Resenha: Megadeth – “Megadeth” (2026)

É inegável que o Megadeth atravessa uma fase bastante positiva, sobretudo quando analisamos seus dois últimos álbuns de estúdio. “Dystopia” (2016) finalmente rendeu à banda um Grammy Awards, prêmio perseguido desde os anos 1990, enquanto seu sucessor, “The Sick, The Dying… And The Dead!” (2022), também recebeu indicação — ainda que não tenha levado a estatueta. Este último, em especial, apostou fortemente no Thrash Metal, com faixas como “Night Stalkers”, “We’ll Be Back”, “Life In Hell”, “Célebutante” e “Dogs Of Chernobyl”, entre outras, resgatando a empolgação dos fãs mais antigos do grupo.

Somente por isso, o novo trabalho já chegaria cercado por uma expectativa perigosa. No entanto, a banda elevou ainda mais esse sentimento ao anunciar que este seria o último álbum de inéditas da carreira. Sim, o autointitulado “Megadeth” (2026) servirá como ponto de partida para uma turnê mundial de despedida, prevista para durar entre três e cinco anos. Após esse ciclo, o quarteto liderado por Dave Mustaine encerrará definitivamente suas atividades.

Polêmicas pré-lançamento

Desde o anúncio, o novo disco gerou controvérsia. A banda divulgou um vídeo criado com inteligência artificial, estrelado pelo mascote Vic Rattlehead, no qual comunicava aos fãs a iminente aposentadoria do Megadeth. Muitos reagiram negativamente à escolha estética e ao uso da tecnologia, ignorando o fato de que o Megadeth sempre figurou entre as bandas mais conectadas às inovações digitais. Vale lembrar que o site Megadeth Arizona foi o primeiro site oficial de uma banda a entrar no ar, em 1º de novembro de 1994 — quando quase ninguém falava em internet.

O lançamento do primeiro single, “Tipping Point”, ajudou a acalmar os ânimos. A faixa apresentou uma continuidade clara da sonoridade de “The Sick, The Dying… And The Dead!”, apostando em um Thrash Metal veloz, técnico e agressivo. Contudo, a segunda música divulgada reacendeu as dúvidas. “I Don’t Care” surgiu com uma abordagem despojada, flertando com o Punk Rock e trazendo uma letra simplista, na qual Dave Mustaine assume o papel de um adolescente rebelde que afirma não se importar com praticamente nada. Embora o single seguinte, “Let There Be Shred”, tenha empolgado novamente, foi “I Don’t Care” que acabou representando melhor o espírito geral do álbum.

Ao ouvir o disco na íntegra, fica claro que Dave Mustaine realmente “não se importa” com expectativas externas. Em vez de seguir o caminho mais óbvio — peso e velocidade —, o Megadeth optou por revisitar sua fase de maior sucesso comercial, especialmente os anos 1990, ao longo de boa parte do tracklist. Resta saber se essa decisão funcionou.

Photo: Ross Halfin

Mais próximo de Super Collider do que de Youthanasia?

Convém lembrar, caro leitor, que o Megadeth já tentou resgatar essa sonoridade noventista em outras ocasiões, quase sempre sem grande êxito. Após a boa sequência formada por “United Abominations” (2007) e “Endgame” (2009), a banda aproveitou o retorno do baixista David Ellefson para explorar referências diretas da tríade “Countdown to Extinction”, “Youthanasia” e “Cryptic Writings” no álbum “Th1rt3en” (2011).

Embora discreto e sem receber críticas muito severas, o disco não satisfez plenamente. A banda insistiu na ideia em “Super Collider” (2013), mas o resultado desagradou a maioria dos fãs. A falta de peso, a ausência de velocidade e o foco em composições mais comerciais afastaram tanto os admiradores da fase clássica quanto o público dos anos 2000. Até hoje, o álbum figura entre os mais mal avaliados da discografia.

A grande diferença agora é que, em “Megadeth” (2026), as faixas de inspiração noventista não definem o conceito central do álbum. Há uma quantidade razoável de material realmente novo, o que confere identidade própria ao trabalho, mesmo com diversas homenagens ao passado glorioso.

Photo: Katja Ogrin / Redferns

Os pontos fortes

“Tipping Point” e “Let There Be Shred” agradam imediatamente por concentrarem mais elementos de Thrash Metal e Speed Metal em sua forma mais clássica. Em “Tipping Point”, o Megadeth acelera sem receio, aposta em mudanças rítmicas e apresenta uma boa variedade de riffs. Já “Let There Be Shred” destaca o Speed Metal, com solos afiados da dupla Dave Mustaine/Teemu Mäntysaari. Ambas foram lançadas previamente e receberam videoclipes oficiais.

“Made To Kill” segue essa mesma linha mais old school e certamente agradará aos fãs da velha guarda. Entre as faixas de estética mais noventista, “Another Bad Day” se sobressai graças às linhas melódicas bem construídas. Embora não soe particularmente original, também não parece uma releitura preguiçosa de ideias antigas.

Encerrando o álbum, “The Last Note” se impõe como uma das composições mais belas dos últimos anos. A música carrega forte apelo emocional, impulsionado por uma letra extremamente sentimental e pelo evidente clima de despedida. Além de envolvente, traz versos que funcionam como verdadeiras chicotadas na alma:

“Cada milha da estrada me desgastou
Cada música entrou na minha pele
As cordas e amplificadores ainda gritam e choram
E eu não posso correr das mãos giratórias do tempo”

“Queimei minha juventude quase todas as noites
Cada show se tornou uma batalha e uma briga
Crescido no caos alimentado pela multidão
A guitarra ficou pesada, é hora de largar”

Os pontos fracos (ou nem tão positivos)

Antes de tudo, vale destacar que nenhuma das músicas é ruim ou execrável. Esta análise parte de um fã incondicional, que sempre espera a melhor versão do Megadeth, especialmente em seu disco derradeiro. Portanto, é possível que você seja menos criterioso e aproveite várias das faixas citadas a seguir.

Dito isso, “I Don’t Care” soa inofensiva, quase ingênua. Talvez tivesse potencial para se tornar um hit nos anos 1990, mas em 2026, sem o apoio das rádios FM, da MTV e de outros canais tradicionais, sua relevância parece limitada. “Hey God!” é a faixa mais descartável do álbum e poderia facilmente figurar em “Super Collider”. Além disso, reaproveita uma linha melódica já explorada pelo próprio Megadeth em “This Was My Life”, “Disconnect” e “Killing Time”, mas sem a mesma eficácia.

“Puppet Parade” também recicla ideias, utilizando um riff bastante semelhante ao de “Almost Honest”, do álbum “Cryptic Writings”. O disco de 1997 ainda empresta outra referência: “I Am War” apresenta uma variação camuflada — e mais pesada — do riff de “A Secret Place”. Por fim, “Obey The Call” até poderia figurar entre os pontos fortes graças ao final empolgante, mas como esse trecho dura pouco mais de um minuto, o restante acaba soando previsível e sem grande brilho.

O cover do Metallica

Confesso que este cover despertou sentimentos mistos, variando entre curiosidade e apreensão. A curiosidade vinha da expectativa de ouvir Dave Mustaine reinterpretando um clássico do Metallica do qual ele participou na composição. O receio, por outro lado, surgia da possibilidade de mudanças drásticas gerarem uma polêmica capaz de ofuscar as músicas inéditas.

Felizmente, a essência de “Ride The Lightning” foi preservada. A releitura se manteve extremamente fiel ao original. Pode-se questionar se o cover era realmente necessário — e a dúvida é válida —, mas, se Dave Mustaine julgou apropriado, resta respeitar a escolha.

O que incomoda um pouco é a posição da faixa no tracklist. “The Last Note” teria sido um encerramento emocionalmente perfeito. Ainda assim, também seria estranho inserir “Ride The Lightning” no meio de composições que dialogam pouco com o passado Thrash Metal de Dave. Desse modo, a decisão faz sentido, mesmo soando agridoce.

Um final melancólico

O Megadeth é, sem dúvida, a banda que mais me influenciou ao longo da minha trajetória no Metal. Por isso, preciso ser honesto: este não é o disco que eu esperava — ou desejava — ouvir como despedida. Ainda assim, a escolha foi de Dave Mustaine, e dificilmente alguém entende melhor o Megadeth do que ele.

“Megadeth” (2026) apresenta excelente produção, fruto de um trabalho irretocável de Chris Rakestraw, com co-produção de Dave Mustaine. A arte de capa, assinada por Blake Armstrong, é belíssima, e todos os integrantes entregam performances sólidas. O novato Teemu Mäntysaari, embora tecnicamente competente e autor de bons solos, ainda soa um pouco burocrático e carente de personalidade.

Senti falta das tradicionais letras ácidas de Dave, com críticas sociais e políticas — um terreno fértil nos dias atuais. Também chama atenção a ausência de composições mais elaboradas, com múltiplas mudanças rítmicas e longos trechos instrumentais.

Em resumo, trata-se de um álbum honesto e bem executado, porém sem a aura de um final grandioso. Com exceção das faixas destacadas entre os pontos fortes, dificilmente será lembrado como uma obra celebrada no futuro. Encaixa-se, portanto, como um bom disco dentro de uma discografia repleta de bons discos — longe dos melhores momentos, mas também distante dos piores. Talvez, no fim das contas, este seja mesmo o momento certo para parar.

“Eles me deram ouro
Eles me deram um nome
Mas cada acordo foi assinado em sangue e chamas
Então aqui está meu último testamento
Meu testamento final, meu sorriso de desprezo
Eu vim, eu reinei, agora eu desapareço”

Nota: 7,5

Integrantes

  • Dave Mustaine (guitarra e vocal)
  • James LoMenzo (baixo)
  • Dirk Verbeuren (bateria)
  • Teemu Mäntysaari (guitarra)

Faixas

  1. Tipping Point
  2. I Don’t Care
  3. Hey, God?!
  4. Let There Be Shred
  5. Puppet Parade
  6. Another Bad Day
  7. Made To Kill
  8. Obey The Call
  9. I Am War
  10. The Last Note
  11. Ride The Lightning (Metallica cover)
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
2 comentários
  • Grande resenha, Fábio! Sei que é muito difícil fazer uma resenha sendo um grande fã da banda. Parabéns pela imparcialidade. Pra mim, foi uma despedida justa. Confesso que esperava mais pelos singles, mas longe de ser um disco com músicas ruins. Pra mim, Nota 8 está de bom tamanho. Valeu MM!!!

  • confesso estava com certo receio que esse album nao seria grande coisa fico feliz ter me enganado como album encerramento ele fecha muito bem a saga do megadeth, oque mais curti concerteza foi instrumental muito bem executado e variado nesse aspecto a banda nunca deixou a desejar agora a parte vocal variou bem de partes medianas,otimas e esquisitas meio fora de sintonia claramente nosso velho dave nao esta nos seus melhores dias infelizmente , apesar de achar o anterior levemente superior a esse ele nao faz feio e honra nome da banda ,musicas mais curti foi a dont care,obey the call e last note , cover do metallica eu achei bom porem nao achei voz do dave se encaixou tao bem mas a parte instrumental ficou fora de serie cover nota 8 facil ,nota de 7,5 e justissimo para esse album ,felizmente a primeira boa surpresa do ano esse album.

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