Resenha: Phantom – “Tyrants of Wrath” (2025)

Se a Suécia tem o Ghost, o México tem o Phantom. E a banda representante de Guadalajara lançou seu segundo álbum intitulado “Tyrants of Wrath”. Brincadeiras à parte, a banda mexicana veio para ampliar o marcador a favor da sonoridade podre e carcomida, sucumbida pela dominação do inferno e malevolente como um martelo em chamas sendo arremessado no peito do alvo.
O novo álbum foi gravado e mixado no Nehtron Studios, México, durante novembro/dezembro de 2024. Héctor Northen foi o responsável pela gravação, mixagem, produção e engenharia, tendo o apoio de J. C. García. A masterização foi feita por Patrick W. Engel no Temple of Disharmony, Alemanha, em janeiro de 2025.
O álbum segue uma pegada forte de Speed/Thrash Metal old school, com riffs velozes, vocais agressivos, além de uma pegada bastante intensa. As grandes influências do Phantom partem através de bandas como Razor, Dark Angel, Merciless, Living Death, e Slayer.
Duas curiosidades cercam a banda: primeiramente, a mesma é também conhecida por Phantom GDL. E em segundo lugar, após o lançamento, a banda iniciaria uma turnê pela Europa entre setembro e outubro de 2025, acompanhada pelos brasileiros do Evilcult.
Mais informações sobre o novo disco do Phantom
A banda mexicana disponibilizou três singles para oferecer aquele aperitivo tradicional em favor do novo álbum – “Thunderbeast”, “Tyrants of Wrath” e “The Tower of Seth”. Por curiosidade, ambos os singles começam com a letra T. Seria alguma jogada de marketing? Ou somente coincidência? Isso, com toda a certeza, não é a parte principal do novo trabalho, mas serve como uma fonte de curiosidade de headbanger a qual me incluo.
O selo responsável pelo lançamento é o High Roller Records – conhecido pelas áreas do underground. Já o lançamento oficial ocorreu em 25 de abril e coloca mais uma ponta de lança na discografia inicial da banda. Maegan LeMay é quem assina a artwork de “Tyrants of Wrath”.

O som é de rasgar os alto-falantes e incendiar o local?
Em vários momentos, temos muitos focos de incêndio sonoro acontecendo e promovendo uma festa em favor da sonoridade podre, agressiva e veloz. Porém, o Phantom usa do seu dom da fantasmagoria e coloca mais tempero em suas músicas, tornando-as surpreendentes a ponto de te inserir em vários caminhos no mapa musical do Speed Metal sujo e estridente.
Podemos destacar de antemão os três singles já citados, mas o álbum não é somente carregado pelas músicas principais. Portanto, o poder de fogo do Phantom é bem maior do que isso.
Antes de mergulharmos mais profundamente nessas músicas, iremos trafegar pelos outros destaques que já venho sinalizando desde então. Vamos a eles!
Depois de uma abertura bastante sinistra com “Poltergeist” – tema instrumental para iniciar bem a jornada – temos o primeiro dos três singles em cena. “The Tower of Seth” dá as primeiras cartas, mas já avançamos para “Violent Invasion” – faixa que fica entre o primeiro single já apresentado e um segundo single na sequência. A invasão ocorre de maneira bastante violenta e dentro dos padrões propostos pelos mexicanos sedentos por guitarras carcomidas e ruídos estridentes.
Trata-se propriamente de uma faixa insana e com solos bem na linha do estilo, somado às bases sujas e ríspidas.
Receita cadavérica eficiente
Antes do single que dá nome ao disco, temos “Dance of the Spiders” – não possui ligação com a clássica música do Raul Seixas, mas é uma verdadeira dança das aracnídeas no inferno – para profanar mais ódio sonoro e aquele clima bem underground e carrancudo, assim sendo bastante divertido para os amantes desse tipo de cenário. Em seguida, “Lost in the Sands” vem para manter o embalo da locomotiva.
A instrumental “Nocturnal Opus 666” abre caminho para a ótima “Nazghul”. O nome já chama a atenção de muitos por aí, eu sei. E a sonoridade é bastante cadavérica e eficiente. O álbum finaliza muito bem com “Dark Wings of Death” e mostra a quem ouviu o poder de fogo desse novo trabalho do Phantom. Portanto, há a concretização de que o novo disco se sustenta até mesmo sem os seus principais singles. Isso mostra o empenho para construir um trabalho coeso e qualificado. Vamos aos singles e outros detalhes do álbum!

A tríade escolhida em divulgação do novo álbum
As músicas foram muito bem escolhidas para formarem a comissão de frente dessa locomotiva sonora. Por ordem do tracklist e não de lançamento, temos “The Tower of Seth”, com seu início ligado ao Heavy tradicional. Porém, um balde de Speed Metal sujo e maldito é despejado logo na emenda da jornada musical. Os riffs entregam aquele balanço charmoso tantas vezes explicado por nós e que faz parte dos padrões musicais do estilo. É uma canção que sofre ótimas variações até a chegada dos solos bem calcados entre o Heavy e o Speed, enriquecendo este urano sonoro com muita precisão e magia negra.
Depois temos “Thunderbeast” – entre ambos os singles temos a já comentada “Violent Invasion”, só para te situar – para trovejar em seus tímpanos a partir da intro dedilhada. A sequência só poderia ser entregue na base da pancada, particularidade da própria banda. A mistura entre vocais mais fortes e macabros com agudos bem oitentistas traz uma dualidade muito vibrante em termos de sonoridade.
A consistência das bases e do alicerce sonoro é tremenda, mas o destaque principal fica por conta das linhas de guitarra, realmente. Além disso, os solos melódicos, maléficos e agudos são acompanhados por uma locomotiva de pedais de média velocidade para tornar a faixa ainda mais rica em variedade dentro da mesma premissa.
A proximidade com o Black/Thrash
Por último, não menos qualificada, é a vez de “Tyrants of Wrath” nos contar um pouco mais sobre esse tempero veloz, ríspido, cortante como navalha e sujo como barbeador velho e enferrujado. O formato de abertura é como um chamado para a valsa mais visceral e divertida que se possa imaginar. A faixa flerta com o Black/Thrash tradicional, por assim dizer, mas está sempre calcada no Speed com requintes de Black Metal. O refrão é puro ataque às canecas, copos, garrafas e latas de cerveja.
Em dado momento, surge uma voz feminina narrando meio que de forma um tanto melancólica e dando um charme a mais para o single. Contudo, esse formato antecede um dedilhado amaldiçoado e que é acobertado por uma base rápida até que esta ganhe ainda mais ímpeto e abra espaço para a sua forma base principal.
Será que esqueci de citar a música “Nimbus”?
É claro que não! Pois, foi proposital! E você saber o motivo disso agora. Afinal, ela vem a ser um contraponto muito interessante para o álbum em si.
“Nimbus” traz consigo elementos ligados a outro estilo, mais precisamente o Gothic. E aonde encontrei isso? Calma, que eu explico! Pessoinha ansiosa!
A faixa começa de forma bem sinistra, mas logo revela suas primeiras notas com aquele leve tom de serra suja a qual cultivamos e gostamos muito. Sua levada tende ao Heavy, mas quando entram os vocais… Uma voz carregada, limpa e voltada para o gótico.
Poderia ser associada ao Power Metal em alguns aspectos, porém o formato se mantém o mesmo e até no refrão essa trilha é percorrida. Para mim, soa como um ótimo contraponto – banda que ousa sem sair dos próprios trilhos – e apresenta um dedilhado inspirado no Heavy tradicional. Os pedais duplos são contínuos em sua maioria e a música aparece bem inserida no tracklist.
“Um homem não foi feito para a derrota
Sempre me levantarei
Para continuar minha busca”
Curiosidades e entendimento sobre as composições malignas
Sabemos que “Tyrants of Wrath” não é um álbum conceitual e também não é temático. Afinal, cada música trata de um assunto em específico e sendo combinado com a sonoridade demoníaca a qual conseguimos capturar seus elementos.
Por ordem das músicas, eu consegui extrair um resumo de cada música – exceto os temas instrumentais, obviamente – e encaixar em uma possível jornada única. Vamos ver como ficou.
Desde quando o homem se tornou líder de algum povoado ou tribo, aconteciam muitas complicações e crimes que, se antes não tratados dessa forma, ainda sim era tidos como descaso. O castelo dos doentes e dilacerados poderia representar muito bem as populações sofridas de tantos países e províncias explorados até os tempos atuais – Brasil, um país de todos menos nosso!
As torturas acontecem abaixo de nossos olhos e em nossa frente também, pois estamos lobotomizados e não reagimos a esse tipo de condição.
A busca pelo poder é tão primitiva que seus infelizes ideais seguem os mesmos. O que pode mudar é a maneira da conquista. Hoje temos drones e aeronaves sem tripulação, que sobrevoam territórios de outras localidades sem serem notados pelos radares. As maldades ancestrais continuam a se banquetear com a sua pele, enquanto imperadores são homenageados dia sim e dia também.
As guerras nunca acabam
Seguimos entre o antigo, o passado recente e o atual. E agora estamos mais atuais do que nunca. Observe:
“Trovão estrondoso do leste
Golpe do poder de ferro
Devastação, poder crescente
No olho do furacão, ele se erguerá
Tempestades de raios nucleares
Tomando conta de toda a terra
Máquinas de guerra da destruição
Sacudindo o chão!! Tremendo o céu!”
Depois de fortes explosões e inúmeras perdas lastimáveis, ainda é possível ver a luz do sol e encontrar um sentido para a vida.
A luz brilhante vista e a brisa de verão que toca o meu rosto (na visão do autor) abre caminho para me posicionar e assumir as rédeas da minha nova vida. Portanto, a esperança ressurge após o secar das lágrimas.
O veneno atordoante com poder bestial
Aqui, podemos encarar como uma metáfora para um sequestro ou uma tortura psicológica – contendo tortura de qualquer maneira. Enquanto a vítima está presa e em pratos numa troca de olhares com o seu predador, eis que o veneno flui diante de uma prisão em um emaranhado de teias.
Milhares de olhos observam você gritar, mas ninguém te ouvirá. Você respira o medo, enquanto as aranhas dançam e te matam.
Agora, o seu legado está amaldiçoado e condenado por toda a eternidade. Serpentes e corvos cercam seus domínios e isso é um sinal de uma derrota histórica a qual está por vir. Forças malignas da noite e legiões esmagadoras da luz marchando sobre toda a terra. O poder destes exércitos é bestial.
Em território egípcio, é sempre possível notar o relato sobre a movimentação de líderes enquanto vivos e também sobre o desfecho final de ambos. Mas muitos que participaram de perto e estiveram envolvidos diretamente com as batalhas dessa época, permanecem debaixo das areias sem qualquer identidade ou reconhecimento. Isso percorre os mares sangrentos do império romano e também os tempos atuais.
“Perdido nas garras das areias escaldantes
O deserto sussurra, clamores dos condenados
Através das tempestades e para dentro das dunas
Minha visão se distorce na escuridão”
A terra média de J. R. R. Tolkien
De repente, somos jogados ao universo de J. R. R. Tolkien. Mais precisamente, O Senhor dos Anéis e seus incríveis e detalhados capítulos. Figuras marcantes fazem desse mundo um grande fator inspirados para músicos e artistas das mais diversas áreas.
A busca insana e incessante pelo poder. A névoa fria a noite trará sob o olhar da vigília de Sauron. Em busca do teu anel amaldiçoado, a decadência trará o amanhecer. A serventia a Sauron sempre em busca do principal objetivo. Ao viajar pela composição, terá um aperitivo que o fará resgatar novamente toda essa jornada ou te fará conferir pela primeira vez, caso não tenha lido os livros ou visto os filmes. Tudo isso, independente de qualquer mudança no roteiro cinematográfico. Dentre alguns itens, temos a citação à canção do Necromante, os mistérios de Choronzon, a figura representativa que nomeia a música – Naazghûl, as lâminas de Morgul, dentre outros detalhes e com o tradicional caminho da busca de um anel para a todos governar.

A herança condenada com requintes de crueldade
O final da história pode ser ligado a vários pontos do disco, pois relata uma catástrofe em forma de fantasia e também medieval, mas revelada como herança até o fim dos tempos. A humanidade selou o seu destino.
Inclusive, pode ser ligado ao tema citado acima. O senhor do castelo ouve os gritos de dor. Isso se dá por conta da destruição causada pelo dragão. Suas muralhas, suas terras e seus homens sofreram e sucumbiram com o ataque das chamas da criatura implacável.
Ou se inclinava perante a besta em meio a fogo e sangue, ou seria decretado o fim de tudo ali mesmo. Por fim, o domínio do conquistador se estende por quilômetros à frente e para o terror negro que ele monta, ninguém tem chance. Em suma, as próximas gerações temerão o inferno desencadeado.
Considerações finais sobre o enxofre mexicano
O estilo de som tocado pelo Phantom é muito bom de se ouvir, pois você consegue enxergar muitos detalhes em meio a um plano bem sujo equilibrado. Harel Mortem se mostra um guitarrista formidável para o estilo musical proposto, enquanto seu parceiro de cordas, o baixista Raír Tavizón, contribui para um exalar de enxofre sonoro ainda maior. J. P. Alatorre enriquece o alicerce com seu kit e traz mudanças de andamento precisas durante a passagem de cada música. Por fim, J. C. Necrohex é o homem da voz alarmante, oriunda das catacumbas profanas e obscuras, capaz de tornar a sonoridade ainda mais maléfica do jeito que já é naturalmente.
Observações:
Um quarto single ganhou videoclipe foi lançado, embora não divulgado em todas as principais plataformas de dados sobre a banda. A música escolhida foi a derradeira do disco, “Dark Wings of Death”. Sendo assim, a tríade virou quadra. Mais uma forma de se manter antenado a este excelente trabalho do Phantom!
“No near sight of life from now & Forever
Answers i must search for in that ring
Morgul blades align, nocturnal tempest
Following through the gates to stampede
Neverending suffering, cursed for ages
Servant of sauron, demonic king
Killing for the masters, gold and silver
One ring to rule them all”
nota: 8,8
Integrantes:
- J.C. Necrohex (guitarra, vocal)
- Harel Mortem (guitarra)
- Raír Tavizón (baixo)
- J.P. Alatorre (bateria)
Faixas:
- 1. Poltergeist
- 2. The Tower of Seth
- 3. Violent Invasion
- 4. Thunderbeast
- 5. Nimbus
- 6. Dance of the Spiders
- 7. Tyrants of Wrath
- 8. Lost in the Sands
- 9. Nocturnal Opus 666
- 10. Nazguhl
- 11. Dark Wings of Death