Resenha: Nightfall – “Children of Eve” (2025)

Meu primeiro contato mais acentuado com o Nightfall aconteceu recentemente – mais precisamente, durante a penúltima edição do Setembro Negro. A 15ª edição do festival brasileiro ocorreu em setembro de 2023 e contou com a presença dos gregos. Estes entregaram, portanto, uma ótima apresentação a ponto de fazer o dono do nanquim virtual a pesquisar mais sobre o trabalho musical deles.
Antes de mergulhar nos mares de “Children of Eve”, vamos relembrar um pouco sobre o show realizado em solo paulistano ao lado de várias outras bandas tão incríveis quanto.
A alma teatral aliada ao som extremo
Bandas gregas costumam seguir algumas tradições de seu país e uma delas é a arte de mergulhar profundamente nos temas ao interpretar cada detalhe como se aquilo realmente estivesse acontecendo no mesmo instante.
A banda utiliza de muitas variações de subgêneros e consequentes mudanças de andamento ao longo do percurso musical. Sua trama é ligada ao seu som e vice-versa, fazendo que cada música tenha a sua identidade e não seja esquecida após tocarem a faixa seguinte.
A banda grega de Melodic Black/Death/Doom/Gothic Metal tocou no dia 8 de setembro de 2023 – 1º dia do evento sem contar a pré-festa. Os detalhes do desse show e do festival você encontra ao clicar AQUI.
Tal mistura resultou em algo similar – no quesito trazer ideias dentro de misturas não tão comuns – ao que Cradle of Filth e Karcinoma fazem, só para exemplificar. Assim, a banda mostrou que a Grécia não vice apenas de Rotting Christ e Varathron, entre outros nomes mais conhecidos pelos headbangers.

Detalhes do novo álbum do Nightfall
“Children of Eve” é o 11º álbum de estúdio da banda grega e foi lançado no dia 2 de maio através do selo Season of Mist.
O novo full-lenght possui 10 faixas, sendo que 5 delas se tornaram singles para divulgação do mesmo. Cada single recebeu um videoclipe ou lyric video, dos quais poderão ser conferidos durante a leitura deste pequeno livreto de bolso. Em resumo, foram três vídeos e dois lyric videos.
“Children of Eve” foi gravado no Devasoundz Studios, na tradicional Atenas, Grécia. O disco foi mixado e masterizado no Hansen Studios, Ribe, Dinamarca. A ótima arte da capa é assinada por Eliran Kantor, tradicional e reconhecido artista nesse campo. Efthimis Karadimas, Fotis Benardo e Thimios Krikos ficaram a cargo da produção e engenharia do álbum, enquanto Jacob Hansen assina a mixagem, masterização, além da engenharia.
Interpretação impecável ao vivo, mas e quanto ao novo disco?
Destaques líricos e musicais de “Children of Eve”
“I Hate” inicia a jornada do jeito que o fã de Metal extremo gosta, ou seja, honrando o próprio nome. A faixa possui uma estrutura que remete ao Vader, mas adentra em bifurcações diferentes, assim encontrando elementos do Black Metal e que funcionam como um quebra-cabeça para encaixar junto ao Death Metal. O refrão em coro fornece o brilho obscuro de uma catedral combalida, enquanto o andar da carruagem oferece mais elementos dos outros subgêneros envolvidos com o estilo da banda e as linhas oferecidas pela própria música. Sua parte final traz algo de Hate e Dimmu Borgir, mas sempre ficando com sua própria identidade intacta.
Este single possui um videoclipe muito bem filmado e produzido, reforçando cada nuance do mesmo e cada mensagem em prol do filho da luz.
“Idos de março Hora de pagar
Dance como fogo
Sobre o gelo sagrado
Eu sou o filho da luz – milhões de sóis do leste ao oeste
Eu sou o filho da noite – Saturno conhece bem meu nome
Eu sou o filho da luz – o trovão ardente ilumina minha vontade
Eu sou o filho da noite – bastardo notório, EU ODEIO
Gravite Para o núcleo Da antifé
O horrordrome”
A sequência que apresenta ainda mais força
“The Cannibal” é algo relacionado ao terror cósmico com toques de realidade e o nome da música se refere a quem te quer vivo para continuar controlando seus anseios e alimentando os seus medos. De início, ela resolve as coisas no primeiro assalto, pois sua linha sonora explora os vales sombrios da música extrema em comunhão com o Death Metal. Os solos vorazes alavancados até distorcer milhões de almas abre caminho para uma rifferama categórica até mergulhar no pântano do Black/Death.
O refrão é a chave para a luz negra no fim do inferno e, como grande parte das músicas do Nightfall, não fica em uma mesma linha. Assim, trafegando em diferentes horizontes sem deixar o mapa voar pela janela. Mais solos surgem para quem os aprecia, tornando a música ainda mais poderosa do que aparenta.
“Lurking” completa a primeira trinca e apresenta o lado Gothic da banda em junção com alas mais extremas. O destaque fica por conta da bateria que segue condutas mais robustas em alinhamento com normas mais simplórias, de acordo com cada trecho da faixa. Caberia em um repertório do Crematory, por exemplo. Seus solos são acompanhados por bases ousadas e obrigam a música a pisar no acelerador para em seguida retomar o seu ritmo médio tradicional. Aqui, estamos diante de um Gothic/Black Metal muito bem executado e de raro empenho, cruzando as áreas mais distantes do inferno e tendo a certeza de que a mensagem vinda do sul do céu está sendo bem encaminhada.
“Sou as trevas
Sou a carne
Sou a ira
A ira sagrada”
Outros componentes que complementam o poderio do Nightfall
“Inside My Head” apresenta uma primeira parte com tons mais épicos, enquanto seu trajeto subsequente percorre caminhos mais densos, velozes e extremos. “Seeking Revenge” traz novamente a receita do Gothic com o Black Metal, em um lance bem vampírico e estridente.
“For the Expelled Ones” carrega a flâmula do Doom Metal, mas não se limita a um único gênero. A obra explora os vales da música extrema e une bem essa receita, dosando o “tempero de enxofre” com equilíbrio.
Após uma abertura com pano de fundo meio cósmico, “The Traders of Anathema” descarrega toda a sua revolta e você nota com precisão o tilintar dos pratos e o sonar dos bumbos, além das palhetadas precisas e os vocais cavernosos sempre essenciais às tramas.
A cadência envolvendo o Doom e o Gothic alimentam a chama variante da banda, que por sua vez, clama para você entrar na valsa e festejar como uma bela criatura do submundo. Contudo, a melhor parte fica por conta dos solos e apoiados por bases incessantes em favor do grande mestre.
“Crianças, lembrem-se
Negociar é arte
Lembrem-se, eu sou o mestre
Meu nome é Judas Iscariotes”
A tríade final
Em um campeonato de nomes grandes para músicas, com toda a certeza, “With Outlandish Desire to Disobey” poderia competir. Entretanto, não ganharia. Afinal, existem nomes muito maiores que esse para uma canção – ganharia se fosse competição entre músicas do próprio álbum – e acabaria ficando como menção honrosa.
“Na calada da noite
Desafiamos a morte eterna
Carregados de ódio”
A mensagem já começa assim e isso é uma ótima pista para saber para qual caminho a faixa nos guiará. O vocal feminino inicia o recital maligno e forma um duo nos refrãos, mas sempre mantendo a chama do som pesado acesa. Além disso, possui um videoclipe tradicional – feito com a banda “tocando” normalmente, sem segredos – e que pode aumentar o poderio da canção, já que mostra a banda in action.
Até pensei que a baixista Vasiliki Biza – ou Βασιλική Μπιζά, para os íntimos – é quem emprestasse a sua voz, mas o videoclipe comprova que não.
A penúltima página deste pergaminho sonoro grego atente por “The Makhaira of the Deceiver”. Sua trajetória começa de modo mais cadenciado, porém sempre bem sombria e macabra. A guitarra gélida está lá e sempre te coloca no cenário ártico mesmo que tudo esteja em chamas. “Arde e queima tanto que congela”, – diria o jovem poeta perdido na floresta de pinheiros.
Essa é a música que cita o nome do disco e possui um trecho em que segue numa crescente visceral, culminando em batimentos cardíacos e choro de criança. Um coro feminino surge para contornar a situação até que a sonoridade ganha ares de grandeza. Temos um Black/Death Metal com aura épica e espírito devorador de luz, simbolizando a nós, filhos de Eva e que sempre reencarnaremos para continuar a sofrer por ela.
Alçada final
De modo vagaroso ela passeia. Sob olhares atentos de quem observa o ritmo das palhetadas, ela se desenvolve com precisão e alcança seu voo mais alto. O caminho era em busca de algo épico e cá estamos. Quase uma fusão inesperada de Dimmu Borgir e Ex-Deo. O resultado é comovente e torna o ambiente catastrófico da melhor qualidade. Tal climatização chama a atenção por estar no final da obra e apresenta um ar de poderia ir um pouco mais longe, ou que esta poderia estar em uma outra ordem no tracklist.
Essa sensação se consolida na base contínua e que antecede o final definitivo. O piano melancólico dita o ritmo soturno para o término de tudo e a consequente apagar das luzes.
“Christian Svengali”, ou o manipulador hipnótico cristão, é quem dá as cartas e comanda a jogatina. Em Vegas, ele é quem dirá o pouco que você irá ganhar e o muito que irá perder.
“Oh meu amor, demônio
Salve-me do
mal religioso”
Resumo da ópera maléfica
Embora possua um começo de jornada muito elevado, o complemento sustenta a obra, ou seja, mantém o percurso musical intacto e propicia uma audição completa sem nenhum desvio ou qualquer tipo de distração. Além disso, você poderá encontrar outros destaques. Ou melhor dizendo, entender que determinadas faixas soam melhores do que as que foram mais destacadas e colocadas em primeiro plano.
“Your children feed
The world with power
And though we bleed
For you we keep on
Suffering and suffering
Until we expire and being born againChildren of Eve”
Nota: 8,8
Integrantes:
- Efthimis Karadimas (vocal)
- Kostas Kyriakopoulos (guitarra)
- Fotis Benardo (bateria)
- Vasiliki Biza (baixo)
Faixas:
- I Hate
- The Cannibal
- Lurking
- Inside My Head
- Seeking Revenge
- For the Expelled Ones
- The Traders of Anathema
- With Outlandish Desire to Disobey
- The Makhaira of the Deceiver
- Christian Svengali
