Resenha: Martyrium – “Malevolent” (2026)

Os holandeses do Martyrium quebram um jejum de seis anos e retornam com o seu mais recente lançamento. Com este novo trabalho, a banda de Maasbree (Limburg) finalmente fecha a sua primeira trinca de álbuns de estúdio. Antes dessa novidade, o catálogo do grupo contava apenas com os discos “Ideology of Death” (2001) e “Abandon Hope” (2020).
A banda de Black/Thrash Metal surgiu em meados de 1996 e se manteve ativa até 2002. Posteriormente, em 2014, os músicos se reuniram para espalhar seu caos sonoro pelo planeta. Vale lembrar que o grupo iniciou sua jornada discográfica com a singela “Demo ‘98”, lançada em 1998.
O novo álbum se chama “Malevolent” e chegou ao mercado no dia 21 de agosto através do selo Apostasy Records. Ao longo de quase 40 minutos, o trabalho promete total fidelidade ao estilo, além de compactar 11 músicas em um tempo de duração muito elogiado pelos fãs de Metal.
No que diz respeito à produção técnica, Erwin Hermsen gravou, mixou e masterizou o disco no estúdio Toneshed Music Production, em Horst, na Holanda. Hermsen também executa o solo de guitarra na faixa 4, que comentaremos a seguir. Além disso, o profissional Fons van Dijk (será que ele é parente do famoso zagueiro holandês?) atuou como engenheiro assistente. Por fim, o artista The Bringer assina a arte de capa, enquanto Derikersani coordenou a artwork e Wouter Wagemans cuidou do layout.
Apresentação oficial do Martyrium via Bandcamp:
“Por quase três décadas, o MARTYRIUM tem carregado a bandeira do blackened thrash metal pelo underground holandês. Despreocupada com tendências e modismos passageiros, a banda se manteve fiel a um som construído sobre agressividade, velocidade e atmosfera.
“Malevolent” continua essa trajetória com confiança. Firmemente enraizado no black/thrash metal e aprimorado por ocasionais influências de death metal, o álbum entrega onze faixas onde o caos controlado encontra a destruição total. Cada música serve ao todo, resultando em um álbum coeso que permanece furioso do começo ao fim.
Não há concessões nem desvios em Malevolent – apenas uma banda fazendo exatamente aquilo em que acredita desde 1996.”

Destrinchando a nova obra do Martyrium
A capa transmite com nitidez o conteúdo do disco. Embora nem sempre as artes funcionem assim, esta imagem e seu formato estabelecem a premissa de que realmente chove sangue em um solo repleto de enxofre. De qualquer forma, preciso analisar e prescrever o que de melhor acontece nesta obra antes de dar a mão à palmatória. A partir deste momento, nós nos entregamos a esse caminho sem volta.
Logo de cara, o grupo apresenta a figura sonora batizada de “Purification Through Fire”, uma abertura bastante peculiar para um disco voltado ao lado extremo da força. Após uma introdução simples e consistente, a banda dá passos fáceis para abrir espaço ao que vem a seguir. Um verdadeiro rolo compressor atravessa o cenário e segue em direção a uma purificação plena e antidivina. Além disso, o fogo percussivo atravessa a alma e estampa a felicidade de quem se surpreende positivamente com uma sonoridade insana desse tipo. Enquanto o assombro ocorre, o baterista muda o seu compasso justamente para não soar retilíneo demais. Dessa forma, ele cria uma dualidade rica entre momentos de blast beats puros e trechos de pedais duplos cavernosos, que avançam como elefantes desgarrados. Em contrapartida, os músicos mantêm uma cadência proposital e necessária, enriquecendo o urânio da canção.
Reino abissal da loucura
A loucura começa a reinar a partir dos riffs intrínsecos, sob o comando de uma bateria faminta por insanidade sonora. Em “Realm of Madness”, o guitarrista Geert Rijs traz dedilhados em forma de valsa, enquanto os pedais duplos cobrem e acompanham perfeitamente a melodia. Na sequência, a jornada prossegue com variações de andamento e tensões ainda mais densas e destrutivas.
O caldeirão sonoro chamado “Resurrection From the Abyss” traz a próxima introdução. Esse arranjo resulta em uma faixa mais trabalhada e amedrontadora, que registra a importante ressurreição abissal. Contudo, a música não vive apenas desse momento e logo despenca para uma linha mais insana, que espanca crânios. Aqui, a banda concentra a construção no Thrash Metal em meio a um cenário caótico e infernal. O Metal das trevas permeia grande parte das estrofes, mas os músicos trazem uma junção sólida nos momentos propícios, alternando com maestria entre os dois estilos. Portanto, os vocais narram a queda para o abismo e funcionam como um prelúdio para o que vem a seguir.
O destino da desolação banhada em sangue
O exército neerlandês destina a desolação para o momento seguinte, preenchendo toda a direção da próxima música. “Destiny of Desolation” surge com a agressividade necessária para derrubar qualquer batalhão rival. Dessa maneira, a banda emenda a receita sangrenta do Death Metal ao Black Metal característico e sufocante. A roda da alegria gira automaticamente assim que o subgênero híbrido entra em cena. O momento ganha ainda mais força com os solos energizados do guitarrista convidado Erwin Hermsen e os andamentos cavalares de contrabaixo, cortesia de Sander Stappers.
Por consequência, recursos percussivos e riffs ascendentes expandem a assombração profana, subindo até o arranha-céu para depois descer por completo, rachando o solo ao meio. As sombras reúnem mais força a partir da pausa tradicional e de tremolos incessantes, que funcionam como um carregamento de bateria. O ataque ocorre na junção deste momento e não deixa nenhuma alma intacta. A melhor parte gira em torno de cada mudança, principalmente quando a música toma uma forma mais puxada para o Black/Death. No entanto, o que comanda o receituário nefasto vai de encontro aos estilos principais destes asseclas infernais.
A malevolência necromante
“Beware of the Necromancer” apresenta uma elevação sonora que coordena toda a estrutura a favor do Metal negro. Tudo faz sentido quando se lida com um necromante. Afinal, todo cuidado é pouco e, se você não seguir o procedimento correto, o som entre o Black, o Black/Thrash unificado e o próprio Thrash poderá fazer tudo ir pelos ares. Enquanto isso, o arrasto do baixo funciona como dentes de gárgulas rangendo, dando um tom ainda mais agressivo à composição.
Por fim, “Malevolent” honra o próprio nome e eleva o tom maquiavélico. A faixa une dedilhados ardentes e calamitosos ao ímpeto de riffs insanos, modificando todo o alicerce sempre que preciso. Viradas, quebras, pausas, condução de pratos e pedais barulhentos exercem e exibem toda a qualificação do baterista convidado Roel van Helden.
Marcha profana
Já mais próximo do final do disco, o grupo conduz a marcha intimidadora do ser maligno. A contagem do tempo feita pela bateria transcende essa caminhada, enquanto o deslocamento das placas tectônicas musicais ocorre logo na emenda do assunto. Logo depois, os riffs intensificam a marcha espectral e acenam aos céus escuros com palhetadas vibrantes. Desse modo, a banda costura o peito de quem ouve com uma agulha forjada no aço incandescente do inferno!
Após toda a violência profana, “March of the Wicked One” ganha camadas mais cadenciadas. Ainda assim, a composição desobedece as próprias leis condutórias e exala mais enxofre durante as diversas mudanças de velocidade. Por consequência, o ser maligno e único transcende e domina todo o território.
Que rufem os tambores! Riffs sequenciais e velozes alertam para a entrada triunfal de “Cherubin Defiler”. Esta faixa, por sua vez, oferece um cartão de visitas muito aconchegante, principalmente para quem aprecia boas e altas doses de espancamento sonoro. Ademais, dedilhados distorcidos, pedais duplos precisos e um baixo denso e revoltado revelam a profanação do Querubim. Esta música, inclusive, é a que mais remete ao som praticado com maestria pelos alemães do Desaster.
Da bruxaria ao caos
A bruxaria pode causar bastante tormento caso o alvo seja algum detrator ou inimigo declarado. Sem qualquer cerimônia, “Torment by Witchcraft” chega para reforçar o poderio já fortalecido do Black/Thrash. Nesse cenário, um refrão esganiçado favorece os versos seguintes — uma receita de sucesso por aqui. Os músicos entregam uma pausa contundente e uma sequência arrebatadora. Apenas isso bastaria, no entanto, a sede de alma e de sangue fala bem mais alto, abrindo caminho para mais uma enxurrada de notas ardilosas, sujas e cortantes.
Queria uma apoteose notória? A banda entrega uma opção bem barulhenta e horripilante, no melhor dos sentidos, claro! A magia profana de “Desert of Chaos” espalha o caos no deserto, tornando-se uma clara evidência do fim, tanto da obra quanto deste plano.
Em paralelo, o trecho cadenciado promovido pela bateria evoca a essência de Slayer e Sodom, elevando a qualidade do disco. Na virada da trama, o Black/Thrash ríspido, embriagado por dedilhados gélidos e anestesiantes, passa por cima de tudo. O grupo comemora, enfim, a vitória do submundo com um som cadenciado, forte e denso, mas com um ar épico. Em suma, os músicos fecham aqui um dos melhores capítulos de “Malevolent”.

Conclusões arruaceiras e profanas finais
Os vocais rasgados de Jos Lemmen conferem ainda mais brilho e notoriedade a todos os elementos dentro do álbum. Com efeito, ele não entrega apenas uma voz simples e moldada para o estilo, mas sim um instrumento vocálico capaz de conduzir e adicionar mais peso aos timbres que já soam inflamáveis.
Decidi citá-lo à parte justamente por se tratar de um diferencial. Afinal, a guitarra e o baixo já conquistam destaque suficiente por si só, enquanto a bateria funciona como a força motriz de toda a composição.
Diante disso, é gratificante perceber que até no Black/Thrash Metal a banda necessita de um vocalista que dialogue de perto com o enredo musical proposto.
Agora, a pergunta vai para você: já explorou o som do novo disco do Martyrium? Essa obra serve perfeitamente como recomendação para seres que buscam purificar a alma por meio de um som sujo, ríspido, veloz e que alterna os andamentos de maneira extremamente inteligente.
Nota: 9,0
Integrantes:
- Geert Rijs (guitarra)
- Sander Stappers (baixo)
- Jos Lemmen (vocal)
Músicos convidados:
- Roel van Helden (bateria)
- Erwin Hermsen (guitarra solo – faixa 4)
- Fabian Verweij (guitarra solo – faixa 11)
Faixas:
- Purification Through Fire
- Realm of Madness
- Resurrection From the Abyss
- Destiny of Desolation
- Expand Your Shadow
- Beware of the Necromancer
- Malevolent
- March of the Wicked One
- Cherubin Defiler
- Torment by Witchcraft
- Desert of Chaos
