixa do Phantom foge da principal temática do disco e estabelece a força motriz que conduz a banda em sua jornada metálica. O triunfo do Heavy Metal é condecorado com uma sonoridade caótica e uma avalanche repleta de solos velozes, além de serem totalmente condizentes com a trama. Dedilhados avançam e encontram riffs desafiadores de novos adversários, assim como a bateria é capaz de intimidar os grandes comandantes de exércitos inteiros. Isso, sem contar com o contrabaixo que destrona fileiras de soldados por onde toca.
Embora a letra seja voltada para o gênero em si, ela descreve a jornada através de metáforas que podem ser adaptadas a várias situações, como outro tipo de emprego, por exemplo. Você deve lutar e não se render jamais. Se ajoelhar, nem pensar. É hora de atacar e seguir em frente, visando futuras batalhas e comemorando cada conquista. Porém, sem sair do percurso e mantendo a seriedade de um verdadeiro guerreiro.
Em suma, é um verdadeiro e digno desfecho de um disco do Phantom que prometia bastante e entregou muito do que era esperado. Os solos com dedilhados enfeitiçados por pura magia romena, engrandecem o final da obra. No entanto, os mesmos solos se prolongam e entram em outros formatos, apimentando ainda mais o ambiente que permeia o Speed cadavérico e o Heavy tradicional. Ouça o verdadeiro eco soberano de “Echoes from the Fights” e retome as lutas a partir do início deste álbum!
“O último elo da corrente
Debaixo de todos os outros
Exilado, mas NUNCA ME RENDENDO Agora os sinos dobram novamente,
Enfrente seus medos ou afogue-se neles.
LEVANTE-SE E LUTE!! Nunca — SE CURVE OU SE AJOELHE”
Esqueci alguma coisa? Ah, sim! Eu não esqueci não. Fiz de forma proposital e isso tem explicação. Siga a autoestrada de nanquim virtual e entenda o motivo.
A liberdade de tocar o som que deseja
O Phantom permeia os caminhos entre o Speed, Heavy e Thrash Metal, além de ir ao encontro de outras linhagens musicais. Por exemplo, no disco anterior, apresentaram a faixa “Nimbus” – uma música com elementos do Gothic e também do Power Metal. Essa composição, inclusive, acrescenta ao álbum um tempero diferenciado para somar com a sua sonoridade tradicional. Vale citar ainda a sua proximidade com o Black/Thrash, que é considerado o subgênero mais complexo de se examinar em uma música. Isso ocorre em demasia, principalmente quando o álbum não possui somente este artifício, carregando outros espectros consigo.
Nesse sentido, se “Nimbus” é a faixa mais diferenciada do álbum anterior, a faixa mais heterogênea de “Not Midnight Yet” atende por “The Pale Remains of Time”. Afinal, o que mais chama a atenção nela, além do seu formato, são os vocais limpos e “preguiçosos” do também guitarrista J. C. García. Parece um cântico em forma de zoeira, de deboche, longe de se preocupar com afinação ou qualquer coisa do tipo.
O impacto causado é alarmante, pois o álbum vem em uma toada muito forte e essa surpresa vem bem no meio do tracklist, quase pondo tudo a perder. Creio que muita gente até tenha parado de ouvir o disco aqui. Porém, posso dizer que a confiança quanto ao trabalho da banda mexicana fortalece a continuidade da audição do disco. Contudo, esse quebra-molas acaba não jogando o carro para fora da pista em definitivo. Você consegue retomar a dianteira e seguir o percurso até o fim da nova joia musical do Phantom.
“3 da manhã, ainda acordado
Pensando naquele passado
No final, aqui estou
Mas a cicatriz ainda duraTalvez não seja tarde demais
Mas eu não deveria tentar voltar
Ou irei me perder no fluxo
Nos pálidos restos do tempoTentei encontrar um caminho
Mas o relógio continua avançando
E eu vou desaparecer
Nos pálidos restos do tempo”
Nota: 8,5
Integrantes:
- Harel O. (guitarra)
- J. C. García (vocal, guitarra)
- Raír Tavizón (baixo)
- J. P. Alatorre (bateria)
Faixas:
- Hordes of Bats
- Out of the Mausoleum
- Dracula’s Curse
- Morgenstern/Iron Strike
- The Pale Remains of Time
- Summoned to Kill
- Not Midnight Yet
- Solomonari
- Sepulchral Majesty
- Curse Your Name
- A Trail Full of Sorrows
- Echoes from the Fights