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Resenha: Megadeth – “The Sick, The Dying… And The Dead!” (2022)

Desde o início de sua trajetória, o Megadeth sempre foi uma banda do tipo “ame ou odeie”. Enquanto na parte instrumental, principalmente, no quesito guitarristas, foi responsável por arrancar elogios até mesmo de haters inveterados, por outro lado, os vocais de Dave Mustaine sempre causaram a repulsa de boa parte dos headbangers ao redor do mundo. É bem verdade que não dá sequer para imaginar hinos como “Holy Wars”, “Peace Sells”, “In My Darkest Hour” ou “Tornado Of Souls” sendo cantadas por outro vocalista. Sendo assim, podemos concluir que se a voz de Mustaine não agrada todos, ao menos ela se encaixa como uma luva na proposta da banda e é um dos fatores preponderantes que fazem do Megadeth um nome reconhecidamente portador de originalidade indiscutível.

Mas por que começar uma análise de um novo disco dissertando sobre um tema tão manjado como “a voz de Dave não agrada a todos”?

Simples. Este é um ponto fundamental na análise do novo registro e, inclusive, é um fator que pode trazer novos fãs para o Megadeth a esta altura da carreira do quarteto.

   

Será que isso é possível? Vamos conferir à seguir.

Reprodução/Facebook

Como todos sabem, Dave Mustaine passou recentemente por um câncer na garganta e, apesar do tratamento e recuperação terem sido um sucesso, esse é o tipo de coisa ao qual você nunca sai ileso. No mais, estamos falando de um senhor de 61 anos de idade (completados neste dia 13 de setembro) que, em toda a sua carreira, nunca foi um exímio cantor. Portanto, mesmo antes da doença, era notável que Dave já passava apuros quando precisava cantar notas mais altas ao vivo. Depois do câncer isso se intensificou e podemos afirmar que algumas músicas do passado jamais serão tocadas novamente em suas tonalidades originais. Em shows mais recentes, pudemos notar que alguns clássicos foram adaptados para a atual condição de Dave e, para o disco novo, o músico fez o que se imaginava: não tentou ser o Dave dos anos 90 e investiu em um novo estilo vocal um pouco mais contido, mais consciente e, sem dúvida, raivoso como de costume.

Outro fator importante que faz “The Sick, The Dying… And The Dead!” ser um disco diferente é a atual formação que conta, principalmente, com o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro e o baterista Dirk Verbeuren.

Em “Dystopia”, álbum anterior, Kiko já tinha sido um destaque latente, mas o baterista na época era Chris Adler (do Lamb Of God). Chris, como todos sabem, tem muitas influências vindas do Groove e do Metal mais moderno e isso acabou dando uma “segurada” nos andamentos das faixas. O álbum é pesado, é bem Thrash em muitos momentos, mas o estilo de Adler fez com que o fã ávido por aquele Megadeth mais veloz e desenfreado ficasse com um gostinho meio amargo na boca.

Com Dirk Verbeuren, a história é completamente diferente. Devemos lembrar que o rapaz, além de ser um fã assumido dos primeiros discos do Megadeth, ainda vem de uma escola voltada ao Death Metal. Traduzindo: era esperado que Dirk sentasse o braço com gosto e fizesse a banda ter ganhos significativos em velocidade e agressividade. E foi exatamente o que aconteceu. Em “The Sick, The Dying… And The Dead!”, temos algumas das músicas mais rápidas e viscerais já gravadas pela banda. Para completar, se Kiko Loureiro se deu muito bem tocando as canções mid-tempo de “Dystopia”, no novo álbum com composições mais velozes ele virou uma espécie de showman despejando solos certeiros em cima dos riffs ensandecidos compostos por Dave Mustaine.

Reprodução/Youtube

No baixo, com a demissão de David Ellefson, após o escândalo sexual ocorrido há alguns meses, temos nada menos que a presença ilustre de Steve DiGiorgio (Testament). É verdade que o exímio baixista não tem tanto destaque no produto final, afinal, todas as músicas já estavam prontas e Steve apenas tocou as linhas previamente compostas por Mustaine e Ellefson. Mas mesmo assim, é um nome de peso que serve para dar ainda mais charme ao lançamento. Falando na demissão de Ellefson, um pouco antes do álbum chegar às lojas, foi anunciado o retorno oficial do ótimo James Lomenzo. Para quem não se lembra, Lomenzo gravou os excelentes “United Abominations” (de 2007) e “Endgame” (de 2009). Na opinião deste que vos escreve, são os dois melhores discos pós-2000 até então.

Resumindo, dá para afirmar tranquilamente que este é o melhor line up do grupo desde a saudosa formação clássica que tinha Friedman, Menza e Ellefson auxiliando Mustaine nos anos 90. Isto fica evidenciado na audição.

Reprodução

O Megadeth é uma banda importantíssima para o desenvolvimento do gênero Thrash Metal, porém, ao longo de sua trajetória flertou com diversos outros estilos do Rock e Metal. Dave Mustaine nunca se importou em seguir uma cartilha musical que o colocasse dentro de uma caixa e os fãs entenderam isso desde o princípio. Mais do que isso, os fãs abraçaram este tipo de postura e sempre elogiaram tal capacidade criativa do músico. É claro que também é preciso mencionar que muitos destes apreciadores pediam e esperavam, há muito, por um Megadeth com mais sangue nos olhos e uma sonoridade que remetesse de alguma forma aos primórdios da carreira. Pois bem, isso finalmente aconteceu.

Se em discos como “United Abominations”, “Endgame”, “Th1rt3en” e “Dystopia”, o Thrash sempre esteve lá, mas dividia espaço com faixas mais amenas e melodiosas, pela primeira vez desde “Rust In Peace”, temos um álbum que pode ser categorizado como fundamentalmente Thrash do início ao fim. Com exceção de uma ou outra música, todas as outras pisam fundo no acelerador e fazem o ouvinte embarcar em uma experiência saudosista surpreendente e muito prazerosa.

A quadra que abre o álbum é tão bombástica e poderosa que me fez questionar por diversas vezes se não seria um dos melhores inícios de disco da história da banda. “The Sick, The Dying… And The Dead!” começa os trabalhos em um clima tenso e sombrio onde, ao fundo, ouvimos alguém gritando a frase:

“Bring out your dead, bring out your dead…” (“Traga seus mortos, traga seus mortos…”).

Fazendo referência à época em que os carroceiros passavam recolhendo os corpos dos mortos e moribundos acometidos da Peste Negra. Logo após somos agraciados por um dedilhado que mantém o clima fúnebre e a canção título se revela aos poucos. Ela vai crescendo até explodir em um Thrash Metal intenso e cheio de mudanças rítmicas. Confesso que precisei de algumas audições para entender esta música por completo, mas depois disso se tornou uma das minhas prediletas.

Depois do êxtase inicial, chega a hora da porradaria comer solta e “Life In Hell” é uma verdadeira voadora na porta. Cortante, ríspida e sem misericórdia com nossos pescoços, esta pedrada em forma de música faz menção a alguém não confiável, que trai, engana e comete atrocidades pensando apenas em si próprio. Seriam os políticos? Tire suas próprias conclusões:

“Você está tão corrompido, você está condenado diante de nós, você é tão desajustado ao mundo em que estamos vivendo e morrendo. Espião contra espião, você nunca terá amigos. Você nega a verdade de onde você veio. Você é pego e então o “jogo da culpa” começa.

Algumas bebidas e então você se sentirá bem. Alguns comprimidos fazem o mundo seguir adiante. Que diabos, de qualquer maneira você já está morrendo. E você vai dizer… Eu sou uma doença, eu sou viciado em mim mesmo. Eu sou tudo o que preciso, vou viver e morrer no inferno”

Se não estava bom o bastante, “Night Stalkers” inicia e aqui estamos diante de talvez a música mais rápida já gravada pelo Megadeth em toda a sua carreira. Dirk Verbeuren mostra toda a sua habilidade e Kiko Loureiro é o dono de solos simplesmente impecáveis, daqueles que você vai cantar junto enquanto bangeia loucamente. A participação de Ice-T somente engrandece a faixa e, apesar de seus mais de 6 minutos, estamos diante de uma composição extremamente raivosa que não perde o pique em nenhum momento.

Minha música favorita em 2022, nem preciso dizer mais nada.

Em “Dogs Of Chernobyl”, a sensação é que estamos ouvindo algum clássico Thrash dos anos 80. Depois do início mais cadenciado e cheio de peso, Dirk mais uma vez demonstra suas habilidades e, passando da primeira metade da canção, temos mais uma daquelas partes rápidas que vão te causar um doloroso torcicolo. O detalhe é que ao mesmo tempo em que a música vai ganhando velocidade, a letra vai ficando mais e mais tenebrosa ao contar como as pessoas morrem sob o efeito da radiação nuclear. No ápice da violência sonora você ouve frases pouco agradáveis do tipo:

“Eu sou um morto-vivo e estou sendo levado em segurança. Eles perguntam a hora da morte porque minha pele parece pastosa. Transfusões, tubos de ensaio e olhos clínicos. Purulência e decadência, minha mortal obediência.

Cobertores de fumaça, os orifícios sangram. A barriga está inchada e as pernas ficam fracas. Inchaço cerebral, órgãos se liquefazendo, radiação aguda. E é assim que eles morrem. É assim que eles morrem…”

Até o momento, um álbum perfeito. Mas nem tudo são rosas e, apesar de “Sacrifice”, “Junkie” e, principalmente, “Killing Time”, com um riff no refrão que lembra muito “This Was My Life”, de “Countdown To Extinction”, serem músicas que não desabonam o registro, é um fato notório que elas não mantém a qualidade altíssima do inicio devastador e nem do final empolgante do track. Sendo assim, podemos concluir que “The Sick, The Dying… And The Dead!” tem uma “barriguinha incômoda” que faz com que a nota dez não chegue.

Veja bem, não são músicas ruins. Nem perto disso. Mas em um disco repleto de sons absolutamente diferenciados, com construções não lineares e técnica apuradíssima, estas são faixas mais comuns e óbvias. Imagine que você está ouvindo “Rust In Peace”, com toda aquela miscelânea musical maravilhosa e, depois de “Five Magics”, ao invés de começar “Poison Was The Cure”, tivesse “Gears Of War”, “Blessed Are The Sick” e “Pay For Blood”, para somente depois disso a audição engrenar novamente. Mesmo estas faixas sendo muito boas, a sensação de que o disco poderia ser mais enxuto se faria presente e é exatamente esta a sensação que ficamos nesta parte de “The Sick, The Dying… And The Dead”.

Reprodução/Youtube

Bem, crítica pontual feita, vamos para a quadra final que, ao exemplo da inicial, é maravilhosa. “Soldier On!” é uma canção que cresce demais quando ouvida dentro do contexto do álbum. Quando ela foi lançada como single, confesso que não me chamou tanto a atenção como as outras, mas inserida no tracklist parece que a canção se transforma e ganha outros ares. As linhas de guitarra são estupendas e o refrão gruda feito chiclete. Depois dela, temos um Speed Metal de primeira linha que atende pelo nome “Célebutante”. A expressão francesa, que faz menção a uma pessoa jovem e de origem rica que se torna uma celebridade, é usada para que Dave apresente toda sua acidez costumeira. Enquanto as guitarras nervosas da dupla Mustaine/Loureiro despejam toneladas de riffs, linhas e solos cortantes sobre nossas cabeças, podemos ouvir frases do tipo:

“Você diz que é modelo, mas é evidente que você nunca conheceu um espelho que você não amou. Você diz que é um anjo com a sua auréola e sua coroa, mas enquanto isso, você voa para o sol e derrete suas asas.

Não é um desejo, é uma obsessão. Você quer ouvir as pessoas gritando seu nome. Sussurros noturnos em confissões da meia-noite. Você fará qualquer coisa pela fama. Celebutante”

Bem perto do fim, temos a “diferentona” “Mission To Mars”. Esta é uma música que, assim como a canção título, precisei ouvir algumas vezes para absorver e entender sua proposta. Com um início bem comercial e um refrão de fácil absorção, ela se transforma totalmente do meio para o final com uma verdadeira exibição de gala do baterista Dirk Verbeuren. Se você tinha qualquer dúvida sobre o nível de contribuição que o músico poderia dar ao Megadeth, este é o momento em que você pensa:

“Dave Mustaine, não se atreva a tirar este cara da banda!”.

Para fechar uma audição no mínimo surpreendente, temos o single “We’ll Be Back”. E preciso dizer, é outro momento de êxtase total com uma rifferama avassaladora, solos monumentais e andamentos na velocidade da luz. Há um trecho vocal que lembra a maravilhosa “Good Mourning/Black Friday”, do álbum “Peace Sells… But Who’s Buying?”, mas em nenhum momento a musica soa como uma cópia. Ela possui vida própria e momentos dignos do Megadeth da fase clássica. Obvio que colocá-la no final do track foi absolutamente proposital e um recado muito claro aos fãs. Até por que a letra de Dave Mustaine é uma espécie de amálgama entre profecia e promessa:

   

“Deixe a guarda baixa e receba um ataque frontal direto. Eu vou voltar!”

Não posso deixar de mencionar que além da performance irrepreensível, o brasileiro Kiko Loureiro se transformou em uma das maiores forças criativas dentro deste Megadeth atual, assinando nada menos que oito composições ao lado do chefe Mustaine. Se no começo, muitos não acreditavam na longevidade desta parceria, aos poucos, a saudade do eterno Marty Friedman vai se dissipando.

Álbum empolgante, furioso, veloz, complexo e, sem dúvida, um dos melhores do ano. Não leva nota máxima pelos motivos já mencionados na análise, mas deixa os fãs com um enorme sorriso de satisfação no rosto. “The Sick, The Dying… And The Dead!” sacia por completo a expectativa criada e vai render inúmeras audições até que Dave Mustaine cumpra sua promessa e volte com mais um disco bombástico como este.

Já estamos na espera!

Nota: 9,2

Integrantes:

  • Dirk Verbeuren (bateria)
  • Dave Mustaine (vocal e guitarra)
  • Kiko Loureiro (guitarra)

Músico convidado:

  • Steve DiGiorgio (baixo)

Faixas:

  1. The Sick, the Dying… and the Dead!
  2. Life in Hell
  3. Night Stalkers
  4. Dogs of Chernobyl
  5. Sacrifice
  6. Junkie
  7. Psychopathy (Intro)
  8. Killing Time
  9. Soldier On!
  10. Célebutante
  11. Mission to Mars
  12. We’ll Be Back

Redigido por Fabio Reis

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Comentários

  1. Assisti a um show da turnê do Distopia em 2016 e foi notável o qianto Kiko Loureiro é influente e tem moral com Mustaine.
    Ainda não ouvi o álbum todo, mas gostei das faixas que já ouvi.

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